Mundial no sofá (3)


joaomsandre,

  

Portugal – Alemanha (antevisão)

 

Ahh, futebol e Alemanha. São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha. Muda aos 5 e acaba aos 10. Os alemães são uma máquina trituradora. A bola é redonda. Força da técnica contra a técnica da força. Sul contra norte da Europa. Clichés, clichés, clichés…

 

Pronto, já aliviei a coisa. Quem quiser clichés, que use um dos de cima. Na análise abaixo tentarei evitá-los.

 

A forma como o jogo vai ser visto depende enormemente de Cristiano Ronaldo. Tanto nós como os alemães compreendem que ele vai ser a personagem principal do jogo. Nós esperamos que Ronaldo domine a acção, os alemães desejam que ele seja notório pela sua ausência. Desde 2006 que Ronaldo, por uma ou outra razão, não está a 100% numa fase final. A grande questão é se estará a 100% por períodos suficientes dos 90 minutos que Portugal for jogando. Com Ronaldo na equipa, Portugal é a espaços uma equipa que joga com 10 contra 11. Mas vale por vezes a pena.

 

Neste jogo os alemães estão a ser obsequiosos: não vão jogar com o gigante Gomez (que ficou em casa) e que tem o ADN perfeito para fazer estragos aproveitando as falhas de concentração de Bruno Alves. Lahm vai quase de certeza jogar a meio campo, o que significa que Ronaldo não terá de o enfrentar e que os alemães vão jogar para a posse de bola. As laterais serão provavelmente ocupadas por dois centrais, Boateng à direita e Höwedes à esquerda, o que significa que não poderão sobrecarregar o lado esquerdo da defesa portuguesa (Ronaldo não ajuda muito defensivamente, o que expõe Coentrão). No papel, os alemães irão apresentar tácticas que ajudarão os portugueses. Difícil melhor.

 

Por outro lado há qualidade para dar e vender na equipa alemã, mesmo sem alguns jogadores. Os irmãos Bender, Gündogan, Reus ou Gomez provavelmente entrariam de caras na equipa portuguesa, mas os alemães não os têm à disposição. Podolski provavelmente estará no banco, tal como Götze, Schweinsteiger, Draxler e Klose. É ridículo. O ataque poderá passar pela frente de ataque Özil como falso 9 e apoiado por Müller, Kroos e Schürrle. O meio campo terá provavelmente Lahm e Khedira. A Alemanha poderá ter posse de bola de níveis guardiolianos, mas a incisão irá depender em grande parte dos movimentos de Müller e Schürrle vindos das alas e de Özil a fugir aos centrais. Será essencial ter bom posicionamento e não ser traído pelo movimento de Özil e Kroos. Por outro lado, é muito provável que as bolas paradas sejam fundamentais. Com quatro centrais no onze inicial e Kroos a bater as bolas paradas, seria burrice da parte alemã não as aproveitar. Mais importante ainda que os cantos serão os livres indirectos, a aproveitar agressividade excessiva do meio campo português.

 

Portugal terá de optar entre lutar de igual para igual num jogo baseado em posse de bola ou, preferivelmente (do meu ponto de vista), compreender que Ronaldo terá de ser usado em contra-ataque e jogar mais em 4-4-2 com Postiga ou Hugo Almeida a tentar criar espaço para Ronaldo aproveitar. No caso do 4-4-2, poder-se-á começar com Veloso ou Nani no onze inicial. No primeiro caso Veloso cairia sobre a esquerda e Meireles sobre a direita e no segundo Meireles estaria à esquerda e Nani à direita. Nani já jogou como médio direito no passado e pode fazê-lo novamente. William Carvalho e Moutinho terão, claro está, de começar o jogo.

 

Os problemas portugueses estarão nos momentos das substituições (o banco é limitado) e nas bolas aéreas para a zona dos laterais (são baixos e têm opositores directos bons de cabeça). Postiga e Hugo Almeida não duram 90 minutos e terão de ser substituídos, o que queima logo uma substituição. Se Portugal se vir a perder provavelmente não terá forma de ir atrás do resultado.

