Não interpretem o título deste post como manifestação de snobismo ou, ainda pior, como indiferença. Apesar de andarilho sempre gostei de Portugal, mas tenho dificuldade em conviver com a forma como os portugueses gostam de se autoflagelar com minudências.
Eu sei que este ano é importante para o país, que os três actos eleitorais que se avizinham podem ser determinantes para o nosso futuro… mas não posso ignorar que Portugal é um microcosmos neste mundo global onde estamos integrados.
Por isso, a minha grande preocupação do momento não está centrada no resultado dos actos eleitorais, mas sim com a grave situação a nível mundial.
O que me preocupa é saber como o mundo vai sair desta crise que está a lançar milhões de pessoas no desemprego, a agravar desigualdades, cavando um fosso entre ricos e pobres de proporções catastróficas.
Pensar que em Outubro a escolha é mais do mesmo entristece-me, mas entristece-me ainda mais a resignação dos portugueses, acomodados à ideia de que a alternativa é apenas entre PS e PSD.
Não consigo evitar um lamento ao ver este país reduzido, politicamente, a um Porto-Benfica que decidirá o campeonato eleitoral, ou a um grupo de alcoviteiras que, de mão à ilharga, se acusam mutuamente “pelo estado a que isto chegou”.
Nunca apreciei oportunistas, nem gente de espinha bífida, capaz de responder a um insulto com subserviência. Sinto, por isso, alguma amargura, quando vejo o PR e a líder do principal partido da oposição rendidos a um homem que, do seu trono madeirense, vai mandando umas bocas foleiras contra quem lhe alimentou os vícios e a sede de poder durante mais de 30 anos.
Sinto algum alvoroço quando um país em crise desperdiça muitos milhões em propaganda eleitoral para produzir outdoors de cariz circense em vez de nos apresentar propostas.
Eriçam-se-me os cromossomas verdes quando imagino as verbas gastas em autocarros que vão percorrer o país anunciando as medidas de um governo que se mostra incapaz de encontrar soluções para combater a crise em que estamos mergulhados.
Chateia-me perceber que este país ainda não se libertou do pensamento corporativo da Constituição de 1933 e é incapaz de ver para além do seu umbigo.
Agoniza de dor a minha costela democrática ao ver que os principais partidos expulsam das suas fileiras algumas das suas figuras proeminentes, obrigando-as a concorrer como independentes, enquanto repescam nados mortos, vítimas de incubadoras assassinas, ou recrutam caniches amestrados que não lhes levantem problemas, e que essa atitude colhe, como retribuição, espíritos exultantes a pugnar pela vitória de incapazes.
Atiçam-se-me os neurónios quando vejo o país mergulhado em discussões sobre a culpabilidade ou inocência de alguns políticos, tomando a posição de adeptos numa peleja em vez de apontarem o dedo a uma justiça que, em vez de moderadora, pretende assumir o papel de protagonista.
Sei que tudo isto é grave e preocupante, mas também sei que o futuro do planeta não passa pelo nosso país. Temos de ter a consciência que somos apenas um atrelado que ocupa uma posição secundária neste mundo global. Ninguém vai lamentar se nos perdermos no caminho, porque a nossa influência no comboio da globalização se reduz à de um actor secundário num filme série B.
O que me preocupa, neste momento, é saber como o mundo vai sair da crise. E, quando penso nisso, sinto um arrepio enorme percorrer-me todo o corpo, porque não consigo deixar de comparar esta crise à de 1929 que apenas se resolveu com uma Guerra Mundial.
Estou-me marimbando se me acusarem de catastrofista. O que sei é que há sinais evidentes, principalmente na Europa, de que a similitude entre as duas crises não augura nada de bom.

Ser realista não é incompatível com o sentido da esperança! Ser realista pode mostrar um elevado grau de lucidez, que, longe de ns conduzir ao cinismo, pode sim, ajudar uma atitude construtura de esperança. Porque não mitifica nem mistifica nada nem ninguém!.
:)))
Carlos, ml
Com outros preliminares escrevi sobre o mesmo há dias no Vila Forte. Estamos todos apreensivos.
http://vilaforte.blogs.sapo.pt/83850.ht
Num país de faz de conta,
com muitos séculos dessa história,
neste 21 que desponta
tem emergido muita escória.
Muita coisa acontece,
e muita irá acontecer,
a democracia desmerece
por tanta conta fazer.
O mexilhão já lixado,
mais lixado ficará,
triste é o seu fado
e mais triste ficará!
Em Outubro a escolha não será mais do mesmo, anime-se. Irão a votos pelo menos dois novos partidos, o MEP e o MMS. Haverá portanto mais escolha. O povo português é que, possivelmente, não a aproveitará. Mas isso é outra coisa.
Posso subscrever tudo o que o Carlos escreveu? Infeliz ou felizmente as coisa que nos interessam são muito pouco decididas ao nível do país ou até mesmo ao nível da Europa. Penso que, pelo menos parte da crise, se situa mesmo ao nível do “desaparecimento” da Europa como protagonista principal e ao facto de os demais protagonistas ainda não saberem muito bem decidir a um nível que transcenda o aqui e o agora, não acha?
Identifico-me com quase tudo o que o Carlos Barbosa de Oliveira escreveu. Gostava até de ter sido eu a escrever este texto se o engenho me tivesse permitido expressar deste modo o pensamento. Forte abraço.