Liberdade de expressão reforçada na Venezuela socialista.
Regime de Pequim cada vez mais aberto ao exterior.
Democracia consolida-se na Bielorrússia.
Hugo Chávez em directo, ao vivo e a cores: uma jornalista que lhe faz uma pergunta incómoda numa conferência de imprensa é “ignorante” e “vive na lua”. No caso, foi a jornalista Angelina Flores, correspondente em Caracas da Rádio França Internacional e da emissora RCN, da Colômbia. A pergunta foi esta: “Como se explica que com uma diferença de só 100 mil votos [em mais de 15 milhões], a oposição tenha obtido menos 37 deputados [33 após o apuramento dos resultados finais, 65 contra 98 num Parlamento de 165 deputados] do que o oficialismo [chavista]?” A jornalista ficou sem resposta após a longa arenga do Presidente, incapaz de explicar como as recentes alterações à lei eleitoral venezuelana fizeram aumentar a correspondência entre votos e mandatos apenas nas zonas do país onde Chávez recebe mais apoio.
O ‘atrevimento’ levou o Ministério da Informação venezuelano a emitir um comunicado em que pede aos correspondentes estrangeiros para “não actuarem como mais um elemento político”. Angelina tornou-se entretanto uma atracção no youtube: o vídeo da conferência de imprensa já recebeu 700 mil visitas. Vale a pena.
A Venezuela é hoje mais perigosa do que o Iraque. Uma conclusão do New York Times. Vale a pena ler.
A Venezuela vai a caminho dos 20 mil homicídios anuais, 95% dos quais permanecem impunes. Caracas, 11 anos após a subida ao poder de Hugo Chávez, é hoje a capital com mais assassínios no planeta. Mas a “justiça” venezuelana – braço do poder político – está preocupada com jornais como El Nacional, que abordam este tema com o destaque que consideram apropriado. Leia-se esta participação do Ministério Público chavista contra o jornal: está lá tudo. A começar pela apregoada preocupação com a “saúde psíquica e moral” dos cidadãos, que tanto soa aos eufemismos salazaristas para impor a censura à imprensa. Chávez, incapaz de assegurar a segurança nas ruas, procura em alternativa conseguir a “tranquilidade” nos escaparates dos quiosques – declarando guerra não ao crime, mas ao jornalismo que não se verga aos seus ditames.
A esquerda latino-americana comete um erro trágico ao deixar-se atrair por políticos caudilhistas, que fazem do populismo a sua imagem de marca e usam o nacionalismo exacerbado como estribilho seguro para se perpetuarem no poder. Este erro de proporções históricas começou com o apoio dado por amplos sectores de esquerda, nas décadas de 40 e 50, a figuras como Juan Domingo Perón (na Argentina) e Getúlio Vargas (no Brasil), por sinal oriundas da direita mais radical, e prolonga-se na actual onda de entusiasmo em torno do demagogo Hugo Chávez e de vários dos seus epígonos menores, como Evo Morales. Chávez, o mais desbragado populista do nosso tempo, faz lembrar o que H. L. Mencken dizia de Harry Truman: “Se a maioria da população fosse composta por canibais, ele prometeria missionários gratuitos, engordados à custa do contribuinte.” Isto já para não falar em Fidel Castro, que transformou Cuba num imenso beco sem saída. Alfabetizados, os cubanos que nada têm para ler, além do jornal do partido e as enjoativas prédicas do eterno “comandante”? “Os cubanos sabem ler e escrever, mas são praticamente analfabetos digitais. Apenas 2% da população tem acesso (censurado) à internet, contra 25% na Costa Rica”, como revelava recentemente a revista Veja.
A esquerda populista e radical, que congrega a retórica socialista com políticas assistencialistas dependentes de astronómicos fundos estatais, vocifera contra Washington, o que agrada também à extrema-direita. Mas esta retórica não ilude uma questão essencial: a destruição progressiva do frágil tecido empresarial e da massa crítica em países como a Bolívia e a Venezuela augura tempos muito difíceis para o subcontinente americano que fala português e espanhol. Chávez e Morales produziram profundas alterações constitucionais destinadas a centralizar ainda mais o poder destes “homens providenciais” em nome das “conquistas do socialismo”. Daqui à subalternização da democracia e do estrangulamento da sociedade civil vai um curto passo. Em Cuba passou-se o mesmo, com os resultados que se sabem: entre 1989 e 1998 o salário real médio dos cubanos caiu 44%. O número de famílias pobres na Venezuela aumentou 18% desde que Chávez assumiu o poder, há 11 anos.
