Bestas e bestiais


enlil,

A corporação dos moderados está a ter o seu momento glória a propósito da débâcle da selecção nacional.

Munidos de uma impermeável rectitude, os moderados saíram à liça a verberar os que até às 17h do dia 16 de Junho cantavam loas ao futebol lusitano e a partir das 19h propalaram os seus horrores evidentes. A dedo foram acusados de duplicidade quase todos os comentadores, esse escol infalível por natureza, cujos patriarcas são o cólico Joaquim Rita e o bilioso Rui Santos, detentores do dom da certeza instantânea, aquela que descreve o passado a partir do presente como se estivesse a realizar futuro. Os moderados escusaram-se porém de denunciar esta essência do negócio daqueles cavalheiros (que sem as suas certezas estariam desempregados) mas apenas a moralidade dos seus prognósticos.

Além do escabroso pendor moralista os moderados, na sua infinita moderação, brandiram ainda a mais danosa das armas: a fatalidade sistémica. Afirmando que selecção, sendo um sistema, não pode ser óptimo antes de um jogo e péssimo depois dele, então, ou a culpa (cá vem a moral) é do sistema, ou o sistema é bom e não pode ser posto em causa por causa de um mero desafio. Tudo isto vem sintetizado no célebre axioma: “não se pode passar de besta a bestial”.

A controvérsia filosófica atingiu tais proporções que infectou algumas das melhores meninges da pátria, como a do Dr. Pulido Valente ou a do Dr. José Neves, que explanaram os seus pareceres no opinativo “Público” de sexta 20. Pulido Valente jogou ao seu nível habitual, aquela espécie de tiki-taka que só ele sabe: a bosta do nosso futebol ilustra o nosso “patriotismo espúrio” (uma bosta) que eivou a bosta da nossa política, para rematar que Portugal é uma bosta – golo! Quatro páginas antes José Neves exibe o seu gabarito académico relacionando o penálti à Panenka com o ralenti cinematográfico, vislumbre estribado numa “sugestão” conceptual de Patrice Blouin que não é futebolista nem cineasta mas, obviamente, historiador. No fim do seu ensaio adverte-nos não se percebe bem do quê, mas envolve a dialética “loucura”-“racionalidade” que é a forma de os cientistas sociais tacharem os gentios de idiotas.

Pois a despeito de tão notáveis autoridades há que afirmar que a moderação servirá à política e à culinária, indústrias onde a justeza do tempero impede que se estraguem os ingredientes, mas no futebol e noutras artes similares é mesmo verdade que se pode passar num ápice de besta a bestial e vice-versa. Não sendo inimputável, o futebol é irresponsável e um dos privilégios que confere aos adeptos é precisamente o de assobiar a besta de um jogador que errou miseravelmente um remate e, no momento seguinte, aplaudir o seu golo bestial. É para isso que vamos ao futebol, para transferirmos e para nos alienarmos – não é para termos razão.

E a selecção? Ora, um bando de fedelhos demasiado bem pagos, descomandados por um teimoso. Claro que se ganharem no Domingo e depois ao Ghana, não hesitarei em enaltecer a persistência e a coerência de Paulo Bento, além da codícia dos nossos bravos, dando por bem empregues os € 26,79 que paguei à Sport.TV.

 

(também aqui)

Penso rápido (6)


Pedro Correia,

A motivação é crucial, no desporto como na vida. Repare-se na selecção espanhola, com despedida pré-anunciada do Campeonato do Mundo. Porquê? Défice de motivação: estes jogadores fatigados e enfastiados já conquistaram tudo. São campeões mundiais em título e bicampeões da Europa. Extinguiu-se neles a sede de vencer. Deviam ter dado lugar a outros antes deste Mundial para o ciclo se renovar com a cadência que o Eclesiastes recomenda na sua milenar sabedoria: “Há tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado.” Ganhar sempre também cansa.

Incentivos ao visionamento do Mundial, #1


Ana Cláudia Vicente,

Olá, internet.

Após meses intensamente analógicos, tomei balanço para reconfigurar certa mini-série de que alguns se recordarão ainda, e cuja desculpa, desta vez, é o campeonato mundial de futebol em curso.

Quem vos trago, para começar?

Um defesa-central que estará há vários dias descoroçoado com a derrota imposta pelo país anfitrião. Falo de Vedran Ćorluka, membro da Selecção Nacional da Croácia.

 [Vedran à civil]

    

  [Vedran devidamente fardado]

 

Ultrapassado que foi o problema do penteado à Paulinho Cascavel (à Rui Costa, vá), atentemos no “alto e poderoso” jogador do Lokomotiv de Moscovo. Parece que a jorna lhe não está a correr mal, mas até ao lavar dos cestos… 

Penso rápido (5)


Pedro Correia,

Os heróis de ontem são os vilões de hoje. Os mesmos que há 48 horas endeusavam até à náusea a equipa portuguesa apressam-se a figurar na primeira fila do apedrejamento aos ídolos de véspera. É um velho desporto nacional, a que as redes sociais conferem nova e mais ruidosa dimensão: vergastar quem está na mó de baixo. Pepe, vítima de um aparente curto-circuito nos neurónios, simulou agredir um adversário no chão. De repente, eis Portugal transformado num país de Pepes.

