Sabemos que, tal como o lince ibérico, o lobo, a foca-monge ou o saramugo, a classe média corre risco de extinção. É natural, assim, que cresça o interesse pela observação dos últimos exemplares no seu habitat natural. No caso dos linces, por exemplo, não é assim tão fácil. O aspirante a biólogo ou aquele que já exerce como encartado deve estar disponível para uma expedição à Malcata. Ou lá onde é que eles andam. Já a observação da classe média parece envolver menos perigo. Em princípio, basta ir a um SPA. O SPA é o local onde uma população urbana minimamente desafogada e cada vez mais escassa troca a constância da temperatura regulada do gabinete ou do open-space pelas agruras do stresse térmico. Da sauna a 40 graus para o duche gelado? Bem-vindos à vida selvagem. E dali para o jacuzzi. E assim sucessivamente, arrostando o perigo. Sem um grito. Sem medo. Mas em algum momentos verdadeiramente a tiritar. O SPA está para os adultos como a Disneyland está para as crianças. Na Disney, os adultos divertem-se sob o pretexto de fazerem a vontade às crianças enquanto estas sofrem atrocidades na escuridão da montanha-russa. No SPA, as crianças divertem-se na piscina sob o pretexto de terem de acompanhar os adultos enquanto estes sofrem atrocidades suportando o jorro intenso que empurra a barriga contra as costas como se não tivesse nada lá dentro. Como se ontem não tivessem comido sashimi. Na Disney, o momento alto para as crianças é um abraço do Pateta. No SPA, o momento alto do pateta é meter-se num tanque de água gelada. Note-se que tudo isto é feito em nome de uma ideia de saúde e juventude. O SPA está para a vida eterna como o iogurte bífidus está para o trânsito interno. O SPA é o templo onde os que já não frequentam igrejas se consagram a certos sacramentos com evidente religiosidade e uma certa predisposição para aceitar sacrifícios. Incluindo a hipotermia. Num caso e noutro fala-se de purificar e regenerar. Pela água. Com a vantagem de no SPA, supostamente, se tratarem as necessidades da alma e os anseios do corpo. É no SPA que o Rodrigo, com calções azuis e pequenos golfinhos, comprados antes de a Throttleman se apresentar à insolvência, e a Carlota, pais do Salvador e da Benedita, se deviam reconciliar com a vida. Não por acaso as mensagens promocionais dos SPA parecem ter sido todas escritas pelo Paulo Coelho: entre numa viagem de puro prazer onde só energias positivas o esperam. Bem, bem. As energias serão positivas mas, em algum momento do circuito, as temperaturas aproximam-se de zero. E nem tudo são rosas. Até no SPA é preciso fazer escolhas que geram tensão. Será preferível começar pela piscina dinâmica ou pelo duche sensorial? São decisões estruturais que podem marcar o sentido de uma vida. E acabar com um casamento. Defendo então que o momento experiencial em que mergulhas num SPA tem em si mesmo a marca de uma certa inutilidade? Que a transição sincopada entre cascatas, jatos e duches bitérmicos é uma moda a que falta um propósito maior que um selfie no IPAD? Que, de uma forma ou de outra, as coisas podem não acabar exactamente como foi prometido? Longe disso. Aí temos a aromaterapia. Ah e tal, os seus efeitos benéficos não estão suficientemente comprovados, argumentam alguns. Tudo muito certo. Mas, ninguém duvida, traz a não despicienda vantagem de pôr o mais palerma a cheirar bem.
Não venhas embora sem passar pela aromaterapia
Rui Rocha,


Não sei se resultará: “Aromaterapias há muitas, seu palerma!”
Ou toucas em vez de chapéus. Para evitar cabelos na piscina.
Embora nem sempre comente, confesso que rejubilo com alguns pormenores dos teus textos, Rui. Adoro a ideia de o Paulo Coelho ser o responsável pelo copy promocional dos SPAs. Muito bom.
Abraço
Depois do tratamento com pedras quentes eu sentei e chorei?
Veronika decide relaxar?
Rui, estes teus posts são também uma espécie de spa. Com a vantagem de não precisarem de recorrer ao choque térmico para ter um efeito regenerador 🙂
Ao contrário da Francisca, eu comento muito os teus textos, cujo sentido de humor nem a aromaterapia consegue modificar.
Hoje dei nova gargalhada com este post, o que é notável depois de ter suportado, no fim de semana, Passos e Durão.
Esta tua descrição da quase extinta classe média, de que sobrevivem exemplares como Carlota, Rodrigo, Salvador e Benedita – só a escolha dos nomes aponta logo para o que se segue – coitados, já sem os boxer da Throttleman – é uma verdadeira delícia.
Faltou ao SPA, talvez, a massagem. Especial, claro, com umas pedras quentes nas costas até ao local onde estas mudam de nome e dada por um antigo desportista na reforma, numa sala alumiada por velas e cheiros a incenso.
Enfim, o paraíso, para evitar os comprimidos do Tranxene 5 que esta crise tornou no pão nosso de cada dia de alguns de nós…
Li algures uma “experiência” que consistia em, e passo a citar, ritual de lavagem de pés com essência de árvore de chá orgânico, massajem edificante Perm-Palang e bebida orgânica para terminar. Edificante, Helena
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