Do embuste: Passos Coelho, o cidadão comum


Rui Rocha,

Há um embuste a construir-se em redor do contribuinte relapso Passos Coelho. A tese consiste mais ou menos no seguinte: é muito difícil a um cidadão comum conduzir a sua vida sem cometer algum pecadilho tributário. Isto é, face ao emaranhado de impostos, taxas e contribuições, é quase impossível que um assalariado, um pequeno empresário, uma pessoa normal, cumpra rigorosamente todas as obrigações. É aceitável, diz-se, que alguém se esqueça de uma declaração aqui, de um IMI acolá, do desconto para a Segurança Social mais à frente, da liquidação do IVA antes ou depois. Esta linha argumentativa apela ainda à nossa sensibilidade. Quantas vezes, dizem alguns, um pequeno empresário tem de optar entre pagar salários ou cumprir rigorosamente as suas obrigações tributárias. Ou, noutro registo, quantas vezes um pai ou uma mãe têm de optar entre pagar o tributo ou prover ao sustento dos filhos. E aqui estamos nós, já razoavelmente comovidos, imaginando Pedro Passos Coelho imerso em terríveis escolhas morais. Pagamento de impostos ou pagamento dos salários dos colaboradores? Contribuições para a Segurança Social ou refeições das filhas?  O corolário destas posições pode encontrar-se em textos como o de Alberto Gonçalves (há que separar os pecadilhos cometidos por quem não espera mandar nisto e os esquemas elaborados por quem manda) ou o de Helena Matos (para se ter uma vida perfeita é preciso ter sido sempre funcionário público ou do partido). Há, todavia, um problema fundamental com esta barragem argumentativa. É que o percurso de Passos Coelho não cola com o do cidadão que nunca esperou vir a exercer funções de responsabilidade política, nem com o do empresário diligente e sério que sofreu aqui ou ali um percalço. Caso não se tenha reparado, Passos Coelho foi Presidente da JSD, exerceu funções em diversos órgãos partidários e foi deputado à Assembleia da República em várias legislaturas. Mais, a actividade privada que exerceu esteve sempre relacionada com ligações, conhecimentos e, sejamos sérios, compadrios políticos. Isto é, Pedro Passos Coelho sempre foi um político e viveu de, para, pela e com a política. Aliás, a situação de incumprimento é concomitante com o exercício de funções de responsabilidade política e de representação. Na verdade, o tal cidadão Pedro Passos Coelho, desligado do poder e assoberbado por dilemas morais e dificuldadades de conhecimento e cumprimento da lei é uma ficção. Não existe. O que temos é alguém que eleito para representar o povo, se marimbava para o cumprimento das regras que ele próprio discutia e/ou aprovava. A tese do cidadão imperfeito, como todos nós somos ou podemos ser, não bate certo. Em rigor, Passos Coelho é um político de carreira, que sempre teve ou ambicionou ter o poder e que revelou ser, na hipótese mais benigna, profundamente inábil e, na mais razoável, extremamente hipócrita.

0 comentários em “Do embuste: Passos Coelho, o cidadão comum”

          1. Eu não sei nada. O Sérgio é que deve dizer qual é a importância das suas insinuações. O valor da casa está acima dos seus rendimentos? Ou é ilegal e imoral mudar de casa? Porquê é que se preocupa tanto com a casa de PPC e a onde vive ou viveu António Costa na Av. Liberdade não lhe merece comentários?

          2. Miguel R,

            Numa petição que está online, uma pessoa que se identifica, veio falar na casa que foi comprada próximo da Praia de Sto Amaro, perto de uma bomba de gasolina. E dá pormenores quanto ao custo, que me escuso a reproduzir porque já basta de poeira. Não foi o primeiro.

            Não há nada de ilegal nisso, nem de imoral em mudar de casa ou melhorar a vida. Seria óptimo que todos o pudessem fazer. Mas numa altura em que há quem perca a casa por ficar desempregado e não ter como pagar ao banco a prestação do empréstimo, e em que se pedem sacríficios a todos, era bom que esses rumores que se espalham como água fossem prontamente esclarecidos. Que diabo, se o homem foi “promovido” eleitoralmente por morar em Massamá, por um deputado e companheiro do partido, é porque deve ser importante. Será agora irrelevante esclarecer-se se o PM (não é um cidadão qualquer) foi um dos que “aproveitou” a crise para melhorar a sua “qualidade de vida”?

            Quanto à segunda parte, penso que se refere a um t2 com 100 metros quadrados, do qual tive hoje notícia através de um outro blogue. Vou aguardar para saber mais pormenores. Para já gostava que tudo fosse esclarecido (com os dois visados, um PM e o outro candidato) e acabassem os rumores de uma vez por todas.

