Sim, onde é que já se viu?
Rui Rocha,
Passos Coelho não sabia que era preciso pagar.
2 de Março de 2015
Nunca deixei de pagar o que o Fisco me convidou a pagar.
Passos Coelho em 6 de Março de 2015
Passos Coelho é um sacana que deve ser julgado sem piedade na praça pública. Sobre Sócrates, ah bem, sobre Sócrates não se pode emitir qualquer opinião porque tem direito à presunção de inocência.
O mesmo normativo que proíbe um recluso de usar um cachecol do Benfica permite, em contrapartida, que este enfie um barrete.
Não passa despercebido o entusiasmo com que certa esquerda embarca no delírio do Homem Providencial. O fenómeno não é exclusivo de uma determinada geografia ou de um certo momento histórico. Encontra-se a propósito de ditadores sanguinários, dos mais vulgares trambiqueiros ou de políticos correntes (se estes não forem o mesmo que aqueles) que acabam por ver as suas qualidades exacerbadas em favor não se sabe de que desígnios insondáveis (ou sabe-se). Vimos isto com chineses e norte-coreanos, com africanos e europeus, com Castro, com Obama, com Hollande, com Sócrates, com a dupla Tsipras & Varoufakis e até, por amor de Deus, com António Costa. E, se quisermos entrar no lado mais galhofeiro, com esse inesquecível arauto das bandeiras da esquerda que foi o meteórico Artur Baptista da Silva. E não quero com isto dizer que uns e outros e tantos outros sejam comparáveis. Afirmo, apenas, que o mecanismo de descolagem da realidade de certa esquerda que os vê estratosféricos é, esse sim, semelhante. Ora, pela sua recorrência, o fenómeno deve ter uma explicação. Na verdade, creio que tem duas. Uma que se aplica à ilusão da esquerda pelos homens providenciais totalitários e outra que explica o desvelo da esquerda por supostos homens providenciais em democracia. Comecemos por esta última. A benefício da compreensão do que afirmo é importante salientar que o modo natural da esquerda é a revolução. Ora, a democracia, concretizada em actos eleitorais periódicos, é a antítese da revolução. A sucessão de lideranças, de propostas políticas, a alternância, o consenso, o debate, acabam por confluir para soluções tipicamente evolutivas ou involutivas (mas sempre na continuidade) e não revolucionárias. Privada em democracia do seu ecossistema revolucionário natural, certa esquerda entrega-se nos braços do Homem Providencial (que tudo pode, que tudo sabe, que apresenta a única mensagem verdadeira) para sublimar a frustração, a angústia existencial que a contenção e equilíbrio de um sistema democrático lhe provoca. Em regimes totalitários, a coisa tem a mesma natureza, com as devidas adaptações. Aí, a angústia decorre também da ausência da possibilidade da revolução. Ou melhor, o líder totalitário, que assume em teoria e na prática o dom da infalibalidade, é o melhor sucedâneo da revolução na impossibilidade desta (melhor do que a democracia, já se vê), valendo por aquela em forma de Homem Providencial. Vale isto por dizer que a fixação de certa esquerda em elevar seres humanos banais, ou muito pior do que isso, à categoria de santinhos milagreiros, não é um sinal de infantilidade intrínseca ou de uma visão pueril da realidade. É, mais do que isso, um sinal de desconforto e inadaptação do adn revolucionário à essência do ambiente democrático.
Quando Passos estiver preso, sempre quero ver o que dirão os da esquerda quando políticos da área do PSD forem visitá-lo a Évora.
Uma das opiniões mais ouvidas sobre o estranho caso do primeiro-ministro relapso, é a de que uma situção destas seria de tal forma ridícula que jamais alguém com as responsabilidades de Passos Coelho cometeria um erro de principiante desta natureza. Isto é, numa linguagem prosaica, Passos Coelho teria de ser muito burro para se deixar apanhar numa destas. Todavia, tais comentários não tiveram em conta algo que se torna cada vez mais uma evidência: Passos Coelho não é, de facto, muito esperto: Passos diz que “estava convencido” de que não era obrigatório pagar à Segurança Social.
Pagar a dívida não é o mesmo que apagar a dúvida.
– Amor, vou assistir à antevisão do Porto-Sporting na SIC Notícias.
– Ok. Não te esqueças de telefonar todos os dias.
Passos recebia em despesas de representação isentas na Tecnoforma para não correr o risco de se esquecer de pagar os impostos.
