O jornalismo perdeu por goleada


Pedro Correia,

Será talvez pleonástico, mas a RTP cumpriu a sua obrigação de serviço público, sem aspas. Anteontem à noite, ao juntar no mesmo estúdio os 12 candidatos à presidência da Câmara de Lisboa, num debate bem moderado por António José Teixeira. Oportunidade para ouvirmos alguns dos que actuam no chamado “campeonato dos pequenos”, com aspas. Só assim denominado porque outros canais televisivos, como a  SIC e a TVI, decidiram apostar apenas nos mesmos – os do costume, os de sempre.

Critério jornalístico, dizem. Se a pauta que aplicam aos candidatos fosse aplicada pelos espectadores às televisões, nunca ambas, TVI e SIC, teriam destronado o canal público.

 

À mesma hora em que os doze de Lisboa debatiam na RTP, a TVI dava um exemplo inverso, de mau jornalismo, ao reunir num debate cinco dos sete candidatos à câmara de Loures (e porquê Loures e não Odivelas, ou Sintra, ou Matosinhos, ou Almada, ou Gaia, ou Barreiro?) apenas para dar palco ao estridente e histriónico candidato do PSD. Que foi o primeiro a falar, por amável deferência da imoderadora Judite Sousa, e também o único que falou o tempo todo, monopolizando a sessão. Tudo menos um debate, afinal.

Vendo bem, o que estava ali em jogo era uma tentativa quase desesperada da TVI de roubar por 90 minutos – o tempo que dura, em regra, um desafio de futebol – um protagonista habitual da sua concorrente CMTV, que já a ultrapassou em audiência nos canais por cabo. O cabeça de proa do PSD, travestido de Tea Party em Loures, teve o seu momentinho de glória perante a benevolente Judite e o ar acabrunhado dos figurantes neste pseudo-debate onde o melhor da política, que todos dizem ser a que se desenrola no plano autárquico, deu lugar ao pior do futebol.

 

Levado ao colo pela jornalista incapaz de arbitrar, o tipo que só quer aparecer e diz tudo o que possa dar-lhe audiência no campeonato dos cromos televisivos – incluindo injuriar sportinguistas, destratar ciganos e mandar às malvas o Código Penal – ganhou por goleada. Derrotando não os rivais que com ele surgirão nos boletins de voto mas o jornalismo sem aspas, que ainda enaltece a isenção e o pluralismo como imperativos éticos e virtudes cívicas.

As autárquicas só serviram de pretexto.

O debate em Lisboa.


Luís Menezes Leitão,

Assisti ontem ao debate na TVI24 entre (alguns) candidatos à Câmara Municipal de Lisboa. Achei o debate muito fraco e foi uma grande desilusão que as candidatas do centro-direita não tenham sido capazes de contraditar Medina, quando ele insistiu que vai continuar a cobrar aos lisboetas uma taxa inconstitucional, que os outros municípios estão a abolir, com argumentos completamente estapafúrdios, como o facto de os bombeiros concordarem com a taxa. Dos dois debates que já vi deu para perceber que Medina é um péssimo presidente da Câmara que herdou, vindo para os debates apenas dizer generalidades, e que Assunção Cristas está muitos pontos acima de Teresa Leal Coelho. Mas seguramente que o candidato mais bem preparado é João Ferreira, do PCP. Demonstra um profundo conhecimento dos dossiers e tem sempre uma argumentação consistente perante os outros candidatos, levando a que até Teresa Leal Coelho vá muitas vezes atrás do que ele diz. Foi o único capaz de dizer a Medina uma coisa óbvia, a de que não se admite uma Câmara cobrar taxas para prestar socorro à população. Os partidos do centro-direita deveriam por isso pôr os olhos no PCP no que respeita à preparação de candidaturas autárquicas. Graças apenas à boa preparação dos seus candidatos, um partido com uma ideologia totalmente ultrapassada consegue continuar a ser uma força política em Portugal.

A importância de ouvir quem sabe


Pedro Correia,

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Ocorreu ontem à noite na SIC Notícias um bom debate sobre a tragédia dos incêndios que tem devastado Portugal nestas últimas semanas e já consumiu mais de 75 mil hectares de terreno rural e florestal. Um debate para o qual gostaria de vos chamar a atenção: nele não escutámos a habitual ladainha de lugares-comuns e clichês ideológicos que é costume ouvirmos debitar por parte daqueles que, sem nunca terem saído de Lisboa, se atrevem a dar receitas sobre o “reordenamento florestal” do País.

Um debate que juntou António Gonçalves Ferreira, produtor florestal e presidente da União de Floresta Mediterrânica, Henrique Pereira dos Santos, arquitecto paisagista e presidente da Associação da Conservação da Natureza, António Rosa Gomes, especialista em segurança contra incêndios e ex-chefe do comando de bombeiros da Amadora, e Nelson Mateus, jornalista da SIC sediado na zona centro e já com vários anos de experiência em reportagens sobre incêndios agrícolas e florestais.

 

Aqui deixo algumas frases que fui registando:

  • «[Em Portugal há] condições geográficas para termos um crescimento dos matos muito rápido. Aquilo que conta na frente do fogo não são as árvores mas os combustíveis que têm até seis milímetros de espessura: o que conta são as ervas, os matos, as folhas, os ramos finos… Como temos Invernos muito amenos, a vegetação não pára de crescer no Inverno, e temos Verões relativamente húmidos, o que faz que continue a crescer no Verão. E é por isso que arde [sobretudo] a norte do Tejo, tal como em Espanha 50% dos fogos são na Galiza.»
  • «O fogo é uma inevitabilidade. Não vale a pena pensar que é uma probabilidade. E nós temos de aprender a conviver com ele. (…) O fogo é um elemento tão natural como a água, como o vento ou como a terra.»
  • «Não podemos estar a apostar sempre na resolução do problema pondo na medida reactiva aos incêndios todo o esforço, de forma desproporcionada e pouco inteligente. A gestão da emergência não deve ser confundida com a gestão das operações de emergência. A gestão da emergência começa na pré-emergência. Não podemos esperar resultados diferentes se fizermos sempre as coisas da mesma forma.»
  • «Em muitas destas aldeias [ameaçadas pelas chamas] aquilo que encontramos são pessoas idosas, já com poucas forças, já com problemas de saúde. Aí é perfeitamente compreensível que surjam essas queixas sobre a falta de meios. (…) Quando existem vários grandes incêndios coloca-se a questão da gestão de meios. Esta queixa da falta de meios em Mação, quando existem grandes frentes de incêndio em locais muito distintos, é um aspecto que merece uma reflexão dos responsáveis operacionais.»
  • «Devíamos separar fogos urbanos de fogos florestais. A forma de os combater é diferente. O que se faz [nos florestais] é retirar combustíveis da frente de fogo. (…) Os grandes fogos levam-se à extinção, combatem-se nas laterais e de trás para a frente.»
  • «É necessário estruturar devidamente as carreiras de bombeiros, as suas especializações, e construir um edifício que permita que o voluntariado corresponda a uma verdadeira profissionalização da acção por melhoria de competências. (…) O actual modelo formativo está absolutamente desadequeado.»
  • «Esta “reforma da floresta” [em curso] torna-a menos competitiva e em nada contribui para a diminuição do risco de incêndio. Aponta para o eucalipto como principal culpado de todos os males da floresta quando nós sabemos que uma das principais defesas da floresta é a sua rentabilidade. (…) É um conjunto de medidas desgarradas que não responde nem às necessidades da floresta nem às preocupações de todos os agentes a ela ligados.»

