Hugo Chávez em directo, ao vivo e a cores: uma jornalista que lhe faz uma pergunta incómoda numa conferência de imprensa é “ignorante” e “vive na lua”. No caso, foi a jornalista Angelina Flores, correspondente em Caracas da Rádio França Internacional e da emissora RCN, da Colômbia. A pergunta foi esta: “Como se explica que com uma diferença de só 100 mil votos [em mais de 15 milhões], a oposição tenha obtido menos 37 deputados [33 após o apuramento dos resultados finais, 65 contra 98 num Parlamento de 165 deputados] do que o oficialismo [chavista]?” A jornalista ficou sem resposta após a longa arenga do Presidente, incapaz de explicar como as recentes alterações à lei eleitoral venezuelana fizeram aumentar a correspondência entre votos e mandatos apenas nas zonas do país onde Chávez recebe mais apoio.
O ‘atrevimento’ levou o Ministério da Informação venezuelano a emitir um comunicado em que pede aos correspondentes estrangeiros para “não actuarem como mais um elemento político”. Angelina tornou-se entretanto uma atracção no youtube: o vídeo da conferência de imprensa já recebeu 700 mil visitas. Vale a pena.


A expressão de pictórica Bolívar não podia ser mais ominosa!
errata: A expressão pictórica de Bolívar não podia ser mais ominosa!
Tens razão. E a indumentária do tenente-coronel não podia ser mais brega.
E logo quando o homem ia responder, acabou-se o video…
O sistema, apesar do desconforto do homem, não será muito diferente dos pouco representativos do RU e USA. E estes casos não se vê um trabalho tão aturado e profundo. Deve ser por serem democracias…
Outra questão é a da alteração recente com objectivo de assegurar a maioria. E será que foi assim?
Abraço
Bem, o vídeo prolonga-se noutros. Há ‘links’ para a continuação, como nas telenovelas. Mas garanto-lhe que chega ao fim de todos sem responder.
Boa observação, essa sobre os EUA. É que também consta que W Bush foi eleito com menos votos do que o adversário… devido a ter tido mais votos nalguns estados cruciais.
É. E podemos falar também da eleição presidencial de 1958, que o Salazar roubou ao Humberto Delgado. E da última eleição do Honecker na RDA, em 1989, em que recebeu 99 e tal por cento dos votos.
E enquanto falamos disso tudo, num eterno regresso ao passado, não falamos do presente. Nem da Venezuela.
Não se está a discutir passado. Agora, não se pode nuns sítios defender estabilidade e noutros proporcionalidade. Eu, como sou quase sempre, por princípio, um incondicional do respeito pelo veredicto popular, não consigo ficar agradado com a alteração na Venezuela. Agora, ou bem que se dá em todos os sistemas que pervertem o sistema, ou bem que não se dá (junte-se aqui o facto de os partidos apoiantes de Chávez terem noutras eleições ganho, com sistemas diferentes). E no presente, no caso dos EUA o sistema de eleição do presidente distorce profundamente a proporcionalidade dos votos (que é disso que estamos a falar), no caso inglês, nem se fala (durante quantos anos andaram os liberais praticamente arredados da câmara dos comuns por causa das maquinações) ou até na Alemanha, onde a fasquia de 5% e a exigência de ter representantes em mais do que um land determinam a eleição de deputados. Enfim, quando se estiverem a discutir os círculos uninominais em Portugal, vou chamar à liça todos aqueles que malham no tipo.
Para que conste, acho toda a reacção do homem e da comitiva uma estupidez. Mas isso são outros quinhentos
Não há sistemas eleitorais perfeitos. O sistema britânico, por exemplo, é profundamente injusto. Mas será submetido a referendo no próximo ano, por pressão dos liberais-democratas, para fazer corresponder mais votos a mais mandatos. Se eu fosse cidadão britânico, não teria a menor dúvida em votar ‘sim’ neste referendo.
O sistema norte-americano é quase incompreensível fora dos EUA. Existe, no entanto, há 200 anos enquanto na Venezuela as regras são muito recentes – e caminharam na direcção oposta, reduzindo a proporcionalidade em vez de a ampliar.
Cá em Portugal passa-se o mesmo (numa escala felizmente menor): a correspondência entre votos e mandatos é melhor nos distritos que são mais favoráveis ao PSD (distritos do Norte e da emigração, nos quais o número de residentes reais é muito inferior ao número de inscritos nos cadernos eleitorais).
Claro que em Portugal há distorções, tanto a nível das eleições nacionais como regionais: pense, por exemplo, nos 353 eleitores do Corvo que elegem dois deputados. Mas o caso venezuelano, como agora se viu, é muito pior.
No caso do Corvo, faz toda o sentido que haja essa distorção. Não sei se concorda, mas queria referi-lo porque a discussão está no seguimento da crítica a certas “distorções” absurdas.
