Happy birthday, Mr. Attenborough


Pedro Correia,

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Atingir o centenário sem cinzas nem mausoléus, estando vivo e com saúde, é quanto basta para justificar celebrações. Mais ainda tratando-se de uma personalidade que tanto fez ao longo de décadas – e continua a fazer – pelo verdadeiro ambientalismo, sem indignações selectivas, preocupando-se genuinamente com o destino deste planeta azul que recebemos como legado.

Daí as minhas calorosas felicitações a David Attenborough – prestigiado comunicador, realizador de magníficos documentários, apaixonado defensor da natureza, admirável cidadão do mundo. Festeja hoje cem anos e tem sido, como merece, inundado com mensagens de parabéns.

Sou há muito admirador deste investigador, naturalista e cineasta britânico. Com tão bonita idade, ainda nos dá inestimáveis lições de vida. Respeitar a Terra é a mais preciosa. E mais urgente.

Happy birthday, Mr. Attenborough.

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Pedro Correia,

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Faz hoje cem anos, nascia Agustina Bessa-Luís. Uma das nossas mais importantes prosadoras do século XX – com Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, José Saramago e António Lobo Antunes.

Há exactamente dez anos, vivia ela ainda, escrevi aqui umas linhas indignadas com a forma como o seu espólio literário estava a ser tratado. Reclamei contra a editora que à época a representava – sua chancela durante décadas, que mudara de proprietário pouco antes – e considerei indigno da grande autora esse tratamento que a afastava de antigos e novos leitores: «Não há títulos seus em livros de bolso, a preços acessíveis. E, muito pior, a assumida divulgação das suas obras completas não passou afinal de um projecto abortado.»

Agustina morreu em Junho de 2019, aos 96 anos, sabendo que a sua obra voltara a ser acarinhada. Com nova editora – a Relógio d’Água, de Francisco Vale – e sua filha, Mónica Baldaque, cuidando com esmero do legado da mãe. Nos anos mais recentes, vários títulos há muito fora do mercado regressaram às livrarias, em versões valorizadas por impecável grafismo e capas apelativas. E, mais importante ainda, com notáveis prefácios escritos de propósito para a ocasião. Aliás até já originaram uma obra adicional: O Livro dos Prefácios à Obra de Agustina Bessa-Luís (2022). Se pudesse recomendar um, que serve de admirável introdução à leitura do conjunto dos seus romances, sugeria o que António Barreto (duriense, como ela) escreveu para As Pessoas Felizes. 

As obras vêm ressurgindo a um ritmo regular – não apenas as mais consagradas, desde logo esse marco do romance português que é A Sibila – mas outras que já só estavam disponíveis em bibliotecas, públicas e privadas. Aguardo ainda, por exemplo, a reedição de A Crónica do Cruzado OSB (1976). 

 

Mas o que hoje quero sublinhar é o pulsar da vida que se extrai das páginas redigidas por Agustina. Visão, audição, olfacto, paladar e tacto estão sempre presentes – seja em paisagens campestres, seja em quadros de matriz urbana; seja em cenas contemporâneas, seja em digressões pelo passado, mais próximo ou mais longínquo. 

As suas personagens desfrutam sem remorsos dos prazeres da mesa – facto raro na literatura portuguesa.

Basta ler este delicioso excerto de Fanny Owen: 

«Faziam-se bolachas de amêndoa e de cidrão, assim como refrescos de violeta e de bergamota. Servia-se peru à Cardeal, colorido com cascas de camarões pisados e assado no espeto, receita que só era ainda aviada nas cozinhas de Mesão Frio, assim como a empada de lombo de lebre, assim como leitão de javali com molho picante.»

Ou este, de Os Incuráveis: 

«Na lareira havia sempre essas caldas que se remexem com uma gadanha, se fazem correr do alto com uma colher de pau e esperam a massa das marmeladas ou de chila; ou é a canja que recoze cheia de olha amarela, ou o caldo de cinza onde se banham as passas, ou o cozimento de vinho do Porto onde se temperam fiambres.»

Ou este ainda, de As Pessoas Felizes: 

«A casa dos Torri era, senão pantagruélica, pelo menos duma abundância flamenga. Os almoços de domingo impressionavam pela fartura, e Góia Torri constituía um espectáculo a comer grandes quantidades de trutas, perdizes, lebres e vitela assada. Havia quem se introduzisse na sala de jantar com o pretexto de dar um recado, só para a ver servir-se de feijão-branco com orelheira.»