 

Transforma-te num comentador da questão síria em cinco simples passos


Rui Rocha,

Com o ataque dos Estados Unidos à Síria, corres o risco de ser convidado para partipar numa discussão televisiva ou radiofónica sobre o tema. Não percebes pevide do assunto? Nada temas. Tens aqui tudo o que é necessário para saires do debate em ombros.

Intervenção inicial: transmite com clareza a tua visão abrangente sobre o problema e as suas diversas implicações. Frase a utilizar: “é demasiado simplista colocar as coisas em termos de Ocidente contra Rússia. O mundo de hoje é multipolar e global. A Síria é um tabuleiro político para onde confluem questões geoestratégicas com ramificações que vão muito além da influência regional”. Olha em redor para todos os outros participantes com ar confiante. Marcaste pontos. Alisa a franja do cabelo como se fosses o Nuno Rogeiro e não contraries a tentativa de intervenção que certamente um outro tertuliano tentará fazer. Já ninguém conseguirá ultrapassar uma análise global tão abrangente como a tua a não ser que invoque uma invasão iminente de marcianos.

Intervenção subsequente: demonstra inequivocamente o teu conhecimento sobre a linha estratégica trilhada pela Rússia como elemento chave no contexto internacional. Frase a utilizar: “a Síria tem uma importância fundamental para Putin (aqui pronuncia como o Zé Milhazes) sobretudo tendo em conta os desenvolvimentos recentes na Península Turca e a ambição política e militar do regime de Ankara”. Mais um tiro certeiro da tua parte. Acabaste de antecipar-te ao tertuliano que tinha prontinha uma intervenção sobre Erdogan. A Turquia é uma referência fundamental nestas discussões. Tu foste o primeiro a trazê-la para a mesa.

3ª Intervenção: é o momento de revelares ao mundo não só o teu domínio da geopolítica mas também do processo histórico de evolução das ideias. Frase a utilizar: “no fundo, tudo isto representa a derrota do pensamento central de Fukuyama (faz descair ligeiramente e com condescendência o teu lábio superior, tal e qual como faz o Miguel Sousa Tavares). A História não acabou… a História não acabou, a verdade é essa. Estamos, não sei se concordarão, perante o regresso da geopolítica”. Concordarão, claro. Com a mesma vontade com que as galinhas concordam sobre a importância do milho. Se não fosse a geopolítica não estavam todos ali, não é?

4ª intervenção: o pensamento humano tem enorme apetência por analogias. Conquista terreno abusando de comparações. Aqui não faz sentido amarrar-te a uma frase pré-definida. Dá largas à tua imaginação. Refere os balcãs, o império austro-húngaro, o Cisma do Ocidente, Hitler, o Czar Branco (não existiu, mas tal como tu, os outros não sabem), Estaline, Richelieu, Pedro o Grande, Zé do Telhado, Tira-Dentes, Átila o Huno, enfim, vai por aí fora. O céu é o limite.

5ª intervenção: está na altura de preparar o KO dos restantes tertulianos. Chegou a hora da filologia. Frase a utilizar: “é preciso termos presente que o território da Síria actual foi sucessivamente colonizado por canaanitas, fenícios, arameus, hebreus, egípcios, sumérios, assírios, babilónios, hititas, persas, gregos e bizantinos. Mas é preciso ter em conta que esta Síria não é a Síria a que Heródoto, por exemplo, se referia. Essa Síria do Heródoto coincidia com o território da Capadócia e por aqui se vê como a própria situação turca está sempre presente nestas questões”. Olha fixamente para os restantes participantes na discussão. Goza o momento. Fodeste-os.

Toda a estupidez é intolerante


Sérgio de Almeida Correia,

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O tema, à partida, afigurava-se interessante. O orador é um reconhecido intelectual de direita, homem culto que sempre assumiu com coragem as suas convicções. Discutir o populismo e a democracia, compreender fenómenos como o Brexit, Le Pen e Trump não poderia ter mais actualidade. Sobre estes temas e outros idênticos já eu próprio participei num debate público e tive intervenções versando esses temas num programa de rádio onde regularmente intervenho. E, pergunto eu, que poderá haver de mais estimulante, mesmo para quem professe ideias contrárias, do que debater com um intelectual da craveira de Jaime Nogueira Pinto essas questões da actualidade política, questões que por esse mundo dividem a direita da esquerda, o pensamento neo-liberal e conservador do socialismo democrático, os radicalismos extremistas dos diversos modelos de democracia?

Confesso que tanto me faz que a intolerância venha da direita xenófoba e racista, de uma “associação de estudantes” de “orientação maoista” (ainda há maoistas?; eles sabem o que é o maoísmo?) ou de um triste Sousa Lara.

Como uma vez mais se prova, a estupidez não tem cor política. Aquilo que aconteceu na Universidade Nova de Lisboa, uma respeitável instituição de ensino, com excelentes professores e pensamento crítico, é mais uma evidência de que muitas vezes os piores sinais vêm de onde menos se espera. De onde não podem vir. Uma academia, uma universidade, é um espaço de excelência para a troca de ideias, para a discussão e o debate, para a divulgação de experiências e conhecimentos. Sem debate e discussão não há pensamento crítico, não há inteligência, não há luz. 

Como qualquer homem livre, avesso à intolerância, às trevas e à estupidez  – esta passagem dá para perceber o nível dos censores: “[n]ão compactuamos com eventos apresentados como debates sob a égide de propaganda ideológica dissimulada de cariz inconstitucional” (sic) –, adepto de um bom debate, de uma discussão acalorada em torno de um punhado de ideias, quero aqui deixar registada a minha indignação e tristeza pelo que aconteceu na Universidade Nova de Lisboa.

Jaime Nogueira Pinto não será um novo Savonarola ou um Giordano Bruno. Ele merece a nossa solidariedade e eu espero que possa apresentar as suas ideias, para que possam ser discutidas, criticadas e apoiadas por quem quiser, tão breve quanto possível numa qualquer outra instituição universitária onde os estudantes se comportem como tal.

Porque só isso poderá ser salutar para a universidade, para a democracia e para a liberdade. Porque as ideias combatem-se com ideias, e não com a estupidez ignorante. Porque a intolerância não é esquerdista. A intolerância é pura e simples estupidez. E só no reino da estupidez é que a manifestação de uma opinião, seja de direita ou de esquerda, é um crime ou um delito. Portugal já tem estupidez que chegue.

Presidenciais (27)


Pedro Correia,

 

 

DEBATES: O MEU BALANÇO

 

Foram 21 debates televisivos a dois, em três canais. Acompanhei-os todos e nunca deixei de apontar um vencedor. Fica agora o balanço.

Paulo de Morais venceu cinco. Contra Belém, Marisa, Edgar, Nóvoa e Marcelo.

 

Marisa Matias venceu também cinco. Contra Nóvoa, Belém, Marcelo, Neto e Edgar.

 

Henrique Neto venceu outros cinco. Contra Edgar, Nóvoa, Marcelo, Belém e Morais.

Marcelo Rebelo de Sousa venceu três. Contra Edgar, Nóvoa e Belém.

 

Sampaio da Nóvoa venceu dois. Contra Edgar e Belém.

 

Edgar Silva venceu um. Contra Belém.

 

Maria de Belém não venceu nenhum.

