Olha que giro!


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«No entanto, se era uma ditadura do proletariado,

"não era tudo preto ou branco".

Eu era feliz, e não quero esquecer

esses 35 anos da minha vida»

Estas palavras não foram proferidas por um agente da Stasi.Saíram da boca  da chanceler alemã Angela Merkel, que viveu na RDA de 1954 a 1989. ( Obrigado ao Vítor Dias,Tempo das Cerejas, por me ter lembrado).

Depois de ler tantas opiniões, tantas reportagens,  tantos posts  sobre o Muro de Berlim e constatar que a maioria das pessoas só consegue analisar as coisas, do lado de cá, estas palavras da chanceler alemã foram um autêntico bálsamo para os meus ouvidos.

Aprendi, em pequenino, que se o Criador nos deu dois olhos, foi para nos permitir ver tudo em duas perspectivas. Já adolescente, estudante de Direito, aprendi a descobrir o lado bom dos criminosos e o lado mau das suas vítimas. Uma das primeiras coisas que aprendi no jornalismo, foi que a notícia tem sempre duas faces. Infelizmente são princípios que se perderam ao longo do tempo, especialmente quando a informação passou a ver o mundo, apenas pelos olhos do ocidente.

O que ontem escrevi nas Crónicas do Rochedo e no Delito de Opinião, não era uma provocação.Pretendia, apenas, chamar a atenção para o perigo de ver o mundo apenas de um lado.  Há quatro pontos cardeais, cada um deles tem a sua razão de existir. O arco íris tem sete cores, não apenas uma. E se os períodos de 24 horas se dividem entre noite e dia, nem todos os dias está sol, nem todas as noites o céu está estrelado. Foi essa reflexão, e esse alerta  que quis deixar ontem.Porque o pensamento único e politicamente correcto, que nos querem impôr, francamente chateia-me!

As aparências (às vezes) iludem…


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Uma velhinha estava parada no passeio, junto à rua, aparentando dificuldade em atravessar. Um jovem que passava viu a oportunidade de praticar uma boa acção. Abeirou-se dela  e disse:

– Eu ajudo-a a atravessar, venha comigo!

– Não, não se incomode…

– Não custa nada, venha lá comigo…

A senhora deixou-se levar.  Quando chegaram ao outro lado da rua, o jovem perguntou:

– Quer que a leve a algum sítio?

– Não, eu só estou à espera que o meu filho me venha buscar.

– E onde é que o seu filho a vem buscar?

– Ao pé da farmácia, do outro lado da rua…

(Moral da história: nem sempre a prática de uma boa acção permite alcançar os resultados desejados)

La mala educación *


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Nesse mundo da sotaina  onde, a par de gente sem mácula, se movem pedófilos, criminosos, delatores e agiotas, tenho dois bons velhos amigos que frequentemente lamentam a perda de vocações. Ambos são figuras públicas e um deles foi meu professor de Filosofia. Tendo em consideração a idade e as dúvidas que me assaltavam nessa época, as conversas que com ele tinha ajudaram-me a fazer opções.  Extraí, com a sua ajuda, uma preciosa lição: é perfeitamente possível estar  do lado de Deus sem  estar ao lado da Igreja. O que não é possível é estar do lado de Deus sendo intolerante.

No dia em que Saramago fez aquelas declarações sobre  a Bíblia e assisti às primeiras reacções, lembrei-me desses meus amigos. Pouco depois, lia as reacções ponderadas de um deles num jornal, contrastando com um coro de vozes de batina que se indignavam, ao lado de vozes civis mas pouco civilizadas, como  Mário David.

Telefonei ao meu ex-professor de Filosofia a perguntar-lhe a opinião. Depois de me dizer que já tinha recusado fazer qualquer declaração sobre o assunto, a meia dúzia de jornalistas que o interpelaram, justificou o seu silêncio prenunciando o que se ia seguir. Manifestou o seu desejo de ver a Igreja a pôr água na fervura e lembrou-me uma reportagem que fiz em Macau (e na altura lhe enviei), quando “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” despertou a ira indignada de alguns católicos conservadores.

