Da condição feminina 2


Teresa Ribeiro,

 

A propósito deste post da Ana lembrei-me da declaração de amor mais arrebatadora que ouvi na vida. Não, infelizmente não fui a feliz contemplada. Também não a li em livro ou vi em filme. Foi-me revelada pela destinatária, uma amiga muito chegada que num assomo de indiscrição (que só acontece entre mulheres, creio eu) me fez a inconfidência. Passo a citar:

 

"Nunca tenhas medo de envelhecer. Amo cada uma das rugas que tens e sei que amarei as que vais ter. Sempre".

 

Se a maioria das mulheres se sentissem amadas assim, a cirurgia plástica, a indústria da cosmética e as terapias da felicidade, em vez de apresentarem lucros fabulosos, estariam em dificuldades. A "pressão social" sobre as mulheres foi inventada por estas áreas de negócio quando identificaram o amor transgénico como uma janela de oportunidades.  

23 comentários em “Da condição feminina 2”

  1. A pressão externa que nos cerca apelativa à padronização da beleza feminina é, de facto, esmagadora.
    Haja auto-estima suficiente nelas para a resitsência. Embora não me afronte que alguém faça retoques.
    Mas, um dos maiores prazeres que tenho é ver os pintalgados brancos que vão aparecendo na barba rala do meu mais que tudo. E penso que o contrário (não em relação aos pintalgados da barba propriamente ditos…:)) também é verdade: são, essas brancas dele e algumas rugas que já me vão tocando a face, a maior aliança que temos, pois são esculpidos com o tempo; um tempo que temos vivido lado a lado.
    A sua amiga tem sorte. Como eu acho que tenho, também. Aceitar o outro, sabendo que o corpo vai dar de si, mas que continuará a ser plenamente amado é um bem preciosíssimo.
    E ver poesia em cada ruga, em cada cabelo branco… é um privilégio, sim!
    Acima de tudo, é importante que a decisão de fazer retoques ao corpo seja da própria pessoa em primeiro lugar, para se sentir melhor consigo mesma. Agradar ao(s) outro(s) deverá ser, sempre motivador, mas não O motivo!
    E sim… com tanto apelo, cada vez mais pessoas se sntem inferiorizadas e desconfortáveis com o prórpio corpo.
    (desculpe o comentário ser quase tão grande como o post – mas este seu texto dava pano para mangas em várias vertentes…)

    1. “Aceitar o outro, sabendo que o corpo vai dar de si, mas que continuará a ser plenamente amado é um bem preciosíssimo” – pois, Lúcia. Infelizmente é um bem precioso e raro.

  2. Pois , Teresa, aqui, “só entre mulheres”, digo – “o amor transgénico como uma janela de oportunidades” – é um belo achado -seu, claro e mais havia para dizer…mas não estamos “só entre mulheres”;))
    Gosto sempre de a ler, um beijo.

  3. É bonita sim. Mas Teresa, tenho uma para a troca: uma familiar minha, teve de tomar cortisona uns tempos. Ficou com o corpo deformado, como pode imaginar. Ouvi eu o marido ao afagar-lhe a cara: assim tenho mais espaço para dar beijinhos.

    :)))

  4. “Amor transgénico” é genial, Leonor! Adorei.
    Mas tens razão: só as mulheres muito amadas se sentem seguras mesmo com rugas e alguns quilos a mais.
    Homens, pensem nisto e tratem de demonstrar às vossas mulheres que não precisam delas plastificadas!!

  5. Acho muito sinceramente que essa história de amarmos as nossas rugas e de que cada uma conta uma história um mito. É muito duro envelhecer e não é fácil assistir à decadência do corpo,. O que eu acho é que há que aceitar sem mais, faz parte da vida, é assim mas também não vale a pena exagerar.

    1. Leonor, esta amiga de quem eu falei não ama as suas rugas. Tem é a sorte de partilhar a vida com um homem cujo amor não apresenta nem uma ruga. Ser amada assim torma o envelhecimento um processo muito menos duro e certamente livre das angústias e obsessões que levam tantas mulheres a fazer de tudo para parecerem mais jovens. No fundo este post é sobre o amor – o autêntico – como instrumento de conciliação com as leis da natureza.

  6. Ó Teresa, este sabia-a toda, o pirata. 😉
    Resta saber quando foi que fez essa declaração de amor. Teria a sua amiga 25 anos?
    (Se calhar vou ter que engolir estas palavras porque ele continua a declarar-se passados muitos anos).

    1. Ainda bem que levanta a questão, Mike, porque dá-me oportunidade de a contextualizar: trata-se de uma mulher de meia idade que por questões de saúde envelheceu muito mal. Era muito bonita e jovem quando ele se apaixonou por ela, há cerca de vinte anos. Mas esta declaração ele fê-la muito recentemente.
      E agora, Mike digira lá esta (recomendo, no mínimo, meia dúzia de águas das pedras eh!eh!eh!)

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