Sócrates, a mulher barbuda da política portuguesa


Rui Rocha,

No circo da política nacional não faltam anões, malabaristas, palhaços e equilibristas. Sócrates, o grande proscrito, encontrou finalmente o seu lugar. Quando tudo levaria a crer que ficasse prisioneiro do seu passado recente, permanentemente suspeito, conseguiu encontrar a brecha que lhe permite voltar ao palco. Cabe-lhe agora, embora (só) ele não o saiba, o papel de mulher barbuda. Semana atrás de semana é exposto à audiência na RTP, assim se resgatando a um destino de marginalização. Vai despertando alguma curiosidade, mas o certo é que só provoca verdadeiro entusiasmo na populaça quando lhe atiram pedras, como aconteceu há dias com José Rodrigues dos Santos. Ontem, em contrapartida, o sabor pícaro da coisa esteve no facto de a mulher barbuda ter respondido, arremessando com inegável pontaria um ou outro seixo. Mas, num caso ou noutro, a exposição pública semanal nada diz sobre a viabilidade de um regresso à política, votado em qualquer circunstância a um inexorável fracasso. Neste decadente espectáculo, Sócrates é exibido apenas e só na sua qualidade de aberração. 

17 comentários em “Sócrates, a mulher barbuda da política portuguesa”

  1. Só vi enquanto tive pachorra (e só porque havia os antecendentes com JRS) e bastou-me que o sujeito, que garante sempre peremptoriamente que o défice era de 6.83 % do PIB quando chegou ao governo, começasse a declarar que aquilo dos 300M€ em caixa era uma estimativa. Zapping imediato.

    1. Pelo que hoje li, largou: “Eu compreendo o seu ponto de vista. Você acha que se deve comportar no sentido de colocar-se no papel de advogado do diabo… estou a citá-lo bem?”, e acrescentou: “Até o advogado do diabo pode ser inteligente e pode perceber que não basta papaguearmos tudo o que nos dizem para fazer numa entrevista”, o que é de uma má-criação e de um topete de verdadeira aberração política, ou melhor, de aberração tout court.

  2. Conte quantos posts este blog dedicou ao José Sócrates desde que ele é comentador.
    Pense que na situação de quem está a tentar voltar à política não existe má publicidade.
    Veja quem está a capitalizar com o assunto.
    Penso que Sócrates foi um mau primeiro ministro, houve pior (pelo menos não fugiu, como Cavaco, Guterres e Barroso, e apresentou-se a eleições).
    O que gostava de saber o que é que tem o homem para criar tais fúrias.
    Desconfio que é um caso de “quem desdenha quer comprar”.

    1. Jo, faça um esforçozinho para ser justo. Nem o Cavaco, nem o Guterres fugiram. O Cavaco não se candidatou e o Guterres entendeu que já não tinha condições para governar. Ambos tomaram decisões de louvar.
      Quem fugiu foi o Barroso. Esse sim, deu aso a comentários como os seus.

      1. Tiro ao Alvo, faça um esforçozinho para ter memória. Cavaco demitiu-se a seguir aos incidentes na ponte quando viu que tinha as eleições seguintes perdidas. Deixou lá o Fernando Nogueira para apanhar os cacos.
        Guterres fez uma coisa muito semelhante.
        Isto de por a estratégia política pessoal acima do país para o chefe do governo é feio.

        1. O que me está a dizer é que o Cavaco não quis ir a eleições, quer para o governo, quer para a presidência do partido. Coisa parecida aconteceu com o Guterres. Quem o autoriza a dizer que fugiram? Os políticos não podem renunciar?

          1. Podem, quando as coisas são difíceis e têm de prestar contas ao país e ao partido.
            Chama-se fugir às responsabilidades.

          2. Acha o jo que é justo acusar o António Victorino de fugir às suas responsabilidades quando se recusou a candidatar à presidência do PS? Acha que Cavaco Silva tinha a “responsabilidade” de se manter no governo do País e no governo do PSD, até ter que sair pela porta pequenas? Se acha acha mal.

        2. Jo: (jo-jo r?) é tão fácil não escrever asneiras, basta ir ao google e pôr XII governo constitucional. Diz lá assim: 1º ministro, Anibal Cavaco Silva, entre 31/10/1991 e 28/10/1995. O Fernando Nogueira que era o nº 2 deste governo nunca foi 1º ministro deste país. Foi candidato em 1995 e perdeu para o Guterres.
          Não lhe aconselho um esforçozinho de memória, porque você nem sabe de que é que está a falar.

    2. Então si o que interessa é tribalismo. Salazar então deve ter sido um herói não fugiu.
      Duplicar a dívida para si não tem significado.
      Já Durão Barroso é pior, não ficou cá a duplicá-la.

      Em termos de mais danos ao país, só a destruição económica dos Governos logo a seguir ao 25 de Abril se compraram a Sócrates.

      1. Salazar não era um herói. Mas também não tinha todos os defeitos do mundo.
        De acordo com essa lógica:
        Salazar era um ditador.
        Salazar não fugiu.
        Quem foge não fez nada de mal.
        Se em vez de “fugir” puser “abusou de crianças” ou “roubou a caixa das esmolas” o silogismo mantém-se – dá para tudo.
        Eu disse que Sócrates foi um mau primeiro ministro, já a palma do pior primeiro ministro está muito concorrida. Passos já lhe roubou o óscar do maior faltador à verdade, Salazar roubou o de autocrata, a política industrial do nosso presidente que quer que voltemos à agricultura e ao mar levou-lhe o óscar da amnésia conveniente. É uma luta difícil e neste momento Sócrates está a marcar na propaganda.

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