À conversa com Saramago


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Há dias estive, com mais onze jornalistas de vários países europeus, à conversa com Saramago na sede da sua Fundação. Foi uma conversa deveras interessante, que me permitiu confirmar aquilo que vinha pensando há muito tempo. Embora continue a discordar de algumas posições de Saramago, identifico-me cada vez mais com a análise que faz sobre o mundo em geral e as questões sociais em particular. Contrariando a opinião de muitos, as suas ideias  não são correntes de transmissão do Partido Comunista.  São opiniões de um homem de cultura, que conhece bem o mundo  e tem o privilégio de o interpretar com base em valores que hoje estão esquecidos, mas serviram de base à ascensão de muitos líderes que hoje governam a Europa. 

Falou-se sobre muita coisa. De literatura, jornalismo, cultura, política, relações humanas, globalização e, claro, de  Berlusconi… e da Europa.

A determinada altura, Saramago fez uma afirmação em jeito de pergunta:

– Que se pode esperar de uma Europa constituída por países como a República Checa, que rejeitam os princípios da União Europeia?

Curiosamente, nessa manhã, tinha recebido por mail um vídeo (que a minha incompetência blogueira não permite colocar aqui) onde se vê o PM checo a agredir um ministro,  a quem acusou de ser responsável pela derrota eleitoral.

O ministro levantou-se e fez menção de abandonar a sala mas, antes de chegar à porta, voltou atrás, aproximou-se do microfone e chamou cobarde ao PM, envolvendo-se de seguida os dois numa cena de pugilato.

A cena passou-se durante uma conferência de imprensa, despertando a ávida cobiça dos repórteres de imagem.

Exemplos destes são tão desprestigiantes para a Europa como as orgias organizadas por Berlusconi. Bem vistas as coisas (dada a idade de algumas das jovens), as festas do novo “Duce”  são ainda mais degradantes do que a cena de pugilato entre dois membros do governo.

Alguém perguntou a Saramago como explicava que os italianos continuassem a votar em Berlusconi. A resposta pareceu-me óbvia: metade dos italianos vive à custa do império empresarial de Berlusconi e a outra metade aspira  ser como ele.

No fundo – como escrevi há uns tempos – é também isso que se passa em Portugal e um pouco por toda a Europa. Uma crise de valores  de uma geração que se traiu a ela própria e aos seus descendentes, como explico aqui .

 

A Leste, nada de novo…


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O caso Alexandra, que abordei aqui e aqui, tem-me apaixonado pelas diferentes componentes que o envolve e não se esgotam na  vertente humana – sem dúvida a de maiores consequências para os envolvidos, mas com pouca relevância no foro jurídico.

As decisões contraditórias dos juízes de Barcelos e Guimarães evidenciam uma vez mais que a justiça portuguesa é uma roleta russa onde a vida dos cidadãos é decidida de acordo com o juiz que lhe cai em sorte.

Como dizia ontem uma amiga advogada, à maioria dos juízes apenas interessa o aspecto processual, ignorando outras vertentes que mereceriam análise.

O tratamento jornalístico do caso em Portugal e na Rússia também me suscita especial atenção. Penso estamos perante um caso que irá permitir uma análise ainda mais rica do que o caso Maddie, em que a manipulação noticiosa da imprensa britânica era demasiado visível. Será também uma boa oportunidade para perceber em que nível está a liberdade de imprensa na Rússia

Temos, depois, a análise do comportamento social e cívico. Os imigrantes russos podiam ter ficado calados, mas decidiram sair em defesa da família portuguesa e ponderam organizar uma manifestação para o demonstrar aos portugueses, mas também às autoridades russas. De registar, para memória futura.

Finalmente, temos a vertente política. Se já havia sinais de que o caso Alexandra se poderia transformar num caso político, a recusa do visto à família portuguesa, para participar no programa de televisão onde se ia encontrar com Alexandra, vem retirar quaisquer dúvidas.

A partir de agora, o caso joga-se em mais um tabuleiro e convém estar atento ao desenvolvimento das jogadas.

Adivinho, a breve prazo, a abertura de uma outra frente. Na cabeça de alguns guionistas (atenção, Moita Flores!) já anda certamente a bailar a hipótese de fazer um filme ou uma novela sobre o assunto. Em breve, aparecerá um livro (pelo menos) onde toda a história será relatada.

