Miguel Torga morreu há 21 anos (17-1-1995)


Patrícia Reis,
Aos Poetas

 

Somos nós 
As humanas cigarras. 
Nós, 
Desde o tempo de Esopo conhecidos… 
Nós, 
Preguiçosos insectos perseguidos. 

Somos nós os ridículos comparsas 
Da fábula burguesa da formiga. 
Nós, a tribo faminta de ciganos 
Que se abriga 
Ao luar. 
Nós, que nunca passamos, 
A passar… 

Somos nós, e só nós podemos ter 
Asas sonoras. 
Asas que em certas horas 
Palpitam. 
Asas que morrem, mas que ressuscitam 
Da sepultura. 
E que da planura 
Da seara 
Erguem a um campo de maior altura 
A mão que só altura semeara. 

Por isso a vós, Poetas, eu levanto 
A taça fraternal deste meu canto, 
E bebo em vossa honra o doce vinho 
Da amizade e da paz. 
Vinho que não é meu, 
Mas sim do mosto que a beleza traz. 

E vos digo e conjuro que canteis. 
Que sejais menestréis 
Duma gesta de amor universal. 

 

Duma epopeia que não tenha reis, 

Mas homens de tamanho natural. 

 

 

 

Homens de toda a terra sem fronteiras. 

De todos os feitios e maneiras, 

Da cor que o sol lhes deu à flor da pele. 

Crias de Adão e Eva verdadeiras. 

Homens da torre de Babel. 

 

 

 

Homens do dia-a-dia 

Que levantem paredes de ilusão. 

Homens de pés no chão, 

Que se calcem de sonho e de poesia 

Pela graça infantil da vossa mão. 

 

 

 

Miguel Torga, in ‘Odes’

0 comentários em “Miguel Torga morreu há 21 anos (17-1-1995)”

    1. Se isso significou uma sua aversão bem enraizada pela obra de Torga, transformada, pelos vistos, em “obrigação”, então a escola portuguesa terá feito um mau trabalho. Se você não conseguiu, com o tempo, ultrapassar esse trauma, então talvez o problema não seja só do ensino em Portugal.

      Costa

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