Ética pública 2.0


joaomsandre,

Este post do Rui lembrou-me uma outra questão que surgiu há uns tempos em Inglaterra. Um jogador de futebol fora condenado a prisão por violação e, após ser libertado condicionalmente, o antigo clube considerou recontratá-lo. Ora, Jessica Ennis, cujo nome adorna uma das bancadas do estádio, avisou que exigiria que o seu nome fosse retirado caso Ched Evans (assim se chama o futebolista) voltasse ao clube. O resultado é que recebeu uma avalanche de insultos e ameaças no twitter. Quando os trolls foram por seu turno condenados – e é aqui que queria chegar – defenderam-se com a “liberdade de expressão”.

 

O caso que o Rui invoca é semelhante. Na idade das redes sociais, o insulto e a ameaça – mesmo que vazia – pode ser feito de forma anónima (ou quase), directa e pública. As leis dos vários países contemplam a possibilidade de condenação por injúria, mas a fronteira entre esta e a liberdade de expressão é relativamente ténue (e daí os muitos casos de processos contra jornais). Se quando os media estão envolvidos no assunto há sempre especialistas em liberdade de expressão presentes (juristas, os próprios jornalistas, editores, etc), já no caso das redes sociais isto não é o caso.

 

Infelizmente, apesar de termos presente o conceito básico que desconhecimento de uma lei não pode ser apresentado como defesa, a verdade é que não há uma educação real dos jovens em relação ao que significa liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito à privacidade, direito à honra, etc. A maior parte dos jovens entendem a liberdade de expressão como a liberdade de dizer aquilo que bem lhes apetecer e nem sequer entendem a diferença entre as liberdades de expressão e de imprensa (nem a forma como a imprensa tem certos direitos e deveres naquilo que reporta).

 

Neste mundo digitalizado, 2.0 se quisermos, falta a educação que não o torne num wild west. Não falo necessariamente de regulamentos, esses já existem ao nível civil, mas talvez de uma discussão que permita a sua adequação ao mundo em que vivemos hoje. Não precisamos de alguém que ande a correr a net em busca de trolls, mas se eu quiser atacar alguém, necessito de saber (eu e o meu alvo) quais os limites para o meu ataque. E o meu alvo necessita também de saber quais os mecanismos de defesa à sua disposição.

 

É normal que as revoluções tecnológicas apanhem a sociedade desprevenida. Sempre assim foi e sempre assim será. O necessário é fazer avançar o debate para que esta possa alcançar a tecnologia.

Espera-se que falem de coisas interessantes que nos dizem respeito


Sérgio de Almeida Correia,

Conf 2301 2015.jpgMeirinho, Espírito Santo, Lisi, logo a abrir.

Depois seguem-se Peter Whiteley (Essex), Emilie van Haute (Bruxelas), Oscar Barbera, Juan Teruel, Astrid Barrio, Patricia Correa (todos de Valência), Joe Saglie (Oslo), sem esquecer João Carlos Correia (Beira Interior), José Fontes (Universidade Aberta), e os imprescindíveis José Adelino Maltez, a jogar em casa (ISCSP/ULisboa), e André Freire (ISCTE-IUL), entre mais alguns que sabem da poda e que em diversos quadrantes se preocupam connosco.

Não custa nada ouvir o que têm para dizer. Se puderem, não faltem.

A continuidade e a mudança


Pedro Correia,

 

1. Foi o terceiro. E o último. E, de longe, o pior debate dos três que opuseram os “candidatos a primeiro-ministro” nas hostes socialistas. Com António José Seguro e António Costa falando grande parte do tempo em simultâneo, em tom exaltado, sobrepondo os discursos. Não sei o que se passou convosco: eu não consegui perceber várias frases que proferiram no estúdio da RTP. João Adelino Faria, o moderador, tinha consciência disso mesmo e tentou aplacar os ânimos. Infelizmente sem sucesso.

2. Custa entender tanta animosidade pessoal num partido onde grande parte dos militantes ainda utiliza o termo “camarada”: cada vez mais se conclui que as diferenças entre os candidatos são de estilo, não de fundo. Um aspecto aliás realçado pelo guarda-roupa digno de Dupond & Dupont: apresentaram-se ambos de fato cinzento escuro e gravata vermelha. Com pouca convicção, Costa tentou gracejar a propósito deste assunto, lembrando que partilham o fervor benfiquista. Nos primeiros minutos, ainda trocaram umas amenidades de salão.

3. Mas Seguro não estava para graças. Visivelmente mais tenso, e com uma linguagem corporal muito rígida, o secretário-geral socialista abriu hostilidades, procurando percorrer o trilho do frente-a-frente inaugural, em que saiu vencedor: «Há uma crise no PS provocada pelo António Costa.» Estava dado o mote para o despique verbal que preencheria o resto do debate. Com uma diferença digna de registo: desta vez Costa foi a jogo. Coube até ao autarca de Lisboa a frase mais contundente deste despique travado sob os holofotes da estação pública: «Se tu tivesses tido um décimo da agressividade que tens contra mim na oposição a este governo, este governo já tinha caído.»