Alguma imprensa irá explorar o assunto à exaustão. Tal como Maddie, também Alexandra irá permitir a alguns a obtenção de bons lucros. Esperemos é que as histórias que surjam sejam bem contadas.

Entretanto, é bom não esquecer, estamos a cinco dias do Dia Mundial da Criança. Espero que este caso seja lembrado nessa data. Como caso exemplar de violação dos seus direitos.

Vampiros – 2


jmmcc,

Sobre o post abaixo, acho que o Carlos Barbosa de Oliveira discorre com seriedade. Acontece, porém, que Lopes da Mota, se bem percebi as notícias mais recentes, já deu uma inesperada resposta a uma pergunta que creio que ninguém lhe fez: afinal, invocou os nomes de José Sócrates e Alberto Costa. Indevidamente, conforme disse.

Aumentaram as suspeitas sobre o papel do magistrado que preside ao Eurojust nesta história ainda tão mal contada? É evidente que aumentaram. Com a agravante de permitir mais um chorrilho de interpretações, especulativas ou não. E as impressões pessoais de Ana Gomes sobre Lopes da Mota não vêm ao caso — só me espanta que ela misture a toda esta lamentável história aquele costume popularucho tipo "é bom rapaz".

Vampiros


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Este post da Ana Gomes é de leitura obrigatória. Essencial para perceber a utilidade e as funções de alguns conselheiros de imprensa que, como borboletas saltitantes, alternam  entre a profissão de jornalistas e de bufos, na volatilidade dos minutos. Também já fui alvo da cobardia de alguns  bufos e sei o que isso custa.

Mas a leitura do post também ajuda a perceber a minha posição face ao caso Lopes da Mota. 

A lição de Van Gogh


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Uma das coisas que aprendi nos meus primeiros tempos de jornalista foi que devia sempre desconfiar da verdade, mesmo quando ela parecia evidente. Não é que isso fosse novidade para mim. Sempre fui céptico em relação à verdade e sempre tentei testá-la. Por mais evidente que uma coisa me parecesse, procurava encontrar outra explicação que me parecesse menos evidente. Creio que essa postura se deve ao facto de ter começado, muito miúdo, a ler os grandes mestres  dos livros policiais.

Quando escrevo nos blogues não estou preocupado com as regras do jornalismo, como é óbvio, mas de vez em quando procuro analisar determinados assuntos pela perspectiva menos consensual. Como fiz ontem, neste post.

Nem de propósito, hoje leio no DN uma notícia sobre Van Gogh que demonstra que as verdades absolutas podem não ser assim tão definitivas.

Sempre me fez alguma espécie que Van Gogh – mesmo a caminho da loucura – se tivesse auto-mutilado e fosse  entregar a sua orelha a uma prostituta. Com que propósito o faria?

Em 2005, numa visita ao Museu Van Gogh, em Amsterdam, confidenciei a quem me acompanhava que aquilo me parecia mais uma cena de romance do que um episódio da vida real. Ouvi severas críticas que se prolongaram no regresso a  Portugal, em círculo de amigos. Um dia, farto de ser instigado a apresentar uma hipótese alternativa, respondi sem convicção, mas aliviado:

“Olhem, se querem que vos diga, penso que aquilo foi dor de corno!”

Hoje,ao ler o DN, suspirei de alívio. Afinal, foi Gauguin a fazer o servicinho.

25 de Abril Sempre!


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Sou um daqueles portugueses que não renegou Abril e estarei, até ao fim da vida, grato aos militares que me devolveram a Liberdade.

Sou um daqueles portugueses que se indigna quando se lembra que neste país de Abril o actual PR concedeu pensões vitalícias a dois ex-PIDE, por serviços excepcionais prestados ao país, mas a viúva de Salgueiro Maia viu recusada a mesma  pretensão.

Não sou ingrato para quem me devolveu a Liberdade. Fiquei sempre do mesmo lado. Recusei vender a alma ao Diabo. Chamem-me burro, por manter a coerência, mas fiquem a saber: 

Esteja onde estiver, todos os anos celebro e recordo o dia 25 de Abril de 74, com a mesma emoção. Não me esqueço que, nesse dia, estava aqui. E quando de lá saí encontrei um país diferente.