Cumprimentos
A distorção pode fazer sentido, João Gonçalves. E eu posso até compreendê-la – e mesmo aceitá-la. Mas é um facto: ela existe.
A unica diferença entre esta palhaço, e o Socrates, é que um fala espanhol, e o outro fala portugues.
Chavez esteve 10 minutos a falar e não disse nada. É escusado estar a comparar os metodos legislativos de diferentes países democraticos com a Venezuela chaviana. Aquilo foi feito para ele ganhar sempre.
Nos EUA o Bush foi eleito com menos votos que Gore, mas o Kennedy tambem foi eleito com menos votos que o Nixon.
Essa agora! A querida ‘txica’ levou uma ensaboadela do sr presidente Chaves escusadamente pois se ela não fosse ignorante acerca do método electivo da Venesuela (igual a outros países na Europa, no Brasil ou Argentina, por ex), não tería feito o papel que se viu..a ‘tchica’. A propósito, parabens ao socialista pela excelente vitória com maioria absoluta!
Pois, pois. Quem estava com ar de ter levado uma esfrega e quem baixou o nível foi ele. Nada mais natural, tratando-se de alguém habituado às vénias dos cortesãos.
Meu caro, aqui o ignorante e manipulador é outro ou o Sr. conseguiu chegar a alguma conclusão após o discurso conversa-da-treta-like do Chavez?
Típico de quem não sente na pele a situação deste país.
Este é um dos especialistas na arte de ganhar na secretaria, Pedro.
E especialista em mudar as regras a meio do jogo, Pedro. Agora já diz que aproveitará estes dois meses, até à posse do novo Parlamento, para legislar a cem à hora – começando por nomear juízes “socialistas” para o Supremo Tribunal.
Aprecio imenso a ginástica de certos comentadores, com particular relevo para o nosso conhecido Lavoura. A este (e certos outros), vale a pena acrescentar: ao contrário da Venezuela, todos os outros sistemas “injustos” continuaram a substituir regularmente e sem sobressaltos os seus eleitos.
Hum, suponho que se esteja a referir à limitação de mandatos?
À limitação de mandatos e a todos os modos de substituir os eleitos, seja por desistência dos próprios, seja pela Justiça se for o caso, seja pela dissolução dos órgãos quando necessário e por aí fora.
Então, quanto à ginástica, ficamos conversados. Pode vergastar o regime venezuelano em diferentes pontos. Pode-se, até, achar que o sistema eleitoral foi alterado com o objectivo de garantir uma vitória mais confortável. Mas também se pode ter algum distanciamento, e não atacar um sistema eleitoral apenas por distorcer votos. Mais, acaba por ser circular, o processo de eleição: quem é eleito altera-o, e como é evidente, não conheço um único parlamento que tenha tido como objectivo enfraquecer os seus membros. Pondo as coisas de forma muito tosca, eu poderia estar a discutir consigo uma série de questões associadas ao regime venezuelano, e certamente não estaríamos de acordo. Isso não impede, que neste aspecto muito particular, a crítica me pareça desadequada: é evidente que aqueles que se encontram numa situação vantajosa tentem consolidá-la, e isso não é um exclusivo da Venezuela. Depois, se o Chávez é isto, ou aquilo, ou se a independência entre poderes não está garantida, é outra discussão: interessa aqui, pegar no sistema eleitoral, e este, quanto a mim é perverso, mas tão perverso como tantos outros que por aí abundam. Aliás, nunca vi, por aqui, uma única crítica à mui consolidada democracia chilena. Suponho que aí já não existam problemas, certo?
«Acaba por ser circular, o processo de eleição: quem é eleito altera-o, e como é evidente, não conheço um único parlamento que tenha tido como objectivo enfraquecer os seus membros.»
Não conhece, nem conhece o contrário. Numa democracia civilizada e entre gente de boa fé, não se conhece isso nem o contrário.
Quanto ao resto, já é trivergir.
Já faltava, a boa fé, gente civilizada. Claro que não, onde já se viu. Quanto ao tergiversar, se assim o entende, é consigo. Porque os círculos uninominais, assim por exemplo, não têm como objectivo esboroar as votações dos partidos marginais. É coisa de gente civilizada, claro, não de uns índios. Aliás, deve ser o sangue prussiano dos chilenos, que fez com que tivessem um sistema de eleição binominal, que se assume como um modelo centrípeto, e voluntariamente centrípeto.
O recurso a esse conceito arruma com qualquer discussão. Há a gente civilizada e os bárbaros.
Sem dúvida que há, como se vê. Vá meditar na civilização.
Não posso deixar de ficar deslumbrado com o rasgo. Espero que V. Eminência, outorgadora da civilidade, um dia destes possa “trivergir” sobre os pobres coitados alijados de boa fé. Entrementes, talvez possa, no seu afã civilizador, descobrir o significado da palavra respeito.