4. Ficou a sensação de que Seguro se apercebeu, naquele preciso instante, que se arriscava a perder o confronto — o que de facto viria a acontecer. Mas teria perdido só à tangente se não tivesse ensaiado então uma fuga para a frente, cometendo o erro de mencionar um episódio dificilmente perceptível pelos telespectadores relacionado com o advogado Nuno Godinho de Matos, apoiante de Costa, na frustrada tentativa de associar o rival a interesses obscuros. Saiu-lhe mal o tiro, que o fez descer ao nível do diz-que-disse próprio das conversas de barbeiro.

5. O autarca exibiu um gráfico de sondagem demonstrando a preferência que lhe dedicarão os eleitores num hipotético confronto eleitoral com Passos Coelho. Seguro contrapôs com o barómetro do Expresso que «dá ao líder do PS maior popularidade» entre os políticos portugueses (assim mesmo, falando de si próprio na terceira pessoa).

6. E lá voltou o jogo do empurra, em versão déjà vu. Seguro: «Tu só vens agora disputar a liderança do PS porque terminou o memorando. Que eu não assinei nem negociei, mas honrei. Mas tu eras o nº 2 dessa direcção que subscreveu esse memorando. Agora é fácil fazer oposição.» Costa: «Agora é que é difícil fazer oposição.» Seguro: «Consegui trazer o PS das derrotas às vitórias.» Costa: «Tu deves estar desde pequenino a sonhar ser secretário-geral do PS.»

7. Houve muito mais palavras do que ideias. Costa não deixou de levitar no reino das abstracções e Seguro agarrou-se à sua proposta de reforma eleitoral em jeito de tábua de salvação quando o País em geral e o PS em particular esperariam dele uma solução luminosa para combater alguma chaga social — o desemprego, por exemplo. O autarca apressou-se a chamar-lhe «populista», rótulo de que se usa e abusa em Portugal. A verdade é que, em termos concretos, Seguro levou pelo menos esta proposta a debate enquanto o rival ficou em branco.

8. De resto, consonância total num pacote de pias intenções: Portugal precisa de crescimento económico; os funcionários públicos devem recuperar o rendimento perdido; reformados e pensionistas não podem continuar a ser as primeiras vítimas da austeridade. La Palisse certamente concordaria.

9. No apelo final ao voto, sem ironia, o secretário-geral sublinhou que o sufrágio do próximo domingo destinar-se-á a escolher «entre a continuidade e a mudança» no Partido Socialista. Assumindo-se — sem ironia — como expoente da mudança. Como se não estivesse há três anos em funções no Largo do Rato. Repto aos eleitores em jeito de quadratura do círculo: mudar para continuar ou continuar para mudar?

10. Do que consegui ouvir, não gostei. E reforço cada vez mais a convicção de que deste confronto intestino resultarão feridas difíceis de sarar no maior partido da oposição, como já aqui escrevi a 7 de Junho, chamando-lhe processo autofágico em curso. Tenho hoje razões ainda mais sólidas para pensar assim.

 

Leitura complementar: A funda e a esfinge; A janela e o cutelo.

Em tempo oportuno, algumas ideias para discussão


Sérgio de Almeida Correia,

Agora que o processo das primárias do PS se aproxima do seu epílogo, e concretizada que está a inscrição de mais 7000 “simpatizantes”, num universo global que atingirá cerca de 250.000 cidadãos, gostaria de aqui deixar algumas palavras antes de serem conhecidos os resultados finais:

1. Tal como muitos outros que se preocupam com o declínio da participação e dos níveis de militância nos partidos políticos, que em meu entender conduzem a uma deslegitimação dos partidos e uma desqualificação da própria democracia, desde há muito que também defendo a abertura dos partidos a não militantes.

2. No entanto, essa abertura deveria ser concretizada em termos suficientemente amplos de maneira a abranger o maior universo possível de cidadãos, mas ao mesmo tempo de modo a que, mantendo-se a separação de estatutos entre militantes e não militantes, não se despromovesse os primeiros em prol dos segundos dentro de uma instituição que daqueles depende.

3. Quanto ao processo em curso devo dizer que o considero incorrecto quer quanto ao tempo e ao modo como foram conduzidos, quer, ainda, quanto às consequências que o mesmo acarretará qualquer que seja o resultado que se venha a registar.

4. Em relação ao tempo, considero que o actual secretário-geral do PS teve três anos para avançar com a sua concretização e regulamentação sem ter tido necessidade de fazê-lo em cima do joelho, mais como reacção, por despeito, à situação desencadeada por António Costa, do que como consequência de uma acção convicta, devidamente maturada e oportunamente preparada.

5. Reprovo, igualmente, a excessiva prolação do processo de inscrição, no que não podia deixar de ser entendido por qualquer observador independente como uma tentativa de melhor controlar o processo de “arregimentação” de “simpatizantes”.

6. Registo, ainda, a incapacidade quanto a este processo de um controlo efectivo das inscrições, de maneira a evitar-se que militantes de outros partidos pudessem participar nas primárias, cumulando o seu estatuto de militantes de outras forças com o de “simpatizantes” do PS. O factos dos cadernos serem divulgados não garante a não inscrição de militantes de terceiros partidos, sendo que teriam de ser estes a controlar que os seus próprios militantes não se inscreveriam neste processo das primárias. Trata-se de um controlo que será exercido, se for exercido, por terceiros, externamente, o que para mim é inaceitável.