“Vais ver que agora se vai passar o mesmo. A comunicação social vai empolar o assunto, alguns sectores católicos mais conservadores vão reagir de forma  desabrida  e fazer o jogo de Saramago, ajudando-o a vender livros. Essa gente  em vez de ajudar a difundir a Fé, complica. Seria bem melhor se estivessem calados e não dessem importância ”. 

Esta é a forma de pensar deste meu amigo que, ao contrário de alguns fervorosos crentes, até reconhece aos ateus o direito de serem humanos. Talvez por isso ele seja respeitado e a comunicação social goste de ouvir as suas opiniões.

 

* Título de um filme de Pedro Almodóvar, que me pareceu apropriado

 

Deixem os pássaros voar. E as tartarugas?


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A minha infância teria sido bem diferente se não tivesse a casa cheia de cães e outros animais. Gostava de ter tido pássaros, mas os meus pais sempre me disseram que prender uma ave numa gaiola era criminoso. Depois de muita insistência, acabaram por me oferecer duas tartarugas. Nunca percebi se os meus pais queriam que eu estabelecesse qualquer relação entre os pássaros e as tartarugas. Da mesma forma que não percebo a razão de faltar uma pequena alínea à lei que estabelece novas regras para os animais do circo.  

 

Anúncios de Outono (1)


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Chegaram as castanhas.

Na semana passada, ainda vendia gelados. Ontem apareceu, no seu poiso habitual do Saldanha, a vender castanhas.

Como ainda não está frio para comer castanhas e já não está calor que convide àqueles gelados , os clientes têm sido poucos.

As temperaturas elevadas que se anunciam para este mês de Outubro são um aviso para os vendedores ambulantes que vendem produtos sazonais. Têm que repensar a sua oferta. É preciso encontrar um produto meia estação que alicie os fregueses. Há sugestões por aí?

O lado positivo da gripe A


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Há males que vêm por bem. A gripe A fez cair o turismo em todo o mundo, afectando  principalmente os países onde o turismo é a principal indústria (sim, indústria.) Mas é preciso ver o lado bom da coisa. Graças à gripe A foi possível reduzir  a poluição, pois  o turismo é uma das actividades mais poluidoras do planeta.

Além disso, andar nos transportes públicos pode ser menos penoso…

TROCO…


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Porsche em bom estado.

Motivo: consome demais e anda de menos, deixando-se ultrapassar por uma bicicleta e por um comboio que pára em todas as estações, numa corrida entre o Campo Grande e o Rossio.

Aceita-se, em troca, um lugar sentado vitalício numa carruagem de metro. Válido em qualquer hora do dia e em todas as linhas.

A senhora não está incluída.

Hoje lembrei-me disto…


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Quando estava nos Estados Unidos, tive um professor que um dia deu um exemplo que me tem servido para a vida. Dizia o professor Lehman:

“Se um dia estiverem indecisos na escolha de um candidato para um lugar de direcção, perguntem-lhe o que faria se ocupasse esse lugar. Se ele disser que apagava tudo o que o antecessor  tinha feito, para começar  tudo de novo, livrem-se dele. Uma pessoa que não sabe aproveitar nada do que está feito, é um idiota”.

Porquê 7, Gabriele?


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Gabriele Pauli (na foto) é uma política alemã  do CSU – partido social-cristão da Baviera -, que ousou propôr a revisão dos contratos de casamento ao fim de sete anos e que estes se considerem caducados caso os intervenientes não manifestem interesse na sua renovação. Embora isto se passe na Alemanha, um país de ideias avançadas, não faltou quem, de imediato, a aconselhasse a consultar um psiquiatra. Estes alemães, quando se trata de tocar nas instituições não têm "fair play" e reagem logo com medidas drásticas, na tentativa de cortar o mal pela raiz…

Devo dizer que, para além de considerar inexequível esta medida em Portugal, não estou de acordo com a proposta, mas por razões diferentes.

