Filipa Leal


Patrícia Reis,

NOCTURNO PARA VARSÓVIA Gostava de te convidar para minha casa, como aos amigos nos velhos tempos. Abria uma garrafa de vinho e contava-te de quando era pequeno e tu contavas-me como te corre o emprego, o amor. Vemo-nos todos os dias e falamos tão pouco. Estendo-te a mão e às vezes dás-me uma moeda, mas falamos tão pouco. Gostava de te convidar para minha casa mas não tenho casa, vai ter de ficar para a próxima.

Eugénio de Andrade


Patrícia Reis,

Cada coisa

Cada coisa tem o seu fulgor,

a sua música.

Na laranja madura canta o sol,

na neve o melro azul.

Não só as coisas,

os próprios animais

brilham de uma luz acariciada;

quando o inverno

se aproxima dos seus olhos

a transparência das estrelas

torna-se fonte da sua respiração.

Só isso faz

com que durem ainda.

Assim o coração.

in “Sal da língua”, 1995

Miguel Torga morreu há 21 anos (17-1-1995)


Patrícia Reis,
Aos Poetas

 

Somos nós 
As humanas cigarras. 
Nós, 
Desde o tempo de Esopo conhecidos… 
Nós, 
Preguiçosos insectos perseguidos. 

Somos nós os ridículos comparsas 
Da fábula burguesa da formiga. 
Nós, a tribo faminta de ciganos 
Que se abriga 
Ao luar. 
Nós, que nunca passamos, 
A passar… 

Somos nós, e só nós podemos ter 
Asas sonoras. 
Asas que em certas horas 
Palpitam. 
Asas que morrem, mas que ressuscitam 
Da sepultura. 
E que da planura 
Da seara 
Erguem a um campo de maior altura 
A mão que só altura semeara. 

Por isso a vós, Poetas, eu levanto 
A taça fraternal deste meu canto, 
E bebo em vossa honra o doce vinho 
Da amizade e da paz. 
Vinho que não é meu, 
Mas sim do mosto que a beleza traz. 

E vos digo e conjuro que canteis. 
Que sejais menestréis 
Duma gesta de amor universal. 

 

Duma epopeia que não tenha reis, 

Mas homens de tamanho natural. 

 

 

 

Homens de toda a terra sem fronteiras. 

De todos os feitios e maneiras, 

Da cor que o sol lhes deu à flor da pele. 

Crias de Adão e Eva verdadeiras. 

Homens da torre de Babel. 

 

 

 

Homens do dia-a-dia 

Que levantem paredes de ilusão. 

Homens de pés no chão, 

Que se calcem de sonho e de poesia 

Pela graça infantil da vossa mão. 

 

 

 

Miguel Torga, in ‘Odes’

Vasco Graça Moura


Patrícia Reis,

O fim da noite.

ela guardava os sentimentos
como um animal ferido que se agarra
à vida por de dentro

e a vai perdendo devagar
enquanto sangra e sofre
emudecendo.

então beijavas-lhe
os seus próprios gemidos, a sua
desolada liberdade, o que no seu

olhar se enevoava.
não lhe peças mais nada,
não lhe digas

mais nada, mas não deixes
que a noite tome conta dela e
dite as suas leis.

in POESIA REUNIDA, 2, (Quetzal, 2012)

Carlos Drummond de Andrade


Patrícia Reis,

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

Carlos Drummond de Andrade


Patrícia Reis,

 

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Fernando Pessoa


Patrícia Reis,

DEIXEI ATRÁS OS ERROS DO QUE FUI

Deixei atrás os erros do que fui,

Deixei atrás os erros do que quis

E que não pude haver porque a hora flui

E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem

Deixei nas circunstâncias do caminho,

No episódio que fui e na paragem,

No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa

Por viajar com uma capa sua,

E a certa altura se desfaz da capa

E atira com a capa para a rua.

«23-8-1934 – Poesias Inéditas (1930-1935)

Ana Hatherly


Patrícia Reis,

“Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me”

(Presentes Preciosos 2)

Samuel Beckett


Patrícia Reis,

a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

 

José Gomes Ferreira


Patrícia Reis,

Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas…

Os pássaros quando morrem
caem no céu.

in Poemas Portugueses: Antologia da Poesia Portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI, Porto Editora

Cecilia Meireles


Patrícia Reis,

Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz.,
Sem dizerem que a esperam,
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Patrícia Reis,

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.

 

Sylvia Plath


Patrícia Reis,

Sou de prata e exacto. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Tal qual é, desenevoado de amor ou desagrado.
Eu não sou cruel, só verídico –
O olho de um pequeno deus, enquadrado.
A maior parte do tempo medito sobre a parede oposta.
É rosa, com salpicos. Observei-a por tanto tempo
Creio que faz parte do meu coração. Mas tremeluz.
Uma e outra vez rostos e escuridão nos separam.

Agora sou um lago. Uma mulher aproxima-se de mim,
Procurando nos meus recantos pelo que ela realmente é.
Depois volta-se para esses mentirosos, as velas ou a lua.
Vejo as suas costas, e reflito-as fielmente.
Ela recompensa-me com lágrimas e uma agitação das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e volta.
Cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim afogou uma jovem rapariga, e em mim uma velha mulher
Ergue-se para ela dia após dia, como um terrível peixe.

in Crossing the water – transitional poems

Fernando Pessoa


Patrícia Reis,

(…)
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente
[o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais,
[se puder ser,

Ou até se não puder ser…

 

PabloFidalgo Lareo


Patrícia Reis,
 

Esta é uma história entre um barco e eu.
Entre um barco que fica parado em frente da costa
e ameaça desfazer-se.
Este é um risco que tinha de assumir
para que o mundo continuasse a mover-se.
O fracasso dos meus pais foi a minha única história.
Nasci com um passado, quantos poderão dizer o mesmo?
A oportunidade de ter uma história sem fazer nada
só ocorre uma vez na vida.

Na escola aprendi como era o mundo.
Os que se riem de mim
são filhos dos que se riram dos meus pais.
Os que não viveram nada
invejam aqueles que viveram.
Os que têm uma história
não precisam de se rir de ninguém.
É a vossa palavra contra a minha.
O vosso silêncio contra o livro.

Os meus pais pensaram que certas coisas
não tinham de me ser contadas
e nunca esqueceram a única decisão
a que puderam chegar: silêncio.
A minha mãe e eu chegamos a um acordo
para nunca mais assentar as bases de nada.

 

(Tradução de Manuel de Freitas)

in Os meu pais: Romeu e Julieta, Averno, Lisboa, Setembro de 2015.

Al Berto


Patrícia Reis,

MUDANÇA DE ESTAÇÃO

para te manteres vivo – todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma – puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio – uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar – crepúsculo
donde se soltam as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele – peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação

 Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, p. 52

e. e. cummings


Patrícia Reis,

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

, in “livrodepoemas”