7. Acrescente-se que a participação dos não militantes e a abertura do partido à sociedade poderia processar-se em termos tais que não fosse a decisão dos “simpatizantes” a impor-se à dos militantes. Pode ser que a vontade de uns e de outros se mostre coincidente, mas se não for, isto é, se a dos “simpatizantes” divergir e se impuser à dos militantes, qual será a consequência disto, como é que estes reagirão e avaliarão o seu estatuto?

8. Tal como defendi em várias reuniões que tiveram lugar no Algarve, numa delas com a presença de Jorge Seguro Sanches, o processo das primárias, desde logo para escolha dos candidatos às câmaras municipais, que a ter tido lugar nos termos por mim defendidos até poderia ter evitado mais uma humilhante derrota para o PS em Faro, entendo que a participação dos não militantes num processo do tipo das primárias não deveria ser decisivo quanto à escolha dos candidatos dos partidos, única forma de proteger o estatuto de militante (dos vivos, é claro).

9. A participação de não militantes num processo de abertura do partido à sociedade deveria ter lugar, primeiro, através da apresentação de um conjunto de nomes por parte do partido – candidatos -, susceptível de incluir militantes e independentes, que depois seria colocado à apreciação dos não militantes e que permitiria uma ordenação das escolhas que resultassem dessa consulta.

10. Aos militantes ficaria depois reservada a decisão final, num processo exclusivamente interno em que participariam os dois ou três nomes mais “votados” pelos não militantes, devendo aqueles decidir qual o nome que o partido deveria então apoiar e propor ao eleitorado.

11. Se fosse escolhido um candidato diferente daquele que tivesse obtido maior número de votos na consulta junto dos não militantes, os militantes assumiriam o risco e a responsabilidade da escolha, cabendo-lhes sempre a última palavra. Assim, tal como o processo está delineado e irá ocorrer, nada garante que não venha a surgir uma cisão entre a vontade do partido e a dos “simpatizantes”.

12. Finalmente, lamento que num processo tão participado não tenha sido possível concretizar o voto electrónico, que apesar das críticas é utilizado em países como a Alemanha, o Canadá ou a Austrália, entre nós também por pelo menos um clube desportivo, e que também não seja permitido, nem aos militantes nem aos outros que se inscreveram, votar no local onde estiverem no dia do escrutínio, que poderá não ser o mesmo em que se inscreveram, mediante a apresentação do seu documento de identificação e do cartão de militante. Já nem falo do voto por antecipação. Na era da informática, num país e num partido que até foi responsável pela concretização do passaporte electrónico, do cartão do cidadão e de um Citius que até há pouco funcionava e serviu de exemplo e modelo para outros países, é pena que não se tenha aproveitado esse saber e experiência num processo como o das primárias.

As questões não são tão simples quanto a pressa de colocação no terreno deste processo possa aparentar. Perdeu-se uma boa oportunidade para se criar um processo que pudesse inovar e servir de modelo a outros partidos. Apesar disso, espero que não se perca a hipótese de discuti-lo e de melhorá-lo, levando a discussão sobre matérias que a todos interessam até onde mais gente possa inteirar-se das questões e manifestar-se. Porque esta é uma discussão que diz respeito a todos os partidos e a todos que se preocupam com a saúde da democracia, independentemente dos calendários eleitorais e das regulares lutas de capoeira onde muitos – e não só de Lisboa – ainda se revêem.

Pois é (2)


Sérgio de Almeida Correia,

Um tipo farta-se de trabalhar, ganha dois congressos, consegue ter o derrotado do último congresso em que houve luta ao seu lado, corre o país, faz trinta por uma linha, e ao fim de três anos é só chatices. Não só não se livrou da “tralha socrática” como agora ainda tem de andar a fugir dela.

Pois é


Sérgio de Almeida Correia,

Um está à janela do município à espera da oportunidade e os lisboetas dão-lhe 50,91% dos votos. Em reconhecimento do mau trabalho efectuado e da péssima campanha, penso eu. O outro calcorreia o país e em três anos consegue a admiração dos comentadores políticos. Porreiro, pá.

A janela e o cutelo


Pedro Correia,

 

1. O debate desta noite foi bastante diferente do de ontem. António Costa apresentou-se mais enérgico e preparado, abandonou o ar sonolento da véspera. Desta vez destacou-se no campeonato das farpas ao adversário, lançadas a um ritmo regular, com fria premeditação. Revelou perfeita consciência de ter perdido o frente-a-frente anterior e mudou a agulha. Fez bem: assim evitou nova goleada.

2. António José Seguro também mudou de estratégia. Consciente de que a mesma receita não resulta em duas noites consecutivas, evitou levar novamente o debate para o campo dos juízos de carácter do seu antagonista. Fez bem: assim evitou uma medalha adicional no campeonato da lamúria.

