A mãe chama-lhe a metafísica-especulativa-substancial-nervosa-da-criança- oprimida. Nun
A mãe chama-lhe a metafísica-especulativa-substancial-nerv
Ai que nervos
Conclusão: a culpa é da mãe.
A mãe chama-lhe a metafísica-especulativa-substancial-nervosa-da-criança- oprimida. Nun
A mãe chama-lhe a metafísica-especulativa-substancial-nerv
Ai que nervos
Conclusão: a culpa é da mãe.
A identificação com a personagem é a sorte do comum mortal. A televisão salva-nos. Série atrás de série, gravações numa box preta que controla os conteúdos do mundo, e podemos apenas vegetar. Pensar em quê? Tudo o que sentimos está no pequeno ecrã. Os personagens já fizeram o esforço para conseguir os mesmos objectivos e fracassaram, para quê tentar? No próximo episódio haverá solução, ou não. A vida real não precisa de existir.
A borboleta está ali a fingir que decora a mesa com estilo. É uma peça com algum requinte. O homem encara aquela prisão de vidro – as asas desenhadas de perfeição máxima – e imagina que a borboleta seja feliz. Feliz com a vida dele, testemunha da sua história. Acaricia a peça de vidro, a casa da borboleta, agradece-lhe a companhia, e volta ao trabalho.
Vou deixar as chaves em cima da tua mesa de trabalho. Não, vou deixar na caixa de correio da tua casa. Ou então mando entregar num envelope. Carta registada. Não. Vou esperar que saias do emprego, hora de almoço, vou na tua direção e direi:
Mete as chaves da tua casa onde quiseres.
É uma boa ideia.
Seria uma boa ideia, mas sei que não te posso ver. Se te vejo, ganhas e volta tudo ao mesmo.
As chaves vão, dentro de um saco de plástico fechado, para a conduta do lixo. Espero que tenhas muitas cópias.
Os pais bebiam um vinho tinto que não a fazia morrer de inveja. A adolescente mantinha-se na água. Se fosse vinho branco, talvez sofresse de uma qualquer tentação, talvez até pedisse para provar. Não, não faria isso. Água é bom. É saudável. Enumerou mentalmente os shots bebidos na festa de sábado. Pensou na figura triste na casa de banho. Na forma disfarçada como a melhor amiga a tinha deixado em casa, sem alarmes paternos, sem sermões. Tudo tranquilo. A melhor amiga dissera:
A Joana comeu qualquer coisa estragada. Eu também estou mal disposta. Tivemos azar.
Lembrou-se do gosto a mentol das pastilhas para chupar. O álcool não resiste ao mentol. Ou resiste? Será que o cheiro a tequilla barata desaparece? Seja como for, a mãe limitou-se a concordar, a dizer que há muitas intoxicações alimentares. Joana deitou-se e dormiu até tarde. Durante o fim de semana portou-se bem. Estudou para os exames. Viu um filme antigo com a mãe, ambas no sofá a fingir uma imensa tranquilidade. O pai no computador.
Agora, Joana bebe água e pensa na próxima festa de sexta-feira. Tem de deixar as misturas, vinho, cerveja, shots. Não pode voltar a cair para o lado. Concentrou-se na água. O pai, a fazer as palavras cruzadas enquanto comia a carne de porco à alentejana, perguntou:
Qual é a capital do Burundi? Vocês sabem?
Joana sentiu o cérebro diminuir e a boca abriu-se e respondeu
Bujumbura.
O casal estava sentado numa esplanada da cidade do Porto. Não sentiam a urgência de uma conversa. Bebiam com calma um vinho branco, fresco. Não sentiam urgência em mexer o corpo. Ao lado sentou-se uma mulher com um vestido salmão, colar de pérolas e a primeira mulher, a bebericar o vinho, disse:
“Podia ser a tua mulher. Ficaria a pensar coisas sobre nós. A magicar.”
“Não fizemos nada.”
“Pois não.”
“Pensamos.”
“Sim, pensamos em fazer o que nunca pensámos fazer antes.”
O pior de ser a mulher mais feia da sala levava a gestos impensados: tinha sempre flores frescas na sua mesa; a mala era de marca; o fato de saia casaco imaculado; a joalharia não era bijutaria. Todos os bens de sedução a gritarem beleza não anulavam o que murchara na mulher há anos. Era o tempo. E old tricks don’t work anymore. Ela não podia esconder a idade ou as rugas ou a falta de boa pele e outras maleitas. A beleza é um consolo da natureza, a mulher feia é uma inconveniência.
