
Faz hoje cem anos, nascia Agustina Bessa-Luís. Uma das nossas mais importantes prosadoras do século XX – com Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, José Saramago e António Lobo Antunes.
Há exactamente dez anos, vivia ela ainda, escrevi aqui umas linhas indignadas com a forma como o seu espólio literário estava a ser tratado. Reclamei contra a editora que à época a representava – sua chancela durante décadas, que mudara de proprietário pouco antes – e considerei indigno da grande autora esse tratamento que a afastava de antigos e novos leitores: «Não há títulos seus em livros de bolso, a preços acessíveis. E, muito pior, a assumida divulgação das suas obras completas não passou afinal de um projecto abortado.»
Agustina morreu em Junho de 2019, aos 96 anos, sabendo que a sua obra voltara a ser acarinhada. Com nova editora – a Relógio d’Água, de Francisco Vale – e sua filha, Mónica Baldaque, cuidando com esmero do legado da mãe. Nos anos mais recentes, vários títulos há muito fora do mercado regressaram às livrarias, em versões valorizadas por impecável grafismo e capas apelativas. E, mais importante ainda, com notáveis prefácios escritos de propósito para a ocasião. Aliás até já originaram uma obra adicional: O Livro dos Prefácios à Obra de Agustina Bessa-Luís (2022). Se pudesse recomendar um, que serve de admirável introdução à leitura do conjunto dos seus romances, sugeria o que António Barreto (duriense, como ela) escreveu para As Pessoas Felizes.
As obras vêm ressurgindo a um ritmo regular – não apenas as mais consagradas, desde logo esse marco do romance português que é A Sibila – mas outras que já só estavam disponíveis em bibliotecas, públicas e privadas. Aguardo ainda, por exemplo, a reedição de A Crónica do Cruzado OSB (1976).
Mas o que hoje quero sublinhar é o pulsar da vida que se extrai das páginas redigidas por Agustina. Visão, audição, olfacto, paladar e tacto estão sempre presentes – seja em paisagens campestres, seja em quadros de matriz urbana; seja em cenas contemporâneas, seja em digressões pelo passado, mais próximo ou mais longínquo.
As suas personagens desfrutam sem remorsos dos prazeres da mesa – facto raro na literatura portuguesa.
Basta ler este delicioso excerto de Fanny Owen:
«Faziam-se bolachas de amêndoa e de cidrão, assim como refrescos de violeta e de bergamota. Servia-se peru à Cardeal, colorido com cascas de camarões pisados e assado no espeto, receita que só era ainda aviada nas cozinhas de Mesão Frio, assim como a empada de lombo de lebre, assim como leitão de javali com molho picante.»
Ou este, de Os Incuráveis:
«Na lareira havia sempre essas caldas que se remexem com uma gadanha, se fazem correr do alto com uma colher de pau e esperam a massa das marmeladas ou de chila; ou é a canja que recoze cheia de olha amarela, ou o caldo de cinza onde se banham as passas, ou o cozimento de vinho do Porto onde se temperam fiambres.»
Ou este ainda, de As Pessoas Felizes:
«A casa dos Torri era, senão pantagruélica, pelo menos duma abundância flamenga. Os almoços de domingo impressionavam pela fartura, e Góia Torri constituía um espectáculo a comer grandes quantidades de trutas, perdizes, lebres e vitela assada. Havia quem se introduzisse na sala de jantar com o pretexto de dar um recado, só para a ver servir-se de feijão-branco com orelheira.»
Sem as raquíticas côdeas de pão omnipresentes em dezenas de obras dos seus confrades das letras.
Tenho a certeza que Agustina gostaria de ser evocada assim, neste dia do seu centésimo aniversário: como alguém que fez da literatura uma celebração da vida.
O que é outra forma de enaltecer a arte.

Descascou cebolas?
Nao
Coitado do til. Já foi eliminado também.
Como se não bastassem os exterminadores de consoantes.
Não sei do que gostaria Agustina. Mas sei que foi grande nas letras e como tal será lembrada. Podemos não apreciar o estilo, mas, se existe, há que reconhecer a qualidade. Que, nos seus romances, abunda. Não li “As pessoas felizes”, mas comprei há pouco um romance dela, “Jóia de família”.
Foi – e é. Uma voz única na literatura portuguesa. Inconfundível.
Incomparável.
JSP
Sem dúvida.
Um Bicho da Terra . I Oeuvre au Noir da Crayencour. Remotamente Spinoza, noutro plano e mais chegado aos meus interesses filosóficos.
Não nego,sublinho mesmo Agustina possuir o estilo próprio bem vincado.
Lamentavelmente nunca me tocou.Na minha minha miséria literária via um rol de afirmações gratuitas semeadas nas poucas obras lidas e raramente até ao fim.
Lamento sinceramente,Dos louvo a celebração publicada pelo Pedro Correia para os mais sensíveis ou potenciais admiradores.
De corda ao pescoço
Não precisa de pôr corda ao pescoço. Cada um é livre de admirar os escritores que muito bem entende.
Agustina tem detractores: gente que embirra com o seu estilo literário, que não é para todos os gostos. Como acontece com Aquilino. Ou Saramago.
Há até quem deteste Eça ou Pessoa, por exemplo.
A propósito de Pessoa: de Agustina poderá dizer-se, parafraseando o autor de ‘Mensagem’, que primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Vale a pena voltar a ela para que isso aconteça.
Apenas simbólico o baraço.Mas há quem defenda e pratique fogueiras pedindo guilhotinas,não por aqui ainda.
Todos os escritores portugueses por si mencionados me são caros.Direi de Saramago Nobel ter
um estilo por vezes encornichadinho usando um termo conhecido de Aquilino e talvez Torga.
Tentarei a sua sugestão de me entranhar agustinamente.Assim a tecedeira do meu destino me o não corte antes.
Absolvido
Deve começar-se a ler Agustina precisamente por ‘A Sibila’. Ou até pelo seu romance juvenil, que permaneceu décadas inédito, ‘Deuses de Barro’.