3. Hoje houve muito mais equilíbrio sem se perder a acutilância. Neste frente-a-frente da SIC, bem moderado por Clara de Sousa, cada candidato detalhou algumas propostas que tinham sido silenciadas no confronto da TVI. Costa deixou-se de panos quentes e reduziu a escombros a estratégia adoptada pelo PS de Seguro na oposição ao Governo PSD/CDS. Acusando-o, por exemplo, de não ter contribuído para a reforma do mapa administrativo do País: “Tu passaste o tempo a refugiar-te em questões formais, sem tomares uma posição sobre a matéria.”

4. Mais contido, o secretário-geral socialista não deixou de dar réplica. E coube-lhe até uma das frases da noite: “Nestes três anos nunca deixei de andar de norte a sul. Não estive à janela do município a ver qual era a minha oportunidade.” Costa esteve à beira de perder a fleuma: “Não ofendas os autarcas!” Seguro insistiu: “Eu tenho o maior respeito pelos autarcas. Estava a referir-me a ti.”

5. Houve acusações mútuas de colagem ao executivo de Passos Coelho. Costa: “António José Seguro gasta mais energia na oposição aos anteriores governos do PS do que ao actual governo.” Seguro: “A tua argumentação é, em parte, a do Governo português: a dívida é um problema mas não o devemos discutir agora. Foi o que fizeste quando apresentaste o teu documento [de candidatura]: sobre a dívida, zero.”

6. A moderadora procurou levar a discussão para questões concretas. Nem sempre com êxito. Exemplo: é possível atingir a meta de 2,5% do défice? Nenhum deu uma resposta convincente. Outra: como tencionam financiar as medidas que propõem (“dar força às empresas” e apoiar o empreendedorismo jovem, no caso de Costa; lançar um ambicioso plano de reindustrialização do País, no caso de Seguro)? Idem, aspas. Prioridades em matéria de coligações pós-eleitorais em 2015? Tudo vago e difuso.

7. Num dos seus melhores momentos da noite, o autarca de Lisboa acusou o rival de decalcar as 80 propostas que apresenta aos militantes do programa eleitoral de José Sócrates, em 2009. “Só seis propostas e meia não constavam desse programa”, ironizou. Disparando nova farpa: “O António José Seguro gosta muito de excluir o passado porque entende que tudo começou com ele.” Réplica imediata do visado: “Eu não enjeito nenhum passado do PS. Mas também não trago nenhum passado de volta.”

8. Pelo menos em matéria económica e europeia mostraram convergência. Com Seguro mais explícito na defesa de negociações imediatas com Bruxelas para a redução dos juros da nossa dívida.

9. Por alguns instantes, com o frente-a-frente quase no fim, a conversa voltou a azedar. “O PS não conseguiu dar um sinal de confiança aos 77% [de eleitores] que disseram não ao Governo nas europeias”, acusou Costa. “O problema foi a crise que tu provocaste”, retorquiu o rival. Mas coube ao autarca a frase mais acutilante, desferida como um cutelo: “Tu não foste capaz.” Quatro palavras muito expressivas. Que tinham ficado por dizer na noite anterior.

10. Olharam-se ambos nos olhos quase todo o tempo. Com expressão fria e sem o menor traço de cordialidade, prenunciando tempos difíceis para o PS — ganhe quem ganhar. Talvez por isso, neste debate que Costa não perdeu, o verdadeiro vencedor tenha sido alguém que não estava lá. Chama-se Pedro Passos Coelho.

Empate técnico.


Luís Menezes Leitão,

 

António Costa julgava que os seus debates com Seguro seriam um passeio, pelo que ontem entrou displicente, tendo saído completamente esmagado. Por esse motivo, hoje percebeu que tinha que entrar ao ataque e foi o que fez, mas nunca conseguiu encostar Seguro às cordas. Costa conseguiu marcar alguns pontos, especialmente quando desvalorizou as propostas de Seguro, mas este deu-lhe o golpe mais forte da noite, quando lhe disse que Costa estava à varanda do município, tendo este ficado sem palavra. Resultado final: um empate técnico, com uma vantagem quase imperceptível para Seguro.

 

Depois da derrota estrondosa no primeiro debate, Costa precisava de ganhar o segundo e não o conseguiu, reforçando a opinião que corre de que todos os dias perde terreno. Pessoalmente acho que Seguro se apresenta nos debates mais bem preparado, sendo confrangedor ver o vazio total do discurso de António Costa. Hoje acrescentou à sua “agenda para a década” a “fisioterapia”. Mas penso que os apoios que António Costa tem na comunicação social vão-lhe permitir fazer a quadratura do círculo de ganhar estas primárias, mesmo perdendo todos os debates. O PS é que de debate em debate vai perdendo as próximas eleições. No fim disto, quem vai precisar de “fisioterapia” é o PS, quando António Costa lhe apresentar “uma agenda para a década” de oposição.

A funda e a esfinge


Pedro Correia,

 

1. Percebe-se agora melhor por que motivo António José Seguro queria o maior número de debates possível com o seu concorrente à liderança do PS, enquanto António Costa só aceitou três confrontos televisivos de 35 minutos com extrema relutância: o actual secretário-geral esteve francamente melhor no frente-a-frente de hoje da TVI.