 

Presidenciais (25)


Pedro Correia,

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Debate Maria de Belém-Sampaio da Nóvoa

 

Maria de Belém anunciou a candidatura à Presidência da República cinco meses após Sampaio da Nóvoa. Competia-lhe portanto, neste debate na TVI que encerrou a série de 21 confrontos televisivos a dois entre os candidatos ao Palácio de Belém, estabelecer as diferenças com o seu antagonista. Mas a ex-ministra da Saúde, salvo em dois ou três momentos demasiado fugazes, foi incapaz de apontar esses contrastes. Tal como esteve longe de conseguir replicar aos apoios de peso que Nóvoa tem granjeado sobretudo à esquerda. Ontem mesmo, escassas horas antes do debate, foi a vez de o actual presidente do PS, Carlos César, anunciar que votará no catedrático nascido em Caminha.

Pedindo emprestada a linguagem futebolística à política, dir-se-ia que Nóvoa parecia jogar em casa. Esteve mais seguro, mais desenvolto, mais afirmativo. Foi cordato, aliás como é costume, mas não deixou de lançar as suas estocadas. E a maior de todas foi a acusação que fez a Maria de Belém de ter “faltado à chamada”, enquanto deputada socialista, quando foi necessário solicitar ao Tribunal Constitucional a fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado para 2012 que cortava pensões e salários da função pública.

“Deixou a outros [deputados] essa responsabilidade”, acusou. Acrescentando de imediato: “Eu não quero um Presidente da República que transfira as suas responsabilidades para outros.”

Maria de Belém até teve um início enérgico, procurando encostar o adversário a estratégias de um “frentismo de extrema-esquerda”. E apontou uma contradição ao candidato, que apesar de fazer constantes proclamações em defesa da “renovação” da política “passa a vida a invocar o apoio de três ex-Presidentes da República, aliás dois deles do PS”.

Nóvoa reverteu esta crítica em elogio, reivindicando o “apoio de muitos socialistas do País inteiro”. E fez questão de transmitir da sua adversária a imagem de uma pessoa hesitante, especialista em “acertar no totobola à segunda-feira”. Dizendo uma vez e outra ser arauto de um “tempo novo”. Linguagem “messiânica”, como Belém referiu. Sem parecer muito segura de poder estar a criticá-lo ou a fazer-lhe outro elogio implícito ao falar assim.

 

Vencedor: Sampaio da Nóvoa

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Frases do debate:

 

Nóvoa  – «A minha candidatura tem uma abrangência de muitas pessoas que se situam à esquerda, de muitas pessoas que se situam ao centro, de pessoas que se situam à direita.»

Belém  – «Não aceito que o facto de ser independente dê algo de acrescido e de dignificante ao exercício dum cargo desta natureza.»

Nóvoa – «Eu quero ser um Presidente que protege os portugueses.»

Belém – «Eu estive nas causas todas que o PS empreendeu nestes 40 anos. Como militante de base, como dirigente. Nunca vi o candidato Sampaio da Nóvoa nessas causas, nunca o vi lá, nunca o encontrei.»

Nóvoa – «A candidata Maria de Belém mostrou sempre um grande incómodo com este tempo novo que se criou.»

Belém – «O candidato Sampaio da Nóvoa passa a vida a falar num tempo novo. Eu gostava de saber que tempo novo é esse com a Constituição que temos tido.»

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O melhor:

– Maria de Belém abriu as hostilidades empurrando Nóvoa para posições radicais enquanto se assumia como uma candidata moderada, próxima da social-democracia europeia.

– Carlos César, sucessor de Belém na presidência do PS, anunciara hora antes que votará no ex-reitor da Universidade de Lisboa. Um reforço de peso entre os apoiantes de Nóvoa, como o candidato fez questão em destacar.

O pior:

– Sampaio da Nóvoa acusou Marçal Grilo, mandatário nacional de Maria de Belém, de ter rotulado de “enorme desastre” um executivo PS com apoio parlamentar à esquerda. Exactamente a mesma acusação com que Marcelo Rebelo de Sousa procurara embaraçar a candidata no debate da véspera.

– Começar um debate na TVI a mencionar o aniversário da SIC Notícias, como fez Maria de Belém, é algo semelhante a aplaudir o Benfica no estádio de Alvalade. Pior é invocar alguém já falecido, como o ex-ministro Mariano Gago, como “trunfo” eleitoral.

Presidenciais (24)


Pedro Correia,

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Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Maria de Belém

 

Na sua melhor prestação em debates nesta campanha, Maria de Belém Roseira incomodou seriamente Marcelo Rebelo de Sousa. Mas isto, paradoxalmente, acabou por ser útil ao ex-líder do PSD: uma corrida presidencial sem controvérsia é o maior convite a uma abstenção em larga escala. E todos os cálculos eleitorais do professor podem estar em causa se a abstenção disparar para índices muito superiores aos que constam das sondagens.

A ex-ministra da Saúde e da Igualdade surgiu em cena como algumas loiras imortalizadas nos filmes de Alfred Hitchcock: capazes de cravar um punhal com um doce sorriso nos lábios. Conduziu de imediato o debate para questões de carácter, questionando a “dualidade” do catedrático, capaz de “dizer uma coisa e logo a seguir outra coisa completamente diferente”. A prova, na sua perspectiva, foi patente nos debates anteriores: Marcelo “esteve à esquerda de Marisa Matias, esteve à esquerda de Edgar Silva e esteve concordante com Paulo Morais, que acusa toda a gente de corrupção.”

Chegou a desenterrar a expressão “lelé da cuca” com que o então jornalista do Expresso brindou no final da década de 70 o proprietário e director deste semanário. “Não se lembra do que chamou ao doutor Francisco Pinto Balsemão num governo a que pertencia juntamente com ele? Uma coisa que eu nunca diria a ninguém.” Matéria tão antiga e desenquadrada da realidade que só pode interessar aos arqueólogos.

Rebelo de Sousa, que até aí se mostrara muito mais cordato do que no debate da véspera com Sampaio da Nóvoa, voltou a desembainhar a espada. E reconduziu o frente-a-frente ao plano político, fustigando a sua opositora com esta exclamação sonante: “A senhora doutora, que não consegue unir o partido dela, quer unir o País!”

Era uma questão chave. Mas Marcelo não parou aí. Confrontado por Maria de Belém com a fama de criador de factos políticos, devolveu-lhe o proveito: “Lança a candidatura no momento em que o líder do partido dela está a dar uma entrevista importantíssima na campanha das legislativas e diz que eu é que crio factos políticos?!”

A política estava de volta ao debate. Virando a vantagem para o militante nº 3 do PSD, em quem Passos Coelho estaria a pensar quando no último congresso do partido se insurgia contra os “cataventos” da opinião. O facto é que acabou por recomendar o voto em Marcelo. Enquanto Costa não deu o menor indício de recomendar o voto na antiga ministra que já foi presidente do PS.

 

Vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa

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Frases do debate:

 

Belém – «Marcelo Rebelo de Sousa é o meu principal adversário.»

Marcelo – «O meu adversário são os problemas dos portugueses.»

Belém – «Intriguista eu nunca fui. E se perguntar aos portugueses quem é o campeão nessa matéria, eu não sou a campeã porque nunca usei a intriga.»

Marcelo – «A senhora tem andado a campanha toda a tentar à direita o que lhe falta à esquerda.»

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O melhor:

– No final, perante questões concretas sobre um possível apoio a novas causas “fracturantes” na Assembleia da República, Marcelo manifestou concordância genérica enquanto Maria de Belém não hesitou: “Sou contra a eutanásia.” Quatro palavras que bastaram para pescar votos no terreno político do adversário.