 

Em resumo: há que aproveitar o contra-ataque (de forma semelhante ao que foi feito com a Suécia), poupar Ronaldo durante os 90 minutos, evitar faltas que ofereçam bolas paradas, e é necessário que os centrais não sejam atraídos pelo movimento de Özil e Kroos (será fundamental ter William Carvalho). Depois, há que deixar Ronaldo correr com espaço em direcção à defesa adversária e dar oportunidade a Moutinho para fazer os seus passes. O jogo será, no mínimo, interessante e poderá ser tacticamente, pelo menos em termos de sistema, semelhante ao Espanha-Holanda. Esperemos que acabe também com uma vitória da equipa mais reactiva.

Penso rápido (1)


Pedro Correia,

Quando pensamos que já vimos tudo num estádio e não vibramos com quase nada, acontece um golo que nos faz erguer do sofá e parece transportar-nos no tempo. Um golo como o de Van Persie que ontem abriu uma sequência de cinco da Holanda contra os espanhóis, campeões da Europa e do Mundo. Vemos um golo destes e voltamos a ser miúdos outra vez, voltamos a ser adeptos do desporto pelo desporto, voltamos a deslumbrar-nos com a eterna magia do futebol.

Ai aguenta, aguenta


enlil,

 O Diego de ontem não conseguiu igualar a obra deste Diego

 

Aquilo ontem foi o séc. XVII a entrar pelo nossa época adentro. Ó da guarda, os holandeses de regresso a Salvador da Bahia e desta vez a vencerem; só faltou que trovejasse e os ossos do Padre António Vieira se levantassem do lugar secreto onde estão escondidos para os afoguentarem.

E haveriam logo os oranges de açoitarem sem dó nem piedade uma esquadra espanhola tão petulante e enfeitada como as de outrora, valha-nos que desta vez a coisa durou noventa e poucos minutos e não os oito anos da era habsburga, que para mais – e pior – preludiaram os trinta de guerra que se seguiram.

Em Salvador, terra de orixás, talvez tenham ouvido como eu ouvi, juro que ouvi, a gargalhada fantasmagórica de Mourinho, pela boca da santa de terreiro que por ali pairou, quando o Casillas andou de rojo, de gatas e de rodilhas atrás da bola a saltitar.

Esta Holanda tem um jogo tão impertinente e aleivoso que é impossível não gostar dela.

 

(publicado também aqui)

Mundial no sofá (2)


joaomsandre,

Imagem The Telegraph 

 

Espanha 1 – Holanda 5

 

Antes de mais a piada má: os novos reis de Espanha e Holanda: Willem Alexander I e Felipe VI. Os holandeses ficaram a dever um golo ao novo monarca espanhol.

 

O óbvio: nunca um campeão do mundo se afundou assim numa partida do mundial seguinte. Foi a derrota mais pesada da Espanha desde que esteve num mundial do Brasil. A única equipa que foi campeã depois de ter perdido de tal forma foi a Alemanha em 1954, contra a Hungria (mas jogou com as reservas nesse jogo).

 

A realidade. É tentador falar em laranja mecânica depois desta vitória, mas foi menos laranja mecânica e mais colapso completo da Espanha. Casillas demonstrou o risco que é um guarda-redes jogar encontros deste tipo sem ter maiores rotinas. Na final da Liga dos Campeões já tinha demonstrado que a falta de rodagem lhe tinha sido nociva. Aqui isso ficou ainda mais claro. Também é tentador falar no fim do tiki-taka, mas isso é simplista. O tiki-taka foi adoptado por ser o sistema que melhor se adequava ao tipo de jogadores que a espanha produz. Com jogadores de 1,70 m, não faz sentido jogar de outra forma. Além disso, quando se tem Xavi, Iniesta, Alonso, Busquets, etc, seria ridículo optar por outras soluções. O problema é que já estão a ficar velhos. Alonso jogou benzinho mas está abaixo do que pode fisicamente. Xavi está talvez a 50% de há 4 anos (dar-lhe-ia um lugar na maior parte das selecções, mas já não é o pivot da Espanha). Iniesta foi o melhor espanhol, mas também ele está pior.