2. Seguro mostrou acutilância, jogando quase sempre ao ataque. Dando voz à expressão popular “quem não se sente não é filho de boa gente”. O rival mostrou-se abúlico, sem energia, sem expressão, com o olhar vago. Parecia ansiar pelo fim do debate, moderado por Judite Sousa.

3. Costa, que em Maio saiu a terreiro para disputar uma liderança legitimada pelo voto, tinha a obrigação política e moral de dizer com clareza o que o levou a dar tal passo, fracturando o partido. Desperdiçou uma excelente ocasião de o fazer esta noite com argumentos irrefutáveis.

4. Seguro, bastante mais emotivo, lembrou quatro vezes que o seu rival foi o número 2 da direcção política de José Sócrates. “Eu não negociei nem assinei o memorando, mas honrei-o”, acentuou. É bem visível o incómodo do presidente da câmara de Lisboa nesta matéria, por mais que repita que o PS deve assumir o passado: Sócrates deixou uma pesada herança.

5. O autarca alfacinha sentiu um toque íntimo a rebate no rescaldo das autárquicas, daí ter desafiado Seguro a deixar-lhe caminho livre: “Eu trairia a minha consciência se me mantivesse numa posição cómoda.” Fundamento frouxo para ter mergulhado o PS na mais séria clivagem de que há memória desde a década de 80.

6. Uma pergunta crucial de Seguro ficou sem resposta: “Porque é que não te candidataste há três anos? Aí é que devias ter sentido um imperativo de consciência.”

7. Foi quase confrangedora a passividade de Costa perante um Seguro que lhe lançava palavras duríssimas como se manejasse uma funda. Manteve-se imperturbável enquanto ouvia o secretário-geral chamar-lhe de tudo um pouco: desleal, traidor, irresponsável, ziguezagueante. “Em público dizes uma coisa enquanto no partido dizes outra!” Há esfinges bastante mais expressivas.

8. De questões concretas, a pensar no futuro, falou-se pouco. Mas até neste campo Seguro arriscou um pouco mais, prometendo que se chegar a chefe do Governo baixará o IVA da restauração e não aumentará a carga fiscal. Costa refugiou-se num discurso vago, redondo e monocórdico.

9. Divergências sérias em matéria política? Ninguém se apercebeu disso: todas as diferenças são de estilo ou de retórica. Ambos apoiam a construção europeia, a moeda única, o rigor das finanças públicas, a concertação social, o tratado orçamental, a moderação política, Guterres nas presidenciais. Da reforma do Estado não se falou. Nem do combate ao desemprego. Nem do crescimento económico de que Portugal tanto carece.

10. Seguro lembrou que quando assumiu a liderança do PS, no Verão de 2011, o partido acabara de sofrer uma pesada derrota eleitoral e tinha apenas 18% nas intenções de voto. Desde então foi invertendo esta trajectória. Mas a actual crise interna começa a corroer novamente a popularidade rosa: as mais recentes sondagens, da Pitagórica e da Aximage, indicam que os socialistas caíram oito pontos percentuais em três meses e voltam a colocar o PS e o PSD (sem CDS) num quadro de virtual empate técnico. Isto anda tudo ligado.

Vitória de Seguro por K.O.


Luís Menezes Leitão,

 

 

Com grande surpresa minha, António José Seguro esmagou completamente António Costa. Não apenas pôs a nu todas as suas contradições passadas como também demonstrou que ele não tem qualquer solução concreta para a actual crise no país. António Costa limita-se a papaguear que tem uma agenda para a década, mas não é sequer capaz de responder qual a política fiscal que defende, o que é confrangedor num candidato a primeiro-ministro. Pelo contrário, António José Seguro entrou a matar, acusando o seu adversário de traição, e mostrou-se muito mais bem preparado em todas as questões, encostando sempre o seu adversário às cordas. Acho que os debates não vão alterar a tendência existente a favor de Costa, mas é evidente que Seguro vai vender cara a derrota. Mas, ao contrário do que se pensava, o PSD até pode ficar com a vida mais facilitada com António Costa na liderança do PS do que com António José Seguro. Na verdade, se António Costa é esmagado desta forma por António José Seguro, imagine-se se o seu interlocutor no debate fosse Passos Coelho.

Civilidade e cidadania


fiodeprumo,

Os que me conhecem sabem que tenho pouca paciência para querelas partidárias, sejam elas de que natureza forem. Não posso, não consigo. Só tenho uma cabeça e só por ela me guio, embora goste muito de ouvir opiniões diferentes das minhas.

Mudo muito? No básico, bastante pouco. Mas no olhar que lanço sobre o mundo que me rodeia mudo sempre que reconheço aos outros a capacidade de me convencerem. Não tenho qualquer pejo em me declarar errada e dar conta pública disso – se for o caso -, porque duvido que alguém se mantenha inalterável ao longo dos anos.

Mas procuro sempre não qualificar, não apelidar, não fazer juízos de valor sobre o adversário, que tento não considerar um inimigo. Enfim, sou o que se apelida de uma pessoa educada.