Fundamentalismos


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Um dia destes, os fundamentalistas  anti-tabágicos ainda vão lembrar-se de exigir que  todos os trabalhadores  deixem o tabaco à porta de entrada das empresas.

O passo seguinte será multar quem se passeie na rua com um cigarro na mão e, finalmente, a polícia passará a fazer operações stop para controlar os níveis de nicotina no sangue. Em nome da higienização da democracia, claro.

Por uma Lisboa melhor


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A "Time Out"  pediu a 40 “personalidades” ideias para uma Lisboa melhor. Estes inquéritos valem o que valem, mas por vezes revelam facetas curiosas. Como é o caso da  proximidade de pontos de vista  entre Paula Bobone e Ana Drago.

Enquanto a senhora que nos quer ensinar boas maneiras pensa que Lisboa ficaria perfeita se a zona do Chiado (onde vive) fosse requalificada, Ana Drago, a deputada do Bloco de Esquerda, é de opinião que Lisboa ficaria melhor se Telheiras (o bairro onde vive) se livrasse do Estádio de Alvalade, para lhe evitar os transtornos dos dias de jogo. Parece-me curiosa esta coincidência de opiniões entre uma pessoa de direita e uma deputada do bloco de esquerda. Para ambas, basta mudar o que está mal na zona onde vivem para Lisboa ficar melhor.

Vários dos inquiridos fizeram propostas com alguma originalidade, mas escolhi como a mais original a do cozinheiro  Vítor Sobral, que propõe a instalação de um mega-confessionário  onde os lideres partidários deveriam passar meio dia por semana a ouvir as confissões do lisboetas.

A mais surpreendente é a de Diogo Infante. Para se sentir feliz em Lisboa, o actor apenas precisava de (pelo menos) uma dúzia de pontes que ligassem Lisboa à outra banda. Umas só para peões, outras só para ciclistas e as restantes, presumo, para automóveis e tudo quanto polua a cidade e torne a vida dos lisboetas ainda mais insuportável.

Dois pesos, duas medidas!


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Sinto-me injustiçado! O sr Domingos Névoa, condenado em  Fevereiro por tentativa de corrupção, foi nomeado há dias presidente da empresa intermunicipal Braval, que trata os resíduos sólidos de seis concelhos do distrito de Braga.

Eu, que já confessei aqui em Julho do ano passado que tinha sido corrompido, continuo a esmifrar-me para conseguir o sustento mensal.

Já não há justiça neste país, caramba!

A grande dúvida


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Gostava de perceber o que me faz mais comichão quando vejo José Sócrates. Será o  ar de superioridade de quem está a falar para um povo ignorante que ele vai  salvar? O ar de triunfalismo e desdém com que refuta as críticas? Ou será aquele sorriso irónico com que se afivela  na AR quando algum deputado da oposição o questiona apontando verdades incómodas?

Ajudem-me, por favor, antes que tenha de recorrer à psicanálise!

 

A memória através dos “grafitti”


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Ontem à tarde tive de me deslocar à Junta de Freguesia da Ameixoeira. Quando de lá saí, dei de caras com um grafitti onde se lia:  “Soares+ Pinto, RUA”.

Não pude evitar um sorriso e recuar ao período de 1983-85, quando um governo de coligação traçava os destinos do país. O tempo era de vacas magras, havia uma D. Branca que prometia juros elevados e acabou na cadeia, a AD tinha dado o último suspiro, PS e PSD coligavam-se para formar governo, no intuito de cumprir os objectivos que permitissem a entrada de Portugal na CEE.

Mário Soares e Mota Pinto eram alvos de fortes críticas pelas medidas restritivas que foram obrigados a tomar, sendo talvez a mais recordada a que se reflectiu no corte de 2,8% no subsídio de Natal.

Nos gabinetes ministeriais vivia-se com contenção e houve mesmo um secretário de estado que foi demitido por não cumprir as regras. O governo acabou devido à morte súbita de Mota Pinto, pretexto aproveitado pelo PSD para exigir eleições antecipadas. Foi então que Cavaco decidiu rumar à Figueira da Foz para fazer a rodagem ao Citroen. Saiu de lá candidato a PM…

Quase 30 anos depois, ao ler a mensagem  “Soares+Pinto, RUA”, sinto uma certa nostalgia. Porque era então um jovem mas, principalmente, porque não desdenharia ter dois políticos com a estatura de Mário Soares e Mota Pinto a dirigir os destinos do país.

