Ao contrário do que alguns imaginam, o futebol não é só feito de esquemas tácticos, jogadas a régua e esquadro, losangos, bolas paradas e “transições ofensivas”. O futebol é sobretudo uma fascinante soma de momentos mágicos que perduram na memória colectiva, ampliam a nossa crença nas potencialidades da espécie humana e demonstram onde é possível chegar quando talento e esforço se conjugam. Momentos como o que ontem testemunhámos ao minuto 36 do Austrália-Espanha: bem servido por Iniesta, David Villa marca um extraordinário golo de calcanhar. O seu 59º jogo pela Roja. E também o último: minutos depois, aos 56′, o maior marcador da história da selecção espanhola, goleador máximo do Campeonato da Europa de 2008 e do Campeonato do Mundo de 2010, saía de campo sob um coro de merecidos aplausos. Espanha, prematuramente afastada do Mundial do Brasil, já não tinha nada a ganhar excepto aquele desafio que só contava para cumprir calendário. Mas Villa bateu-se em campo, neste último jogo, como se fosse o primeiro da sua exemplar carreira. Porque queria abandonar a selecção de cabeça levantada.
Era ele que ali estava – mas era mais do que ele, como o homem do leme do poema de Fernando Pessoa: era já também o mito. Um mito vivo, feito de carne e osso. E também de lágrimas, que não conseguiu reprimir ao sentar-se no banco de suplentes. Quem disse que um herói não chora?
Futebol é isto.


Entretanto, o capitão da nossa seleção (que merece o NAO), depois de ter declarado, presunçoso, que este era o ano de Portugal, veio, derrotado, afirmar que Portugal não tem qualidade suficiente.
Nem sequer lhe ocorreu (ou lhe mandaram) dizer que Portugal está não sei quantos lugares acima do Gana no ranking e que teriam, no último jogo, de vencer as adversidades (e o adversário, claro).
Que voltem mas é já sexta de manhãzinha.
Quem diz que um herói não chora deve ser a mesma pessoa que afirma que os homens também o não fazem…
Excelente texto . E verdadeiro. Adorei ler.