Aprendi isto ao longo da vida com a diversidade ideológica que caracterizou sempre a família onde nasci. Do lado materno nove irmãos, do lado paterno doze. Tudo gente que pensava por si e deu exemplo de respeito pelas cabeças dos outros.

Lembrei-me disto a propósito das quatro décadas passadas sobre o 25 de Abril e da actual querela no PS. Muitos já nasceram depois da primeira e o que sabem dela é o que lhes transmitem os seus, o ensino ou a investigação. Os restantes, os que a viveram, continuam, quarenta anos depois, a usar, para qualificar os que não pensam como eles, termos cujo significado já pertence à história da carochinha.

De facto, quem em 1974 tivesse 20 anos, terá agora 60. Haverá alguma lógica em epítetar estas pessoas pelo que eram na sua juventude? Será que em quatro dezenas de anos não teremos todos mudado muitíssimo?

Fico sempre muito impressionada quando leio a opinião de gente que ocupou cargos de responsabilidade, qualificar da forma mais deselegante, quem não pensa do mesmo modo. Mas se alguém quer levar o outro a mudar de opinião, será pela agressão verbal que o conseguirá?

O PS está numa campanha interna que devia ser esclarecedora daquilo que está em causa para o partido e para o país, uma vez que pretende governa-lo. Já estão todos engalfinhados e ninguém percebe onde está a verdadeira diferença entre Costa e Seguro. Talvez, mesmo, só, o estilo de cada um.

Os portugueses podem não ser os mais instruídos da Europa, podem não ser muito politizados, podem até ser instrumento partidário. Mas a maioria deles tem um enorme bom senso e sabe o que quer. Sabe castigar e sabe louvar. Basta que pensemos neles e no país, muito antes de pensar na ambição política. E isto vale tanto para o governo como para a oposição ou para as crises intestinas partidárias.

Por isso, sejam educados, por favor. Dêem um exemplo de civilidade e de cidadania!

Alguma coisa ficou por dizer


Sérgio de Almeida Correia,

Temos perspectivas diferentes, daí que seja natural que eu normalmente esteja em desacordo com muita coisa do que ele escreve.

Porém, desta vez creio que João Carlos Espada tem razão em quase tudo, em especial quando reconhece que “o debate público – se for feito com elevação, o que infelizmente nem sempre tem sido o caso entre nós – reforçará a autoridade da Constituição e do Tribunal Constitucional“.

Para ser consequente – só faltou isso – teria sido interessante que referisse a quem se deve essa falta de elevação do debate e apontasse alguns exemplos concretos que não devem ser seguidos e que espelham, em meu entender, uma tentativa de desvalorização da autoridade da Constituição e do Tribunal. Para que não entre tudo no mesmo saco. O último voto de vencido de Maria Lúcia Amaral deve ser discutido e não cabe no mesmo pacote das declarações de uma senhora vice-presidente do PSD ou no que disse o primeiro-ministro Passos Coelho. O debate tem de fazer-se por inteiro sob pena de se assim não for não valer a pena fazê-lo. Se quisermos ser sérios, penso eu, não podemos discutir o assunto com pruridos ideológicos e punhos de renda para não se ferirem susceptibilidades.

Um sonho de criança


joaomsandre,

Como muitos saberão, costumo ter umas discussões – por vezes intensas, por vezes engraçadas, por vezes irritantes – com o nosso comentador lucylucky. Aqui há uns tempos pedi-lhe numa caixa de comentários que me explicasse o seu pensamento, como via o papel do Estado. Gentilmente respondeu-me em comentário. Por o considerar interessante, decidi dedicar-lhe um post que espero ser pouco maçador. Um ponto: caro luckylucky, não pretendo em momento nenhum do texto ser ofensivo ou menorizar as suas ideias. Apenas apresento as minhas razões para as refutar. Como sempre, pode fazer o mesmo com o meu texto na caixa de comentários.

 

Começo sendo facilitista: vejo o mecanismo de pensamento de luckylucky como semelhante ao de um comunista ou de um religioso fundamentalista. Tem uma visão a que chamarei em provocação d’os amanhãs que cantam e nela crê com todas as fibras do seu ser. É semelhante aos comunistas que crêem que a igualdade absoluta pode ser atingida. São visões dogmáticas que selectivamente ignoram os obstáculos. A maior diferença é que o luckylucky tem perfeita noção que as pessoas são diferentes umas das outras, algo que o comunismo puro e duro (nem sei se em versão marxista-leninista ou adicionando-lhe o -estalinista) prefere ignorar ou simplesmente negar.

 

Escreve o luckylucky, grosso modo, que quanto mais leis, mais probabilidades de cercear as liberdades. Em termos puramente abstractos é verdade. Mesmo quando as leis protegem as liberdades, estarão a restringir alguma liberdade de alguém. Se impedirem o homicídio estarão certamente a limitar a liberdade dos homicidas. É a tal questão da diversidade. Por outro lado, luckylucky defende que qualquer grupo de pessoas poderia viver num sistema comunista, desde que tal desejassem. Da mesma forma, quem quisesse viver fora desse (ou de outros) sistemas, deveria ter possibilidade de o fazer.

