
Virgínia Woolf
(1888-1942)

Madres de la Plaza de Mayo
Não podia deixar de prestar homenagem nesta rubrica às mulheres argentinas que, quase 30 anos depois de ter terminado a ditadura, todas as quintas-feiras se reúnem em vigília na Plaza de Mayo, em frente à Casa Rosada ( sede do governo) reclamando informação sobre os familiares desaparecidos durante aquele período sangrento da História da Argentina.
Muitos saberão que estas mulheres constituíram a Associación Madres de Mayo, através da qual continuam a procurar as pistas dos seus familiares e dos seus algozes. Cristina Kirchner já realçou o papel relevante destas mulheres, cuja luta tem permitido sentar no banco dos réus alguns dos criminosos, entre os quais se contam vários membros da Igreja Católica, entretanto condenados como cúmplices.
Admito que num país sem memória, que homenageia PIDES e onde a “bufaria” ainda é modo de vida e ganha pão para alguns, esta escolha pareça estranha. Para mim é uma escolha natural homenagear quem tem memória e não perdoa a criminosos.
Espero, porém, que muitos guardem ainda boas recordações da mulher portuguesa de hoje.

Margaret Thatcher
Foi a primeira mulher a governar uma democracia europeia e dispensa quaisquer apresentações, tal como a maioria das que se seguirão neste espaço até final do mês. A notoriedade que alcançaram é suficiente para justificar a escolha.
Também a mulher portuguesa de hoje estará bem presente na memória de todos.
A lembrar este Dia Internacional da Mulher, o ministro da Presidência falou a uma plateia quase toda feminina sobre preocupações que afligem hoje as mulheres. Melhor fôra que uma mulher do governo falasse para uma plateia de homens, mas adiante. Silva Pereira apontou o dedo, designadamente, ao que hoje se chama «violência de género».
Acontece que, por acaso, o Dia da Violência de Género é 25 de Novembro, mas não faz mal. Só que embirro com a expressão. É importada, obviamente, mas embirro. Violência de género, afinal, é o quê? A violência é sempre uma coisa do género mau, ou não? A violência passou a ter sexo?
Tenho “mixed feellings” em relação aos “Dias de…” . O “Dia Internacional da Mulher” não é, por isso, excepção. Creio, no entanto, que por vezes vale a pena lembrar estas coisas às mulheres mais jovens, para que não esqueçam que ainda há pouco mais de 30 anos a mulher portuguesa estava totalmente sob a dependência dos homens, para coisas tão elementares como viajar para o estrangeiro.
Vejo o DIM como uma oportunidade para enaltecer as mulheres, cuja vida é (foi) um exemplo que merece ser realçado.
Quanto ao resto, expressei a minha opinião, nesta Carta à Mulher Portuguesa.

Maria do Céu da Conceição
Neste Dia Internacional da Mulher, escolhi para esta rubrica uma mulher portuguesa. Creio que perceberão a escolha se lerem isto.

Simone Weil
(1909-1943)
Dispensa apresentações e é sobejamente conhecida de todos, a história da “Virgem Vermelha”.
Nasceu em Paris e foi pelos franceses que morreu, em protesto contra as condições em que eram mantidos os prisioneiros de guerra durante a ocupação alemã.
Um dos legados que nos deixou foi a virtualidade de um pensamento enxuto, descomprometido e pautado por valores, bem patente na sua vida e na obra literária, onde o misticismo se mistura com uma filosofia de vida ascética.
Um exemplo ilustrativo da sua foram de pensar e viver seu pensamento é a resposta que um dia dá a um padre apostado em baptizá-la: "Não quero ser adoptada por um círculo, viver entre pessoas que dizem nós e ser parte de uma gente. Sinto que é necessário permanecer só, uma estranha e uma exilada em relação a qualquer círculo humano, sem excepção".
Quanto aos partidos escreveu: "São organismos oficialmente constituídos de modo a matar nas almas o sentido da verdade e da justiça".
Mas Simone Weil tinha valores e lutava por eles. Durante a Guerra Civil de Espanha esteve ao lado dos republicanos, viajou até à Alemanha para tentar perceber as causas da ascensão ao poder dos nazis, trabalhou na Renault (porque quis viver como uma operária) e, embora assumindo valores da esquerda, insurgiu-se contra o capitalismo de Estado instalado na Rússia, que comparou ao fascismo. Desiludida com a Revolução Russa, afirmou um dia: "O ópio do Povo não é a religião, mas sim a revolução.”