Há uma lição fundamental que a História contemporânea nos ensina: a democracia política é indissociável do desenvolvimento económico. Mas a democracia ultrapassa o plano meramente instrumental, ligado à criação de riqueza: é um valor político essencial, não devendo ser desgraduada em nome do populismo. A esquerda chilena (com Michelle Bachelet) percebeu isto e segue o seu caminho autónomo, com inegável maturidade. A outra, tão festejada por certos comentadores cá do burgo, prossegue na via do abismo com o cardápio do costume: nacionalização dos principais sectores produtivos, “reforma agrária” destinada a colectivizar a miséria nos campos, asfixia das empresas privadas e criação de uma gigantesca classe de funcionários que parasita o erário público. Em África, cinco décadas de aplicação destas receitas geraram corrupção, fome, doença e penúria: não falta quem lhe chame o “continente perdido”. A América Latina não pode seguir o mesmo trilho. Para tanto, é fundamental que a esquerda saiba distinguir o trigo do joio, não caucinando novas receitas para o desastre.
Sean Penn, embevecido com Hugo Chávez, quer meter na prisão todos os jornalistas que ousarem chamar ditador ao manda-chuva de Caracas. Miguel Bosé justifica a ditadura cubana sob o argumento de que em todos os países do mundo existe repressão. Dizem-se ambos de esquerda.
Eis um perfeito par de imbecis.
Já "nacionalizou" actividades industriais, hipermercados, hotéis. Agora manda "expropriar" pequenas lojas no centro de Caracas. Ao vivo, em directo e a cores. Confirmando assim que, para ele, a propriedade privada vale zero e que as contas públicas devem ser administradas ao sabor dos caprichos momentâneos de um programa de televisão, com a irresponsabilidade de qualquer menino-bem a delapidar a fortuna do papá. É Hugo Chávez, claro – who else? Ele diz-se inspirado por Simón Bolívar. A mim parece-me, muito mais prosaicamente, um discípulo de Vasco Gonçalves.
Imaginem, por momentos, que Aníbal Cavaco Silva, apoiado nos deputados do putativo ‘bloco central’ e com a suave aquiescência do primeiro-ministro, fazia aprovar na Assembleia da República uma lei destinada a impor aos canais de televisão, em sinal aberto e por cabo, as transmissões integrais dos discursos presidenciais sob pena de perderem o direito à existência. Imaginem, por momentos, que essa mesma lei – além de forçar a aparição de Cavaco na pantalha – determinava os conteúdos concretos desses canais, incluindo a interdição de mais de duas horas consecutivas de telenovelas, a proibição de mais de um intervalo para publicidade por programa e a difusão obrigatória do hino nacional duas vezes por dia.
Imaginem se uma coisa destas sucedesse em Portugal. Inacreditável, não? Mas o inacreditável por vezes acontece. O cenário acima descrito acaba de concretizar-se na Venezuela de Hugo Chávez: cinco canais televisivos – Radio Televisión Internanacional, Ritmo Son, Momentum, América TV, American Network e TV Chile – deixaram de transmitir, por decisão governamental. Como represália pela "violação da lei", segundo as autoridades de Caracas. Está consumado assim mais um passo no sentido da supressão da liberdade de expressão e da liberdade de informação na Venezuela.
Imaginem por momentos se uma coisa destas tivesse sucedido em Portugal.