– Confrontado com acusações de instabilidade, o ex-presidente do PSD lembrou ter viabilizado três orçamentos do governo Guterres, evitando crises políticas e permitindo a Maria de Belém ser ministra até ao fim do prazo previsto para essa legislatura.

O pior:

– A ex-ministra da Saúde devia ter evitado suscitar o tema da difícil relação entre Marcelo e a liderança do PSD prevendo que o seu rival neste debate a questionaria de imediato sobre o apoio que António Costa e a grande maioria dos ministros do actual Executivo lhe negaram apesar de ter sido presidente do PS. O tiro fez ricochete.

– “A senhora doutora ouviu o debate de ontem, ou se não ouviu disseram-lhe, provavelmente disseram-lhe, depois deram-lhe umas notinhas e lá veio com as notinhas…” Era desnecessário este remoque de Marcelo, que pecou por arrogância.

Presidenciais (23)


Pedro Correia,

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Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Sampaio da Nóvoa

 

Sampaio da Nóvoa não é o maior adversário de Marcelo Rebelo de Sousa nesta campanha eleitoral. O que o ex-director do Expresso tem mais a temer é a abstenção: os portugueses votaram três vezes em menos de dois anos e é notório o desinteresse em torno das presidenciais, que muitos consideram já com desfecho anunciado.

O potencial risco desmobilizador desta convicção que se instalou junto de tanta gente é o maior obstáculo que Marcelo enfrenta. E o tom de bonomia em que têm decorrido os debates, sem crispação nem aquelas “dramatizações” que noutros tempos faziam as delícias do comentador Rebelo de Sousa, só contribui para acentuar o desinteresse.

Faltava portanto “dramatizar”. Marcelo precisava de concretizar esse desígnio no frente-a-frente com António Sampaio da Nóvoa em horário nobre da SIC, ontem à noite. Assim fez. Surpreendeu o seu antagonista ao “entrar em campo” como costumam fazer as equipas treinadas por Jorge Jesus no campeonato nacional de futebol: exercendo pressão alta desde os instantes iniciais, confundindo e contundindo o adversário.

Nóvoa demorou a reagir, traindo o embaraço com exclamações como estas: “Muito me surpreende…”; “é a primeira vez que ouço…”; “não estava à espera…” E quando recuperou do embaraço inicial notou-se bem que lhe faltam os dotes histriónicos e a experiência televisiva do colega catedrático que tinha à sua frente.

Foi um debate vivo, à moda antiga – daqueles de que se falarão mais tarde. Um debate em que Nóvoa proclamou: “O Presidente da República tem de se bater por causas. Eu não vim para deixar tudo na mesma.” O primeiro debate a sério desta campanha até agora feita de palavras demasiado dóceis. De tal maneira que a moderadora, Clara de Sousa, acabou por ter uma intervenção residual – o que aliás fazia todo o sentido pois tratava-se de um verdadeiro confronto, não apenas de uma troca de amabilidade para cumprir calendário.

Deste debate as frases que os telespectadores mais retiveram foram, em larga medida, proferidas pelo candidato que conta com o apoio do PSD e do CDS: “Os portugueses sabem onde eu estive. O professor apareceu agora, virgem. Onde é que esteve? Onde é que esteve? Onde é que esteve?”

Embalado, Marcelo acusou o antagonista de querer passar “de soldado raso a general” e de possuir muito mais meios do que ele para fazer campanha eleitoral: “Eu não tenho a sua estrutura nem os seus gastos de campanha.” Visivelmente incomodado, o ex-reitor de Lisboa advertiu-o: “Não vá por aí, professor, não vá por aí.”

Estava o verniz quebrado. Era precisamente o que Marcelo queria.

 

Vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa

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Frases do debate:

 

Nóvoa  – «Sobre cada matéria nós temos 20 citações suas a dizer uma coisa e 20 citações a dizer o contrário.»

Marcelo  – «Mas disse! Eu dizia e o senhor não dizia. Eu expunha-me e o senhor não se expunha.»

Nóvoa – «Eu venho da crítica às políticas de austeridade. O professor Marcelo Rebelo de Sousa vem do apelo ao voto em Passos Coelho e Paulo Portas.»

Marcelo – «O senhor tem que trazer na lapela três ex-Presidentes da República. Eu não, eu não preciso.»

Nóvoa – «As suas afirmações sobre gastos excessivos na campanha em período de crise são antidemocráticas. É evidente que a democracia tem custos. A ditadura é muito mais barata, até se faz à borla.»

Marcelo – «Sabe quem é que meteu dinheiro na minha campanha até agora? Fui eu.»

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O melhor:

– Num eficaz golpe de retórica, Sampaio da Nóvoa transformou o comentador Marcelo num adversário do candidato Marcelo: “Eu não me ouço só a mim mesmo. Não gosto de passar o tempo todo a falar sem ouvir ninguém. Essa é uma diferença fundamental que nos separa no exercício do cargo.”

– Quando Nóvoa questionou a “forma no mínimo discutível” como o ex-presidente do PSD aproveitou a sua enorme exposição mediática como trampolim para a política, Rebelo de Sousa retorquiu de imediato: “Isso impediria António Costa de ser candidato a primeiro-ministro”. Aludindo à participação de Costa, durante anos, no programa de comentário político Quadratura do Círculo.

O pior:

– O ex-reitor da Universidade de Lisboa fala na necessidade de “sangue novo” e “outras pessoas” na política. Mas confessa que só avançou na corrida a Belém após “longuíssimas conversas” com três ex-Chefes do Estado: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.

– Marcelo denunciou o “apoio tóxico” do MRPP à candidatura de Nóvoa, dando relevo a um facto irrelevante.

O segundo debate Marcelo-Sampaio.


Luís Menezes Leitão,

Há 25 anos Marcelo Rebelo de Sousa envolveu-se de alma e coração numa candidatura à câmara de Lisboa, fazendo tudo para chamar a atenção de um eleitorado que não o conhecia, como conduzir um táxi pelas ruas da capital e mergulhar no Tejo. A sua campanha local apareceu com tanta força que ninguém do PS se dispunha a enfrentar Marcelo nessa corrida. Vítor Constâncio demitiu-se, perante as sucessivas recusas que foi recebendo, e o seu sucessor, Jorge Sampaio, foi obrigado, enquanto líder da oposição, a apresentar uma candidatura pessoal contra Marcelo. Já nessa altura coube a António Costa fazer as pontes para um acordo de esquerda contra Marcelo. Mas mesmo esse acordo não parecia ser suficiente, uma vez que Sampaio suscitava pouco entusiasmo perante a energia e o brilhantismo de Marcelo.

 

Isto foi assim até que se realizou um debate entre Sampaio e Marcelo. Nesse debate Marcelo decidiu adoptar uma pose mais serena por contraponto ao que até então tinha sido a sua intervenção. Esse erro foi-lhe fatal. Jorge Sampaio, com a experiência de advogado de barra, explorou as fragilidades do discurso de Marcelo e, ao contrário do que se esperava, Marcelo não foi capaz de lhe dar a réplica devida. Marcelo saiu do debate a dizer que se calhar tinha desiludido os seus apoiantes e de facto nesse dia perdeu as eleições.

