A jornalista incómoda


Pedro Correia,

 

Hugo Chávez em directo, ao vivo e a cores: uma jornalista que lhe faz uma pergunta incómoda numa conferência de imprensa é “ignorante” e “vive na lua”. No caso, foi a jornalista Angelina Flores, correspondente em Caracas da Rádio França Internacional e da emissora RCN, da Colômbia. A pergunta foi esta: “Como se explica que com uma diferença de só 100 mil votos [em mais de 15 milhões], a oposição tenha obtido menos 37 deputados [33 após o apuramento dos resultados finais, 65 contra 98 num Parlamento de 165 deputados] do que o oficialismo [chavista]?” A jornalista ficou sem resposta após a longa arenga do Presidente, incapaz de explicar como as recentes alterações à lei eleitoral venezuelana fizeram aumentar a correspondência entre votos e mandatos apenas nas zonas do país onde Chávez recebe mais apoio.

O ‘atrevimento’ levou o Ministério da Informação venezuelano a emitir um comunicado em que pede aos correspondentes estrangeiros para “não actuarem como mais um elemento político”. Angelina tornou-se entretanto uma atracção no youtube: o vídeo da conferência de imprensa já recebeu 700 mil visitas. Vale a pena.

 

27 comentários em “A jornalista incómoda”

  1. E logo quando o homem ia responder, acabou-se o video…
    O sistema, apesar do desconforto do homem, não será muito diferente dos pouco representativos do RU e USA. E estes casos não se vê um trabalho tão aturado e profundo. Deve ser por serem democracias…
    Outra questão é a da alteração recente com objectivo de assegurar a maioria. E será que foi assim?
    Abraço

    1. Boa observação, essa sobre os EUA. É que também consta que W Bush foi eleito com menos votos do que o adversário… devido a ter tido mais votos nalguns estados cruciais.

      1. É. E podemos falar também da eleição presidencial de 1958, que o Salazar roubou ao Humberto Delgado. E da última eleição do Honecker na RDA, em 1989, em que recebeu 99 e tal por cento dos votos.
        E enquanto falamos disso tudo, num eterno regresso ao passado, não falamos do presente. Nem da Venezuela.

        1. Não se está a discutir passado. Agora, não se pode nuns sítios defender estabilidade e noutros proporcionalidade. Eu, como sou quase sempre, por princípio, um incondicional do respeito pelo veredicto popular, não consigo ficar agradado com a alteração na Venezuela. Agora, ou bem que se dá em todos os sistemas que pervertem o sistema, ou bem que não se dá (junte-se aqui o facto de os partidos apoiantes de Chávez terem noutras eleições ganho, com sistemas diferentes). E no presente, no caso dos EUA o sistema de eleição do presidente distorce profundamente a proporcionalidade dos votos (que é disso que estamos a falar), no caso inglês, nem se fala (durante quantos anos andaram os liberais praticamente arredados da câmara dos comuns por causa das maquinações) ou até na Alemanha, onde a fasquia de 5% e a exigência de ter representantes em mais do que um land determinam a eleição de deputados. Enfim, quando se estiverem a discutir os círculos uninominais em Portugal, vou chamar à liça todos aqueles que malham no tipo.

          Para que conste, acho toda a reacção do homem e da comitiva uma estupidez. Mas isso são outros quinhentos

          1. Não há sistemas eleitorais perfeitos. O sistema britânico, por exemplo, é profundamente injusto. Mas será submetido a referendo no próximo ano, por pressão dos liberais-democratas, para fazer corresponder mais votos a mais mandatos. Se eu fosse cidadão britânico, não teria a menor dúvida em votar ‘sim’ neste referendo.
            O sistema norte-americano é quase incompreensível fora dos EUA. Existe, no entanto, há 200 anos enquanto na Venezuela as regras são muito recentes – e caminharam na direcção oposta, reduzindo a proporcionalidade em vez de a ampliar.

  2. Cá em Portugal passa-se o mesmo (numa escala felizmente menor): a correspondência entre votos e mandatos é melhor nos distritos que são mais favoráveis ao PSD (distritos do Norte e da emigração, nos quais o número de residentes reais é muito inferior ao número de inscritos nos cadernos eleitorais).

    1. Claro que em Portugal há distorções, tanto a nível das eleições nacionais como regionais: pense, por exemplo, nos 353 eleitores do Corvo que elegem dois deputados. Mas o caso venezuelano, como agora se viu, é muito pior.

