Tenho um plano para tirar Portugal da crise


Rui Rocha,

De forma resumida, consiste no seguinte: com um ligeiro impulso, faz-se com que um berlinde percorra uma calha com declive negativo; no final da calha, a esfera embaterá num rato de plástico, fazendo-o mover-se na direcção de uma mulher gorda que gritará de forma estridente; o grito da mulher gorda assustará um papagaio, obrigando-o a esvoaçar; as asas do papagaio embaterão numa bola de bilhar em equilíbrio instável fazendo-a vencer a inércia; o movimento imprimido à bola fará com que esta entre num tubo no final do qual estarão alinhadas duzentas mil peças de dominó que cairão uma a uma e sequencialmente; a queda da última fará com que uma tesoura se feche, cortando um fio; o corte do fio libertará uma baqueta de metal com uma extremidade macia coberta de feltro; a baqueta mover-se-á em direcção a um gongo, embatendo a parte macia na campânula deste último; produzir-se-á um efeito de rufo que, por sua vez, terá como consequência directa o crescimento da economia a dois dígitos durante, pelo menos, cinco anos. Dirão alguns que este plano não é grande coisa. Respondo-lhes que o do Tó Zé parece muito menos credível.

Também é verdade que não é culpa nossa que o PS, depois de nos proporcionar um governo liderado pelo Joe Dalton, não tenha melhor para oferecer do que o Rantanplan


Rui Rocha,


Tó Zé Seguro afirma que, se for primeiro-ministro, austeridade será necessidade e não prioridade. 

As cartas do Pedro e do Tó Zé


Rui Rocha,

Carta do Pedro:

 

Caro Tó Zé,

 

Como sabes, a situação do Estado Social é muito grave. É urgente promover a refundação do Memorando de Entendimento. Para isso, é necessário assegurar uma ampla base de apoio às reformas necessárias. Peço-te para reenviares esta carta a dez amigos na próxima hora. Todavia, se quebrares a corrente, o Estado Social morrerá. Sou quem sabes, Pedro.

 

A resposta do Tó Zé:

 

Caro Pedro, 

 

Já não acredito nesse tipo de corrente desde que o Vieira da Silva me explicou o modelo de financiamento da Segurança Social. Por isso, não vou dar seguimento à que me enviaste. Em todo o caso, fica sabendo que o PS tem alternativas. Assim, partilho contigo uma outra solução que o Galamba estudou na Alfama Business School e que pelo visto já deu muitos e bons resultados. Estou certo de que este modelo, se for correctamente aplicado, permitirá angariar as receitas necessárias para que possas adoptar políticas de crescimento. Por favor, toma nota das instruções que te envio tal e qual como o Galamba mas transmitiu, com exemplos e tudo para perceberes bem:


ETAPA 1:

Deposita imediatamente 1€ na conta das pessoas que constam da seguinte lista:

1º J. Lello

2º J. P. de Sousa

3º A. Vara

4º P. Campos

5º J. Coelho  

6º R. Salgado

Nota: repara que os nomes não estão completos para preservar a privacidade de cada um e manter o princípio de fazer o bem sem olhar a quem.

Nota adicional: no caso do Paulo Campos, porra, digo, do P. Campos, não te admires se a conta destino for a dos pais dele.

 

ETAPA 2: Agora, tira o primeiro nome da lista e faz subir todos os outros uma posição. Por exemplo, o Sócrates, porra, digo, o P. de Sousa, passa para primeiro e assim sucessivamente. Em 6º lugar coloca os dados da Tesouraria da Fazenda Pública (atenção à questão da confidencialidade; podes pôr, por exemplo, FP para ninguém perceber).

 

ETAPA 3: Envia por e-mail a, pelo menos, duzentas pessoas e faz seguir também as instruções. Lembra-te, em todo o caso, que quantos mais mails mandares mais hipóteses tem o Estado de ganhar dinheiro.


Sou quem sabes, Tó Zé.

Açores: dez apontamentos eleitorais


Pedro Correia,

 

1. Vitória eleitoral categórica do PS nas eleições regionais dos Açores, revalidando a maioria absoluta. Um triunfo pessoal do candidato socialista, Vasco Cordeiro, que assumirá a liderança do Executivo em Ponta Delgada, e também do secretário-geral do PS, António José Seguro, que participou activamente na campanha.

