Lisboa no coração


Patrícia Reis,

O casal de turistas chegara a Lisboa para ver se se mantinham como casal, se sobreviviam ao desgaste de dez anos de relação, de equívocos, de imensos silêncios. Na Baixa Pombalina, cada um em seu passeio, viram as montras, compraram algumas recordações sem importância. Olharam o rio e o arco da Rua Augusta e passaram o dia inteiro a passear sem trocar uma palavra digna desse nome. Quando voltaram ao seu país, elogiaram Portugal, a comida, o vinho e recordaram uma viagem idílica que nunca  existiu. Mostraram as fotografias e garantiram, via twitter, via facebook, que a viagem foi uma lua-de-mel. Francamente, Lisboa merecia um casal melhor.

 

estás tão atrasado, estúpido


Patrícia Reis,

O relógio mostra e garante o massacre do tempo, a impossibilidade de gerir melhor a vidinha, os horários, as obrigações, por isso, perto das dez da manhã, o homem pensou que já tinha subido o Everest. A saber: acordou os filhos, deu-lhes pequeno-almoço, levou-os à escola, foi ao dentista e rumou ao emprego com a cara ainda dormente. Em surdina, só para si, olhando para o relógio castigador, lamentou a estupidez de não conseguir paralisar os segundos. Ele? Estava anestesiado, só não conseguia parar de pensar que estava atrasado. Estúpido, concluía.

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só pode usar a casa de banho se for cliente, sim?


Patrícia Reis,

sim, sim, mas olhe que eu vou fazer nas calças, pela simples razão de que ao fim de oito meses de gravidez será complicado ser cliente primeiro e urinar a seguir, portanto aconselho vivamente o seguinte: alguém vá buscar uma esfregona. E traga-me uma garrafa de água, se faz favor, sim? Natural, sem gás.

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