Vencedores & vencidos (5 notas)


enlil,

É verdade que a selecção da Grécia joga um futebol brusco e picotado e tem um treinador que lhes grita – vimos todos – “calma, car@#§&!”, comprovando a perfeita capacidade comunicacional do calão português. Mas os gregos são a mais nostálgica colecção de cromos deste Mundial; cada um deles ostenta o fácies proletário dos jogadores dos anos 50 e 60, como se tivessem sido recrutados nas docas do Pireu. Katsouranis está ao nível de selvajaria a que sempre nos habituou e Karagounis segue demonstrando a sua incompatibilidade com as lâminas de barbear e com as decisões dos árbitros. Eles são a perfeita reminiscência física do futebol de outrora, antes desta gentrificação feita de penteados espampanantes e palmadinhas nas costas.

 

É de lamento a eliminação da paradoxal selecção inglesa. Por uma vez não entrou em campo com aquele tradicional sense of entitlement de quem vem repor uma verdade histórica, nem  encarou a derrota com o stiff upper lip presunçoso de quem acha que foi espoliado de direitos naturais. Os ingleses vieram jogar e fizeram-no com franqueza e elegância, tanto que perderam os dois jogos que necessitavam de ganhar aos pés da pragmática Itália e do furibundo Uruguai. É pena porque constituíam um agradável intermezzo ao futebol assanhado que veremos daqui em diante. Além de que a sua prematura eliminação redundará em grande rombo económico na indústria cervejeira mundial.

 

Em vez dos 90 e picos minutos da praxe os jogos da Argentina só têm 5’’ – os 5’’ de Messi. Da primeira vez foi o tempo necessário para partir a Croácia, da segunda venceu o Irão. No resto do tempo a selecção argentina troca a bola entendidamente à espera do instante em que o pequenote liga o botão, é uma espécie de desacelerador de partículas. Com isto, mesmo ostentando o pior treinador do certame (demasiados jogadores, demasiado bons, para fazer confusão a um táctico simples), querem ver que ainda chega à final?

 

Num ranking da revista Forbes do rendimento anual auferido pelos treinadores deste Mundial Paulo Bento está em 12º (nada a contestar) e o do Professor Carlos Queiroz, treinador do Irão, em 13º, com uma diferença de apenas €62.110 – menor que o preço de um Porsche. Diferença essa que daria singelo por dobrado em como não cobre a expropriação do fisco português a que Bento está sujeito. Ambos saíram no final da primeira ronda, Queiroz saiu felicíssimo por ter conseguido empatar um jogo em resultado da inovadora táctica do autocarro; Bento saiu acabrunhado por só ter vencido um jogo. Quem é o esperto, quem é?

 

Foi preciso chegar ao último jogo da fase de qualificação para descobrir a selecção que dá vontade de odiar. Consuetudinariamente reservado ao futebol panzer da Alemanha ou ronhoso da Itália, capazes de tirar do sério o adepto mais cerebral, desta vez a desonra a cabe ao sórdido Uruguai. Se Freitas Lobo viu 3 milhões de uruguaios a rematar com o pé de Suarez no golo contra a Inglaterra (uma imagem maior que o cinema, cujo máximo até hoje foi o filme “300”) então que não lhe tenha doído a dentada do mesmo Suarez em 61 milhões e 321 milhares de italianos por via do ombro de Chiellini. Felizmente os pigmeus da América Latina caíram aos pés do belíssimo James da Colômbia. Agora é preciso detestar outros – talvez o sorumbático Brasil, convencido que não precisa de jogar bem porque joga em casa?

Eusébio vs. Ronaldo


Rui Rocha,

É ou foi Ronaldo o melhor do mundo? Provavelmte sim, em determinadas épocas ou períodos. Sempre, se lhe perguntarem a ele ou se ele perguntar ao seu espelho. Mas essa corrida, com Messi, Robben, Ribéry ou Neymar, diz-nos pouco. Os terrenos onde se travam as suas batalhas principais são a Champions. É mais coisa de Real Madrid, Barcelona e Bayern do que de Portugal contra o resto do mundo. O duelo que verdadeiramente nos interessava que Ronaldo vencesse é aquele que disputa com Eusébio. Infelizmente, parece nunca mais chegar lá. A Eusébio sobra-lhe Coreia, entroniza-o a epopeia, ali onde Ronaldo fica de escasso. E nós trocaríamos de bom grado o seu título individual de melhor do mundo num determinado momento pela eternidade de ter feito o que sempre lhe falta para ser o melhor futebolista português de todos os tempos.