Rugiatu Turay
Rugiatu Turay nasceu na Serra Leoa . É jornalista, tem 32 anos e foi sujeita à excisão feminina. Tinha apenas 12 anos e era órfã.
Inconformada, iniciou uma luta para evitar o sofrimento das crianças africanas a esta prática ignominiosa.
Sabe que o peço a pagar pode ser a morte, mas embora conhecendo o perigo que corre, fundou em 2002 o Amazonian Initiative Movement, com um grupo de mulheres que conheceu num campo de refugiados na Guiné, onde esteve durante a guerra civil na Serra Leoa. Desde a criação do movimento, quatro activistas receberam ameaças de morte e abandonaram o movimento. Apesar de ameaçada- e mesmo depois de ser raptada por outras mulheres que a obrigaram a caminhar nua pelas ruas da cidade de Knema- continua a sua luta. Visita aldeias e vai às escolas, onde esclarece as excisoras sobre os perigos e consequências da excisão e tenta convencê-las a renunciar à sua prática.
Afirma que já conseguiu demover cerca de 700 mulheres em 111 aldeias da Serra Leoa. Será uma ínfima parte, mas é pelo menos um começo.

Emily Davison
(1872-1913)
Acto de coragem ou acidente? Esta é a pergunta que muitas pessoas ainda hoje fazem quando se fala de Emily Davison, sufragista britânica que iniciou a sua luta em 1906, ao ingressar no Woman’s Social and Politic Union, fundado por Emmelinne Pankhurst. Foi presa várias vezes e fez sempre greve de fome.
No dia 4 de Junho de 1913, durante o grande Derby de Epson a que sempre assistia a família real, decidiu aproveitar a oportunidade para chamar a atenção da realeza e da alta sociedade britânica para a luta das sufragistas.
Atravessou a cerca de segurança, invadiu a pista de corridas e quando o cavalo Anmer, propriedade do Rei se aproximou, postou-se à sua frente.
Há quem defenda que o propósito de Emily Davison era apenas agarrar as rédeas do cavalo e fazê-lo parar, mas terá falhado a tentativa, sendo trucidada.
A verdade é que a sua morte a elevou à condição de mártir, símbolo das sufragistas e feministas.
A mulher portuguesa de hoje é também um símbolo dos anos 60 e 70 do século passado.

Emmeline Pankhurst
(1857-1928)
Será porventura difícil a muitas mulheres portuguesas, com menos de 35 anos, imaginar um mundo sem televisão, ou o tempo em que as mulheres não podiam votar. Não só em Portugal , como no resto do mundo, esse direito só foi alcançado ao longo do século XX ( apenas a Nova Zelândia reconheceu o direito ao voto das mulheres, em 1893) e, na maioria dos países, só depois da I Guerra Mundial
Foi graças à coragem de algumas mulheres, que iniciaram a sua luta pelo direito ao voto ( as sufragistas) sujeitando-se a sofrimentos e enxovalhos, que ao longo do século XX os países europeus foram alargando às mulheres esse direito
Nessa luta,muitas mulheres se destacaram. Emmeline Pankhurst foi uma delas. Líder do movimento feminista britânico, fundou a Liga para o Sufrágio Feminino em 1889. Com suas filhas, Christabel e Estrella, fundou em 1903 a União Feminina Social e Política (sufragistas). Opondo-se à discriminação das mulheres na vida pública e privada, organizaram acções ( por vezes violentas) contra polícias, ministros e Parlamento, atraindo a simpatia de muitas mulheres que a elas se juntaram.
As sufragistas inglesas consideravam legítimo o uso da violência, pelo que eram frequentemente detidas e sujeitas a maus tratos, conseguindo assim atrair cada vez mais simpatizantes para a sua causa.
Em 1918, a Inglaterra alargaria o direito de voto às mulheres. Nesta altura, já Emmeline Pankhurst abandonara, desiludida, a doutrina socialista e passara a ser simpatizante dos Conservadores. Será por este partido que será eleita , em 1919, a primeira mulher no Parlamento britânico: Lady Astor. Curiosamente, era americana, país que só viria a reconhecer às mulheres o direito de voto, em 1920.
Em Portugal, o direito de voto só foi alargado a todas as mulheres depois do 25 de Abril. No entanto, esta mulher votou em 1911. Foi a primeira mulher portuguesa (e uma das primeiras da Europa) a fazê-lo, aproveitando uma falha na Lei.
A partir de amanhã iniciarei, no Delito de Opinião, a rubrica “Mulheres do Mundo”, que se prolongará até final do mês. É uma forma de me associar à comemoração do dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.
“Portugal no Feminino” e “Blogs no Feminino” são outras duas rubricas que ao longo do mês de Março poderão ler aqui.