Só de pensar na possibilidade de as eleições de Outubro virem a resultar num governo de coligação PS/PSD, com  Sócrates e Ferreira Leite ao leme, sinto um enorme calafrio.  Entristece-me  pensar como se deteriorou a qualidade dos políticos portugueses em três décadas e que os portugueses, em vez de mandarem ambos para a rua, se percam em discussões sobre qual deles será o mal menor. Irra!!!

Evocando Borges


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A discussão à volta do casamento entre pessoas do mesmo sexo trouxe-me à memória um comentário de Jorges Luís Borges sobre  Madame Bachelier, a quem acusava de ter feito publicar um catálogo sobre a obra de Pierre Menard  “cheio de imperdoáveis omissões e acrescentos”. 

Acontece que o referido catálogo foi publicado num jornal de tendência protestante, o que acicatou a ironia de Borges, que ao facto se refere como “uma desconsideração inflingida (pelo jornal) aos seus deploráveis leitores – embora estes sejam poucos e calvinistas, quando não maçons e circuncisados”.

RTP promove insegurança


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Hoje, traído pelo cansaço, prolonguei a minha estadia no sofá, diante do televisor, para além do Telejornal. Fiquei ali à espera de ver o que aquilo dava. Saiu-me um “Pai à Força”, título que, em circunstâncias normais, seria suficiente para me levar a fazer “zapping”. Não fiz. Fiquei ali, meio pasmado, a ver passar diante dos meus olhos e ouvidos diálogos forçados escritos por um grupo de amadores que se esforçaram (não duvido) para nos proporcionar uns minutos bem passados.

Pelo que percebi, a série gira em volta de um médico solteirão e "bon vivant", mais preocupado em levar as pacientes para a cama do que em zelar pela sua saúde, mas admito que esteja a fazer um juízo errado.

Julgo também ter percebido que esse médico ficou com três crianças a seu cargo, devido à  morte dos pais, mas que não está minimamente para aí virado e espera a chegada de um salvador que o livre do pesado fardo.

Bem, mas não é para dissertar sobre a série que escrevo este post. Apenas pretendo escrever sobre um facto que me chamou a atenção. Durante os 40 minutos da série, o médico fez umas três ou quatro viagens de “jeep” transportando no banco de trás três crianças, sem cadeirinhas nem cintos de segurança apertados.

Ver aquilo, em horário nobre, provocou-me alguns engulhos. O Estado gastou milhões de euros em campanhas, alertando para a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança e de cadeirinhas. A APSI faz campanhas por todo o país, ensinando como se colocam as cadeirinhas e explicando que existem à venda exemplares não homologados que não oferecem condições de segurança e, em breves minutos, a RTP propagandeia a transgressão. Fiquei a pensar se os pais dos miúdos não terão morrido de acidente por não usarem cintos de segurança…

Sou acérrimo defensor da televisão pública, mas quando vejo o canal do Estado a desfazer em poucos minutos o esforço de uma camanha que custou dinheiro aos contribuintes, não consigo ficar calado. Mesmo arriscando a escrever um post sem cinto de segurança, onde me parece haver vírgulas em excesso, mas que não me apetece corrigir. Por uma vez, sigo o exemplo da RTP e sinto o prazer de ser irresponsável. 

Cenas do País real


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Numa escola, uma miúda dizia a José Sócrates:

– Gosto muito do Magalhães (não ficou claro se a miúda se referia ao computador ou ao outro…)

Resposta de José Sócrates:

– Tens de dizer isso mas é aos adultos…

 

Se me pedissem para continuar a  cena escreveria assim:

"A miúda olhou para José Sócrates e, apercebendo-se que afinal estava a falar com um amiguinho que confundira com o PM, pegou-lhe na mão e disse resoluta: Então se não tenho que votar em ti, vamos brincar à apanhada…"

 

Quando S. Valentim estragou um conto de Fadas!


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Era uma vez uma jovem que via muitas telenovelas, lia a “Maria” e sonhava casar com um homem rico. Um dia encontrou uma Fada que lhe disse:

– Posso satisfazer-te esse desejo, com uma condição: terás de ir trabalhar  numa casa de alterne.

