Cartas da Alma e falta de vergonha na cara


Rui Rocha,

Pelo visto, a TVI emite há umas semanas, no período da manhã, um programa de cartomancia e tarot.

 

 

Na descrição disponível no site iol/tvi lê-se: “O Cartas da Alma” irá desvendar as características internas de cada um de nós e os nossos processos de crescimento, ajudando-nos a procurar bem-estar interior! Em estúdio estarão sempre dois dos melhores astrólogos ou tarólogos do país para dialogar com os espectadores. São eles quem em direto no estúdio, ou em privado, vão ouvir e encaminhar. Este Programa terá agora uma série de possibilidades: para além de poder fazer a sessão de Tarot ou Astrologia em público ou privado, a taróloga Mediúnica Eva Mendonça vai entrar em contacto com aquela pessoa que mais marcou a sua vida e já não está entre nós na rubrica Mensagem da Alma. Para quem precisar de ajuda, basta ligar para uma das linhas disponíveis. As linhas, ao que percebi, são ditas de valor acrescentado.

 

Ontem, na sala espera de uma clínica, assisti à consulta de uma espectadora. Desempregada, frágil, queria saber coisas do futuro. A voz era funda, arrastada, de quem tem a vida às costas. A especialista de turno, com pose séria e compenetrada, consultou as cartas e, depois de uma análise profissional, declarou, sem pestanejar, que a espectadora encontraria trabalho mas que isso ainda demoraria tempo. Repetiu o veredicto duas ou três vezes para que não ficassem dúvidas sobre o que afirmava. Depois, perguntou à espectadora se era casada e se o marido trabalhava. Pelo visto, as cartas não lhe deram visibilidade sobre estes aspectos da vida da senhora. A espectadora murmurou, receosa, que para já, ainda tem trabalho. A especialista declarou então que o marido da espectadora vai estar ao lado dela na busca pelo tal emprego que está garantido, embora não para já.

 

Não consegui ver mais. Há coisas que nos rebentam com o estômago.

A cruzada


Rui Rocha,

Escrevia Savater, a propósito da tragédia do Charlie Hebdo, que as crenças religiosas são como feras: muitas vezes esteticamente atraentes, mas terríveis devoradoras de homens. Em consequência, como feras que são, só podemos permitir que se passeiem nas ruas da civilização depois de domesticadas. E, continuava, se quase conseguimos domesticar o cristianismo, o islamismo continua em estado perigosamente selvagem. Desde que li o artigo, um poderoso elogio do laicismo como pedra basilar da democracia, há uma questão que me acompanha: a nossa civilização, chamemos-lhe ocidental à falta de melhor, é o resultado da domesticação do cristianismo ou foi o cristianismo que contribuiu de forma decisiva para sermos o que somos? Percebo que existe um argumentário viável para cada uma das opções. E que, à boa maneira das ciências sociais, existe sempre espaço especulativo para a tese, para a antítese e para a síntese. Mas há coisas que me fazem pender para um dos lados. Quando uma criança de 12 anos é violentada pelo seu padrasto e engravida, devíamos ser capazes de tomar tempo, de pensar, de reconhecer que há questões sem solução evidente, de admitir que ficamos divididos no nosso íntimo, que há encruzilhadas tão fodidas na vida que é impossível não hesitar, não duvidar, não andar em círculos, em que não há texto a publicar, ou que não se pode publicar texto sem esgotar os pontos de interrogação. E devíamos saber que qualquer decisão será sempre uma má decisão, porque nestes casos não há decisões boas. É por isso extraordinário que um padreca se aproveite do drama de uma criança, dessa criança, para fazer demagogia, comparando o incomparável, instrumentalizando a informação à luz dos seus interesses, chafurdando na desgraça, para dar cumprimento à sua cruzada político-religiosa. Sou assim levado de regresso às conclusões de Savater. Os ratos de sacristia são feras quase domesticadas. Por isso, é na sacristia que devem continuar.