Mundial no sofá (7)


joaomsandre,

Este tem sido um mundial atípico para mim. Pelo que parece, será o mais interessante em termos de futebol jogado desde o EUA/94 ou mesmo Espanha/82. Por outro lado, não tendo televisão em casa, estando há já umas semanas sem internet (é conspiração dos alemães, eu bem digo) e sendo os jogos tão tarde (o que complica ir para um bar ver os jogos quando se tem de trabalhar no dia seguinte), a quantidade de jogos que tenho visto é relativamente reduzida. Por isso mesmo, as minhas observações têm de estar limitadas ao que vi e ao que vou conseguindo perceber. Vamos a elas.

 

Portugal: entre uma vitória portuguesa e uma derrota americana, a soma tem que dar 5 golos de diferença. Para o Gana a coisa tem que ser completamente ao contrário. O seleccionador americano é alemão e foi o chefe do seleccionador alemão que é um dos seus melhores amigos. Quando o alemão seleccionador americano era o seleccionador alemão, muitos dos actuais jogadores alemães tiveram a sua estreia. O empate serve aoe alemães e americanos (que, para complicar as coisas, têm uns três ou quatro jogadores nascidos na Alemanha). Não fora o Klose andar atrás do recorde de golos do Ronaldo fenómeno gordo fenomenal, a coisa acabaria num churrasco em pleno campo. Assim imagino o Klose a marcar um golo ao fim de 1 minuto de jogo, os americanos a marcarem um 1 minuto mais tarde e o resto da tarde a ser passada em clima de Biergarten.

 

Grécia: tem que se gostar destes tipos. Continuo sem conseguir chatear-me com eles por nos terem levado o título do Euro 2004. Sei que vão ser postos a andar pela Costa Rica (olha outros adoráveis patifes), mas adorava vê-los a vencer o mundial. A festa seria de arromba. E a seguir provavelmente saíam do Euro…

 

França: a única selecção que, para mim, demonstrou ser sólida. Deschamps era um médio fabuloso e a peça fundamental da França de 98 e 2000. Como treinador continua a ser excelente. O meio campo atropela jogadores sem dar por ela e o ataque tem um poder de fogo impressionante. Se não implodirem são para já a melhor equipa no torneio.

 

Robben: a Holanda não me tem impressionado assim tanto quanto isso. A defesa é suspeita, o meio campo anda a repetir as tácticas de 2010 a 75% (sem van Bommel não chegam aos 100) e Sneijder (nota para os comentadores portugueses: lê-se “Snèidér” e não “Chnáider”) anda a pouco mais que passear. Mas têm van Persie (golos do nada) e Robben (melhor jogador até agora) em forma. Num mundial atacante isso pode chegar.

 

Brasil: Chile! Chile! Chile! (quero o Sampaoli no Benfica).

 

Suárez: não o suspendam. Sem Zlatan, o mundial precisa de um vilão de pantomina e adoro ver os ingleses a gastarem rios de tinta com ele. O tipo é irritante e desportivismo é palavra desconhecida no vocabulário. Por outro lado ainda não lesionou ninguém e não é verdadeiramente maldoso. Se a FIFA punisse as faltas duras (Holanda, Honduras…) como quer punir Suárez, o futebol talvez fosse mais interessante. Coitadinho do Chiellini, tem um dói-dói, é?

 

Bélgica: repito, sem laterais ofensivos (são centrais convertidos) o estilo não funciona. Precisam de jogar com Mertens.

 

Pirlo e Xavi: fim de uma era.

Futebolemas


enlil,

O médico da selecção de todos nós falou hoje em “índices de suspeição lesional”. Dir-se-ia que foram anexados à pasta dos “indicadores de certificiação disparatal”. As maravilhas do futebol português são infinitas.