      1. No caso do Corvo, faz toda o sentido que haja essa distorção. Não sei se concorda, mas queria referi-lo porque a discussão está no seguimento da crítica a certas “distorções” absurdas.
        Cumprimentos

  3. A unica diferença entre esta palhaço, e o Socrates, é que um fala espanhol, e o outro fala portugues.
    Chavez esteve 10 minutos a falar e não disse nada. É escusado estar a comparar os metodos legislativos de diferentes países democraticos com a Venezuela chaviana. Aquilo foi feito para ele ganhar sempre.
    Nos EUA o Bush foi eleito com menos votos que Gore, mas o Kennedy tambem foi eleito com menos votos que o Nixon.

  4. Essa agora! A querida ‘txica’ levou uma ensaboadela do sr presidente Chaves escusadamente pois se ela não fosse ignorante acerca do método electivo da Venesuela (igual a outros países na Europa, no Brasil ou Argentina, por ex), não tería feito o papel que se viu..a ‘tchica’. A propósito, parabens ao socialista pela excelente vitória com maioria absoluta!

    1. Meu caro, aqui o ignorante e manipulador é outro ou o Sr. conseguiu chegar a alguma conclusão após o discurso conversa-da-treta-like do Chavez?

      Típico de quem não sente na pele a situação deste país.

    1. E especialista em mudar as regras a meio do jogo, Pedro. Agora já diz que aproveitará estes dois meses, até à posse do novo Parlamento, para legislar a cem à hora – começando por nomear juízes “socialistas” para o Supremo Tribunal.

  5. Aprecio imenso a ginástica de certos comentadores, com particular relevo para o nosso conhecido Lavoura. A este (e certos outros), vale a pena acrescentar: ao contrário da Venezuela, todos os outros sistemas “injustos” continuaram a substituir regularmente e sem sobressaltos os seus eleitos.

      1. À limitação de mandatos e a todos os modos de substituir os eleitos, seja por desistência dos próprios, seja pela Justiça se for o caso, seja pela dissolução dos órgãos quando necessário e por aí fora.

        1. Então, quanto à ginástica, ficamos conversados. Pode vergastar o regime venezuelano em diferentes pontos. Pode-se, até, achar que o sistema eleitoral foi alterado com o objectivo de garantir uma vitória mais confortável. Mas também se pode ter algum distanciamento, e não atacar um sistema eleitoral apenas por distorcer votos. Mais, acaba por ser circular, o processo de eleição: quem é eleito altera-o, e como é evidente, não conheço um único parlamento que tenha tido como objectivo enfraquecer os seus membros. Pondo as coisas de forma muito tosca, eu poderia estar a discutir consigo uma série de questões associadas ao regime venezuelano, e certamente não estaríamos de acordo. Isso não impede, que neste aspecto muito particular, a crítica me pareça desadequada: é evidente que aqueles que se encontram numa situação vantajosa tentem consolidá-la, e isso não é um exclusivo da Venezuela. Depois, se o Chávez é isto, ou aquilo, ou se a independência entre poderes não está garantida, é outra discussão: interessa aqui, pegar no sistema eleitoral, e este, quanto a mim é perverso, mas tão perverso como tantos outros que por aí abundam. Aliás, nunca vi, por aqui, uma única crítica à mui consolidada democracia chilena. Suponho que aí já não existam problemas, certo?

          1. «Acaba por ser circular, o processo de eleição: quem é eleito altera-o, e como é evidente, não conheço um único parlamento que tenha tido como objectivo enfraquecer os seus membros.»
            Não conhece, nem conhece o contrário. Numa democracia civilizada e entre gente de boa fé, não se conhece isso nem o contrário.
            Quanto ao resto, já é trivergir.

          2. Já faltava, a boa fé, gente civilizada. Claro que não, onde já se viu. Quanto ao tergiversar, se assim o entende, é consigo. Porque os círculos uninominais, assim por exemplo, não têm como objectivo esboroar as votações dos partidos marginais. É coisa de gente civilizada, claro, não de uns índios. Aliás, deve ser o sangue prussiano dos chilenos, que fez com que tivessem um sistema de eleição binominal, que se assume como um modelo centrípeto, e voluntariamente centrípeto.
            O recurso a esse conceito arruma com qualquer discussão. Há a gente civilizada e os bárbaros.

          3. Não posso deixar de ficar deslumbrado com o rasgo. Espero que V. Eminência, outorgadora da civilidade, um dia destes possa “trivergir” sobre os pobres coitados alijados de boa fé. Entrementes, talvez possa, no seu afã civilizador, descobrir o significado da palavra respeito.

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