Costa, a UTAO e o sms do tau tau


Rui Rocha,

Demos então um passo atrás e voltemos à proposta de avaliação do cenário macro-económico do PS pela UTAO. Certo. Eu sei que a coisa não era para levar a sério. Se fosse, jamais poderia ter sido apresentada por alguém com os índices de credibilidade de Marco António Costa. E sim. Sei também que a utilidade dessa avaliação seria sempre bastante discutível (é ver o que aqui escreve, a esse propósito, o José Meireles Graça). Mas depois do sms enviado por Costa a João Vieira Pereira, a pergunta que se impõe é esta: que legitimidade tem António Costa para recusar tal avaliação técnica de um documento a partir do qual será desenhado o seu programa de governo quando se arroga ele próprio o direito de sindicar, com inusitada violência, em tom ameaçador e com evidente despropósito, o conteúdo de um artigo de opinião? Isto é, UTAO não, mas tau tau por sms sim?

António Costa por quem o conhece


Rui Rocha,

Ascenso Simões

João Tiago Silveira

José António Cerejo

João Tocha

Nada disto é novo, nem deve espantar, portanto. Como dizia o outro, habituem-se. Se quiserem… E, a propósito, o Quixote da ERC e a classe jornalística andam distraídos a banhos por estes dias? É que nem sequer está bom tempo…

Que vergonha, rapaz!


Rui Rocha,

Pelo visto, Passos Coelho andou por Aguiar da Beira a visitar empresas de lacticínios. Certamente influenciado pelos vapores do leite, aproveitou a cerimónia de inauguração da Queijaria Sabores do Dão para proferir um dos seus inesquecíveis discursos. Afirmou Passos Coelho, entre outras coisas de proveitosa substância, que “os portugueses não querem andar aos trambolhões“. Com o sentido de oportunidade que se lhe reconhece, o primeiro-ministro decidiu logo ali ilustrar o sentido das suas palavras, espalhando-se estrepitosamente ao comprido. É facto que Aguiar da Beira tem mais queijarias do que notáveis. Mas é preciso um tipo ser abundantemente cretino para se lembrar de dirigir ao natural da terra Dias Loureiro (esse mesmo), um vibrante elogio: “conheceu mundo, é um empresário bem-sucedido, viu muitas coisas por este mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes, metódicos”. Perante tamanha falta de vergonha, esperam-nos tempos memoráveis. A campanha eleitoral vem aí e já veremos que rasgados encómios terá Passos Coelho guardados para o comício de Lisboa (terra natal de Alves dos Reis), para a sessão de esclarecimento de Peso da Régua (onde veio ao mundo Duarte Lima) ou para o almoço-convívio com o núcleo social-democrata de Vilar de Maçada.

Revisão da matéria colectável e trabalhinho de casa


Rui Rocha,

Pelo visto, o extraordinário Yannis Varoufakis, depois de ter sido remetido a uma posição mais recatada nas negociações com a troika, digo com as instituições, tem agora mais tempo para se dedicar à reflexão sobre medidas originais para dar a volta à situação grega. O próximo coelho a saltar-lhe da carola poderá bem ser, ao que se diz, uma amnistia fiscal para os concidadãos que declarem a existência de depósitos no estrangeiro. À primeira vista, a coisa pode causar algum estupor: mas então não eram Varoufakis e o Syriza a luzinha que nos alumia, o símbolo da mudança da própria Europa, os percursores de um novo caminho que seria trilhado cantando hossanas por vultos da dimensão de António Costa, Mário Soares (Tsipras, de quem sou amigo), Catarina Martins, Boaventura Sousa Santos e outros subscritores de manifestos e participantes em iniciativas cidadãs, foruns, plataformas, movimentos e iniciativas? Não estarão, perguntarão muitos, Varoufakis e o Syriza a abastardar a sua linha política, a vender-se ao capital (iiiiiiiih!), a trair os ideais de esquerda, a renegar os valores da alternativa, ó horror, a roer a corda? É que, se bem virmos, dirão os mesmos, não deve ser o grego comum, o grego vítima da crise humanitária, o grego esmagado pela Merkel, o titular típico dessas (ler a partir de agora com os dentes cerrados e expressão a meio caminho entre a raiva e o nojo, como faz o Louçã) cooooontas no estrrrrrangeirrro oooonde cerrrrtamente se acumularrrrrão grroooossos capitaiiiiiis subtrrrraídos aos impoooostos e ao pooovo (dar agora um gritinho de indignação e voltar a ler normalmente)… Mas dizer isso é, lamento, ter vistas curtas. A genialidade da medida está aqui: vinda da cabeça de qualquer outro perigoso governante de qualquer outra geografia, a amnistia fiscal é compadrio com o capital, com os tubarões, com os especuladores e agiotas, é favorecimento de amigos; vinda da cebeça pelada de Varoufakis, a amnistia fiscal tem o objectivo de favorecer os inimigos. Isto é, apela à paz no mundo e promove a concórdia. A amnistia fiscal pensada por Varoufakis é como a baixa da TSU dita por Costa: bebe da pureza dos ideais do homem novo e solidário. Quanto ao trabalhinho de casa, é só isto: procurar no Google declarações de camaradas do Bloco de Esquerda sobre amnistias fiscais e imagens de abracinhos ao Tsipras.

