Quotas para que vos quero


Teresa Ribeiro,

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Quotas. É uma polémica recorrente, mesmo entre mulheres, portanto muito apropriada para assinalar este dia. Durante alguns anos fui sensível ao argumento de que o estabelecimento de quotas para mulheres as inferiorizava, mas depois as estatísticas entraram em diálogo comigo e falaram mais alto. Sim, felizmente há mulheres que chegam ao topo sem que para tal tenham sido empurradas por quotas. A ascensão feita assim é o que está certo. Sem equívocos, nem margem para dúvidas quanto a mérito e competência. Mas a realidade diz-nos que estas situações são de excepção. Basta consultar as primeiras páginas dos jornais de hoje para perceber qual o estado da arte: “Mulheres têm menos chances de ter bom emprego”, diz o Público; “Na UE uma em cada três posições de gestão é ocupada por mulheres”, noticia o I; “G20 – grupo dos poderosos só tem Merkel e May” e “PSI 20 – quatro empresas sem nenhuma administradora”, anuncia o DN.

No entanto sabe-se que as mulheres estão em maioria entre os que terminam licenciaturas e que apresentam mais qualificações. E que é assim em Portugal e no mundo. Como se explica isto? Recorrendo ao primado bíblico “a culpa é delas”?

Deveremos então concluir que este enorme contingente, que não consegue subir na carreira de acordo com as suas competências e no limite franquear as portas do poder é todo desprovido de “soft skills”, como agora se usa dizer? Ou o que lhes falta é – vamos lá a chamar os bois pelos nomes – tão somente algo que a Natureza não lhes deu: o sexo adequado para alcançar o topo?

Quando não existe mais nada, o que nos resta é o pragmatismo. E é por isso que me tornei a favor das quotas. Se não vai a bem, vai a mal. Porque sem quotas bem podem as mulheres esperar sentadas por oportunidades e reconhecimento iguais.

Ui, ui, hoje é o meu dia!


Teresa Ribeiro,

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Quando me perguntam se gosto de ser mulher, respondo que não. Lamento, mas neste aspecto não soube evoluir. Desde que percebi, ainda na primeira infância, que o mundo é dos homens, este sentimento ficou-me colado aos ossos e não há campanha publicitária de pensos higiénicos que me faça mudar de ideias.

Esta rejeição, que cresceu comigo, nada tem a ver com problemas de identidade sexual. Gosto de cor-de-rosa, de bebés e de sapatos, portanto não há qualquer dúvida, sou muito estereotipada, o que paradoxalmente só veio agravar a relação conflitual que tenho com o meu género desde que me conheço.

Gostava em menina de brincar com bonecas, mas não da terna displicência do meu avô, que só tinha conversas com o meu primo, mas não sabia do que falar comigo. Identificava-me com as princesas das histórias de encantar, mas detestava que me apontassem as regras de comportamento “próprias de uma menina” – sempre mais restritivas que as dos meninos – e ainda mais que fossem a minha mãe, as minhas tias e a minha avó a ditá-las. Gostei de crescer com estas mulheres, mas revoltou-me perceber que, por razões diferentes, todas abdicaram de uma maneira ou de outra do que podiam ter sido só pelo facto de terem nascido com um par de ovários.

Na vida adulta pus-me à prova. De um lado os meus ressentimentos e reivindicações feministas, do outro a realidade, esse tapete onde caí tantas vezes por KO. E tem sido esta a minha vida. Sempre a sopesar o que sou e o que somos. Eu e as mulheres. Eu e elas. Eu que sou elas.

Admiro as mulheres que dizem que se orgulham de ser mulheres, mas quando as oiço não consigo iludir a tristeza funda que me nasce da consciência de que o fazem pela necessidade de se afirmarem como iguais.

A misoginia, a doença infantil do homem das cavernas, continuará a discriminar, segregar, matar, estropiar e escravizar milhões de mulheres em todo o mundo. E é a consciência disto que me mata à nascença o prazer de pertencer à tribo e ainda mais de festejar esta data. Festejar o quê?