Porquê 7 anos? Os contratos de garantia dos produtos não vão além de dois. A garantia de uma casa com defeitos de construção não ultrapassa os 10. Nos serviços (onde julgo que o contrato de casamento se deve inserir, dadas as suas características e objectivos), os contratos renovam-se anualmente. Então porquê 7? Por ser um número mítico? Está bem, mas o 3 ainda encerra mais exoterismo e é um prazo que eu considero pouco razoável para a duração de um contrato de casamento. Os contratos são para se rasgar como no futebol! Quando um jogador se liga contratualmente a um clube, jurando amor e fidelidade por 4 anos, quer isso dizer que vai manter o contrato por esse período? Claro que não… Basta um clube vizinho oferecer mais dinheiro e uma indemnização e logo o jogador se transfere, afirmando que o novo clube sempre foi o amor da sua vida. Quanto melhor for o jogador, mais amores tem e mais juras de fidelidade quebra, aumentando o seu pecúlio e o do clube de quem se desliga.

Não vejo por isso qualquer inconveniente em que se apliquem as mesmas regras aos contratos de casamento!

Além do mais, não vejo qualquer justificação para termos em Portugal essa preocupação de respeitar contratos. Veja-se, por exemplo, o caso dos funcionários públicos… Assinaram um contrato com o Estado em que se comprometiam a trabalhar durante 36 anos e, ao fim desse tempo, poderiam ir para casa e receber uma reforma. O actual governo considerou que havia cláusulas que não podia respeitar e, como qualquer bom patrão, disse “aqui mando eu, e os funcionários públicos ficam a trabalhar enquanto eu quiser e não há mais conversas”. É claro que havia alguns funcionários que estavam a um ou dois anos de cumprir o contrato e ficaram a chuchar no dedo, mas a verdade é que toda a gente achou muito bem e aplaudiu a decisão, porque considerou que um dos consortes (o funcionário público) é um canastrão e por isso deve ficar sujeito às regras que lhe são impostas pelo outro, que é sempre considerado como “pessoa de bem”. Não sei bem o que isto significa, mas penso que deve querer dizer que, se o Estado obrigar os funcionários públicos a trabalhar até à morte, como no tempo das galés, tem toda a legitimidade em fazê-lo.

Tudo isto para dizer que, sendo Portugal um país com características peculiares, onde os batoteiros abundam, o contrato de casamento tem que se adaptar a essas características.

Creio que a proposta mais justa e adequada deve apontar no sentido de o contrato de casamento ser vitalício, mas com uma “nuance”. O homem poderá a qualquer momento rescindir o contrato, caso a mulher deixe de lhe agradar por razões que não estará obrigado a especificar. A mulher pode igualmente rescindir o contrato a qualquer momento, desde que o marido autorize e esteja de acordo. À guisa de exemplo, é uma espécie de contrato como o que os comuns dos mortais fazem com os bancos e as seguradoras…

Sete anos de contrato de casamento? Francamente, isso só poderia ter saído mesmo da cabeça de uma alemã a precisar de tratamento psiquiátrico!

É bonita a Festa, pá!


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Fui  à  primeira Festa do “Avante”, em 1976,  com um grupo de amigos. Entre eles estava um dirigente do CDS que não se cansou de tecer elogios  à organização da Festa, à capacidade de mobilização dos comunistas e ao seu espírito solidário. Eu sei que os anos 70 eram outros tempos. As pessoas  ainda não se tinham enquistado nos seus redutos partidários, a política não se resumia a discussões patetas e patéticas que fazem lembrar as conversas  sobre futebol, os valores eram outros e os dirigentes políticos tinham outra qualidade e abertura. Não era a sua discordância com o Partido Comunista, que os impedia de ir até lá, usufruir e apreciar o ambiente que por lá se respirava.

Trinta anos depois, a Festa do “Avante” continua fiel ao seu espírito  e, goste-se ou não, é  uma festa incontornável no calendário de festividades lusas, sendo injusto reduzi-la à expressão de festa partidária. É certo que já teve melhores dias e agora já não é o palco privilegiado para ver e ouvir grandes nomes da música internacional, mas uma visita à Atalaia, num fim de semana quente como o que se anuncia, nunca será tempo perdido. Por lá vão passar vozes do fado como Aldina Duarte e Teresa Salgueiro, mas também David Fonseca, Maria João e Mário Laginha, ou as bandas Blind Zero e Peste & Sida.