A vida cabe numa malinha feia e com rodas, uma mala que não se fecha e não ostenta nenhum marca. O pensamento pareceu-lhe absurdo, o homem continuou a andar no tapete rolante, sentindo-se um desperdício, podia parar e ser levado. A sua vida não estava na mala, mas no avião estacionado na manga 44B. O resto da sua vida.
A mulher viu o filme no avião pela terceira vez. Não gostava, nem deixava de gostar da história ou dos actores, sabendo que para muitos o filme, aquele filme, se tornou por razões insuspeitas uma forma de culto. Viu com calma a tentar não pensar na turbulência do avião, feliz com o efeito dos comprimidos que tomara. Quando a mulher perguntou a razão para tanta complicação, ocorreu-lhe que um homem não faria a pergunta da mesma forma. Não tinha como confirmar a sua teoria. Estava sozinha, num avião, a 39 mil pés, longe da terra e parecia-lhe muito fácil complicar tudo.
Tal como na série, velha, americana, pouco risível, deixo-te esta carta para que saibas que fui. Fui sem qualquer culpa ou ressentimento. Não ficas privado de nada. Levo apenas o meu corpo e uma mala que odeias por ser cor de laranja. Acintosa, tinhas dito. Para onde vou será tropical, fará calor, será estranho e lento. Tu ficarás nesta vidinha de todos os dias e eu, lamento, não tenho nada para te desejar.
Gemuce pensou na instalação como um organismo vivo, em movimento. Como uma bicicleta. O artista moçambicano não queria apenas explorar a ideia do selim, desse banco portável que nos leva em cima de duas rodas. Queria um pouco mais e a instalação foi crescendo. É uma metáfora da vida que não precisa de explicação. A vida não precisa de orientações específicas, vive-se. Pega-se na bicicleta e vai-se.
A miúda não entende a razão para não beber shots. A idade parece-lhe ser a apropriada. A lei diz que não. Tentou no primeiro bar. Depois decidiu tentar a sorte com uma amiga que parece mais velha. Nada. Sentada no lambril do passeio, as unhas dos pés pintadas de preto exibem-se com orgulho nas sandálias compensadas. Um rapaz com um sorriso torto mostra-lhe uma garrafa de litro de vinho e pergunta:
“Queres?”
É sexta-feira à noite. É a noite. Só precisa de estar em casa às duas da manhã. Fica a olhar para o rapaz mais velho. É uma pena não gostar de vinho.
A insónia tinha várias origens e a mulher contabilizava as ralações enquanto passava os olhos por um livro. Fazia questão de trazer um livro consigo, para matar o tempo, para não ter de falar com ninguém. É conveniente. As pessoas respeitam e, ao mesmo tempo, acha ela, confere um certo estatuto. Pelas noites, os livros são apenas objectos nervosos que não a acalmam, as letras a pularem umas nas outras, como quem joga num trampolim, a mulher incapaz de se concentrar numa única frase. Insiste. Não quer pensar no futuro, na decisão que terá de anunciar aos filhos no fim de semana. É melhor voltar ao princípio do livro. Ir para um lar não é nada de extraordinário. Talvez extraordinário seja o facto de ser ela, aos oitenta e dois anos, a decidir que vai sem pedir opinião. Terão biblioteca no lar? Ou será que lhe chamam casa de repouso? A insónia permanecerá. Não consegue dizer o nome do personagem principal do livro que tem nas mãos, mas sabe de cor o horário das visitas do lar.
O Senhor Adriano tem poucas coisas. Diz ele. Vende o vinho que faz lá atrás, num anexo que não tem nome, não é adega, nem lagar, nem casa de arrumos, serve para o que for. Depende da altura do ano. O Senhor Adriano gosta de conversar, em especial com o Pirolas, o cão minúsculo e nervoso que anda sempre a rondar. Diz-me
“Sabe, o Pirolas também gosta de uma pinga de vinho. Quer experimentar?”
O homem, vizinho por circunstâncias especiais, estadia que se prevê de curta duração, sorri e encolhe os ombros. É o mesmo que dizer
“Vamos lá a isso.”

Sim, a mulher concordou, a vida é só isso. A personagem do filme interrogava-se e ela nem por isso, o filme era uma treta, a vida era o que era. Só isso? Pois, só isso. A ignorância era uma bênção, tinham-lhe garantido. O “só isso” era uma forma assertiva de manter a ignorância. A ver se a dor se afasta.