 

Nestas eleições, passou-se o contrário. Marcelo optou por uma campanha completamente vazia, o que envolvia sérios riscos como aqui salientei. Mas, ao contrário do que se passou há 25 anos, não descurou o debate com Sampaio da Nóvoa. Pelo contrário, entrou completamente a matar, chamando a atenção para a total falta de currículo político do candidato, a sua ignorância absoluta da função presidencial, e o seu comprometimento ideológico com uma minoria dos eleitores. Nóvoa, perante o massacre que sofreu, só lhe faltou levantar os braços e invocar a convenção de Genebra. Lá foi dando uns apartes sobre o serviço nacional de saúde, que Marcelo facilmente desmontou, e fez referência aos antigos presidentes que o apoiam, o que Marcelo ridicularizou. No fim Marcelo deu-lhe uma estocada final decisiva quando chamou a atenção para a carrinha dos seis assessores que ele tinha trazido, criando no público a sensação de que sem assessores Nóvoa não existe.

 

Marcelo teve passados 25 anos a sua segunda oportunidade num debate político decisivo. Desta vez não a desperdiçou. No próximo dia 24 será entronizado presidente. E, diga-se de passagem, no actual quadro político é a melhor solução para o país.

Presidenciais (22)


Pedro Correia,

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Debate Henrique Neto-Paulo de Morais

Não basta ser candidato presidencial: é preciso parecê-lo. Ora Paulo de Morais nunca esteve tão longe de parecer um candidato presidencial do que no confronto da noite passada, na SIC Notícias, com Henrique Neto. Um debate onde as diferenças foram mais de estilo do que de substância. Ambos revelaram sintonia em diversas matérias – da oposição firme ao acordo ortográfico à crítica frontal à permanência da Guiné Equatorial como Estado-membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Mas Morais fez duas declarações que o dissociam claramente do cadeirão presidencial. A primeira visou o antecessor de Passos Coelho no cargo de primeiro-ministro: “Não tenho dúvida nenhuma de que José Sócrates é uma das caras da corrupção em Portugal.” Sabendo-se que o antigo chefe do Governo está a contas com a justiça e que compete apenas a esta investigar, no âmbito dos seus poderes soberanos, não faz o menor sentido que um candidato presidencial se pronuncie desta forma sobre o tema.

A segunda foi aparentemente ditada por um irreprimível impulso demagógico: “Se eu for eleito há duas viagens que vou fazer muito rapidamente: uma a Angola, outra ao Brasil. Para explicar quer ao Presidente de Angola quer à Presidente do Brasil que Lisboa vai deixar de ser a máquina de lavar a corrupção destes três países.” O candidato parece esquecer-se, desde logo, que só viajaria a Brasília e Luanda se recebesse convite prévio dos seus homólogos.

Num e noutro caso, Neto proferiu declarações sensatas. Sobre Sócrates disse que compete à justiça pronunciar-se. Sobre as visitas presidenciais, elegeria Washington: “Eu faria o contrário. Começaria pelos Estados Unidos. Porque é a maior economia mundial. É de lá que vem a inovação, é de lá que vêm as ideias.” 

Se a frontalidade é um atributo, a ponderação é uma virtude. E por vezes, entre tanta afirmação empolgada para encher títulos de jornal, sabe bem escutar frases que parecem derivar apenas do mais elementar senso comum.

 

Vencedor: Henrique Neto

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Frases do debate:

Neto – «Nenhum português bem informado e atento tem dúvidas de que a corrupção é um caso sério em Portugal.»

Morais  – «Alguns casos de corrupção em Portugal são feitos tão às claras que para procurar provas basta ir ao Diário da República.»

Neto  – «A nossa justiça não tem capacidade para investigar a corrupção.»

Morais – «A justiça não é verdadeiramente independente tal como exige a Constituição.»

 

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O melhor:

– O ex-vice-presidente da Câmara Municipal do Porto proporá, se chegar ao Palácio de Belém, um referendo sobre o acordo ortográfico. E adianta desde já a sua opinião sobre a matéria: “Sou claramente contra.”

– “É um escândalo que a Guiné Equatorial esteja na CPLP”, diz Henrique Neto. Quem fala assim não é gago.

O pior:

– Paulo de Morais elegeu Manuel de Arriaga como seu modelo de Presidente. Esqueceu-se que Arriaga não completou o mandato, o País viveu em convulsão permanente naqueles anos e o seu magistério presidencial abriu caminho à breve ditadura do general Pimenta de Castro.

– Se perder a eleição, Neto faz-se desde já convidado para comentador na SIC Notícias: “Espero que vocês me convidem algumas vezes a vir aqui, como faziam antes.” Deve ser isto a que alguns chamam empreendedorismo…

Presidenciais (21)


Pedro Correia,

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Debate Edgar Silva-Marisa Matias

 

Haverá fronteiras geográficas para a defesa dos direitos humanos? Quem assistisse ao debate televisivo de ontem na RTP entre Edgar Silva e Marisa Matias seria eventualmente levado a suscitar esta questão perante a aparente contradição do candidato comunista, tão lesto a fazer a defesa desses direitos em Portugal e tão relutante em expressar-se da mesma forma quando estão em causa países dirigidos por “partidos irmãos” do PCP. A Coreia do Norte, por exemplo.

Parece não haver tema tão incómodo para um comunista português como este, suscitado pelo moderador do debate, João Adelino Faria, numa pergunta simples, directa e clara a Edgar Silva:

– Considera a Coreia do Norte uma democracia?

– Pergunta-me se eu a considero uma democracia?

– …Ou uma ditadura.

– Eu acho que o Presidente da República tem o dever, em relação a cada um dos países, e a cada um dos Estados, de ter com todos os países e Estados uma relação de cooperação e solidariedade, independentemente da apreciação subjectiva do Chefe do Estado sobre as políticas…

– Mas qual é a sua apreciação sobre a Coreia do Norte? É uma ditadura ou uma democracia?

– Eu reconheço que em vários países do mundo existem situações de insuficiente respeito pelos direitos humanos…

– Não me respondeu.

– Não vejo que esse seja um privilégio da Coreia do Norte.

O membro do Comité Central do PCP não saía disto. Era a vez de o jornalista conceder a palavra à eurodeputada do Bloco. Marisa Matias não hesitou: “Eu respondo de forma directa. Considero a Coreia do Norte uma ditadura que ataca o seu povo.”

Este debate esteve muito centrado na tentativa de encontrar diferenças entre os dois candidatos. Não havia necessidade de procurar mais: estava encontrada. E não era nada lisonjeira para Edgar Silva.

 

Vencedora: Marisa Matias

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Frases do debate:

 

Edgar – «Tenho um compromisso com o mundo do trabalho.»

Marisa  – «É preciso uma Presidente da República que se bata pelo País.»

Edgar – «Dissolveria a Assembleia [se os deputados confirmassem em segunda votação parlamentar um orçamento vetado pelo Chefe do Estado]?»

Marisa – «Desculpe… não é sério.»

 

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O melhor:

– A propósito da viabilização do orçamento rectificativo, Edgar Silva levou Marisa Matias a irritar-se ao insinuar que a candidata tem um conhecimento insuficiente dos poderes do Chefe do Estado definidos na Constituição.

– A eurodeputada disse o que muitos portugueses pensam quando criticou a intervenção no Banif: “Este orçamento rectificativo de três mil milhões de euros equivale exactamente ao corte que tivemos no Serviço Nacional de Saúde.”

O pior:

– “Eu conheço bem os poderes do Presidente da República”, justificou-se Marisa, como se tivesse sido apanhada em transgressão. Não havia necessidade.