Não perderei, certamente, a oportunidade de ver e ouvir as “Voces del Sur”, sem medo de ser “contagiado pela propaganda comunista”. Não poderei, no entanto, estar lá muito tempo, porque serei,  durante este fim de semana, o anfitrião desta FESTA do Blogobairro, para a qual estão desde já todos convidados.

 

Férias na Jamaica


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– Então que tal as tuas férias na Jamaica?

– Ai, querida, foram óptimas! Uma semana fantástica, longe daqui, desta pasmaceira

– Não apanhaste o tufão?

– Oh querida, ali não há tufões! Só furacões como nos Estados Unidos!

– Está bem, mas não estavas na Jamaica quando passou lá um furacão?

– Estava, estava. O Dean por acaso foi um bocado chato…

– ?….

– Imagina tu que no dia a seguir a lá chegarmos estávamos cansados da viagem e só estivemos para aí meia hora na piscina. Depois, no dia seguinte, estava um dia óptimo e tomámos uns banhos que nem imaginas (ai aquelas águas!) que maravilha. E à noite o “reggae”? Oh querida só visto! Aquilo é Bob Marleys por toda a parte…

– Não estás muito queimada, acho que andaste mais nas noites do “reggae” do que a gozar a praia.

– Pois… logo no terceiro dia disseram-nos que vinha um furacão e já nem pudemos ir à praia porque nos avisaram que a qualquer momento nos iam transportar para um hotel mais seguro. Só deu mesmo para comprar umas bugigangas numas tendinhas ao pé do hotel, porque à tarde levaram-nos para outro. Fantástico, minha querida, nem te passa pela cabeça aquela loucura. Só piscinas eram quatro e restaurantes contei pelo menos sete.

– Bem, pelo menos gozaste as piscinas, deixa lá…

– Não… não pudemos ir à piscina por causa do tempo. Estivemos dois dias quase sem sair do quarto e no dia em que o Dean passou por lá só comemos umas rações que os hotéis lá já estão habituados a preparar para os turistas em dias assim. No dia seguinte voltámos de manhã para o nosso hotel, mas o tempo ainda estava muito mau e o hotel tinha ficado muito afectado. E ao fim da tarde do outro dia viemos embora. Olha lá e tu onde passaste as férias ?

– Bem, eu não saí de Lisboa. Fui um dia ou outro com os miúdos até à praia, mas esteve sempre bastante vento…

– Ó querida, coitada! Ficar em Lisboa de férias com este tempo horrível que tem estado. Não consegues convencer o teu marido a oferecer-te umas férias decentes, num país com bom tempo e praias maravilhosas?

– Num país com esse tempo maravilhoso como estava na Jamaica, é?

 

( Em jeito de homenagem à fabulosa prestação dos jamaicanos nos Mundiais de Atletismo e a todos os que, como eu, ficaram por Lisboa em Agosto. Post repescado daqui)

Volta a Portugal em bicicleta


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Cândido Barbosa conquistou a camisola amarela na 1ª etapa da Volta a Portugal, mas perdeu-a logo no dia seguinte.

Disse-me uma joaninha que não foi por demérito do ciclista. Acontece é que, depois de dar várias entrevistas às televisões, recebeu um SMS da ERC lembrando que, sendo candidato em lugar elegível, pelo PSD, à Câmara de Paredes, estava abrangido pela directiva da entidade reguladora, que impede a participação dos candidatos em programas que lhe possam dar notoriedade.