Caracas, a capital do "socialismo do século XXI" que Hugo Chávez pretende exportar para todo o planeta, sob o cognome de ‘V Internacional’, ostenta o duvidoso título de segunda cidade mais perigosa do mundo, com uma taxa de 96 homicídios por cada cem mil habitantes – cinco vezes mais do que em São Paulo, no Brasil. Pior só mesmo a tenebrosa Ciudad Juárez, no México, que tem sido palco de sangrentas guerras entre bandos de narcotraficantes com a ambição de monopolizar o tráfico de cocaína para os Estados Unidos. O coronel que não consegue pacificar Caracas faz apelos públicos à guerra contra a vizinha Colômbia, institui "milícias populares" segundo o modelo cubano e impõe um nova Lei de Incorporação Militar que estabelece o dever de cumprir 12 meses de serviço militar a todos os cidadãos do seu país entre os 18 e os 60 anos. Um estado militarizado, armado até aos dentes nas zonas fronteiriças que não consegue impor patamares mínimos de segurança dentro das suas próprias fronteiras. Um estado que não consegue abastecer devidamente os seus cidadãos de bens essenciais, como luz e água, apesar de ser o sexto maior produtor mundial de petróleo.
Indiferente à crise social, indiferente à crise económica, Chávez sonha ser um novo Simón Bolívar. Com uma considerável diferença de escala: enquanto Bolívar libertou a América espanhola no início do século XIX, ele quer "libertar" o mundo neste início do século XXI, mobilizando a "esquerda verdadeira" contra o "capitalismo" e o "imperalismo", que lhe compram o petróleo. Segundo as previsões, 2009 deverá chegar ao fim com um número superior a três mil homicídios na capital venezuelana – só num fim de semana de Outubro registaram-se ali 65 mortes violentas.
"Andar pela bela cidade de Caracas dá medo", escreveu Pablo López Guelli, em reportagem publicada no portal de notícias da Globo. Um retrato fidedigno do "socialismo do século XXI", prestes a alastrar aos cinco continentes sob os alvores da V Internacional. A História repete-se, como ensinava Marx: primeiro como tragédia, depois como farsa. Com Chávez, chegámos à fase da farsa em todo o seu universal esplendor.
A gigantesca fraude eleitoral no Irão, seguida da brutal repressão contra os opositores do regime que já provocou oito mortos, estão a chocar o mundo. Todos deploram a prepotência da ditadura teocrática que tem vindo a expulsar os repórteres estrangeiros e proibiu até a captação de imagens na rua por telemóveis. Todos? Todos não. De Caracas chegou entretanto um comunicado de felicitações de Hugo Chávez, que se afirma feliz pela "grande vitória" do presidente fantoche Ahmadinejad enquanto dispara as habituais críticas contra os "porta-vozes do imperalismo".
Há certas atitudes que dispensam qualificativos: são suficientemente expressivas para falar por si. É o caso desta mensagem de solidaridariedade manifestada por Chávez aos déspotas de Teerão, que se arrisca a ter o efeito contrário do pretendido. Vinda de quem vem, constitui afinal um incentivo suplementar à mobilização cívica de largos milhares de iranianos que arriscam a própria vida na rua em defesa da liberdade.
Uns interditam as mensagens de telemóvel, não vá o diabo tecê-las. Outros querem silenciar as últimas vozes discordantes. Outros transformam os países em prisões, onde o simples facto de viajar por estado de necessidade depende da vontade do tirano. Outros ainda sonham com um mundo cheio de Hiroximas talvez como meio de eliminar de vez dramas como a fome.
Não acreditem nos relativistas morais. Ao contrário do que eles dizem, as fronteiras entre o bem e o mal não foram abolidas. Estão aí, à vista de todos. Só não vê quem não quer.
(evolução do preço do petróleo nos últimos doze meses)
Marca registada deste governo Sócrates: apresentação com pompa e circunstância de grandes negócios para o país que depois não se concretizam. O partido do governo podia ao menos ter evitado este convite. Entretanto, o socialismo século XXI apresenta sinais de desgaste.
"Nada é tão perigoso como deixar permanecer um homem muito tempo no poder."
Bolívar
Hugo Chávez fez aprovar em 1999 uma Constituição que lhe garantia um mandato presidencial de seis anos, prorrogável por outros seis. Não lhe bastou: em Dezembro de 2007, convocou um referendo para alterar a lei fundamental que ele próprio aprovara, desta vez para se fazer eleger sem limite de mandatos – algo inédito no continente americano, exceptuando em regimes ditatoriais. Perdeu esse referendo: pressionado pelas chefias militares, ao fim de alguns dias, garantiu que aceitaria o resultado e não voltaria a pensar no assunto. Mas afinal não pensou noutra coisa: 14 meses depois, faz convocar outro referendo que enfim ganhou, por nove pontos de vantagem (54%-45%). Poderá alterar a Constituição e manter-se no Palácio de Miraflores "até 2049", quando perfizer meio século de mandato presidencial, como já antecipou.