– O antigo sacerdote estava mal informado quando assegurou que a sua oponente, enquanto membro da eurocâmara, aprovou a intervenção militar na Líbia. “Eu aconselhava-o a ver as actas do Parlamento Europeu. Porque eu votei contra e foi voto nominal”, retorquiu-lhe a dirigente bloquista,

Presidenciais (20)


Pedro Correia,

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Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Paulo de Morais

 

Ainda comecei a contar as vezes em que, no frente-a-frente de ontem da TVI 24, Marcelo Rebelo de Sousa concordou com o seu oponente. Às tantas, desisti. Era evidente que o ex-vice-presidente da Câmara do Porto vencera o debate – precisamente aquele em que surgiu mais descontraído e sorridente.

Marcelo, bem ao seu jeito, desfez uma eventual atmosfera de crispação mal abriu a boca: “Boa noite, Paulo.” Levando o rival nesta corrida presidencial a chamá-lo também pelo nome próprio. De resto Morais esteve muito mais cordato com o antigo presidente do PSD do que com qualquer outro adversário que já defrontou nos debates televisivos desta campanha. “Com todo o respeito” foi uma expressão com que o brindou mais de uma vez.

“Marcelo é o candidato que, neste regime, desdramatiza tudo”, salientou o antigo autarca, chamando “candidato da estabilidade” ao conselheiro de Estado. Este pareceu satisfeito: o epíteto agradava-lhe. E é até bem capaz de utilizá-lo como slogan de campanha.

Com bonomia, Marcelo congratulou-se de ser com Paulo de Morais um dos candidatos que gastam menos dinheiro nesta corrida a Belém – a mais barata de que há memória. E acenou-lhe com mais um elogio: “Acompanho com apreço a sua luta.” Sorria enquanto dizia isto. Aliás, sorriam ambos. Há noites assim.

 

Vencedor: Paulo de Morais

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Frases do debate:

 

Morais  – «Se as pessoas querem mudança não podem ter medo da mudança.»

Marcelo  – «Quem mais ordena é o povo.»

Morais – «É uma vergonha viver na Europa e ter tanta gente na sopa dos pobres.»

Marcelo – «O Presidente da República deve ter uma magistratura de equilíbrio, de fazer pontes, de cicatrizar feridas.»

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O melhor:

– Paulo de Morais falou como provedor dos contribuintes: “Em Portugal, para elaborar um Orçamento do Estado, programa-se a despesa e depois vai-se ver como sacar a receita lançando impostos de forma quase feudal sobre as empresas e as pessoas.”

– O antigo presidente do PSD não perde uma oportunidade de piscar um olho aos eleitores de esquerda: “Devemos ser politicamente imparciais mas socialmente parciais. Temos que ser socialmente parciais a favor daqueles que menos têm e mais sofrem.”

O pior:

– A questão do preço dos livros escolares pode ser muito relevante mas está longe de figurar nos poderes do Presidente da República, o que não inibiu Morais de discorrer sobre ela.

– “Concordo consigo”, ia repetindo Rebelo de Sousa. Música para os ouvidos do rival nesta campanha.

Presidenciais (19)


Pedro Correia,

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Debate Edgar Silva-Marcelo Rebelo de Sousa

 

Marcelo Rebelo de Sousa, imparável criador de factos políticos, voltou à ribalta após um período na clandestinidade. O regresso ocorreu no debate da noite passada na RTP, quando o militante nº 3 do PSD defrontava o candidato apoiado pelo Partido Comunista, Edgar Silva.

Este, ontem com maior desenvoltura verbal do que nos anteriores debates, compareceu em estúdio alertando para as habilidades de Marcelo na “arte do engodo”, acusando-o de “procurar no essencial manter a lógica dos mandatos de Cavaco Silva na Presidência da República” e de iludir os portugueses sobre eventuais distâncias entre as suas posições e as do PSD.

Com instinto felino, Marcelo emitiu um desmentido que lançava uma sombra de insinuação sobre o seu antagonista: “Eu não estou a concorrer para líder partidário, estou a concorrer para Presidente da República. Para líder partidário já concorri noutros tempos.”

O moderador, João Adelino Faria, tentou desviar o rumo do diálogo, mas os dois contendores – aliás de modos muito cordatos – estavam imparáveis. Edgar decidiu questionar o ex-presidente social-democrata. Travou-se este diálogo:

– Exclui liminarmente a hipótese de se candidatar à direcção do seu partido?

– Nunca mais. E você admite uma candidatura à direcção do seu partido?

– Eu?

– Sim.

– Quem decide isso são os militantes…

Era visível o embaraço do membro do Comité Central comunista, que não esperava aquela réplica. Estava encontrado o facto político do mês ou até do ano: Edgar participa nesta campanha como tirocínio à sucessão de Jerónimo de Sousa, que abandonará as funções de secretário-geral em 2016. Marcelo de regresso aos velhos tempos: há coisas que nunca mudam.

 

Vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa

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Frases do debate:

 

Edgar – «Marcelo Rebelo de Sousa é um Cavaco Silva a cores.»

Marcelo  – «Quem olhar para o professor Cavaco Silva e olhar para mim… dizer que eu sou uma versão a cores… é uma coisa um pouco estranha.»

Edgar – «[Marcelo] é um mestre na arte do disfarce.»

Marcelo – «Sabe quem é que [no PSD] restabeleceu relações com o PCP? Fui eu. Ao fim de 35 anos de corte de relações.»

 

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O melhor:

– António Costa pode dormir descansado. Segundo Marcelo, o próximo magistério presidencial “deve ser equilibrado, pedagógico e sobretudo não ser um magistério de contrapoder em relação ao Governo”.

– Edgar Silva procurou mobilizar e fixar o eleitorado comunista assumindo o seu “compromisso com o mundo do trabalho” e fazer cumprir a “Constituição laboral”.

O pior:

– “Eu sou independente, quem me conhece sabe que eu sou. Fui sempre e sou sempre”, assegurou o militante nº 3 do PSD. Convém não exagerar.

– O candidato apoiado pelo PCP esqueceu-se de limpar as marcas de transpiração no rosto, algo que causa sempre má impressão num ecrã televisivo.

Os debates presidenciais.


Luís Menezes Leitão,

Dos debates presidenciais que até agora vi fiquei com uma conclusão óbvia. Estas eleições presidenciais são as mais tristes da história da democracia e a esmagadora maioria dos candidatos poderia seguramente fazer alguma coisa mais útil como, por exemplo, ir cultivar batatas em lugar de andar a recolher 7.500 assinaturas apenas pelo prazer de ocupar o espaço mediático numa candidatura presidencial completamente inútil.

 

Tem-se visto de tudo. Um candidato abandona um debate em directo, desrespeitando o compromisso com a televisão, apenas porque o tempo de antena que lhe deram não foi aquele que desejava. Outro candidato discursa sistematicamente contra a corrupção, parecendo que ainda não percebeu que o lugar em disputa não é o de procurador-geral da república. Outro candidato promete, imagine-se, alterar a constituição, competência que o presidente não tem, a qual é obrigado a jurar cumprir e fazer cumprir no acto de posse. E outro candidato passeia o seu habitual estilo gongórico, dizendo coisas de um absoluto vazio, como a de que é preciso “um tempo novo”. E chegamos a assistir a debates em que os candidatos estão de acordo em tudo, sem que ninguém lhes pergunte se nunca pensaram em desistências recíprocas.