 

A Espanha de há 4 anos, transplantada para Salvador na noite de ontem, não teria sido humilhada. Não teria a superioridade de então, uma vez que a oposição teve 4 anos para se adaptar ao estilo, mas continuaria a ser dominante. Teriam mantido a posse de bola até cansarem os holandeses e depois aproveitariamum erro. Com uma equipa mais cansada, menos sedenta de glória e mais lenta, já não foi possível.

 

Os holandeses jogaram com um sistema excelente para enfrentar a Espanha. Com a Espanha a depender exclusivamente dos laterais para darem largura ao jogo e com os dois médios “ala” a cortarem para dentro, os laterais holandeses puderam subir e enfrentar Azpilicueta e Alba cedo, negando-lhes o espaço para poderem ganhar velocidade. Isto abriu algum espaço junto às laterais que Diego Costa foi utilizando inicialmente (o penalty nasce de um movimento desses) mas apenas até os holandeses se adaptarem a essas movimentações. A solução espanhola teria sido fazer entrar Pedro e – na ausência de Juan Mata – Cazorla, mais cedo para dar largura ao jogo e esticar a defesa holandesa. Não o fizeram e apenas congestionaram o centro do terreno. Sem a capacidade de outrora, não se deram bem com a ausência de espaços e com a defesa musculada dos holandeses.

 

No ataque a Holanda optou por um sistema simples: dar liberdade a van Persie, Robben e Sneijder. Com a Espanha a jogar uma defesa tão adiantada, Robben estava nas suas sete quintas para acelerar. Sneijder não tinha muitos espaços mas ia ocupando Busquets e Alonso. Com o avanço dos laterais, Robben ia caindo para as alas para atrair os centrais e abrir espaços para passes para as costas destes a procurar van Persie. O golo do empate holandês exemplificou isto perfeitamente. Piqué foi atraído para Robben por medo que a sua velocidade causasse estragos nas costas de Azpilicueta e não se apercebeu que se colocou muito mais abaixo do que o resto da defesa, permitindo que van Persie ficasse em jogo para o passe de Blind.

 

Piqué também demonstrou as suas limitações. É um bom defesa, não nos enganemos, mas é um jogador muito propenso a erros. Foi essa a razão para Ferguson o ter deixado sair do Manchester United. No Barcelona ele deu-se bem devido às constantes correcções e incentivos de Puyol, um jogador muito intenso, focado e um verdadeiro líder da defesa. Entre Ramos e Piqué a Espanha não tem líderes e isso viu-se ontem.

 

Como escrevi acima, há a tentação de classificar esta Holanda como um regresso da laranja mecânica, mas isso ignora as lacunas ainda existentes. A verdade é que uma equipa jogando em 4-3-3 (por oposição ao 4-2-3-1) poderá causar-lhes grandes problemas, para isso bastando ter um médio defensivo único que dê cobertura à defesa (e mantenha o olho em Sneijder), laterais e não sejam a única fonte de largura no ataque e alas que não permitam aos laterais ofensivos holandeses que subam. Um simples desenho táctico deste tipo poderia causar muitos problemas aos holandeses. Uma equipa que segue este tipo de desenho é, por exemplo, Portugal.

 

Já a Espanha tem que resistir (e irá fazê-lo) ao canto da sereia de abandonar o tiki-taka. O sistema não deixou de ser bom, apenas deixou de ter à sua disposição o seu expoente máximo: Xavi. A opção terá de passar por trocar o guarda-redes (Casillas continua a ser excepcional, mas não está em forma) dando oportunidade a de Gea; jogar com Cazorla e Pedro e fazer sair Xavi e Costa, dando o lugar de falso 9 a Silva e fazendo Iniesta ir para o meio. Se o fizerem e se conseguirem ultrapassar psicologicamente a humilhação (del Bosque estará já a trabalhar nisso), a Espanha ainda poderá regressar e oferecer-nos um belo duelo no grupo.