Alguns, à esquerda, ainda olham para Chávez como um modelo a seguir. Equivocam-se profundamente: o ex-tenente-coronel paraquedista é apenas um vulgar candidato a ditador cada vez mais autoritário, cada vez mais arrebatado pelo culto da sua própria personalidade, cada vez mais determinado a esmagar todos quantos lhe façam frente. Nesta campanha referendária, mandou a empresa de telefones móveis Movilnet, nacionalizada em 2007, distribuir mensagens com a sua voz num apelo ao voto ‘Sim’: os 11 milhões de utentes receberam a mensagem, sem terem acesso a um apelo equivalente do ‘Não’. Por outro lado, a televisão pública venezuelana, durante o mês de campanha, apenas divulgou imagens de comícios pelo ‘Sim’ nos serviços «noticiosos», sem qualquer referência às acções promovidas pela oposição a Chávez. Agora, embalado por um poder que supõe absoluto, manda a tropa ocupar as empresas agro-alimentares e antecipa pela boca de um ministro a "expropriação" dessas empresas.
Assim vai o regime «socialista» decretado pelo Presidente venezuelano, que se diz permanentemente inspirado pelo pensamento de Simón Bolívar, o fundador do país. Mas Bolívar certamente se distanciaria do regime chavista, que mistura autoritarismo e populismo, ingredientes que se têm revelado letais na América do Sul. "Nada é tão perigoso como deixar permanecer um homem muito tempo no poder. O povo habitua-se a obedecer-lhe e ele habitua-se a mandar. Daqui nasce a usurpação e a tirania."
O autor destas palavras sábias? Precisamente Simón Bolívar. Aplicam-se como uma luva a Hugo Chávez, «bolivarista» que não segue os conselhos de Bolívar.
(fonte: Kal’s Cartoon)
Venezuela enfrenta panorama muito difícil, reconhece Chávez
O projecto do socialismo século XXI, que tanto entusiasma pessoas como Mário Soares e Boaventura Sousa Santos, já teve melhores dias. Sem os petrodólares que o financiam será interessante averiguar o que o futuro lhe reserva…
A vitória de Hugo Chávez no referendo de ontem na Venezuela não surpreende pelo ‘Sim’ dado ao Presidente que procura perpetuar-se no poder: surpreende por ter havido 45% de eleitores a votar ‘Não’. Esta campanha, que decorreu com o Parlamento fechado durante um mês, foi tudo menos democrática. Como sublinhou o Tomás Vasques, os eleitores venezuelanos receberam diariamente nos telemóveis mensagens de voz gravadas com Chávez incentivando ao voto ‘Sim’. Um brinde da operadora telefónica Movilnet – empresa nacionalizada em 2007, ao serviço do Duce venezuelano em vez de servir o povo. Ontem à noite, segundo noticia o El País, enquanto Chávez não terminou o seu discurso de vitória, que durou quase duas horas, os representantes da oposição não puderam prestar declarações aos jornalistas, pois o Presidente "ordenou que a sua festa fosse transmitida em cadeia nacional por todas as emissoras de televisão". Não admira: um estudo conjunto da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e da Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas, revela que durante a campanha a televisão oficial da Venezuela dedicou 93% do espaço informativo ao ‘Sim’, sem um minuto sequer reservado ao ‘Não’.
Algo só imaginável numa ditadura.
Por tudo isto, faço minhas as palavras da Joana Lopes: "Não foi a primeira vez, nem terá sido infelizmente a última, que uma tirania foi democraticamente ratificada – um preço a pagar, mas com sabor amargo, muito amargo."
Sinagoga vandalizada e profanada na Venezuela nacionalista e socialista de Hugo Chávez, "un hombre que no está en capacidad psicológica de separarse de poder".