Penso rápido (4)


Pedro Correia,

O pior do jogo de ontem, em que Portugal saiu de Salvador goleado pela Alemanha, não foi a derrota: foi a atitude de Pepe. Não gosto de ver ninguém agredir quem está caído. Seja no desporto, seja na política, seja na vida de todos os dias. Infelizmente, Pepe reincide nesta conduta antidesportiva. À semelhança de outros, fora da esfera do futebol. Prepotentes com os fracos, subservientes com os fortes.

Mundial no sofá (4)


joaomsandre,

 

Portugal 0 – 4 Alemanha

 

Muito sinceramente não sabia o que escrever. Por alguma coisa quis fazer a minha antevisão ontem, para poder deixar clara a minha capacidade de análise ou, em alternativa, para não poder fugir à evidência de uma antevisão errada.

 

Na minha previsão de equipa titular do lado alemão falhei com Schürrle. Jogou antes Götze. Já no resto parece-me que não me enganei com nada de especial. Özil de facto andou a arrastar os centrais pelo campo fora (fosse à casa de banho e Bruno Alves segui-lo-ia), o segundo golo veio de uma bola parada e Bruno Alves teve a tradicional paragem cerebral que deu o 3-0. Já a falta de apoio a Coentrão deu em alemães a acelerar por aquele flanco como se em trânsito entre Munique e Berlim. Neste aspecto antecipei que Boateng não daria muito apoio, mas não foi bem verdade. Soube subir o suficiente para oferecer mais uma linha de passe e ajudar às triangulações.

 

Portugal até começou bem a meio-campo. Veloso pressionou bem Lahm, Meireles caiu sobre Kroos e Khedira, ainda sem ritmo, não conseguia mudar o rumo. Foi no entanto sol de pouca dura e questão apenas da Alemanha ajustar o estilo de jogo. Kroos descaiu para o meio campo para ajudar a transformar o 4-2-3-1 num 4-3-3-0 e os portugueses perderam completamente o controlo do jogo. Os alemães passaram a ter duas linhas de três jogadores no meio campo que conseguiam fazer triangulações e passes e a mais avançada destas era exímia a correr para as costas da defesa e aproveitar as bolas dos restantes jogadores.

 

O único caminho que Portugal procurava eram as bolas longas para Almeida tocar para Ronaldo e um ou outra iniciativa individual de Nani. Este esteve tão mal nas suas decisões e na sua insistência em jogar individualmente que só abona em favor de Jorge Mendes que tenha renovado no ano passado o contrato com o Manchester United. A lesão de Almeida foi um golpe duro, no entanto. Éder oferece mais movimento e energia, mas luta e ocupa menos os centrais adversários, que era o necessário para dar espaços a Ronaldo.

 

Quando Pepe foi expulso, a descida de Meireles para a defesa não me pareceu opção descabida para o resto do jogo. Sem avançado de referência do lado adversário, colocar um médio nessa posição não seria assim tão má ideia. Além disso, mais um jogador capaz de sair a jogar e colocar uma ou outra bola longa em Ronaldo poderia ter ajudado a manter a chama viva. Só que Portugal tinha a cabeça já no intervalo e não soube manter a concentração. Mais uma vez se provou que Ronaldo não tem líder em campo. Ronaldo é capitão, mas não é aquele líder capaz de manter a equipa focada, como Figo, Fernando Couto ou outros o teriam feito.

 

A segunda parte foi morna. A Alemanha manteve energias e foi ensaiando acções de ataque, tratando o resto do jogo como um treino. Mais que o quarto golo, o pior da segunda parte foi mesmo a lesão de Coentrão, que não tem substituto natural (canhoto) que dê largura ao corredor e ofereça liberdade a Ronaldo. Assumindo que a lesão é daquelas que dá para mês e meio de estaleiro, a melhor opção de Paulo Bento para os outros dois jogos poderá ser enfiar Veloso naquele lado e fazer entrar William Carvalho. André Almeida é voluntarioso e até poderia cumprir o papel no lado direito, mas a falta de pé esquerdo é aqui um problema.

 

Não sei que fará Bento, mas precisa de colocar ordem na equipa. Como não acredito que os alemães façam tanto jeitinho a Klinsmann, é bem possível que duas vitórias cheguem para passar. Muito dependerá da resposta que os jogadores derem a este resultado.

 

Três notas finais:

1. A grande penalidade é discutível, obviamente. Götze deixa-se cair sem que João Pereira tivesse feito muito para isso. Há no entanto puxões do defesa e ao alemão só restou deixar-se cair. Se fosse ao contrário talvez o árbitro não marcasse, mas segundo as regras de beneficiar o atacante, é difícil criticar demasiado o árbitro. Além disso, poderia ter dado o vermelho.