Sem as raquíticas côdeas de pão omnipresentes em dezenas de obras dos seus confrades das letras. 

 

Tenho a certeza que Agustina gostaria de ser evocada assim, neste dia do seu centésimo aniversário: como alguém que fez da literatura uma celebração da vida.

O que é outra forma de enaltecer a arte.

O triunfo do espírito


lauraramos,

Não gosto de preconceitos.
O preconceito é uma das mais letais armadilhas da inteligência.
Dirão que é uma tarefa difícil essa de reflectir, alimentar convicções e não cair no logro da opinião apriorística, conseguindo manter a equidistância dos puros e a frescura do primeiro olhar. E no entanto é esse o verdadeiro desafio da mente: conhecer-se tão bem a si própria que não se deixe perturbar no exercício pleno que se segue, o de pensar. Pensar os outros, pensar a vida. O que é dizer, as ideias dos outros e a vida dos outros. A isto se resume tudo.
Não gosto de preconceitos.

E é por isso que não me agradam pedestais e altares em vida. Além disso, deve ser tremendo ser santo ou herói, mesmo para quem mereça a libertação da lei da morte de que falava Camões.
O que eu gosto, sim, é de justiça, aquela que se faz do reconhecimento entre iguais. E da vénia que devemos aos outros (e a nós próprios) quando apontamos o dedo a um exemplo vivo de dons de humanidade.
Maria Adelaide de Bragança é uma mulher extraordinária. É o triunfo do espírito. É a racionalidade que vence o azar de nascer numa família ostracizada e marcada pelo estigma, às mãos de um Portugal inculto, provinciano e tacanho. É a racionalidade tão sábia que procura o anonimato. É a racionalidade que faz do dever muito mais do que um destino ditado pela educação, que sempre lhe estaria reservado mas, porém, não necessariamente assim.

«Resistiu ao nazismo, que a condenou à morte por haver acolhido em sua casa muitas pessoas perseguidas pela Gestapo. Dedicou décadas à promoção da ciência e da investigação médica, antes de se consagrar, até ao limite da entrega, aos excluídos. Foi uma mãe para milhares de crianças: recolheu-as das ruas, vestiu-as, alimentou-as, educou-as; em suma, foi assistente social, foi enfermeira, foi cozinheira, foi lavadeira…»

Nunca esquecerei quando contou que não punha cortinas nas janelas: –Para quê? Só acumulam pó e eu não tenho tempo para as limpar.
A sua condecoração vai passar-nos ao lado e não vai encher os salões nem as igrejas.

– Mas qual é o espanto? Caricatos e arrogantes somos nós. E afinal não é estranho que nos seja indiferente  o caso de alguém que demonstrou um sentido extremo do dever, neste país afogado na cultura obsessiva dos direitos.

Um Telefone à Janela


Ana Cláudia Vicente,

Não é difícil figurar a ocasião: apeada em Katowice como correspondente do Daily Telegraph, uma rapariga de quase vinte oito anos cumpria os primeiros dias da tarimba jornalística. O Verão de 1939 não iria durar. Hospedada pelo cônsul britânico, seu patrício, a dita rapariga haveria de ganhar à-vontade suficiente para pedir um dos automóveis do serviço diplomático (dos poucos que ainda tinham direito de  passagem entre a fronteira germano-polaca) para uma caça à notícia e avio de víveres. Do lado de lá traria velas, vinho, muitos rolos para a máquina e aquele que estava destinado a ser o primeiro dos ‘furos’ da sua vida: o avistamento de um aparato militar massivo no sentido polaco, sinal claro de uma manobra de invasão em curso. De volta a Katowice, conseguiria horas depois linha para a embaixada em Varsóvia de maneira a reportar o que vira. Sabemos hoje que começou por não ser levada a sério: ninguém – nenhuma autoridade militar ou diplomática – tinha ainda relatado tal iminência. Mas o tempo tinha passado, por isso Clare percebeu que restava esticar a corda, ou melhor, o fio do telefone até à janela – a ocupação já estava a acontecer. Em menos de quarenta e oito horas o Reino Unido e a França entrariam no conflito. O resto é História.

Ms. Hollingworth saiu ilesa desse e vários outros palcos de guerra, continuando a trabalhar até muito recentemente; reformou-se lá pelos oitenta, e só porque os olhos lhe começaram a falhar. E qualquer perfil biográfico é pródigo em mostrar o quanto fez após aquele primeiro scoop. Cem vezes parabéns, Clare Hollingworth.