Qual é a tua desculpa?


Rui Rocha,

Ao fim de sete ou oito de negação, já consegues encarar a realidade. Deixaste-te enganar pelo Sócrates. Acreditaste nas teorias da conspiração, leste os postes do Peixoto com devoção, ouviste embevecido o Galamba, admiraste a sagacidade do surfista prateado Adão e Silva. Não chegaste a participar em manifestações públicas de desagravo, mas sozinho na tua casa de banho também tu entoaste “Sócrates sempre” enquanto sentias um arrepio angustiado pelos atropelos ao estado de direito ao folhear o primeiro livro. Tudo bem. Demoraste muito mas enfim. O tipo é bom naquilo. Orquestrou bem a coisa. Também há quem acredite nos mails do Príncipe da Nigéria. Estavas indefeso e não imaginavas que fosse possível chegar a tal grau de manipulação. Escrevia bem o sacana do Peixoto. Tão modernaço, o Galamba. E o Adão e Silva? Uma vez até citou o Rawls e o caralho. Tudo bem. Mas e quanto ao Costa? Qual é a tua desculpa?

Costa, o farolzinho da solidariedade


Rui Rocha,

Quer dizer então que o Costa, o príncipe da política, o estadista das emoções, esse ser empático e altruísta, o farolzinho da solidariedade, o alfa e o ómega do humanismo, bem como a maioria que suporta o seu goverrno, os de esquerda, os das pessoas, os dos direitos, dos progressos e das conquistas, das indignações, do diabo a quatro, aprovaram um regime de compensação pela tragédia de Pedrógão que deixa de fora os feridos graves, seres humanos que ficarão indelevelmente marcados para toda a vida por consequência da incúria de um Estado que os deixou abandonados à sua sorte? Pois muito me contam.

A semiótica do cenário


Rui Rocha,

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Quando a tua imagem ficou claramente afectada e precisas urgentemente de projectar uma ideia de consistência e credibilidade, como deves organizar o cenário da tua entrevista? Precisamente. Carros de bombeiros em exposição como se estivessem em parada, mangueiras a esmo, machados e outros adereços espalhados profusamente para que se crie no espectador a percepção imediata de que o que se vê é tudo menos realidade. É de génio. Aliás, a entrevista de Costa no Quartel dos Bombeiros, rodeado de extintores, capacetes e mangueiras, só encontra paralelo nos aviadores ingleses do Allo Allo que andavam com cebolas ao pescoço para passarem por vendedores locais.

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Sobre a moção de censura


Rui Rocha,

1 – Não há melhor justificação para uma moção de censura ao governo do que a morte trágica de mais de 110 portugueses em circunstâncias em que foi evidente o compadrio na nomeação para funções de liderança da Protecção Civil, a completa desorganização de meios, a imprudência na avaliação de informação que permitiria prever e prevenir o que veio a acontecer, a ausência de qualquer intenção voluntária de confortar as vítimas e tomar medidas estruturais e a boçalidade, frieza e falta de vergonha do discurso.
2 – Medidas legislativas adoptadas há 3 anos em matéria de liberalização do eucalipto, certas ou erradas, não podem ser consideradas causa directa de nada do que aconteceu. É do mais elementar bom-senso e afirmar o contrário é demagogia barata.
3 – Em todo o caso, se tivéssemos que fazer um exercício constante de avaliação do passado para aferir a legitimidade de posições presentes, dificilmente poderíamos aceitar soluções governativas suportadas por partidos que apoiam regimes que conduziram milhões de seres humanos à morte e à miséria ou um governo de um partido que levou o país à bancarrota há seis anos.

A responsabilidade do governo


Rui Rocha,

Não, fofinhos. O problema do governo não foi apenas o da gestão catastrófica da comunicação enquanto a tragédia estava a decorrer. A questão não é só a do “safem-se” do secretário de estado, do “habituem-se” do Costa ou das “férias” da ministra. Está é uma parte que impressiona pela frieza, pela boçalidade e pela estupidez. Mas o ponto da responsabilidade política do governo é muito mais vasto. Foi este governo que decidiu substituir a estrutura de comando da Protecção Civil com base em critérios estritamente partidários e oportunistas. Foi este governo que geriu com evidente reserva mental todo o processo de apoio às vítimas de Pedrógão. Foi este governo que decidiu, já com mais de 60 mortos no cadastro e por motivos puramente economicistas, reduzir significativamente o dispositivo de combate a incêndios quando as condições meteorológicas aconselhavam extrema prudência. Estas foram opções políticas concretas e tragicamente erradas que não podem ser escondidas atrás das alterações climáticas ou de décadas de política da floresta e de ordenamento do território. Não reconhecer isto é reconhecer que não se tem vergonha.