 

Não preciso de apontar as falhas deste raciocínio porque o próprio luckylucky já o faz. Aponta como caminho o estabelecimento de colónias, no mar, debaixo da terra, noutros planetas, etc, para poder criar o espaço físico capaz de englobar toda esta diversidade. Tem consciência que se um determinado grupo de pessoas quiser criar um sistema político numa determinada região, um outro grupo de pessoas não poderá viver dentro dos seus critérios no mesmo espaço físico. Se 99,99% dos habitantes de uma cidade decidirem que querem viver num espaço sem fumo, não podem permitir que dois ou três indivíduos fumem. Aqui entramos no óbvio problema: exercer a liberdade de uns limitará a liberdade de outros. Isto é verdade independentemente dos números de indivíduos que estejam de um lado ou outro da barricada. A situação complica-se quando em relação a outro tema a separação dos indivíduos é feita de forma diferente (por exemplo, 99,99% dos indivíduos não querem o roxo na cidade e outros dois ou três apenas desejam essa cor, mas esses três indivíduos não são os mesmos que desejam fumar). No limite, por cada indivíduo teremos um sistema político diferente.

 

E é por isso que surge a ideia de colónias. Cada um poderia encontrar um espaço onde vivesse de acordo com as suas próprias regras. É uma ideia simples, mas faz-me lembrar as “Robot series” de Isaac Asimov, que descrevem um planeta, Solaria, onde os seus habitantes não suportam encontrar-se fisicamente, vivem em propriedades com o tamanho de países e onde se encontram com o/a cônjuge apenas e só para poderem reproduzir-se (numa versão mais tardia os habitantes usam engenharia genética para se tornarem hermafroditas e cortarem todos os laços físicos com outros habitantes). Nestes livros, esta sociedade contrasta com a da Terra, onde existem mega-cidades que contêm toda a população humana, o espaço pessoal é mínimo, as casas de banho e os refeitórios são públicos e partilhados entre todos e apenas aqueles de mais elevada casta teriam alguns privilégios extra.

 

No fundo, luckylucky descreve a sua utopia, esperando que um dia a tecnologia a permita. Asimov, na sua clarividência, descreve como esse caminho estaria cheio de obstáculos numa direcção (pseudo-comunismo) ou noutra (liberdade pura). Inteligentemente, Asimov não toma um partido óbvio, procurando simplesmente um meio-termo. Pessoalmente opto pelo mesmo. “A Democracia é o pior de todos os sistemas à excepção de todos os outros” é uma frase que deveremos lembrar sempre. A Democracia, num sistema ou noutro, é imperfeita. Mas num mundo onde temos, imperativamente, que partilhar recursos (espaço, água, terra, ar, etc), ainda é aquele que nos tem servido melhor.

 

O mundo (ou universo) de luckylucky talvez um dia venha a ser possível. Até lá, vejo-o simplesmente como um sonho de criança que ainda não despertou para a realidade.

Debate nos EUA: a vitória de Romney


josegomesandre,

1. Um debate presidencial é sobretudo uma encenação mediática, onde o que importa é parecer melhor: mais confiante e assertivo, mais simpático e descontraído, mais bem preparado, mais “presidenciável”. A forma ganha os debates, não o conteúdo.

 

2. Face a estes parâmetros, Mitt Romney foi um evidente vencedor. Face a um Obama surpreendemente cinzento, cansado, tropeçando nas próprias palavras, olhando para baixo enquanto ouvia o adversário, Romney surgiu como um orador talentoso, afirmativo, confiante. A sua linguagem corporal (olhando Obama como um predador olha a presa) mostrou um macho-alfa dominador. E as suas permanentes referências a histórias concretas e ao sofrimento do americano comum quebraram a sua imagem robótica, humanizando-o perante o eleitorado. 

 

3. Mas Romney ganhou noutros campos. Contrariando um dos (até aqui) maiores erros da sua campanha, Romney não se limitou a um discurso crítico do Presidente, como se “ser o outro” candidato bastasse para chegar à Casa Branca. Enviou portanto uma mensagem positiva ao eleitorado, insistindo nos méritos do seu próprio programa, focado na criação de emprego e na eliminação das “gorduras do Estado”. Enquanto Obama se perdia em detalhes técnicos aborrecidos, Romney defendia o seu projecto político de forma articulada e sintética, sem soar demasiado abstracto.

 

4. Chegará, por si só, para ganhar a eleição? Provavelmente não. Os debates presidenciais são amplamente escrutinados e têm excelentes audiências, mas os dados mostram que a maioria dos eleitores atentos procuram apenas “confirmar” posições previamente definidas, sendo que muitos dos chamados “indecisos” confessam posteriormente à eleição ter prestado pouca ou nenhuma atenção aos debates. Em todo o caso, numa eleição renhida como esta, alterações em franjas do eleitorado podem ser decisivas. Além do mais, este debate tem desde já o condão de enfraquecer o optimismo dos Democratas e renovar o entusiasmo Republicano (tanto da base eleitoral como dos financiadores da campanha)…

 

5. Faltam dois debates presidenciais, um debate entre candidatos a vice-presidentes e um mês de campanha. Continuo convencido que Obama é favorito e que Romney, apesar desta boa prestação, tem alguns problemas por resolver – nomeadamente a explicação cabal da revolução fiscal prometida, as alterações na Segurança Social e os cortes nos programas de saúde, temas de grande sensibilidade onde a dupla Romney/Ryan gera grande desconfiança. Todavia, se até aqui os eleitores viam Obama como um “mal menor”, a excelente prestação de Romney terá pelo menos generalizado a ideia de que ele pode constituir uma alternativa credível. Conseguir isto em hora e meia é notável.