(Sittin’ on) The Dock of the Bay


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“Sittin’ in the mornin’ sun

I’ll be sittin’ when the evenin’ come

Watching the ships roll in

And then I watch ‘em roll away again…”

(Otis Redding, 1967)

 

 

Estou sentado no meu Rochedo, desfrutando desta magnífica paisagem de mar imenso que o Guincho oferece. Já peguei em vários  jornais e revistas de leituras atrasadas. As notícias provocam-me um ligeiro frémito. Rejeito–as com um esgar de enfado. Sinto algum desconforto. Olho outra vez o mar à minha frente. Penso no país de maravilhosas paisagens que está nas minhas costas. O sempiterno Gerês. O Douro beijando as margens do meu amado Porto onde nasci, espreguiçando-se em direcção à Foz, depois de um percurso que o trouxe das profundezas de  Sória, atravessando a agreste paisagem transmontana. Recordo as  paisagens suaves da planície alentejana.  Dou um mergulho no Vale do Tejo. Imagino a costa oeste, nublada e ventosa,  oferecendo-se, luminosa,  à câmara de Nick Knight.  Hesito entre desfrutar o momento presente e o regresso a dias atrás.

Um chiar de travões desperta a minha atenção. Um táxi acaba de evitar, “in extremis”, um atropelamento em cima de uma passadeira. Esta manhã, quando saí de casa para gastar quase 50 euros em notícias que só me trazem desânimo, desgosto, revolta, quase fui atropelado. Atravessei a passadeira com o sinal verde, depois de dois carros terem desrespeitado o sinal encarnado que os mandava parar. Não sabia, mas ainda havia um terceiro  transgressor. Um taxista. Provavelmente daqueles que exibem no vidro traseiro auto-colantes do Correio da Manhã e se alinham em manifestações contra o governo gritando “slogans” de estiva.

Mas neste país não vivem apenas taxistas trogloditas e  transgressores. Há também camionistas e condutores tresloucados. E empresários gananciosos, trabalhadores desmotivados, classes sócio-profissionais eivadas de corporativismo, olhando apenas para o seu umbigo, juízes que trocam a sua função pelo calor dos holofotes, políticos que se julgam deuses infalíveis e outros que se apresentam como salvadores, brigadas anti-aborto, gente indignada com as coligações à esquerda e vice-versa, e uma comunicação social que se demitiu do seu papel.

Portugal é um país maravilhoso mas, por algum desígnio sobrenatural, foi escolhido para residência da Besta. É a Besta que nos governa (pelo menos  desde o tempo do Estado Novo), que põe e dispõe, adormecendo-nos com uma parafernália de bens de consumo com que nos entretemos, na ilusão de que decidimos os nossos destinos.

Admirados com um ministro a fazer corninhos no Parlamento? É talvez a encarnação da Besta, o Sebastião que todos aguardamos, sentados, e abúlicos, à espera que o milagre aconteça. No fundo, os portugueses gostam da Besta e vivem com ela no coração. Por isso olham com nostalgia para o Estado Novo e lamentam o que perderam com a democracia. Os portugueses gostam de “sol na eira e chuva no nabal”, mas isso não é possível, porque a Besta não faz milagres….

Volto a pegar nos jornais. Leio agora que um jardim qualquer quer a Constituição a proibir o comunismo. Desde quando é que os jardins falam? São certamente jardins de papoilas… mas é preciso ter cuidado com os alucinogéneos, por causa dos contágios. Ou será que este país é mesmo um conto de fadas?

Rejeito mais uma vez os jornais  e pego num livro de Chatwin. Tal como ele, pergunto-me “O que faço aqui”?

A brisa serena leva-me até paragens distantes, no hemisfério sul, onde me aguarda o descanso final, junto ao Parque Nacional de Los Alerces, em convívio com as lendas de Butch Cassidy. Encarno a personagem de José Mauro de Vasconcellos em  “Meu Pé de Laranja Lima”. Aí reside a minha esperança. Um dia destes, recebem um post meu a dizer: “Adeus, vou para a Patagónia”. Chatwin fez isso e não se deu mal…

Chegou o momento de regressar à vida de Méthèque.

 

Nota: este post foi escrito (quase) em estereofonia com o Rochedo.

Pergunto ao vento que passa…


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Estive fora de Portugal mais de três semanas. Durante 24 dias procurei não ler jornais, não ver televisão, não ligar a Internet, nem saber notícias de Portugal. Durante a primeira semana, na Suécia, o meu distanciamento foi tão grande que nem me apercebi que lá  estava a decorrer um Europeu de futebol de sub-21. A única notícia a que não consegui escapar foi a realização da Volvo Race, já que se realizava bem no coração de Estocolmo.

