Tudo leva a crer que o “dei positiva à tese de Saldanha Sanches” pode vir a tornar-se o “eu combati a ditadura” dos tempos modernos.
Pensamento da semana
Rui Rocha,
Tudo leva a crer que o “dei positiva à tese de Saldanha Sanches” pode vir a tornar-se o “eu combati a ditadura” dos tempos modernos.
Uma das coisas boas de correrem os anos (sim, apesar de tudo há algumas) é passarmos da fase Canal Panda (ou Nickelodeon um par de anos depois), para esta de agora em que podemos, não por obrigação parental mas por gosto, ver séries ou filmes em família. Ontem calhou-nos o Interstellar. Não me demorarei no exercício de crítica cinéfila. Para isso temos aí, com evidente vantagem, o Pedro Correia. Nem no sentido mais amplo e profundo do filme, sobre o qual já aqui escreveu com total propriedade o José Gomes André. Partilho, em contrapartida, uma ideia da qual não consigo fugir desde que a ouvi dita por Cooper à filha Murph: o nosso destino, como pais, é sermos memórias para os nossos filhos. É uma frase de que não se regressa. De que nunca mais conseguirei regressar. Vou ter de reaprender a viver com isto.
Nunca tantos se propuseram candidatar-se a tão pouco.
Agora que chegou a Primavera, por favor não se esqueçam de usar as golas dos polos bem levantadas para ser mais fácil identificarmos os pacóvios.
Pode ser, pai, que toda a poesia do mundo esteja nos peixes. Nos peixes dos poetas. A poesia dos peixes que os poetas desovam nos mares se não calhar estarem, como quase sempre, a falar dos rios. Nesse peixe da infância que vinha de enxurrada nas palavras do Ruy Bello e lhe podia ser um sável. Nos peixes em que jamais se abria o rio, o rio de João Cabral de Melo Neto. No peixe que luzia ao pé da estrada, e bem podia estar numa banheira, da criança loura de Pessoa. Lembras-te, pai, quando saímos para pescar gaivotas? Eu já sabia que se podiam apanhar peixes. Lembras-te, pai? Já antes, no Lobito, tinha uma cana. Nunca pesquei um peixe com a cana, pai. Mas sem o dominar, percebia já que existia um mecanismo de atracção entre os peixes e as canas, embora não soubesse ainda que os peixes que se deixam pendurar na cana perdem o rio dos poetas ou o mar que os poetas procuram para desovar. E sabia também que os pescadores de Espinho pescavam peixe com redes e juntas de bois que as puxavam para a praia. E que no Lobito se podiam apanhar peixes com frascos de vidro e pedacinhos de pão. Eu nunca tinha conseguido apanhar peixes com frascos e pão. Mas o Calita conseguia e eu já tinha visto. Em Espinho não. Os pescadores não tinham frascos de vidro. Ou não sabiam que os peixes gostam de pão. Ou não conseguiam apanhá-los tão bem como o Calita. E por isso precisavam das redes e dos bois. Como se apanham gaivotas, pai? Com um laço. E com uma praia para as gaivotas pousarem. E nós tínhamos a praia de Silvalde, pai. Só nossa, de Verão manhã, encoberto. Quando foi, pai? Talvez em setenta e cinco. E o avô Adriano tinha linha de pesca na mercearia para fazermos os laços. Então as gaivotas apanham-se como os peixes, pai. Com linha de pesca. Vamos, pai. Vamos pescar gaivotas. Lembras-te que fomos, pai. Não lembras? Que éramos os únicos na praia. Que a praia de Silvalde, nessa manhã, era uma praia de pousar gaivotas. E que fizemos os laços e estendemos a linha. E que as dunas eram o nosso esconderijo. Será que foi por eu estar sempre a espreitar, pai, que elas não pousaram? Que não, que elas só não pousaram porque nos esquecemos de pôr um peixe dentro do laço. E as gaivotas só caem do céu quando há peixe na praia, peixe de poetas, digo-te agora, pai, que nunca apanhei gaivotas e nem sequer pesquei peixes. Digo-te agora que te vejo, tão distante e tão sereno, escondido na duna. Na duna encoberta dessa manhã de setenta e cinco em que me disseste que as gaivotas se pescam com um laço feito da mesma linha com que se apanham os peixes.
* republicado
Face às últimas decisões judiciais, a narrativa do preso político é capaz de estar a ficar esgotada. Estará, enventualmente, na hora de adoptar nova estratégia. Face à criatividade de que determinados comentadores deram provas quando o antigo primeiro-ministro foi detido (teoria da conspiração, implosão do estado de direito, fim do regime, para só lembrar alguns) ou me engano muito, ou ainda ouviremos alguém a defender que José Sócrates enveredou pelo caminho do crime devido à injustiça social e à falta de oportunidades.
