Soube, desde o começo, o que me estava reservado e não gostei. Era a menina da história. Filha única e só com primos machos. O meu pai ficou decepcionado quando nasci, porque desejava, como quase todos os pais na época, um menino “para jogar à bola”. O meu avô, quando queria humilhar o meu primo mais velho, dizia-lhe que eu era mais despachada, “apesar de ser uma rapariga”. Para se vingar, quando nos encontrávamos para o almoço de domingo em casa dos nossos avós, ele batia-me e eu ripostava com uma gana feita da necessidade de não me vergar. Era a minha guerra dos sexos dominical, que me deixava coberta de nódoas negras e com amargos de boca, pois ele vencia-me sempre e eu sentia – talvez por preconceito – que era por ter uma força de uma qualidade diferente da minha, mil vezes superior.
Aquelas arrochadas semanais tornaram-me competitiva. Até à mudança de idade era uma miúda empenhada em brincadeiras que exigiam competências físicas. Vencer era, numa corrida, deixar rapazes para trás. Crescer era dar rédea curta às fantasias que se intrometiam na minha luta e me levavam também a gostar de bonecas e a identificar-me com as princesas das histórias de encantar.
Com o tempo, as hormonas levaram-me a melhor. Apesar das minhas denegações infantis, fiquei na cabeça com um mapa neuronal cor-de-rosa cheio de idiossincrasias em tons fúcsia. Não consigo até hoje explicar como é que a miúda que se recusava a vestir saias acabou a adorar sapatos, malas e brincos. Não é só a cultura, Simone. Eu tive uma filha e sei. Ainda recém-nascida a pediatra topou-a: “Ela é muito feminina”, disse-me. Espantei-me com esse diagnóstico tão precoce, mas depressa percebi que tinha acertado em cheio. Aos dois anos, quando a mesma médica a mandou caminhar de uma ponta a outra do consultório para vermos se ela tinha pé chato, pôs-se a rebolar as ancas enquanto andava, tal e qual a Marilyn Monroe.
Não é só cultura. É também uma coisa que nos corre nas veias, tipo A rh XX. Eu nem queria ser menina. Quando na escola aprendi que as mulheres eram consideradas sociologicamente uma minoria, houve um nó cá dentro que se apertou ainda mais. Mas apesar do desconforto que a condição feminina sempre me despertou, identifico-me com o meu género.
O que é puramente cultural é tudo o que leva uma criança a sentir que está em desvantagem só porque nasceu sem pilinha.


As mulheres não nasceram sem pilinha! Não nasceram com faltas. A pilinha é um artifício da natureza, que é fêmea, para melhor propagação da espécie. E já agora, melhor e mais divertida, convenhamos!
O primeiro relato do Génesis fala na criação de um ser fêmea e macho, porque à semelhança de Deus, necessariamente fêmea e macho. Só o segundo relato se torna uma concessão à dominação masculina então já em vigor na sociedade.
Adorei o rebolar de ancas. Tão feminino!:)
Qué qu´eles procuram? Será os cromossomas xy?
Quando eles se queixam muito dos cromossomas XX, aconselho-os sempre a procurar consolo junto dos cromossomas XY…
Há estudos que demonstram diferenças de comportamento consoante o sexo, em bebés com horas de vida.
Porque, com 2 anos, já imitam os pais. Se as mães, no recato do lar, imitam Marylin… as criancinhas imitam.
Sabia que ao mencionar a Marilyn corria este risco. A sua dedução faz sentido, mas acredite se quiser, nunca me rebolei. Talvez por causa daqueles meus antecedentes de maria rapaz.
Acredito.
Faltou um smile 🙂
Passei a minha infância a brincar com carrinhos Matchbox e a jogar à bola com o meu irmão, porque o rapaz era o rei da casa e só as brincadeiras e os brinquedos dele prestavam. Tive dificuldades, mais tarde, principalmente a escolher roupas femininas, passei o liceu de t-shirt, jeans e sapatilhas. E só se me tornou fácil, quando descobri, dentro de mim, a miúda que ficara abafada por baixo da crença de que só as coisas dos rapazes tinham valor. Ou seja: tive de pôr de lado a “cultura” que me impingiram para descobrir a natureza, aquela que nasceu comigo. Tive de reaprender a ser feminina 😉
Como eu te entendo, Cristina. No meu caso a miúda revelava-se, mas só no remanso do lar, onde podia brincar com as bonecas longe dos olhos do mundo.
e mostra ao fazer isso que alem de inteligente é cientificamente coerente = a diferença entre mulher e homem é enorme mesmo ao nivel da celula.
Se lhe disserem o contrario não acredite e tenha orgulho em ser diferente.
Não tenho orgulho nem deixo de ter, cristof. Mas sim, as diferenças comportamentais revelam-se muito antes de a cultura poder condicionar o comportamento. Tenho dois filhos, um rapaz e a uma rapariga, de modo que fui testemunha privilegiada disso mesmo.
Muito bem. Viva a diferença.
Sim, sim. O que eu gostava mesmo era que se aprendesse a lidar com ela.