2. Pepe demonstrou uma enorme infantilidade e mereceria que o enfiassem num avião de volta a Portugal. Há 5 ou 10 anos levaria um amarelo e ficaria o assunto resolvido. Hoje em dia os árbitros têm indicação para darem vermelho. Claríssimo. O facto de ser provocado é indiferente.

3. No ecrã onde vi o jogo era difícil dizê-lo, mas fiquei com a sensação que Éder teria sido mesmo travado em falta (não percebi se houve ou não contacto). Um golo não teria mudado nada nesse jogo, mas teria dado outro lustro ao resultado (os alemães talvez abrandassem ainda mais com um satisfatório 3-1) e outra confiança a Ronaldo.

Um comentário que resume quase tudo


Sérgio de Almeida Correia,

Revisitando 2002


eventhorizon,

Depois de um estágio a anos-luz – em distância e em clima – do país anfitrião do torneio e de uma estreia miserável no Mundial de 2002, tudo o que falta à selecção portuguesa para reproduzir a prestação de 2002 é uma vitória dilatada pela fúria no segundo jogo e um bravo voluntário para esmurrar o árbitro no jogo que a recambiará de volta para este lado do Atlântico. E nem precisamos de nos preocupar com a eventualidade de não contarmos com o nosso caceteiro-mor, Pepe; Bruno Alves ou João Pereira decerto estarão à altura da ocasião.

 

(claro, há ainda aquela história de o seleccionador de 2002 ter perdido uns milhares de euros num casino de Macau, mas nada nos garante que Bento não tenha também dado um salto a Atlantic City)

Ora bolas


Rui Rocha,

O salário médio alemão é superior a três mil euros mensais. O português pouco ultrapassa os mil euros mensais. A taxa de desemprego na Alemanha ronda os cinco por cento enquanto em Portugal supera os quinze por cento. Mas sim, o que verdadeiramente nos tira do sério é que os alemães nos tenham enfiado quatro secos.

Força Portugal, que já só te faltam as qualidades


enlil,

Em geral há a referir que a seleção da Alemanha foi a única que não apresentou qualquer penteado maluco e que a selecção portuguesa manteve intacta a sua reputação e ser a que mais zaragateia com os árbitros.

Na primeira parte Portugal tentou desenvolver a sua táctica a dois tempos: na primeira fase de transição (é assim que agora se diz, burro) o jogador que conduz a bola pergunta onde está o Ronaldo; na segunda fase manda um bico na bola na direcção genérica dele com um recado: desenvencilha-te.

Ainda antes do terceiro golo a indiscreta câmara apanha Ronaldo à conversa com Khedira, pelas caras que ambos faziam não é de todo ilegítimo pensar que o alemão perguntava-lhe admirado: “O que se passa convosco?” e Cristiano respondeu: “É para que saibas as merdas em que estou metido.”

Na segunda parte os alemães treinaram o meiinho com os jogadores portugueses – a passo que estava muito calor. Tanto calor que os nossos altivamente nem se mexeram só para lhes fazer pirraça. O estado de espírito que mostraram revelou quão fundo lhes terão calado as palavras de Paulo Bento ao intervalo.

Um a um:

Rui Patrício – Como não é menos que os outros ofereceu o 4º golo aos alemães.

João Pereira – Estava de certeza a ouvir o relato da RTP1; como os comentadores acharam que derrubar um adversário na área não poderia de modo algum ser penalty, ficou surpreendido.

Pepe – Primeiro tentou estrafegar o avançado alemão, mas em vez da traqueia só conseguiu puxar-lhe pela gola. Como o árbitro estava de costas e não viu, esperou que este se virasse para ir dar um turra no adversário e encharcá-lo de perdigotos. Bem pensado.

Bruno Alves – Bom o amortecimento da bola para o alemão pôr o pé no 3º golo deles.

Ricardo Costa – Não precisou de estragar.

Fábio Coentrão – Como não estava aafazer nada de errado, a macumba arranjou maneira de o lesionar. Pior ainda: ser substituído por André Almeida.

André Almeida – entrou com instruções explícitas para aproveitar o tempo a treinar os centros, mais umas sessões e fica capaz.

Miguel Veloso – O pilar irremovível do meio campo português; por mais que os alemães corressem à volta dele nunca abdicou da posição.

Raul Meireles – excelentes passes de 2 metros para trás, mesmo quando os tudescos, falsos, lhe abriam um horizonte de 20 metros.

Moutinho – jogo astuto; para complicar os contra-ataques alemães, sempre que pegava na bola ia embrulhar-se com dois adversários, obrigando-os a reposicionarem-se.

Bruno Almeida – O bigode mais foleiro do campeonato só poderia convocar maus espíritos. Não teve tempo de jogar tão mal como é hábito porque a macumba castigou-lhe a desfaçatez pilosa.

Nani – Tentou mas não conseguiu.

Cristiano Ronaldo – Sabe mas não pôde.

Eder – Quis mas não sabe.

 

(também aqui)