No dia em que cheguei a Copenhague, enquanto esperava que o semáforo me deixasse atravessar a Hans Christian Andersen, vi no placard luminoso do Politiken a notícia da morte de Michael Jackson. Ou melhor: deduzi, pelo que li em dinamarquês (bastante parecido com o sueco – de que ainda guardo algumas reminiscências) que provavelmente Michael Jackson teria morrido nessa manhã. Confirmei que não estava enganado quando, depois do jantar, tentei atravessar a praça principal de Copenhague e uma multidão compacta cantava e dançava ao ritmo de músicas do autor de “Thriller”.

Nunca fui admirador de MJ. Irritam-me os tipos que se metem em banhos de lixívia para ficarem mais brancos… De qualquer modo fiquei curioso e, quando cheguei ao hotel, liguei a BBC. Ao fim de 10 minutos já estava cansado de notícias especulativas e mudei  para a CNN, onde também só se falava de MJ. Desliguei e fui dormir.

No entanto, a partir daquele dia, sempre que chegava ao hotel, ligava a televisão. Foi assim que fiquei a saber do golpe nas Honduras (sobre o qual a CNN fez uma excelente cobertura) e, dois dias depois, decidi ir à internet para ver o que os blogs portugueses diziam sobre o assunto. Curiosamente, o assunto parece não ter merecido comentários por cá. Contrastando com a preocupação de uma possível fraude eleitoral no Irão, o golpe das Honduras que derrubou um presidente democraticamente eleito não mereceu uma única linha da maioria dos blogs que costumo ler. Pensei que a notícia nem tivesse chegado a Portugal mas, quando consultei os jornais on line, lá consegui ler umas pequenas notícias.

Estar distante de Portugal permite-nos fazer melhor algumas comparações entre a nossa imprensa e a imprensa estrangeira. Bastava ler os jornais espanhóis, franceses e ingleses para perceber a diferença de tratamento que era dada à golpada, com o inevitável apoio da Igreja Católica local que, na América Latina, está sempre do lado dos bandidos e dos que desprezam os pobres ou as vítimas de ditadores sanguinários.

Adiante…

Sobre Portugal, apenas soube três notícias em 24 dias. Duas sobre Cristiano Ronaldo e uma sobre um ministro que terá ofendido o Parlamento, exibindo uns inapropriados chifrinhos que terão irritado até o Presidente da República, sempre tão compreensivo e condescendente com os dislates de Alberto João Jardim.

Durante a cimeira dos G-8, ainda pensei que o meu orgulho nacional seria despertado com as múltiplas referências ao nosso Eusébio da política, o subserviente Durão Barroso. Oh, tristeza! Oh, injustiça! Oh, ignomínia! Não é que nem a BBC, nem a CNN, nem a Sky News fizeram uma única referência a Durão Barroso?

O panorama melhorou um bocadinho quando cheguei a Espanha. Cristiano Ronaldo a toda a hora, em todos os noticiários e nas primeiras capas dos jornais. Presumo que por cá os nossos canais televisivos também tenham gasto horas em “prime time” com CR9 – e eventualmente com MJ – e não tenham poupado loas ao importante papel desempenhado por Durão Barroso na cimeira do G-8.

Voltei a dar uma espreitadela a alguns blogs. O panorama do país parece não se ter alterado muito durante estes 24 dias. Despertou-me, porém, especial atenção a nova postura ambientalista de MFL, que finalmente aderiu à política dos 3R. No entanto, em vez de Reduzir, Reutilizar, Reciclar, parece que o lema de MFL é Rasgar, Repudiar, Romper. Vou pensar no assunto…

Hoje, quando vi os telejornais, pensei que tinha passado apenas uma noite fora do país: Constâncio na AR, o caso Freeport, os 70 anos de Cavaco, as ameaças de Alegre, Costa e Lopes na corrida a Lisboa, a dupla candidatura de Elisa Ferreira e Ana Gomes e, novidade, o ar humilérrimo de Sócrates.

Bem, ainda não li jornais, mas já ali estão à minha espera. Pode ser que tenha alguma surpresa. Amanhã eu conto.