 

Diego Costa: é um bom jogador com enorme personalidade e certamente que não estará arrependido. Mas é óbvio que depois de uma época a jogar no sistema de Simeone, não poderá ser a primeira opção para o tiki-taka espanhol. Terá de ser usado como suplente de impacto. Ainda não vimos tudo dele no mundial.

 

Olho no Chile: se conseguirem ter eficácia na concretização terão excelentes hipóteses de vencer o grupo.

 

*- troquei o título. O outro era esquisito.

A Suíça, essa nação universalista


enlil,

A seleção helvética de partida para o Mundial de Futebol

Se há país neste mundo com muito recheio mas sem miolo é a Suíça. Estamos a falar de uma lassa confederação de três línguas e meia, pese embora nenhum linguista se atreva a reconhecer em público que o romanche não passa de uma espécie de alemão disléxico e mal amanhado por pastores, arranhado por menos de 35.000 almas, o quanto baste para ainda se dividir em 5 dialectos, se calhar cada um fermentado à sombra da sua montanha. Daqui resulta que no estrangeiro os suíços falem inglês entre eles – ouvi eu – que é a melhor língua neutra que têm para não renegarem o bairrismo. A Suíça é ainda a mais perfeita e perseverante democracia participativa do planeta, que só funciona graças à extrema contenção e fleuma dos seus cidadãos, aptos a absterem-se por tudo e por nada do que lhes é posto a referendo.

E aqui chegamos à indesmentível conclusão que a Suíça se apresenta como a nação mais inveterada e extravagante entre as que vão tentar a sorte no Mundial de futebol, nem sendo preciso evocar os sarilhos técnicos que provoca o hasteamento da sua original bandeira quadrada.  

Pois fiquem sabendo que embora não tenha minaretes a Suíça tem uma selecção de futebol recheada de apelidos com escassíssima ressonância alpina tais como Granit Xhaka, Xherdan Shaqiri, Ricardo Rodriguez, Johan Djourou, Haris Seferović, Mario Gavranović, Admir Mehmedi, Josip Drmić, ou o leviano Gelson Fernandes (já disse que sou sportinguista?) A causa desta congregação aeroportuária de jogadores é de tal modo óbvia que até eu a posso explicar sem encomendar qualquer “extudo” (pronúncia de pivot noticioso) ao Politécnico de Schwyz, como agora se faz para ter razão: famosos pela agilidade dos seus dedinhos de relojoeiro, os suíços votam um dialéctico desprezo a tudo que mexe com os pés; foi assim que alijaram nos emigrantes a faina futebolística, tal como já fazem com todos os ofícios que não sejam engrenar relógios de corda, contar moedas e ordenhar vaquinhas.

Mas o supra sumo do estrangeirismo da seleção helvética é o seu meio-campo constituído por Blerim Dzemaili, Ghokan Inler e Valon Behrami. Seria possível encontrar nomenclatura menos helvética? Pois não, já que são de origem, respectivamente: albanesa, turca, albanesa.  E há outra peculiaridade que os junta, precisamente a de jogarem todos juntos no Nápoles – foi só tirá-los dali e pô-los aqui. Ora aqui está o que vai facilitar deveras a vida a Omar Hitzfeld, o treinador com as sobrancelhas mais severas do certame.

Em suma a Suíça é o sonho húmido da União Europeia, especialmente nos seus defeitos.

A voz dos teus egrégios avós


enlil,

Bem sei que a partir do dia 11 estareis todos, Portugal e o restante planeta, suspensos do menor suspiro de Cristiano Ronaldo, aflitos por notícias sobre a sua digestão do pequeno-almoço, dependentes, como se da vossa ventura se tratasse, das délficas exegeses de cada um dos seus esgares, proporcionadas por uma bataria de experimentados nigromantes televisivos.