– Quanto tempo?- perguntou a jovem

– Não muito. O suficiente para eu fazer o meu feitiço.

Ao fim de alguns meses, numa manhã de nevoeiro, a Fada voltou a aparecer e disse-lhe :

– Prepara-te. É hoje que vais encontrar o teu futuro marido.

A jovem passou o dia em sobressalto. Foi ao cabeleireiro, pediu dinheiro emprestado para comprar um vestido novo e à noite sentou-se na sua mesa habitual à espera do homem que lhe iria mudar a vida.

Ao bater das 12 badaladas da meia-noite, viu entrar um homem que conhecia das capas de revista e não teve dúvidas que era aquele o marido que a Fada lhe destinara. Não era bonito, era já um pouco velho, mas a conta bancária colmatava esses pequenos defeitos. Pensou que a  Fada podia ter sido mais generosa,  mas  se era aquele que ela escolhera, devia saber o que estava a fazer.

Confortada com esta ideia, não hesitou. Passados alguns dias estava a viver com o homem que a Fada lhe destinara. Foram muito felizes durante dois anos. Ela começou a aparecer nas capas de revistas, exibindo roupas luxuosas e sorrisos de plástico, evidenciando o desafogo em que vivia. O problema é que o companheiro não queria nada de casamento  e ela começava a desesperar.

Um dia, numa visita a Lisboa, encontrou a Fada no Jamaica e atirou-lhe:

– Enganaste-me, Fada! Afinal ele não quer casar comigo…

– Não tenhas pressa. Ele não te dá tudo o que desejas?

– Sim, mas é velho, um dia bate a bota e eu fico sem nada…

– Eu fiz o que tinha a fazer. Agora é a ti que compete fazer o resto.

A jovem era um bocado lerda, por isso não entendeu as palavras da Fada e decidiu agir de acordo com  a sua ambição. Começou  a roubar o companheiro.

Quando percebeu que estava a ser vigarizado, o candidato a marido decidiu pô-la na rua.

Despeitada, jurou vingança e resolveu escrever um livro contando algumas malandrices do seu companheiro. Como a imaginação era demasiado fértil, carregou nas cores da paleta, inventou umas mentiras que um casal de Lisboa lhe soprou ao ouvido e tornou-se escritora de ficção.

O livro foi um sucesso de vendas e despertou a curiosidade de um realizador de cinema, que pretendeu transformá-lo em filme. A jovem já pensava ser a protagonista, mas teve de contentar-se com o argumento. Para a compensar, o realizador ofereceu-lhe uns fins de semana em Lisboa e disse-lhe que havia uma senhora que estava disposta a ajudá-la, desde que ela contasse umas histórias em Tribunal.

A jovem aceitou de imediato. Dando asas à imaginação inventou umas histórias, garantiu em Tribunal que tinha assistido a umas cenas com fruta que puseram em delírio a imprensa desportiva, o Correio da Manhã e os adeptos do Benfica. Passou a ter segurança privada, espatifou um jeep durante a madrugada, em condições que a imprensa escondeu, refugiou-se no Alentejo em casa de um novo namorado, mas acabou outra vez mal, como podem ver aqui e aqui

Mas um azar nunca vem só! Os juízes descobriram que era tudo mentira e decidiram proceder criminalmente contra ela pelo crime de “testemunho falso, agravado”.

Quanto à senhora que a considerava testemunha credível, percebeu o logro em que caiu, assobiou para o ar e começou a dar entrevistas ao Mário Crespo na SIC, para falar de outros assuntos mais mediáticos.

É por estas e por outras que podemos estar descansados com a Justiça em Portugal.

Ao fim e ao cabo, foi só uma história de amor que acabou mal, em véspera de S. Valentim. Tal como o clima, também as histórias de amor e os contos de Fadas já não são como eram dantes. A culpa é da fruta, que afinal estava estragada!

O regresso do Macho Latino


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Há tempos, um juiz absolveu um homem  acusado de sovar a mulher, por considerar que sovar a mulher duas vezes não é crime… trata-se de bater na medida certa!