Milagres


Rui Rocha,

Naquele tempo, vendo-se em grandes dúvidas e apertos, Bento de Oviedo deitou cinquenta penas de sete galos negros do alto de um barranco e logo se fez um remoinho que as levou em direcção a uma nuvem que, se estava antes, ninguém a vira. E a nuvem, fazendo-se boca e rosto humano, logo ali sentenciou com graves palavras: levarás o André Almeida porque é ele o eleito e está bem que seja assim porque é essa a minha vontade. E foram todos, André Almeida e os outros, até aos confins das terras conhecidas. Sendo que estes ficam exactamente em Manaus, ali onde começa a floresta mais impenetrável para os homens, mas muito aquém do alcance da mão de Mendes. E estando, de todos os que foram, apenas onze em campo, ali André Almeida ficou coxo de pai e mãe. Vendo o sofrimento do eleito, Bento de Oviedo ergueu as mãos e disse estas e não quaisquer outras palavras, porque era essa a vontade de Mendes: levanta-te e anda. E o eleito andou. Sempre a passo, ainda mais de meia-parte, sempre coxeando. E quando finalmente Veloso o substituiu, tendo duas pernas, dois pés e um par de chuteiras, correu ainda menos do que o eleito, muito apesar de não estar coxo nem andar coxeando. 

Futebol é isto


Pedro Correia,

 

Ao contrário do que alguns imaginam, o futebol não é só feito de esquemas tácticos, jogadas a régua e esquadro, losangos, bolas paradas e “transições ofensivas”. O futebol é sobretudo uma fascinante soma de momentos mágicos que perduram na memória colectiva, ampliam a nossa crença nas potencialidades da espécie humana e demonstram onde é possível chegar quando talento e esforço se conjugam. Momentos como o que ontem testemunhámos ao minuto 36 do Austrália-Espanha: bem servido por Iniesta, David Villa marca um extraordinário golo de calcanhar. O seu 59º jogo pela Roja. E também o último: minutos depois, aos 56′, o maior marcador da história da selecção espanhola, goleador máximo do Campeonato da Europa de 2008 e do Campeonato do Mundo de 2010, saía de campo sob um coro de merecidos aplausos. Espanha, prematuramente afastada do Mundial do Brasil, já não tinha nada a ganhar excepto aquele desafio que só contava para cumprir calendário. Mas Villa bateu-se em campo, neste último jogo, como se fosse o primeiro da sua exemplar carreira. Porque queria abandonar a selecção de cabeça levantada.

Era ele que ali estava – mas era mais do que ele, como o homem do leme do poema de Fernando Pessoa: era já também o mito. Um mito vivo, feito de carne e osso. E também de lágrimas, que não conseguiu reprimir ao sentar-se no banco de suplentes. Quem disse que um herói não chora?

Futebol é isto.

Faltou-lhes um barbeiro


Sérgio de Almeida Correia,

 

Não há nada como um bom estampanço para o povo voltar à realidade. As fragilidades daquele grupo desconjuntado a que chamam selecção nacional são postas a nu de cada vez que tocam na bola. O jogo contra os EUA confirma a sofrível qualificação para o Mundial e a necessidade do treinador e dos jogadores começarem a frequentar barbearias para homens. Aquelas osgas que hoje se passearam por Manaus, com cortes de cabelo terceiro-mundistas e que só arrancavam quando um mosquito as estimulava, mostraram à evidência que uma equipa de futebol não se constrói na base de convicções e com afirmações patrioteiras e inconsequentes de orgulho nacional. Têm técnica, têm estatuto, têm chuteiras personalizadas, mas continua a faltar-lhes um bom barbeiro. Um tipo que lhes faça a barba e o cabelo numa cadeira das antigas, com uma tesoura bem afiada para lhes cortar as melenas da cagança, e que no fim lhes lave a fronha com aftershave tradicional, daquele com muito álcool que lhes faça arder a pele, antes de lhes esfregarem com um bom creme amaciador e os mandarem para a luta. Enquanto continuarem a tratar a selecção nacional e os seus jogadores como umas meninas finas de casa de alterne para empreiteiros ricos, dando-lhes lençóis de seda, oferecendo-lhes massagens e condescendendo com as suas birras, dificilmente farão na selecção nacional o que já mostraram ser capazes de fazer nos clubes. Por muito que treinem, se não houver um líder com coragem, com preparação, com visão e arrojo, é impossível construir o que quer que seja. Seja na Federação Portuguesa de Futebol, seja na selecção ou no governo do país. A sorte por vezes ajuda, mas é preciso ir buscá-la. E como milagres já não há, sugiro que quando despacharem o Paulo Bento comecem por arranjar um bom barbeiro, para homens, e que saiba de futebol para lhes ir dando umas sabatinas enquanto usa a navalha. Vão ver como eles crescem num instante.

