Caracas: muito crime e pouca luz


Pedro Correia,

Caracas, a capital do "socialismo do século XXI" que Hugo Chávez pretende exportar para todo o planeta, sob o cognome de ‘V Internacional’, ostenta o duvidoso título de segunda cidade mais perigosa do mundo, com uma taxa de 96 homicídios por cada cem mil habitantes – cinco vezes mais do que em São Paulo, no Brasil. Pior só mesmo a tenebrosa Ciudad Juárez, no México, que tem sido palco de sangrentas guerras entre bandos de narcotraficantes com a ambição de monopolizar o tráfico de cocaína para os Estados Unidos. O coronel que não consegue pacificar Caracas faz apelos públicos à guerra contra a vizinha Colômbia, institui "milícias populares" segundo o modelo cubano e impõe um nova Lei de Incorporação Militar que estabelece o dever de cumprir 12 meses de serviço militar a todos os cidadãos do seu país entre os 18 e os 60 anos. Um estado militarizado, armado até aos dentes nas zonas fronteiriças que não consegue impor patamares mínimos de segurança dentro das suas próprias fronteiras. Um estado que não consegue abastecer devidamente os seus cidadãos de bens essenciais, como luz e água, apesar de ser o sexto maior produtor mundial de petróleo.

Indiferente à crise social, indiferente à crise económica, Chávez sonha ser um novo Simón Bolívar. Com uma considerável diferença de escala: enquanto Bolívar libertou a América espanhola no início do século XIX, ele quer "libertar" o mundo neste início do século XXI, mobilizando a "esquerda verdadeira" contra o "capitalismo" e o "imperalismo", que lhe compram o petróleo. Segundo as previsões, 2009 deverá chegar ao fim com um número superior a três mil homicídios na capital venezuelana – só num fim de semana de Outubro registaram-se ali 65 mortes violentas.

"Andar pela bela cidade de Caracas dá medo", escreveu Pablo López Guelli, em reportagem publicada no portal de notícias da Globo. Um retrato fidedigno do "socialismo do século XXI", prestes a alastrar aos cinco continentes sob os alvores da V Internacional. A História repete-se, como ensinava Marx: primeiro como tragédia, depois como farsa. Com Chávez, chegámos à fase da farsa em todo o seu universal esplendor.

10 comentários em “Caracas: muito crime e pouca luz”

    1. Parece-me cada vez mais evidente que está em gestação uma ditadura na Venezuela – misto de peronismo com fascismo italiano, com uma cosmética ‘socialista’. Não percebo como é que o PCP e o BE caucionam um regime destes.

  1. “Let us give to our republic a fourth power with authority over the youth, the hearts of men, public spirit, habits, and republican morality. Let us establish this Areopagus to watch over the education of the children, to supervise national education, to purify whatever may be corrupt in the republic, to denounce ingratitude, coldness in the country’s service, egotism, sloth, idleness, and to pass judgment upon the first signs of corruption and pernicious example”

    Discurso de Simón Bolívar ao Congresso em 1819

    .. está lá tudo. Era só seguir as instruções, qual receita bem explicada.

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    Gostei de ler Pedro.
    Bom fim-de-semana

  2. Subscrevo Pedro!

    Quanto ao PC e BE, podem até chover picaretas e o mundo mudar para marte. Esses senhores vão estar sempre no mesmo sitio. É pena que assim seja. Mas, no fundo apenas se revelam…

    Bom fim de semana

  3. Registo muito trabalhinho aqui, de recolha e cruzamento de informação. Trabalho que cada vez se usa menos nos jornais, obcecados em vender quilos de papel cheio de notícias copiadas de fontes nem sempre fidedignas. Excelente post, Pedro.

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