 

Os jornalistas moderadores assistem normalmente a este triste espectáculo com enfado e perplexidade, nada questionando a candidatos que manifestamente não têm nada de relevo para dizer. A excepção tem sido Rodrigues dos Santos que tem colocado aos candidatos algumas perguntas que devem ser feitas. No debate entre Sampaio da Nóvoa e Henrique Neto, ficou claramente à vista, por mérito deste último, a vaguidade total e a absoluta ausência de ideias de Nóvoa. Rodrigues dos Santos fez-lhe apenas algumas perguntas concretas, como qualquer jornalista tem o dever de fazer. Parece que por isso uma apoiante de Nóvoa apresentou uma queixa na ERC, demonstrando assim que os apoiantes de Nóvoa acham que os jornalistas estão nos debates como figuras de corpo presente, e que questionar o seu candidato já passou a ser crime de lesa-majestade.

 

Eu só peço a Deus que esta eleição presidencial acabe já à primeira volta. É que não há santo que aguente aturar mais duas semanas disto.

Presidenciais (18)


Pedro Correia,

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Debate Henrique Neto-Marisa Matias

 

Qualquer político sonharia com um debate assim: ei-lo a expor a sua tese enquanto o suposto opositor passa o tempo a acenar com a cabeça em sinal de aprovação. Aconteceu ontem, na SIC Notícias, com Marisa Matias: a candidata do Bloco de Esquerda ia explanando os seus pontos de vista sobre a situação do País entre proclamações de concordância de Henrique Neto, sentado à sua frente.

“Se o saldo da balança comercial [portuguesa] não se degradou foi porque as pessoas deixaram de ter dinheiro para comer”, declarou a eurodeputada. Do outro lado da mesa, Neto anuiu: “De acordo.”

“Temos salários e pensões muito baixos, que foram muito atacados no último ano”, salientou Marisa. Neto não deixou lugar a dúvidas: “Cem por cento de acordo.”

“O trabalho com direitos é uma questão essencial. Temos uma sociedade onde não há trabalho e o que há é precário”, observou a candidata. Neto rematou: “Estou de acordo com tudo quanto disse.”

Ia o debate a meio e já não restavam dúvidas sobre quem levara a melhor: o empresário da Marinha Grande, cavalheiresco, desistia do confronto preferindo discorrer sobre a macroeconomia neste mundo globalizado. Marisa reconduziu a conversa à escala nacional, mostrando-se mais em sintonia com os eleitores. Pormenor talvez irrelevante: de poderes presidenciais ninguém falou.

 

Vencedora: Marisa Matias

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Frases do debate:

Neto – «Considero a subida do salário mínimo nacional uma vergonha nacional. Porque é pouco, obviamente.»

Marisa  – «Não precisamos de estar zangados com tudo.»

Neto  – «Peço aos portugueses que votaram em Cavaco Silva que não cometam os mesmos erros nesta eleição.»

Marisa – «Há candidatos que se apresentam a estas eleições como se o País lhes devesse alguma coisa.»

 

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O melhor:

– “Tenho a obrigação de defender a minha geração, que não conheceu outra coisa que não seja a austeridade”: Marisa Matias procurando mobilizar os eleitores jovens, mais seduzidos pela abstenção.

– Henrique Neto, um industrial com preocupações sociais: “Na minha empresa nunca tive trabalhadores a prazo.”

O pior:

– “Os partidos do arco do poder têm destruído o País.” A frase do ex-deputado socialista é sonante, mas de um populismo extremo.

– Há um ano, a eurodeputada do BE abraçava Tsipras nos comícios do Syriza. Hoje prefere nem falar da Grécia.

Presidenciais (17)


Pedro Correia,

      

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Debate Paulo de Morais-Sampaio da Nóvoa

 

António Sampaio da Nóvoa fez uma boa proposta no frente-a-frente da noite passada na TVI 24. Fê-lo com algum atraso, no quarto debate televisivo a dois em que participou, dando finalmente a ideia de que é capaz de subir ao concreto nesta farpa a Cavaco Silva: “O Presidente da República, infelizmente, não cumpre o código dos contratos públicos e não procede à publicitação on line dos seus contratos. Isto é uma prática que tem que mudar. Aquele que promulga as leis tem de ser o primeiro a dar o exemplo.”

Foi o seu melhor momento neste confronto com Paulo de Morais. Mas foi também aquele que permitiu evidenciar mais a destreza verbal do seu antagonista. O ex-braço direito de Rui Rio na câmara do Porto pegou-lhe na palavra e correu com ela pista adiante: “Não chega ao Presidente da República dar o exemplo. O Presidente tem que exigir transparência a toda a classe política.” Contestou os apelos de Nóvoa à estabilidade revelando que nessa manhã deixara um cravo vermelho junto à tumba do primeiro Rei de Portugal. “Não foi com estabilidade que D. Afonso Henriques fez o País. Não foi com estabilidade que se fez o 25 de Abril. Tem que haver instabilidade para haver progresso. A estabilidade só é boa quando as coisas estão bem.”

No resto, cumpriu-se o guião: Morais conduziu o debate para o campo que lhe garante votos, o do justiceiro contra a corrupção, disparando contra as sociedades de advogados de Lisboa e o Parlamento, que a seu ver “está organizado como uma central de negócios”. Nóvoa refugiou-se em fórmulas vagas: “Corrupção? Reconheço que há problemas, que há dificuldades. Muitas denúncias que o doutor Paulo Morais tem feito estão certas.”

Era precisamente isto o que o seu opositor pretendia ouvir.

 

Vencedor: Paulo de Morais

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Frases do debate:

 

Nóvoa  – «É muito estranho que alguns considerem a política como uma espécie de clube privado.»

Morais – «Há sociedades de advogados que são verdadeiras irmandades, para não dizer máfias.»

Nóvoa  – «Estabilidade não é estagnação. Estabilidade é um processo de mudança.»

Morais – «A justiça em Portugal tem meios ridículos. O Ministério das Finanças tem verbas disponíveis para tapar buracos superiores ao orçamento da justiça.»

 

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O melhor:

– Sampaio da Nóvoa deixou claro qual é o eleitorado a que se dirige: “Desde 4 de Outubro abriu-se uma nova cultura de diálogo e de compromisso na sociedade portuguesa.”

– O ex-vice-presidente da Câmara do Porto revelou enfim alguma consciência social: “Que dignidade existe numa idosa de 80 anos que vive com 200 euros de reforma? Neste momento há mil cantinas sociais em Portugal que dão de comer às pessoas por esmola.”

O pior:

– Os assessores da campanha do antigo reitor da Universidade de Lisboa devem recomendar-lhe que não baixe constantemente os olhos para os papéis enquanto fala. Dá a sensação de que procura a cábula.

– “Parece-me normal que tenha havido acusação no caso Sócrates”, disse Morais. O problema é que ainda não houve acusação alguma.

Presidenciais (16)


Pedro Correia,

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Debate Henrique Neto-Maria de Belém

 

Maria de Belém Roseira saiu ontem do estúdio da RTP com o rótulo de “candidata de facção” que lhe foi colado pelo seu oponente neste debate, Henrique Neto. A partir daí não saiu de posições defensivas, procurando contrariar o que o empresário da Marinha Grande lhe dissera.

“Não consigo compreender como é que alguém que foi durante seis anos ministra do PS e foi até há pouco presidente do PS e foi escolhida por uma facção no interior do PS para se opor ao actual secretário-geral se apresenta ao País como candidata independente.” Palavras duras de Neto que molestaram o suave discurso da candidata: Belém terminou o confronto verbal com uma frase irritada, à laia de insinuação: “Eu nunca tive nenhum processo por dívidas ao fisco!”