Relato de uma noite no inferno


Rui Rocha,

Dezasseis de Outubro de 2017. Deixei o Dinis na Almirante Reis à uma da manhã. Tive de o trazer de Braga de carro porque hoje tem pela manhã a primeira frequência no Técnico e a circulação de comboios esteve várias horas interrompida. No sentido de Lisboa, a viagem foi um martírio: fogos por todo o lado, o ar está irrespirável, estradas cortadas, na A1 não se transita, a A17 também foi interrompida. Safei-me em Aveiro para a 109 em direcção à Figueira da Foz, segui por Ílhavo, Vagos, Cantanhede e cheguei a Coimbra sempre com chamas a rasgar a noite. Entro finalmente na A1. Há em vários pontos labaredas ao lado da estrada com 3, 4 metros de altura, faúlhas por todo o lado. Nestes sítios, só não foi cortada porque manifestamemente ainda não tinha ali chegado qualquer autoridade. Por alturas de Leiria, a Leonor liga-me. A dois passos de nossa casa estão moradias a arder. Um lar de idosos de Braga foi evacuado. Antes, uma amiga do Dinis tinha telefonado. Tem familiares na zona de Pedrógão. A aldeia onde vivem estava cercada pelo fogo. À uma de manhã inicio o regresso a Braga. Por alturas de Torres Novas a A1 estava cortada. Entrei na noite por Minde, Ourém, Fátima, Pombal. Sempre fogo, sempre mais fogo.  Até chegar a Braga quase já de dia ainda ouvi a intervenção do primeiro-ministro na Protecção Civil umas três ou quatro vezes, a cada noticiário. Uma noite de inferno. Mas podem ficar descansados. No Terreiro do Paço não havia incêndios.

Continua a ser mais fácil apanhar o Zé Sócrates do que um coxo


Rui Rocha,

Depois de na semana passada ter convocado uma conferência de imprensa para se mostrar indignado com o arresto de bens que afirma não lhe pertencerem, Sócrates deu ontem uma entrevista à RTP. Aqui ficam algumas notas que provam que continua a ser muito mais fácil apanhar o antigo primeiro-ministro do que um coxo:

 

1 – Sócrates reconheceu que pediu um empréstimo de 15.000€ há muitos anos a Carlos Santos Silva. Não se lembra para quê. É natural. Em contrapartida, aqui há uns tempos, lembrava-se dos pormenores do Portugal-Coreia de 1966.

 

2 – De acordo com o próprio Sócrates, Carlos Santos Silva emprestou-lhe umas centenas de milhares. Mas Sócrates, em vez de lhe dar 7 quadros para abater à dívida, ainda os trocou por um Júlio Pomar.

 

3 – Sócrates reconhece que pediu centenas de milhares de euros ao amigo para financiar o seu nível de vida. O jornalista pergunta se vive hoje em dia com empréstimos do amigo. Sócrates Indigna-se com o jornalista por este perguntar se vive com empréstimos do amigo.

 

4 – Um dos argumentos principais de Sócrates é que ninguém (ele muito menos) teria 30 milhões de euros em nome de outra pessoa (Santos Silva, no caso) sem possuir qualquer documento que lhe permitisse exigir a devolução dessas importâncias. É muito curioso. Porque é o mesmo José Sócrates que acha naturalíssimo que Carlos Santos Silva lhe tenha emprestado 600 mil euros sem que tenha sido assinado qualquer documento que garanta o reembolso da dívida.

Apanha-se mais depressa o Zé Sócrates do que um coxo


Rui Rocha,

1 – O Expresso noticia que o Ministério Público ordenou o arresto de 3 apartamentos que a mãe de José Sócrates terá “vendido” a Carlos Santos Silva.

2 – José Sócrates convoca uma conferência de imprensa para protestar contra o arresto de bens.