Ah, sim, temos de fazer sacrifícios.


vidabreve,

O Hugo Mendes tem colocado informação preciosa no Jugular. (O que fazia ele no tempo de Sócrates? Assobiava para o lado). Certo é que este post sobre o imposto para ricos que tanto inflamou as almas sensíveis do PSD (e o que faziam elas nos tempos do corte ao subsídio de Natal e do aumento dos transportes públicos? Adivinhem.) coloca a questão onde é preciso — nos antípodas de José Manuel Fernandes. Se alguém próximo do Governo se dignar a responder-lhe talvez vejamos o início de um debate público sério; o que, enfim, já cá vai fazendo alguma falta.

Sócrates já não acredita em José


Rui Rocha,

O debate entre Passos Coelho e José Sócrates marca o ponto de viragem entre o passado recente e o futuro próximo da política portuguesa. É claro que Passos Coelho ganhou o debate. Mas Sócrates perdeu mais do que isso. Os seis anos de governação que protagonizou podem resumir-se como uma corrida em sentido contrário ao da evolução da realidade. O estado de negação terminal de que Sócrates deu mostras a partir de 2009 só foi possível porque conseguiu, contra tudo e com a ajuda de quase todos os que lhe estão próximos, acreditar na alucinação que ele próprio construiu. A cada medida falhada, a cada revés, a cada dado estatístico preocupante, Sócrates foi contrapondo a glória de uma realidade alternativa. Ontem, o discurso estafado e repetitivo que utilizou revelou que Sócrates já não consegue convencer-se a ele próprio. E isso é fatal para alguém cuja sobrevivência política depende de conseguir iludir os eleitores uma última vez.

O debate.


vidabreve,

Vai ocorrer à noite, mas suponho que podemos resumi-lo já. Sócrates acusa o candidato Passos Coelho e a irresponsabilidade do PSD. Passos Coelho, de olhar vácuo, lamenta que o senhor engenheiro nos tenha colocado na situação em que estamos. Sócrates castiga Passos Coelho pela crise política que o PSD provocou enquanto ele próprio tentava salvar Portugal.  Passos Coelho, compungido, recorda que o PSD ajudou o PS a atravessar as dificuldades, etc. Sócrates recorda ao país que o PSD quer acabar com o Estado Social e reduzir milhões de pensionistas a uma miséria escalavrada, ao opróbrio, ao Bangladesh. Passos Coelho responde que na actual conjuntura, e perde-se um bocadinho no seu argumento. Sócrates pergunta ao candidado Passos Coelho o que fez ele pelo país. Passos Coelho não responde à pergunta, Sócrates repete a pergunta, Passos Coelho fica um pouco emburrado com a pergunta e perdido nos seus pensamentos mas diz uma merda qualquer. Sócrates aponta para o homem que quer privatizar a água, criar uma saúde só para ricos e fazer subir o preço do pão. Passos Coelho diz que os portugueses o conhecem (não conhecem), que os portugueses sabem (não sabem, nem ele explica), e que o senhor Presidente da República. Nos minutos finais Sócrates jura ao país que precisamos de um líder capaz de enfrentar, e que a estabilidade e os tempos difíceis. Passos Coelho, num notável esforço de memorização, sustenta que Portugal está numa encruzilhada. Sócrates ganha o debate e Passos Coelho — o Zé Maria da política — ganha as eleições.

Opiniões


discutindoopinioes,

Ontem, ao ver um debate na RTPN sobre a vinda do Papa a Portugal, percebi que há uma frase que eu detesto. A frase é: “isso é apenas a sua opinião”. Foi dita por João César das Neves no momento em que discutia a possibilidade de uma revisão de algumas doutrinas da Igreja. As pessoas que ouviram isto (uma delas foi o Frei Bento Domingues) responderam muito bem – quase com indignação – porque a frase só pode ser dita por alguém que não quer debater nada. Debater pressupõe sempre que estão sentadas à volta da mesma mesa pessoas que opinam, que querem discutir, e isto, claro, só é possível se se aceitar que a verdade não é evidente.

 

O enterro de um ciclo?


jmmcc,

Mais um debate. Jerónimo de Sousa sempre com aquele rosto triste e grave de quem vive o drama dos mais fracos. José Sócrates, que tem andado com nítida dificuldade para optar por uma das máscaras recentes que tem procurado ensaiar, caiu num erro básico: deixou-se ir pela réplica e tentou manter um ar igualmente triste e preocupado. Em vão, porque aquilo não lhe assenta. Ficou apenas com cara de enterro. Veremos se seria premonição.