Ainda mal refeitos daquela coisa da cor do vestido, eis que apanhamos logo com esta. Quando olhas para a imagem aqui de cima ficas lês que Passos Coelho pertence a uma raça de homens que gosta de honrar compromissos? Pois é. Mais uma ilusão de óptica. A verdade é que, se prestares atenção, verás que Passos Coelho pertence à raça dos gajos que passaram a vida a rir-se na tua cara.
Sejamos sérios. A gestão política de António Costa durante os meses que leva como líder do PS são um desastre. As declarações recentes perante a comunidade chinesa confirmam-no. E a questão não está, ao contrário do que dizem alguns, em existir um discurso para o exterior, mais positivo, e um discurso crítico da situação para consumo interno. O problema está em António Costa não ter a mínima ideia sobre o que fazer com o país. Se tivesse, não existiria problema em salientar os progressos feitos durante quatro anos, para depois sublinhar internamente todos as áreas em que o governo falhou e em que é possível melhorar. Melhorar muito. Mas sobre propostas, já se sabe. Costa não faz. Tirando as que apresenta sobre temas relevantíssimos como o feriado no carnaval ou a de ter uma loja do cidadão em cada concelho. E, portanto, o que choca nas afirmações de Costa é a dissonância gratuita entre o discurso para dentro e o que faz para fora, sem que se encontre no que dirige aos portugueses outra coisa do que afirmações redondas, vazias, oportunistas, hipócritas e demagógicas. Neste cenário, a solvência eleitoral de António Costa assenta neste momento em não mais do que três pressupostos. O da inépcia de Passos Coelho, o da falta de uma comunicação social que seja capaz de desafiar-lhe a mediocridade da proposta política e o de que essa falta de exigência democrática contamine o sentido crítico dos eleitores portugueses. E, relativamente a cada um destes pressupostos, António Costa está, obviamente, carregado de razão.
Afinal, qual é a cor deste vestido política de Costa? A polémica parece não ter fim e há opiniões para todos os gostos. Alfredo Barroso vê laranja. Capoulas Santos diz que é rosa. Quem é o daltónico? Vieira da Silva, por seu lado, diz que esta polémica sobre a cor do político pretende desviar a atenção das questões que realmente importam. Os portugueses, em geral, veem a coisa muito negra. Entretanto, uma especialista em tratamento de imagem garante que é uma questão de saturação da cor política. Cansados de mudanças constantes de tom de discurso, os eleitores ficam saturados e passam a ver as coisas cada vez mais sombrias. Estes resultados são confirmados pelo uso da ferramenta de conta-gotas do software que captura amostras de áreas específicas do tecido político. Este software identifica o código de cor de qualquer pixel do discurso. E neste caso também gera resultados em tons muito escuros. As conclusões são confirmadas por parte de sectores que foram responsáveis pela promoção da imagem de Costa, que não escondem o seu desconforto. Apesar das expectativas iniciais, depois de sucessivas gaffes de Costa, falam agora de um futuro cinzento. O site de tecnologia Wired.com, por seu lado, refere que a chave para decifrar o enigma da cor política de Costa está na forma como os olhos e o cérebro evoluíram para ver cores ideológicas. Como os seres humanos evoluíram para ver as coisas de acordo com os seus interesses, os seus cérebros começaram a levar em conta o facto de a sua visão ter o poder de mudar as cores. Os objetos têm um certo tom vermelho rosado de madrugada, mais azul-branco ao meio-dia, e voltam a ser mais avermelhadas no pôr-do-sol. Tal como o discurso de Costa. O cérebro tenta então descontar o efeito da luz ideológica para chegar a uma cor “verdadeira”. No final, é uma questão de filtro usado por cada um. Se virmos bem, trata-se de um fenómeno que existe há milhares de anos, mas há algo especial na intervenção de Costa que tornou as diferenças na forma como vemos a cor política mais claras do que nunca. Ou é isto, ou Costa é um camaleão.
O país está diferente, para melhor, por comparação com a situação de 2011. Esta é, nomeadamente, a opinião do líder da oposição António Costa que não se coíbe, todavia, de afirmar o contrário quando pensa que está a ser ouvido. Por outro lado, é evidente que essa evolução não ficou a dever-se ao cumprimento de obrigações contributivas por parte do líder do governo Passos Coelho.
Que a mão esquerda de Costa não saiba o que diz a mão direita.