          3. Talvez… chegados a este ponto. O que a mim me entristece é que existem tantos motivos para não votar na opção representada por Passos Coelho, que esse tipo de questões só venha a ter consequências nefastas para outras situações pouco parecidas. Quem não se lembra dos boatos sobre Sócrates em 2005. Não sei esse ruído será o que o país precisa… É uma tristeza que nos partidos em Portugal os chefes possam, mandem e aconteçam. Agora porque é dos nossos é como se nada fosse? É como se não existisse uma legitimidade política? Com que olhos esta gente vai falar aos eleitores? Não percebem? Só querem mesmo saber dos seus lugares? É possível tirar outra conclusão?

  1. Eu acho que a descrição se aplica ao cidadão comum. PPC representa bem o português, mesmo que não seja esse cidadão comum, pela sua ligação política. O problema fundamental é que se vai andar a discutir isto, quando se devia discutir o que fazer deste país. Vamos discutir pessoas em vez de políticas -_- . Que credibilidade terá ele para discutir os problemas da segurança social? É também bom que não se confunda o problema da SS, que esse sim é grave de todos os pontos de vista, com o das execuções fiscais. Não se deve atacar a pessoa em si, mas sim a sua legitimidade política. É esse o ponto. Não nos percamos no meio da lama. Ele e o PSD deviam perceber que para bem disto ele se deve afastar e não ir a eleições. Não tem condições para ser o candidato do centro-direita ás próximas legislativas, ponto.

    1. “Vamos discutir pessoas em vez de políticas.”
      Peço perdão pela intromissão, mas tendo em conta que os programas eleitorais (as políticas) têm sido uma ficção, talvez fosse aconselhável começarmos por “discutir pessoas”, para podermos ter uma antevisão do que serão em política.

      1. Eu não concordo nada com isso. O humano é imperfeito por natureza. Diga-me devemos garantir e legislar no sentido de os eleitos serem transparentes quanto ao seu passado fiscal, criminal, legal, etc, etc. Tudo bem, de acordo, agora não podemos passar uma campanha eleitoral a discutir eu mereço ser primeiro-ministro porque sou mais humilde, ou porque nunca tive problemas fiscais, ou porque sou mais bonito, ou porque isto e aquilo. E sobre isto Passos Coelho não se pode queixar muito, porque foi um dos que veio com estas historietas. Isso ia ajudar a resolver os nossos problemas em que sentido? Quer uma americanização da nossa política? Tem a certeza disso? Tem mesmo a certeza?

        1. Não fale em americanização da política que me põe com pele de galinha…
          De forma simples, o que eu quero dizer é que se deve escrutinar o político, também, enquanto cidadão, a sua idoneidade é um cartão de visita mais esclarecedor do que todo o blá-blá-blá a que infelizmente estamos sujeitos nas campanhas eleitorais, que nunca são para levar a sério.

  2. É este chorrilho de argumentos que se observam nas ligações de seu post que me irritam.
    Isto é a prova do que afirmo até à exaustão: a classe média falsa e puritana, bacôca e certinha, oportunista e moralista, entre outros atributos, tem sido o cancro da sociedade. Eles só deixam de ser o que não são quando se revela o que eles e elas são. Foi esta classe que vigorou antes de Abril e que se reproduziu depois de Abril, como os coelhos fazem.
    E mais não digo porque seria contrariar o que me imponho, isto é, não ser justiceiro.

  3. Tem razão. Sob o a aparente serenidade, PC está a revelar frieza, cinismo e hipocrisia ao permitir que o seu Governo transforme a generalidade dos honrados cidadãos em delinquentes a pretexto de qualquer ninharia, destruindo as aspirações a uma vida digna de todo um povo, ainda que modesta, arruinando irremediavelmente a vida de muitos por da cá aquela palha! A pré-falência e a UE com seus fundamentalismos, instituíram um regime pré-totalitário irremediavelmente condenado, característico de certo iluminismo. Vencer a crise, sim, com austeridade, com inteligência, com coragem, mas…com todos dentro. Só os corruptos, ladroes e assassinos sao dispensáveis.

  4. Quem sabia que seria PM e só não sabia a data foi o Durão Barroso.

    Quanto ao Coelho, só quando a extrema falta de jeito e de carisma e de tudo o mais da d. Manuela a fez perder as eleições para um Pinócrates a cair da tripeça é que o poder lhe caíu nas mãos. Antes disso, era uma possibilidade mais que remota.

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