 

Nota: o autor é contra amnistias fiscais em geral, abrindo excepção apenas para as que forem ou tenham sido propostas por Varoufakis ou por governos do Partido Socialista português.

Blogue da semana


Rui Rocha,

Tenho uma selecção de blogues no feedly, claro. Há todavia três que leio diariamente mas que não tenho lá. Um deles é de um tipo insuportável que escreve bem nas horas. Jamais admitirei em público que o leio, quanto mais tê-lo no feedly… o grande sacana. O terceiro deve vir cá quando me calhar escolher outra vez o blogue da semana. O outro é o do Filipe Nunes Vicente. Há então razões para não o ter no feedly? Deve haver. Uma delas bem poderia ser a de o fulano mudar de blogue com o mesmo à vontade com que o Jorge Jesus atropela os bons costumes e a gramática. Mas o mais certo é não ser só isso. Se quisesse aprofundar o assunto, talvez chegasse à conclusão de que tenho um bocadito de raiva das análises (pun intended) acutilantes e sagazes que o Filipe nos vai oferecendo. Em todo o caso, é ir ao Nada os dispõe à acção antes que o gajo mude de blogue outra vez. Com um bocado de sorte, ainda levam o bónus de encontrarem algum texto do Pedro Picoito.

Cavaco e os “campeões” da democracia


Rui Rocha,

Percebo a sanha contra Cavaco. A mim também me incomoda o discurso, a pose e a visão (ou a falta dela). A mim e a muitos outros cidadões, como diria para nosso tão grande desencanto o próprio presidente. Mas há uma coisas que conviria não esquecer. Cavaco foi sempre democraticamente eleito e em diversas ocasiões. Duas delas, de forma consecutiva (isto é, com renovação da confiança do voto) para as funções que actualmente exerce. A última, há menos de cinco anos. E é preciso não esquecer também que as principais alternativas democráticas a Cavaco foram nessa altura Fernando Nobre (isso), Manuel Alegre (pois) e Mário Soares (exacto). Isto é, não chegámos a Cavaco por acaso. Da mesma maneira, quando Cavaco assumiu funções de primeiro-ministro pela primeira vez a situação do país e as alternativas eram as que eram. Que a nossa democracia é pobrezinha? Pois é. Basta medi-la pela qualidade das alternativas que foram sendo apresentadas nas várias eleições que Cavaco ganhou. Ou pelas atitudes dos auto-proclamados campeões da democracia que, querendo diminuir Cavaco, mais não fazem do que atingir o pouco crédito que resta às instituições. É triste ter um provinciano como Cavaco como presidente. É ainda mais triste perceber como são mesquinhos, sectários, arrogantes e desligados das regras do jogo democrático alguns daqueles em quem podíamos ter votado em vez dele.