3 – Se os bens não são dele por que carga de água está tão irritado? Fala em que qualidade? Se o “verdadeiro” proprietário é o Carlos Santos Silva por que está ele calado? Eu, se me arrestassem 3 apartamentos sem motivo, ficava lixado. Era o que faltava que alguém protestasse por mim.

4 – Mas há mais. Na conferência de imprensa o ex PM afirmou: “Nunca vi, em nenhum lugar do mundo, alguém ser notificado de que vão arrestar os seus bens pela comunicação social.” Conclui-se então que está indignado, como proprietário, por não ter sido notificado pelo MP do arresto de bens que alega não lhe pertencerem. Extraordinário.

5 – Os advogados de José Sócrates não o aconselham, não o poupam à exposição pública da ostensiva contradição.

6 -Apesar de ser mais fácil apanhar José Sócrates do que um coxo, não há um jornalista na sala que o confronte com tudo isto.

Nada de novo debaixo do Sol


Rui Rocha,

Honestamente, não percebo o espanto com a possível vitória de Isaltino em Oeiras. Este não é o país em que Sócrates, depois de levar o país à bancarrota, teve mais de 90% dos votos numa eleição para secretário-geral do PS? Não é João Galamba o actual porta-voz do PS depois de ter defendido até ao extremo do rídiculo as políticas que levaram à intervenção da troika? Não é também aqui em Portugal que muitos dos actuais governantes, impávidos e a começar pelo primeiro-ministro, são os mesmos que fizeram parte de governos do bardina? Então, qual é a surpresa?

Ao Supremo Comité da Delação


Rui Rocha,

Camarada Grande Delator,

Envio infra provas irrefutáveis do desvio reaccionário da camarada Rita Ferro Rodrigues da linha igualitária que ambos sabemos ser justa e que ela própria, numa manobra crapulosa de diversão, quis dar ideia de defender em alguns escritos que publicou recentemente. Mas palavras são palavras e a essas leva-as o mesmo vento que também traz as lâminas afiadas da contra-revolução. E actos são actos: a camarada Rita Ferro Rodrigues veste o filho de calções de banho azuis e a filha de bikini cor-de-rosa. O que terá levado a camarada a considerar que peças de vestuário com determinada cor seriam apropriadas para o rapaz e de outra cor à rapariga, levando-a a fazer estas opções? Por que não terá optado por cores neutras? Basta pensarmos um bocadinho e encontrarmos a resposta: estereótipos. Roupa rosa para meninas. Azul para rapazes que o rosa é “paneleirice”. A camarada dá assim continuidade a uma linha retrógrada de estereótipos de género que em nada beneficia a luta pela igualdade. Pela igualdade, Camarada Grande Delator! É preciso estar atento aos avanços da sociedade, às conquistas que têm vindo a ser feitas nos últimos anos em matéria de igualdade de género e que tanto custaram a alcançar. Negar o óbvio é andar para trás. As nossas raparigas não precisam de ser guiadas através de um labirinto rosa. Elas sabem qual é o caminho e vão trilhá-lo, por mais ondulante e sinuoso que seja. A camarada Rita Ferro Rodrigues sabe-o também mas tal não impediu que adoptasse relativamente aos filhos um comportamento condenável e reaccionário. Não serei eu a sugerir quais as medidas que devem ser adoptadas porque essa é uma missão que cabe ao Supremo Comité da Delação e, especialmentem a ti, Camarada Grande Delator. Mas parece-me que a coisa já não vai lá com processos de auto-crítica como aquele que para mim mesmo decidiste quando, num momento de fraqueza, fui apanhado numa piscina capitalista montado num unicórnio de plástico.

Saudações igualitárias,

Vitor

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A farsa


Rui Rocha,

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António Costa em casa restaurada em Pedrógão. Não foi Costa, foi o seguro que pagou. António Costa assiste a missa na Sagrada Família pelas vítimas do ataque. António Costa é ateu. António Costa, ainda em Barcelona, afirma que foi às Ramblas para mostrar aos terroristas que não alterarão a nossa forma de viver. António Costa faz estas declarações rodeado por vários guarda-costas. Eu, de facto, não sei. Mas a certa altura já não vejo diferença entre este tipo e aquele que tentou vender os patos da Avenida da Liberdade a um turista.