Ouso porém, apesar da magnitude das vossas inquietações, distrair-vos para um assunto radicalmente diferente de Cristiano Ronaldo. Imploro-vos que façam o favor de desviarem o vosso olhar, por um átomo de tempo, do que sucede lá no topo da Equipa de Todos Nós (EDTN) e repararem no que discretamente está ocorrendo lá em baixo, nas catacumbas da defesa.

Desde os tempos de Gentile, senhor de assento seguro no panteão dos maiores facínoras que alguma vez pisaram relvados internacionais e o mais orwelliano dos futebolistas porque tudo o que fazia era o oposto do nome que tinha, desde os idos desse Mundial espanhol de 1982 que ninguém se lembra de haver uma seleção de futebol – nem mesmo anteriores e famigeradas EsDTN que em bravatas ultrapassaram a aura de uma Argentina ou de um Uruguai, mérito que só os portugueses ainda não reconheceram – cuja defesa é constituída por uma quadrilha de contumazes capaz de suplantar em ruindade a de Jesse James.  

Enquanto todos os outros jogadores do campeonato, por cortesia com os anfitriões, afinarão fintas e jogadas pelo ritmo do samba, da defesa da EDTN o mundo aguarda que se inspirem na dança dos pauliteiros de Miranda ou que se comportem como um rio infestado de jacarés que aos adversários tentarão atravessar a vau.

botinhas lindas

À extrema-direita evoluirá João Pereira, aquele que com Jorge Jesus será um dos últimos espécimes de uma etnia indígena em vias de extinção: o autêntico lisboeta. Bem mais fiel às sua origens do que Ulisses, João Pereira inscreveu-as a fogo e sangue nas botas: na direita “Meia Laranja” na esquerda “Casal Ventoso” – quem percebe de antropologia e de semiótica perceberá o que isto significa. Um dos mais inolvidáveis momentos da minha perseverante carreira de espectador de futebol, foram aqueles segundos do glorioso desafio entre o meu periclitante Sporting e o pujantíssimo Manchester City, para os oitavos-de-final da Liga Europa 2011-2012, em que na disputa de uma bola fora, o nosso Joãozinho, estribado no seu 1,72m, fez peitaça ao 1,89 do irascível Balotelli. Tal terá sido a protérvia do olhar de Pereira que o italiano de crista loira, por uma vez jamais repetida, se temeu e retrocedeu.

Ao centro da defesa da EDTN plantar-se-ão Bruno Alves e Pepe, dois pilares do inferno.

O caso de Bruno Alves explica-se pela genealogia. Ele é filho de Washington, um arranca-corações brasileiro que passeou pelos relvados nortenhos, entre Espinho e Varzim, na bíblica década de 70. À sua volta Washington criava uma área de exclusão de pelo menos 5 metros quadrados, imposta pela sua torreada figura, pela carantonha e, dizem, por um jorro de recomendações à família no criativo linguajar carioca – ali ninguém tinha licença de entrar. Ó maravilhas da genética: tal pai, tal filho.

Washington aproximando-se

Washington de perto 

Quanto a Pepe, a sua fama napoleónica já rodou o mundo e até a depurada revista americana “New Republic”, tão interessada no exotismo do futebol como em entomologia, deu voz ao escritor Jess Walter para exprimir o que todos pensamos: como foi inolvidável a cena em que Pepe, após ter espalmado no chão o peneirento Javier Casquero, daquele clube chamado Getafe, ainda o recalcou com um par de pontapés nas costas – uma ode à virilidade, à contumácia, ao capitalismo selvagem.