Incentivos ao visionamento do Mundial, #2


Ana Cláudia Vicente,

Resultando em indignação geral, escolhi no último mundial futebolístico, dentre o património nacional aquele que bem poderia responder, de momento, pela alcunha de Adamastor. Torço para que os seus atuais preparos provoquem um tal choque estético no adversário, que uma qualquer distração abra brechas nas suas caparrudas fileiras.  

Divago. Vamos à escolha de hoje.

Destaco como incentivo ao adiantado da hora a que se transmite a partida, a visualização do meio-campista Miguel Veloso. Um homem que faz vida nos rigores dos Urais Cárpatos, mal vai que não dê conta do bafo amazónico…

 

[Miguel Veloso em movimento.]

 

 [Miguel Veloso parado (mas muito cônscio das suas responsabilidades, bem como da gravidade da hora que aproxima).]

 

A melhor das sortes aos atletas portugueses para o embate de mais logo.

Mundial no sofá (6)


joaomsandre,

E pronto, Portugal joga hoje. Não vi o jogo EUA-Gana por isso não posso fazer análises tácticas. Klinsmann não é dado a grandes tácticas, mas é excelente na motivação e preparação física. Os EUA têm alguns belos jogadores (Michael Bradley ou Clint Dempsey) e são muito dinâmicos. Se Portugal jogar a pastar como no primeiro jogo, o resultado não será bonito. Teremos que esperar para ver. Sei que não verei o jogo: não tenho televisão em casa e neste momento ando sem internet. Verei o resultado pela manhã.

 


 

O jogo de ontem demonstrou uma Alemanha muito permeável pelas alas. Löw levou mais laterais (Grosskreutz e Durm) mas não tem confiança neles, prefere os centrais. Fica sem largura e sofre contra jogadores energéticos e rápidos. O Gana, com mais experiência e calma, poderia ter vencido o jogo. Os alemães ainda são um dos favoritos, mas não impressionam. O jogo com Portugal acabou por ser tão simples que camuflou as deficiências existentes. Valha o sempiternamente anti-vedeta Miroslav Klose.

 


 

Entre os favoritos apenas a França me impressionou. Num mundial de velocidade e força, Matuidi, Pogba, Sissoko, Giroud, Benzema e Valbuena têm-se sentido como peixes na água. Falta-lhes um médio defensivo mais posicional, mas se Varane se mantiver bem e os laterais não cometerem erros, a França parece-me ser, até agora, o mais forte dos favoritos.

 


 

Não quero que a Nigéria seja eliminada. Não serão muito interessantes, mas têm o guarda-redes mais subvalorizado do torneio: Vincent Enyeama. Fosse ele mais alto (tem apenas 1,82 m) e europeu/sul-americano e seria sem dúvida considerado um dos melhores do mundo. Outro do género é o costa-riquenho Keylor Navas. Nos dias bons, é intransponível. Nos maus, até Diana Ross marcaria. Ainda no assunto da diversão, fiquemo-nos por Joel Campbell. Forte, rápido (joga em fast-forward), habilidoso e com excelentes decisões. O Arsenal tem ali uma jóia.

 


 

A Argentina desilude? Não faz mal. Tem Messi.

 


 

Tenho saudades de Ibrahimovic. Falta-me alguém com o seu carisma para este mundial ser ainda melhor. Mas tem sido extremamente divertido de ver.