Uma sociedade que não compreende os seus problemas está condenada a repetir vezes sem conta os mesmos erros.
Após uma década de estagnação económica, em que o Estado, as famílias e as empresas acumularam dívidas insustentáveis, Portugal foi confrontado com uma situação de insolvência que exigiu intervenção externa, sujeita a condições draconianas. O resgate implicou um programa de ajustamento que, por sua vez, exigiu duros sacrifícios à população. Neste processo, mal negociado no início e que não era negociável depois, Portugal perdeu 6% da riqueza. Seria um verdadeiro milagre que a pobreza não tivesse aumentado ou que não houvesse mais desemprego.
Infelizmente, temos uma narrativa maioritária que ignora os factos básicos, impedindo o País de compreender que o ajustamento esteve associado a uma mudança estrutural da economia. Se quiser manter-se na zona euro, Portugal terá de cumprir regras de equilíbrio orçamental. Não está resolvido o seguinte trilema: podemos ter uma sociedade democrática e próspera, mas isso implicará controlar os gastos sociais, limitar a dimensão do Estado e rever o sistema de pensões; se preferirmos continuar com um elevado nível de despesa pública e de dívida, teremos de sair da zona euro, prescindindo da prosperidade e talvez até da democracia que a participação na União Europeia garante.
O problema central, nesta crise, esteve na repetição de um modelo errado. As principais dificuldades que Portugal atravessou nos últimos 150 anos tiveram sempre elementos semelhantes: grupos de interesses apropriavam-se de um orçamento limitado, ganhando partes desproporcionadas do bolo ou não pagando impostos; os negócios que privilegiavam os amigos eram muitas vezes ruinosos, mas estava lá sempre o Estado centralizado para acudir a aflições; as clientelas garantiam a estabilidade do sistema, não havendo verdadeiro espaço para uma opinião pública crítica ou para o aparecimento de autênticas alternativas políticas; este foi um país imune a reformas, onde cada pequena mudança deparou com a resistência feroz dos grupos beneficiários, que controlavam os meios de comunicação. Este modelo garantiu-nos uma pobreza crónica e a instabilidade instalava-se quando os recursos disponíveis se tornavam insuficientes.
A Monarquia Constitucional entrou em dissolução após a bancarrota de 1891; a Primeira República mergulhou na loucura, sobretudo depois do colapso do sidonismo; o Estado Novo claudicou no marcelismo, com economia pujante, mas incapaz de resolver o problema imperial e de fazer reformas democráticas.
A adesão europeia evitou que a República Democrática seguisse o caminho do caos que outros regimes viveram. O dinheiro europeu que Portugal recebeu nas últimas três décadas em quantidades extraordinárias permitiu edificar infra-estruturas modernas, mas não criou ainda um país moderno. As pessoas comuns continuam a desconfiar das instituições e as elites contribuem para esse descrédito, com a sua aversão a reformas significativas.
Apesar de tudo, desta vez pode ser diferente, pois a sociedade portuguesa tem agora elites mais alargadas, consequência de reformas recentes, tardias, mas que transformaram as gerações. Os meios de comunicação, onde imperava o controlo dos poderosos, continuam a ter diversidade limitada, mas sofrem cada vez mais a concorrência da liberdade de expressão que se fortificou na internet. A sociedade civil lá vai crescendo, enquanto passa entre as gotas de chuva.
Existe um mito entranhado de que as desgraças recentes deste País foram uma imposição externa, a que se juntou a fraqueza do actual governo. Na realidade, esta crise é mais complexa, pois envolve uma mudança de mentalidade a que os poderes tradicionais têm resistido como podem.
Para continuar a definir o seu destino, Portugal necessita de continuar as reformas e mudar o Estado, onde tudo se decide. A alternativa será uma existência irrelevante de País isolado e de segunda linha. O ajustamento foi brutal, envolvendo quase 25 mil milhões de euros em impostos e reduções da despesa pública, mas prosseguirá nos próximos três anos, com cortes adicionais de 5 mil milhões. Entretanto, o que foi feito terá de se tornar sustentável, os impostos precisam de diminuir: isso implica mudanças adicionais na segurança social, no sistema político e nas funções do Estado, matérias que exigem acordos interpartidários.
O País precisa de compreender isto, em vez de continuar a chorar o leite derramado, para mais chorando a perda sem compreender devidamente o que levou a que ela acontecesse.