Maria de Belém voltou a gastar preciosos minutos, na intervenção inicial de ontem, a enumerar o seu currículo. Como se reconhecesse que padece de um défice de notoriedade. O próprio moderador do debate, João Adelino Faria, pediu-lhe que abreviasse – e foi certamente um bom conselho.

Ficou patente neste confronto de opiniões que os dois candidatos têm leituras diferentes do texto constitucional. Neto seria um Presidente com perfil interventivo, que não hesitaria em dissolver o Parlamento. Belém, com reiteradas proclamações de louvor à estabilidade, tem uma perspectiva mais minimalista dos poderes presidenciais, defendendo um Chefe do Estado que zele sobretudo pela “cooperação institucional”. Mais próxima da interpretação de Cavaco Silva, portanto.

Não é necessariamente um trunfo eleitoral.

 

Vencedor: Henrique Neto

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Frases do debate:

 

Belém – «Desempenhei inúmeros cargos que me deram um conhecimento profundo do País.»

Neto  – «Eu tenho uma longa história de fazer previsões correctas.»

Belém  – «O Presidente da República deve ser um construtor da estabilidade.»

Neto – «Preocupa-me que a política portuguesa tenha outra ética: não vendamos gato por lebre.»

 

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O melhor:

– O empresário, chamando “candidata de facção” à sua opositora, confinou Maria de Belém a um segmento do PS.

– A ex-ministra da Saúde manteve a calma durante quase todo o debate.

O pior:

– “O PS frequentemente mente aos portugueses.” Não parece mas a frase foi proferida por Henrique Neto, militante socialista.

– Maria de Belém perdeu a calma na intervenção final. Lançar insinuações para o ar é uma atitude pouco elegante.

Presidenciais (15)


Pedro Correia,

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Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Marisa Matias

 

Marcelo Rebelo de Sousa passou tantos anos a comentar a actualidade política portuguesa que é demasiado fácil desenterrar temas em que possa ter pecado por manifesta contradição. Ontem, no frente-a-frente que o opôs na SIC Notícias, o militante nº 3 do PSD foi vítima enquanto candidato à Presidência da República do seu sucesso enquanto comentador televisivo: Marisa Matias lembrou-lhe que, quando estoirou o caso BES, Marcelo tranquilizou os portugueses na TVI, assegurando que a banca “estava blindada” e manifestando “total confiança no governador do Banco de Portugal”.

Pelo segundo debate consecutivo, o ex-deputado constituinte viu-se remetido a posições defensivas, passando grande parte do tempo a justificar declarações proferidas em tempos idos. Fê-lo com o à-vontade que todos lhe reconhecemos mas não totalmente isento de desconforto, assegurando que “naquela ocasião seria uma irresponsabilidade da [sua] parte dizer o contrário do que disse” sobre o Grupo Espírito Santo.

A dirigente bloquista, embalada nas críticas e menos sorridente do que noutros debates, aproveitou para desferir uma estocada ao professor, acusando-o de “ter todas as posições possíveis por cada questão que aparece na sociedade”. É talvez a acusação que menos incomoda Marcelo, velha raposa da política. E a prova ficou à vista: minutos depois, estava ele a expressar acordo quanto à posição do primeiro-ministro António Costa sobre o Banif. Em tempo de campanha, não se dispensam votos.

 

Vencedora: Marisa Matias

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Frases do debate:

 

Marisa  – «Nem eu nem o doutor Marcelo Rebelo de Sousa escondemos os nossos apoios partidários.»

Marcelo – «Eu dei liberdade de voto no meu partido [durante a campanha do referendo ao aborto na década de 90].»

Marisa  – «Habituámo-nos a vê-lo como explicador do Governo nos últimos anos.»

Marcelo – «Concordei com a decisão do Tribunal Constitucional [que considerou inconstitucionais os cortes de salários e pensões].»

 

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O melhor:

– Marcelo Rebelo de Sousa adoptou um tom cordato que não perdeu do início ao fim do debate: é patente o seu objectivo de aparentar moderação.

– Marisa Matias falou por muitos portugueses ao contestar a solução encontrada por três governos para enfrentar problemas bancários: “Seis anos, seis bancos – tivemos o dinheiro dos contribuintes enterrado.”

O pior:

– A eurodeputada bloquista tem dificuldade em controlar os níveis de ansiedade, mesmo quando os debates lhe correm bem – como foi o caso.

– O ex-presidente do PSD falou já como Chefe do Estado eleito: “Eu não posso ignorar, como Presidente da República, que sou presidente de todos os portugueses.”

 

Presidenciais (14)


Pedro Correia,

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Debate Edgar Silva-Sampaio da Nóvoa

 

O candidato apoiado pelo PCP transmite uma sensação de desconforto por usar agora fato e gravata. Falta-lhe espontaneidade e alegria. Disso parece ter-se apercebido Sampaio da Nóvoa no debate que travaram ontem à noite na TVI 24: “Eu já dei quatro voltas a Portugal, faço campanha com enorme alegria.”

Ficava marcado algum contraste entre dois candidatos que se equivalem no plano da retórica: ambos recorrem a um prolixo vocabulário para exprimir ideias que talvez fossem emitidas com mais eficácia com menos palavras. Deve reconhecer-se que, à partida, a missão de Nóvoa estava facilitada: competia-lhe não beliscar o eleitorado do PCP, que poderá vir a ser-lhe útil – e esse desígnio foi cumprido. Edgar, pelo seu lado, deixou por esclarecer o motivo que o levou a avançar, já após as legislativas, quando o antigo reitor da Universidade de Lisboa se encontrava há meses no terreno.

Incapaz de estabelecer diferenças de conteúdo face a Sampaio da Nóvoa, o ex-sacerdote madeirense procurou vislumbrá-las numa eventual subalternização das questões do emprego nas propostas do seu opositor. Demonstrou assim não ter lido a carta de princípios de Nóvoa, como este facilmente esclareceu. Mas, talvez por esquecimento, o catedrático omitiu o maior trunfo de que dispõe nesta matéria: o apoio à sua candidatura por parte de Carvalho da Silva, que durante um quarto de século liderou a CGTP. Coube a Paulo Magalhães, moderador do debate, assinalar tal facto.

O jornalista perturbou ainda Edgar com uma pergunta que ameaça tornar-se um clássico: “Considera a Coreia do Norte uma democracia?” O membro do Comité Central do PCP, embaraçado, falou muito mas deixou a pergunta sem resposta. Já vimos este filme em algum lado.

 

Vencedor: Sampaio da Nóvoa

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Frases do debate:

 

Nóvoa – «Esta candidatura nasce da cidadania, sem ter esperado por partidos.»

Edgar  – «O apoio do PCP é um certificado de garantia.»

Nóvoa – «O conhecimento não está só nas universidades: o conhecimento está nas pessoas.»

Edgar  – «A reestruturação da dívida permitiria construir cerca de 30 hospitais em Portugal.»

 

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O melhor:

– Sampaio da Nóvoa promete uma “presidência de proximidade”, apelando implicitamente aos portugueses que contribuíram para a eleição de Mário Soares.

– Edgar Silva introduz a poesia na campanha ao invocar a “defesa da nossa casa comum” e sublinhar a necessidade de “ouvir o grito dos pobres e o clamor da terra”.

O pior:

– O ex-reitor da Universidade de Lisboa continua a refugiar-se em proclamações genéricas, demonstrando dificuldade em descer ao concreto.

– “Se eu fosse… ou vier a ser Presidente…” Este lapso verbal demonstra que o ex-sacerdote tem pouca fé nas suas possibilidades de vitória.