Tipo A rh XX


Teresa Ribeiro,

Soube, desde o começo, o que me estava reservado e não gostei. Era a menina da história. Filha única e só com primos machos. O meu pai ficou decepcionado quando nasci, porque desejava, como quase todos os pais na época, um menino “para jogar à bola”. O meu avô, quando queria humilhar o meu primo mais velho, dizia-lhe que eu era mais despachada, “apesar de ser uma rapariga”. Para se vingar, quando nos encontrávamos para o almoço de domingo em casa dos nossos avós, ele batia-me e eu ripostava com uma gana feita da necessidade de não me vergar. Era a minha guerra dos sexos dominical, que me deixava coberta de nódoas negras e com amargos de boca, pois ele vencia-me sempre e eu sentia – talvez por preconceito – que era por ter uma força de uma qualidade diferente da minha, mil vezes superior.

Aquelas arrochadas semanais tornaram-me competitiva. Até à mudança de idade era uma miúda empenhada em brincadeiras que exigiam competências físicas. Vencer era, numa corrida, deixar rapazes para trás. Crescer era dar rédea curta às fantasias que se intrometiam na minha luta e me levavam também a gostar de bonecas e a identificar-me com as princesas das histórias de encantar.

Com o tempo, as hormonas levaram-me a melhor. Apesar das minhas denegações infantis, fiquei na cabeça com um mapa neuronal cor-de-rosa cheio de idiossincrasias em tons fúcsia. Não consigo até hoje explicar como é que a miúda que se recusava a vestir saias acabou a adorar sapatos, malas e brincos. Não é só a cultura, Simone. Eu tive uma filha e sei. Ainda recém-nascida a pediatra topou-a: “Ela é muito feminina”, disse-me. Espantei-me com esse diagnóstico tão precoce, mas depressa percebi que tinha acertado em cheio. Aos dois anos, quando a mesma médica a mandou caminhar de uma ponta a outra do consultório para vermos se ela tinha pé chato, pôs-se a rebolar as ancas enquanto andava, tal e qual a Marilyn Monroe.

Não é só cultura. É também uma coisa que nos corre nas veias, tipo A rh XX. Eu nem queria ser menina. Quando na escola aprendi que as mulheres eram consideradas sociologicamente uma minoria, houve um nó cá dentro que se apertou ainda mais. Mas apesar do desconforto que a condição feminina sempre me despertou, identifico-me com o meu género.

O que é puramente cultural é tudo o que leva uma criança a sentir que está em desvantagem só porque nasceu sem pilinha.

A soma dos dias


Ana Vidal,


Percebo a utilidade da existência de um “Dia da Mulher” pelo muito, muitíssimo, que há ainda para conquistar até chegarmos todas (países árabes, áfrica profunda e oriente incluídos) a um patamar justo de igualdade de direitos, num mundo quase exclusivamente patriarcal. Mas não posso deixar de pensar que enquanto não houver também um “Dia do Homem”, a contabilidade é desastrosa: em cada ano há 1 dia da mulher para 364 do homem.


Dia Internacional da Costela de Adão


Rui Rocha,

No Vaticano, os cardeais interromperão o processo de preparação do Conclave para participar numa pequena celebração comemorativa da data. Oito irmãs contemplativas, da Ordem da Visitação de Santa Maria, abandonarão, por não mais de uma hora, o mosteiro Mater Ecclesiae, situado    nas proximidades da Praça de S. Pedro. E lavarão os pés dos purpurados, aliviando-os, pela água, do peso que têm suportado que é o do corpo, mas é também o da decisão que nos próximos dias terão de tomar. Se a humanidade continuar a ser o que sempre foi, a irmã Maria Begoña Sancho Navarro não conseguirá conter um levíssimo suspiro quando chegar o momento de enxugar, com uma cálida toalha de fio turco, as calosidades do cardeal Bertone.