A presunção de inocência abrange apenas a conduta do prisioneiro 44 ou também se estende às palavras do ilustradíssimo causídico que patrocina a sua defesa, impedindo-nos de as comentarmos?
Quando a cabeça não tem juízo, o Habeas Corpus é que paga.
A síndrome de pânico não é grave. Se fosse, teria o acento tónico na penúltima sílaba. Em certos meios científicos, afirma-se que a síndrome de pânico só é realmente grave se for aguda. Mas, em rigor, esta é uma posição que muitos consideram algo esdrúxula.
Já existem telefones inteligentes. E relógios inteligentes. E drones inteligentes. E o Pedro Lomba ali firme. A resistir.
Tendo em conta as reacções que a foto-reportagem do Varoufakis está a gerar em Portugal, mais parece que o ministro das finanças grego vive num duplex de cobertura feito contra o parecer da câmara de Atenas. Ou que se esqueceu de entregar as contribuições para a segurança social durante vários anos. Ou que o piano e o vinho branco foram pagos por um amigo ligado ao sector da construção. Não sei, digo eu.
1 – Sabe como se suicida um argentino. Sobe o seu próprio ego e atira-se.
2 – Um mundo em que as mulheres são marginalizadas é um mundo estéril.
De partir a tabuleta a rir, não? E tu, Maria das Dores… De qual gostaste mais?
Digo que erram os que apontam a chegada de mulheres competentes aos mais altos cargos das empresas como momento que marcará a conquista da igualdade de oportunidades no mercado de trabalho. Na verdade, se quisermos fazer uma apreciação isenta, a igualdade só estará completamente concretizada quando tivermos mulheres incompetentes em posições muitíssimo relevantes das organizações.
De entre os países ditos desenvolvidos, Portugal é dos mais avençados.
Há um embuste a construir-se em redor do contribuinte relapso Passos Coelho. A tese consiste mais ou menos no seguinte: é muito difícil a um cidadão comum conduzir a sua vida sem cometer algum pecadilho tributário. Isto é, face ao emaranhado de impostos, taxas e contribuições, é quase impossível que um assalariado, um pequeno empresário, uma pessoa normal, cumpra rigorosamente todas as obrigações. É aceitável, diz-se, que alguém se esqueça de uma declaração aqui, de um IMI acolá, do desconto para a Segurança Social mais à frente, da liquidação do IVA antes ou depois. Esta linha argumentativa apela ainda à nossa sensibilidade. Quantas vezes, dizem alguns, um pequeno empresário tem de optar entre pagar salários ou cumprir rigorosamente as suas obrigações tributárias. Ou, noutro registo, quantas vezes um pai ou uma mãe têm de optar entre pagar o tributo ou prover ao sustento dos filhos. E aqui estamos nós, já razoavelmente comovidos, imaginando Pedro Passos Coelho imerso em terríveis escolhas morais. Pagamento de impostos ou pagamento dos salários dos colaboradores? Contribuições para a Segurança Social ou refeições das filhas? O corolário destas posições pode encontrar-se em textos como o de Alberto Gonçalves (há que separar os pecadilhos cometidos por quem não espera mandar nisto e os esquemas elaborados por quem manda) ou o de Helena Matos (para se ter uma vida perfeita é preciso ter sido sempre funcionário público ou do partido). Há, todavia, um problema fundamental com esta barragem argumentativa. É que o percurso de Passos Coelho não cola com o do cidadão que nunca esperou vir a exercer funções de responsabilidade política, nem com o do empresário diligente e sério que sofreu aqui ou ali um percalço. Caso não se tenha reparado, Passos Coelho foi Presidente da JSD, exerceu funções em diversos órgãos partidários e foi deputado à Assembleia da República em várias legislaturas. Mais, a actividade privada que exerceu esteve sempre relacionada com ligações, conhecimentos e, sejamos sérios, compadrios políticos. Isto é, Pedro Passos Coelho sempre foi um político e viveu de, para, pela e com a política. Aliás, a situação de incumprimento é concomitante com o exercício de funções de responsabilidade política e de representação. Na verdade, o tal cidadão Pedro Passos Coelho, desligado do poder e assoberbado por dilemas morais e dificuldadades de conhecimento e cumprimento da lei é uma ficção. Não existe. O que temos é alguém que eleito para representar o povo, se marimbava para o cumprimento das regras que ele próprio discutia e/ou aprovava. A tese do cidadão imperfeito, como todos nós somos ou podemos ser, não bate certo. Em rigor, Passos Coelho é um político de carreira, que sempre teve ou ambicionou ter o poder e que revelou ser, na hipótese mais benigna, profundamente inábil e, na mais razoável, extremamente hipócrita.