Até te adeceibo todo

À extrema-esquerda prontifica-se Fábio Coentrão, que apesar das perturbações capilares provém desse alfobre de lidadores que é Caxinas. Haverá mesmo um “caxinas style”, tese a ser um dia desenvolvida pelo saudoso conceptualista Carlos Queirós, um futebol com pêlos na palma das mãos, todo feito de vagalhões, rochedos e espinhas de peixe, que foi interpretado com desvelo por estilistas como Paulinho Santos ou André. Pois Fábio será o terceiro cateto deste triângulo, forma que representa, como se sabe, a ordem primordial das coisas.  

Estes quatro cavaleiros por assim dizer do Apocalipse, serão o patriótico último reduto de Portugal no sertão baiano, as nossas linhas de Torres em plena floresta amazónica, o garbo e esplendor do estro lusitano que relampejarão no planalto central. A nossa alma de fadistas, toureiros, capas negras, malteses, marialvas e raianos estará de certeza muito mais caldeada nos feitos dos patibulares João, Bruno, Pepe e Fábio, do que nos peitorais publicitários de Cristiano, ou no penteado cosmopolita de Ronaldo.

Obrigado pela vossa paciência. Ide agora sofrer em descanso pela EDTN.

Contra os profetas da desgraça


Pedro Correia,

1. Uma das melhores exibições de sempre de Cristiano Ronaldo com a camisola das quinas. Uma das melhores exibições de sempre de um jogador ao serviço da selecção nacional. Três golos marcados esta noite pelo nosso capitão, o melhor futebolista do mundo, em casa do adversário: um com o pé direito, dois com o esquerdo, a uma velocidade estonteante. Somando-se ao que já tinha marcado no primeiro jogo contra a Suécia, disputado há quatro dias em Lisboa. Desta vez, em território sueco, podia ter marcado mais três. Vontade não lhe faltou. Inspiração também não. Ele fez a diferença, vulgarizando o seu principal antagonista, Ibrahimovic, nas duas mãos que permitiram o acesso português ao Mundial do Brasil.

 

2. Dois jogos, duas vitórias nesta etapa decisiva. Dois jogos em que nunca jogámos para o empate. Ao contrário do que costumava acontecer no tempo em que nos contentávamos com vitórias morais, prometendo muito mas acabando sempre por voar baixinho.

 

3. Um jogador, por melhor que seja, não consegue fazer tudo sozinho. Cristiano Ronaldo esteve muito bem acompanhado em todos os sectores do terreno. Desde a baliza, onde Rui Patrício evidenciou segurança, à defesa – com um eficiente bloco central formado por Pepe e Bruno Alves – e aos alas, com destaque para uma excelente exibição de João Pereira, sem esquecer o meio-campo, onde João Moutinho voltou a brilhar (fantástico passe para o terceiro golo de Ronaldo!), excepto no capítulo da finalização. Hugo Almeida, um ponta-de-lança sem ponta de qualidade, insiste em destacar-se pela negativa. Sobra-lhe em centímetros o que lhe falta em talento e pontaria.

 

4. O seleccionador nacional, Paulo Bento, é um treinador muito previsível. Mas hoje arriscou, lançando William Carvalho como médio defensivo em estreia absoluta na selecção A. E acertou: o jovem jogador do Sporting cumpriu com mérito a missão que lhe foi confiada. Haveremos de ouvir falar muito dele: é um valor em contínua ascensão no futebol português.

 

5. Desde 2000 não falhamos a presença numa fase final de um Mundial ou de um Europeu, o que diz muito sobre a evolução do nosso futebol. Lá estaremos novamente, em 2014. Contra os profetas da desgraça, que preenchem horas e horas e horas de antena televisiva a traçar negros vaticínios raramente confirmados pelos factos. Azar deles. E benefício nosso.

 

6. Depois da exibição de hoje e de repetir na Suécia o número de golos que já tinha marcado há dois meses contra a Irlanda do Norte nesta campanha rumo ao Brasil, Cristiano Ronaldo merece ainda mais receber a Bola de Ouro. Será um escândalo se isso não suceder, embora possa deixar muito satisfeito o ridículo senhor Blatter.

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