Manuel António Pina


Patrícia Reis,

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel Pina, in ‘Um Sítio onde Pousar a Cabeça’

Maria do Rosário Pedreira


Patrícia Reis,

Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte –
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras do um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

in O Canto do Vento nos Ciprestes, 2001

Poema de David Mourão-Ferreira


Patrícia Reis,

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

Pedro Tamen


Patrícia Reis,

Regando lentamente as flores do riso,
vou já de neve em neve e lume em lume,
contornando a nordeste o paraíso
em terrenos de pedras ou de estrume,
com pequenas palavras na algibeira
das calças que mantenho ainda frias
da presença dos lares à minha beira.

E meto mãos e dentes nas vazias
flanelas limpas para o flanar antigo,
marcho directo e escasso, colocando
os pés azadamente.
Não persigo
ventos ou cores: sou pedro, zé, femando,
nomes comuns, impróprios, que desdigo
baixinho e surdo, curto, enquanto ando.

in DANIEL NA COVA DOS LEÕES (Moraes Editores, 1970)

Nuno Júdice


Patrícia Reis,

E pergunto-te: que outras palavras queres?

A música sonora de um ócio?

O espesso manto com que o veludo se escreve?

O fundo luminoso do azul?

Poderia dar-te todas as palavras na caixa do poema;

ou emprestar-te o canto efémero em que se escondem do mundo.

Mas não é isso que me pedes.

E a vida que pulsa por entre advérbios e adjectivos esfuma-se depressa,

quando procuramos seguir a linha do verso,

O que fica?, perguntas-me.

Um encontro no canto da memória.

Risos, lágrimas, o terno murmúrio da noite.

Nada, e tudo.

Via sonhar a realidade


Patrícia Reis,

UM POEMA DE NUNO JÚDICE 

 

Quero dizer-te uma coisa simples:

a tua Ausência dói-me.

Refiro-me a essa dor que não

Magoa, que se limita à alma, mas que não deixa,

Por isso, de deixar alguns sinais – um peso Nos olhos, no lugar da tua imagem, e

Um vazio nas mãos, como se tuas mãos lhes

Tivessem roubado o tato. São estas as formas

Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

As coisas simples também podem ser complicadas,

Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.

Porém, é o sonho que me traz à tua memória; e a

Realidade aproxima-te de ti, agora que

Os dias que correm mais depressa, e as palavras

Ficam presas numa refração de instantes,

Quando a tua voz me chama de dentro de

Mim – e me faz responder-te uma coisa simples,

Como dizer que a tua ausência me dói.

Vinícius de Moraes


Patrícia Reis,
Cântico

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o giro
O giro, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante… a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas…
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

in Antologia Poética, pag. 170, Publicações Dom Quixote

Sylvia Plath para começar a semana


Patrícia Reis,
Love Is A Parallax

‘Perspective betrays with its dichotomy:
train tracks always meet, not here, but only
in the impossible mind’s eye;
horizons beat a retreat as we embark
on sophist seas to overtake that mark
where wave pretends to drench real sky.’

‘Well then, if we agree, it is not odd
that one man’s devil is another’s god
or that the solar spectrum is
a multitude of shaded grays; suspense
on the quicksands of ambivalence
is our life’s whole nemesis.

So we could rave on, darling, you and I,
until the stars tick out a lullaby
about each cosmic pro and con;
nothing changes, for all the blazing of
our drastic jargon, but clock hands that move
implacably from twelve to one.

We raise our arguments like sitting ducks
to knock them down with logic or with luck
and contradict ourselves for fun;
the waitress holds our coats and we put on
the raw wind like a scarf; love is a faun
who insists his playmates run.

Now you, my intellectual leprechaun,
would have me swallow the entire sun
like an enormous oyster, down
the ocean in one gulp: you say a mark
of comet hara-kiri through the dark
should inflame the sleeping town.

So kiss: the drunks upon the curb and dames
in dubious doorways forget their monday names,
caper with candles in their heads;
the leaves applaud, and santa claus flies in
scattering candy from a zeppelin,
playing his prodigal charades.

The moon leans down to took; the tilting fish
in the rare river wink and laugh; we lavish
blessings right and left and cry
hello, and then hello again in deaf
churchyard ears until the starlit stiff
graves all carol in reply.

Now kiss again: till our strict father leans
to call for curtain on our thousand scenes;
brazen actors mock at him,
multiply pink harlequins and sing
in gay ventriloquy from wing to wing
while footlights flare and houselights dim.

Tell now, we taunt where black or white begins
and separate the flutes from violins:
the algebra of absolutes
explodes in a kaleidoscope of shapes
that jar, while each polemic jackanapes
joins his enemies’ recruits.

The paradox is that ‘the play’s the thing’:
though prima donna pouts and critic stings,
there burns throughout the line of words,
the cultivated act, a fierce brief fusion
which dreamers call real, and realists, illusion:
an insight like the flight of birds:

Arrows that lacerate the sky, while knowing
the secret of their ecstasy’s in going;
some day, moving, one will drop,
and, dropping, die, to trace a wound that heals
only to reopen as flesh congeals:
cycling phoenix never stops.

So we shall walk barefoot on walnut shells
of withered worlds, and stamp out puny hells
and heavens till the spirits squeak
surrender: to build our bed as high as jack’s
bold beanstalk; lie and love till sharp scythe hacks
away our rationed days and weeks.

Then jet the blue tent topple, stars rain down,
and god or void appall us till we drown
in our own tears: today we start
to pay the piper with each breath, yet love
knows not of death nor calculus above
the simple sum of heart plus heart.