Leitura nacional
Rui Rocha,
Pelo visto, Lili Caneças e Jorge Jesus cruzaram-se na inauguração da exposição “Paula Rego 1961: A Ordem e o Caos”, em Cascais. E a socialite não quis deixar passar o momento sem fazer um selfie com o treinador do Benfica. Descontente com a primeira fotografia, Lili Caneças acabou por tirar uma segunda que publicou na rede social com a seguinte legenda: Gostámos de nos conhecer… Não querendo fazer afirmações definitivas sobre o tema, arrisco que podemos estar perante um daqueles casos raríssimos de compatibilidade de QIs à primeira vista.
O direito de escolher livremente entre as alternativas políticas que se apresentam em eleições é essencial em democracia. Mas a democracia não é, não pode ser, só isto. Se fosse, terminada a eleição, os escolhidos teriam o direito de fazer o que bem entendessem com o nosso voto, tomando inclusivamente decisões radicalmente contrárias ao sentido que lhes pretendemos dar. E é bom que fique claro que, se o fazem, e é certo que fazem, não é por direito mas por abusadora quebra de compromisso e generalizada falta de vergonha. Entretanto, os últimos anos são o exemplo de que a nossa democracia está tomada pela mediocridade da classe política que nos representa. Entalados entre um sistema de dois partidos únicos no arco da governação que se sucedem sem que representem uma real alternativa e uma alternativa real representada por partidos do arco da velha, os eleitores contemplam embasbacados um panorama desolador. Entretanto, a casta política instalada faz a pedagogia da importância do voto com a estridência de quem sabe que este, qualquer que seja o seu sentido, acaba sempre por legitimar a situação e por criar a percepção de que o sistema, apesar de tudo, ainda funciona de forma aceitável. Pois bem. Creio que chegou a hora de dizer basta. Um cidadão responsável não pode fechar os olhos a um sistema que vive e promove um certo tipo de instalados, que admite a utilização dos recursos comuns por uma casta de clientelas, que adia sucessivamente reformas do status quo político e da organização do território, que descura a urgente transparência do financiamento dos partidos e das condições remuneratórias dos eleitos e que permite e dinamiza a proliferação de rendas e interesses que abundam na cupidez de empresários de corredor e alcatifa e nos negócios de pouco escrúpulo. A um democrata nada custa mais do que prescindir do direito de votar. Pela minha parte, desta vez, ofereço-me ao sacrifício. Pela primeira vez, rasgarei as minhas convicções de cidadão comprometido com a sociedade em que vivo no espinho doloroso da abstenção. Faço-o porque tem de ser. Porque calar o voto é, por uma vez, a forma mais eficiente de dizer não. Perante a pompa e circunstância dos discursos vazios e das acções cativas é preciso fazê-los perceber do ridículo que é falarem e fazerem sozinhos. Disse.
Doem-me as fotografias. Muito as mais antigas, daquelas a preto e branco. Mas doem-me tanto também tantas mais recentes. É assim desde que mudei a pergunta. Cada vez que vejo uma fotografia já não quero saber quem são os que ali estão, mas quem foram. A pergunta é a mesma para os que já partiram e para os que ainda estamos. As fotografias a uns anos, por vezes a umas horas de distância, já só me retratam ausências. É por isso que fujo cada vez mais de as ver.
Há, pelo visto, um conjunto de almas democráticas e sensíveis que vive momento de particular agitação pelo facto de, no dia em que se realizam as eleições para o Parlamento Europeu, se iniciar um fórum do Banco Central Europeu, em Lisboa, com a presença dos presidentes do FMI, BCE e Comissão Europeia – precisamente os organismos internacionais que constituem a troika. Vai daí, indignados como estão, decidiram recorrer ao agarrem-me que eu dou cabo deles dos nossos tempos, isto é, à subscrição de uma petição. O argumento fundamental que sustenta a petição, subscrita até este momento por Mário Soares, Manuel Alegre, Boaventura Sousa Santos, Carvalho da Silva e mais mil e seiscentos patriotas, é um efeito de ingerência na escolha livre e democrática dos portugueses. Confesso que não percebo. A acreditar em tudo o que tem sido dito pelos promotores, estas instituições, mancomunadas com o governo em funções, são autoras confessas, voluntárias e deliberadas de políticas de terrorismo social e económico que provocaram o sofrimento generalizado e profundo da população. Sendo assim, o evento que se inicia no dia 25, se alguma consequência eleitoral tivesse, seria sempre a de provocar um sentimento de repulsa e revolta que favoreceria as propostas políticas da oposição e, de forma genérica, as que são defendidas pelos principais subscritores da petição. Serão então os referidos democratas de tal forma guiados por princípios de civilidade e isenção que se obrigam até a recusar circunstâncias que poderiam vir em seu proveito? Pois, claro. Isso e um par de botas ortopédicas. Mas mesmo que acreditássemos na pureza das preocupações dos promotores da petição, sempre sobraria uma inquietação. Nesse caso, teríamos de concluir que os promotores e subscritores consideram que os eleitores portugueses são de tal forma pueris, volúveis e pouco informados que determinam as suas decisões de voto em função da realização de um evento com estas características. É, convenhamos, um entendimento bastante ridículo. Mais do que isso, tal visão seria portadora, portanto, de uma mal disfarçada falta de respeito pelos portugueses e de uma desconfiança de princípio sobre a sua maturidade democrática. Infelizmente, é um tique comum numa certa esquerda que cede recorrentemente à tentação de infantilizar os cidadãos para se arrogar de seguida o direito originário de moldar as suas ideias ou substituir-se ao seu pensamento.
Está demonstrado que as mulheres com excesso de peso vivem mais tempo do que os homens que lhes comentam o tema.
António José Seguro decidiu associar-se à campanha #bringbackourgirls, uma iniciativa de solidariedade com as famílias de 200 meninas nigerianas que foram raptadas. Não faço sobre essa decisão qualquer juízo de intenções. Terá a atitude de Seguro sido determinada por eleitoralismo, pela vontade de promover a sua própria notoriedade? Não sei, nem quero saber. E se deve existir uma certa contenção da parte dos políticos para não prejudicarem as campanhas em que se envolvem, desviando a atenção dos propósitos destas para as suas eventuais intenções, o certo é que um político, por o ser, não pode ver diminuídos os seus direitos de cidadania. Em todo o caso, o que é verdadeiramente lamentável é a reacção de alguns que, na ânsia de ridicularizam o Secretário-Geral do PS, esquecem que permanece um drama humano real que envolve duzentas crianças. É inqualificável a atitude de chacota de uns quantos a propósito de um tema destes. Um eventual aproveitamento de Seguro, que não temos razão para acreditar que exista, seria absolutamente criticável. Mas bem pior é utilizar o sofrimento das crianças para o ridicularizarem e diminuírem. Sabemos que vivemos num tempo de engraçadinhos em que o maior dislate assegura o máximo reconhecimento. Eu próprio tenho criticado e troçado abundantemente de Seguro. Mas, fazê-lo a este propósito é, falemos claro, um acto chocante de absoluta crueldade. E uma completa vergonha.
Apesar de estar lesionado, Postiga não deve falhar mundial.