O Governo gasta dinheiro em campanhas contra a violência doméstica, incita as mulheres a denunciarem os maridos agressores e depois há uma que se atreve e o juiz profere esta douta sentença?

Não me surpreende absolutamente nada que as queixas de violência doméstica continuem a  aumentar, como noticia hoje o DN.

Afinal, também o Reitor do Santuário de Fátima disse há tempos, numa entrevista ao mesmo jornal, que o facto de um marido bater de vez em quando na mulher não devia ser causa de divórcio…

Vá, machos latinos, aproveitem, porque bater nas mulheres é o que está a dar.

Este país chateia-me!….


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Não interpretem o título deste post como manifestação de snobismo ou, ainda pior, como indiferença. Apesar de andarilho sempre gostei de Portugal, mas tenho dificuldade em conviver com a forma como os portugueses gostam de se autoflagelar com minudências.

Eu sei que este ano é importante para o país, que os três actos eleitorais que se avizinham podem ser determinantes para o nosso futuro… mas não posso ignorar que Portugal é um microcosmos neste mundo global onde estamos integrados.

Por isso, a minha grande preocupação do momento não está centrada no resultado dos actos eleitorais, mas sim com a grave situação a nível mundial.

O que me preocupa é saber como o mundo vai sair desta crise que está a lançar milhões de pessoas no desemprego, a agravar  desigualdades, cavando um fosso entre ricos e pobres de proporções catastróficas.

Pensar que em Outubro a escolha é mais do mesmo entristece-me, mas entristece-me ainda mais a resignação dos portugueses, acomodados à ideia de que a alternativa é apenas entre PS e PSD.

Não consigo evitar um lamento ao ver este país reduzido, politicamente, a um Porto-Benfica que decidirá o campeonato eleitoral, ou a um grupo de alcoviteiras que, de mão à ilharga, se acusam mutuamente “pelo estado a que isto chegou”.

Nunca apreciei oportunistas, nem gente de espinha bífida, capaz de responder a um insulto com subserviência. Sinto, por isso, alguma amargura, quando vejo o  PR e a líder do principal partido da oposição rendidos a um homem que, do seu trono madeirense, vai mandando umas bocas foleiras contra quem lhe alimentou os vícios e a sede de poder durante mais de 30 anos.

Sinto algum alvoroço quando um país em crise desperdiça muitos milhões em propaganda eleitoral para produzir outdoors de cariz circense em vez de nos apresentar propostas.

Eriçam-se-me os cromossomas verdes quando imagino as verbas gastas em autocarros que vão percorrer o país anunciando as medidas de um governo  que se mostra incapaz de encontrar soluções para combater a crise em que estamos mergulhados.

Chateia-me perceber que  este país ainda não se libertou do  pensamento corporativo da Constituição de 1933 e é incapaz de ver para além do seu umbigo.

Agoniza de dor a minha costela democrática ao ver que os principais partidos expulsam das suas fileiras algumas das suas figuras proeminentes, obrigando-as a concorrer como independentes, enquanto repescam nados mortos, vítimas de incubadoras assassinas, ou recrutam caniches amestrados que não lhes levantem problemas, e que essa atitude colhe, como retribuição, espíritos exultantes a pugnar  pela  vitória de incapazes.

Atiçam-se-me os neurónios quando vejo o país mergulhado em discussões  sobre a culpabilidade ou inocência de alguns políticos, tomando a posição de adeptos numa peleja  em vez de apontarem o dedo a uma justiça que, em vez de moderadora, pretende assumir o papel de protagonista.

Sei que tudo isto é grave e preocupante, mas também sei que o futuro do planeta não passa pelo nosso país. Temos de ter a consciência que somos apenas um atrelado que ocupa uma posição secundária neste mundo global. Ninguém vai lamentar se nos perdermos no caminho, porque a nossa influência no comboio da globalização se reduz à de um actor secundário num filme série B.

O que me preocupa, neste momento, é saber como o mundo vai sair da crise. E, quando penso nisso, sinto um arrepio enorme percorrer-me todo o corpo, porque não consigo deixar de comparar esta crise à de 1929 que apenas se resolveu com uma Guerra Mundial.

Estou-me marimbando se me acusarem de catastrofista. O que sei é que há sinais evidentes, principalmente na Europa, de que a similitude entre as duas crises não augura nada de bom.