 

Dia da Mulher


fiodeprumo,

Daqui a umas duas horas comemora-se o Dia da Mulher. Embora reconheça a importância da data, não sou muito dada a este tipo de celebrações colectivas. Até porque afinal há um mundo em que as mulheres praticamente “não existem” e um outro que, congratulando-se dos direitos que lhes concede, escamoteia aqueles que, na realidade, lhes não faculta.

Nunca pretendi ser igual a um homem. Gosto muito de ser mulher. Mas ainda sinto necessidade de reivindicar a igualdade de oportunidades. Que está longe de poder considerar-se alcançada, apesar de se pretender, sempre, apresentar a minoria que o conseguiu, como um exemplo do que “todas” podem obter.

Sou uma privilegiada. Possuo um curso, tenho trabalho, pertenci e pertenço a um certo meio cultural e até tive um palmito de cara, que, ao fim e ao cabo, me prejudicou mais do que facilitou. Mas sei que uma parte significativa das mulheres portuguesas não dispõe disto. É certo que trabalhei muito para chegar até aqui, porque nasci numa época em que o meu género ou era propriedade do pai ou do marido. Mas, a verdade é que cheguei e há quem não consiga.

O Dia da Mulher deixará de ter importância quando for igualmente fácil ou difícil o acesso de ambos os géneros aos lugares para que se encontram devidamente preparados!

Um dia não são dias


lauraramos,

A Olympe de Gouges, humanista, política e mulher de letras, autora da “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, que ousou tentar acordar a consciência de Maria Antonieta, Rainha de França

É quase ridículo, convenhamos, que uma efeméride de âmbito internacional tenha por objecto uma ‘entidade maioritária’ como é o caso do sexo feminino. Somos mais de metade da humanidade no planeta Terra. A que propósito, então?

Custa-me dar o braço a torcer… se custa. Mas é verdade que a batalha não está ganha. Sofisticou-se, até. E só por isso, pragmaticamente, continua a valer a pena assinalar o que parece desnecessário e anacrónico.

O machismo adquiriu manhas maquiavélicas. O feminismo pecou por excesso. O masculinismo desponta. E muitas mulheres das gerações ulteriores àquela a que pertenço conduzem-se como autênticas novas-ricas da igualdade de género. Desbaratam-na, dissipam-na, como se a sociedade lhes devesse mais do que a justiça da equidade e esperasse delas um comportamento semelhante ao da velha auctoritas masculina.

Não quero um mundo contrário ao que ainda vivi. Quero um mundo igualitário, sem desequilíbrios.

E gostaria que todas mulheres soubessem ultrapassar o estado de menoridade que as faz concorrer negativamente entre si mesmas; gostaria que deixassem de se comportar conforme os modelos ancestrais em que foram educadas, consciente ou inconscientemente, pelas suas próprias mães e pais. Gostaria de sentir solidariedade entre elas, mas uma solidariedade normal e não militante: lúcida, capaz de vencer racionalmente o instinto atávico da destruição predadora entre congéneres.

Já lá vai o tempo em que as mulheres se distinguiam e se afirmavam pelo seu homem, à sombra de quem eram alguém. Já lá vai o tempo em que se batiam por eles, resumindo a isso a sua conquista de personalidade. Portanto, haverá razão para lutarmos como se um homem, muitos homens, nos governassem? A ‘economia’ emotiva das nossas relações continua a ser isso? Eles? Teremos crescido assim tão pouco?

Há muito a fazer. E muitos Dias da Mulher por festejar…

Até que sejamos pares; até que ocupemos os postos de poder que nos competem.

Até que sejamos iguais a nós próprias.

Por mim, vou daqui festejar discretamente, relembrando o tempo em que o meu pai foi obrigado, com bonomia, a reconhecer que a vida o tinha surpreendido porque as filhas – apesar da forma e do molde e da não expectativa – tinham feito bem mais e melhor que muitos filhos. Devo dizer que, mesmo sem querer, foi a sua grande estatura que muito contribuiu para essas pequenas olimpíadas…