2. Esta foi a primeira vitória de Seguro desde que assumiu o comando dos socialistas a nível nacional. Cumpriu-se um dos melhores cenários eleitorais para o secretário-geral do PS, que assim robustece a sua liderança face às movimentações de possíveis rivais internos. Também por esse motivo esta era uma eleição que Seguro precisava mesmo de ganhar.

3. O resultado de hoje nos Açores constitui igualmente um tributo popular ao mandato do socialista Carlos César, que abandona o poder voluntariamente após 16 anos como presidente do Governo Regional. Esta vitória também lhe pertence pois constitui uma espécie de referendo ao seu desempenho governativo. Fazendo instalar a ideia, simétrica à da Madeira com maioria PSD desde 1976, de que nos Açores é normal que vençam os socialistas.

4. Berta Cabral, a candidata social-democrata, sofre uma pesada derrota. De nada lhe valeu, na recta final da campanha, demarcar-se do Governo de Lisboa fazendo comparações deselegantes com Passos Coelho e chegando a anunciar o voto contra dos deputados açorianos na Assembleia da República contra o Orçamento do Estado ainda sem conhecer o documento.

5. De nada serviu também ao CDS regional o discurso contra a coligação nacional de que faz parte. O partido sofre um recuo eleitoral e vê defraudada a expectativa de ascender ao Governo Regional como parceiro menor dos socialistas.

6. Passos Coelho não participou na campanha, ao contrário do que sucedeu com Paulo Portas, mas esta derrota também deve ser-lhe creditada. Foi a primeira que sofreu desde que assumiu a liderança dos sociais-democratas a nível nacional.

7. As campainhas de alarme terão de soar no PSD: o escrutínio açoriano, claramente influenciado por factores nacionais, indicia resultados tão maus ou piores para o partido nas autárquicas do próximo ano. Passos Coelho assumiu dignamente a derrota mas deve apressar-se a tirar conclusões deste expressivo voto de protesto dos eleitores açorianos.

8. Estranhamente, Berta Cabral não anunciou de imediato a demissão do cargo de presidente do PSD-Açores e a convocação de um congresso extraordinário. Devia tê-lo feito.

9. Carlos Cesar deu um notável exemplo de desprendimento do poder: podia ter-se recandidatado a um novo mandato de quatro anos, mas preferiu encerrar o seu ciclo de intervenção política directa nos Açores. Uma atitude que há muito devia ter sido adoptada na Madeira por Alberto João Jardim.

10. Vale a pena tomar nota: ainda haveremos de ouvir falar muito de César. Desta vez a nível nacional.

Açores: cinco cenários para Seguro


Pedro Correia,

 

Nunca umas eleições regionais nos Açores tiveram tanta importância a nível nacional, como se verá.

Na perspectiva de António José Seguro, deste escrutínio poderão decorrer cinco cenários – do óptimo ao péssimo.

 

Cenário óptimo. O candidato socialista açoriano, Vasco Cordeiro, vence as regionais mas sem maioria absoluta – o que o levará a formar um governo de coligação com o CDS no arquipélago. Situação ideal para o líder do PS por dois motivos: esta coligação teria um potencial de fractura entre os dois partidos que formam governo a nível nacional e poderia servir de balão de ensaio para um futuro Executivo em Lisboa entre socialistas e democratas-cristãos. Este seria também o cenário perfeito para o partido liderado por Paulo Portas, que se confirmaria como força política charneira do regime, ampliando ainda mais a sua capacidade negocial: coligada com o PSD em Lisboa e com o PS em Ponta Delgada.

 

Cenário bom. Vasco Cordeiro triunfa nas urnas, com maioria absoluta. Primeira vitória que Seguro poderá reclamar, enquanto líder do PS, depois de ter perdido as regionais de 2011 na Madeira, onde viu o seu partido ser ultrapassado pelo CDS como segunda força política. Esta vitória funcionaria no entanto, essencialmente, como um plebiscito aos 16 anos do mandato insular de Carlos César, impulsionando a sua carreira futura, desta vez a nível nacional.

 

Cenário ambíguo. O PS revalida a maioria nas urnas mas recuando eleitoralmente, vendo crescer as forças à sua esquerda e não lhe bastando somar deputados aos do CDS para garantir apoio maioritário na Assembleia Legislativa Regional. Teria assim que estabelecer um acordo político com o PSD, espécie de reedição de um bloco central à escala açoriana, aliás já admitido pela líder do PSD-Açores, o que enfraqueceria necessariamente o vigor da sua oposição aos sociais-democratas a nível nacional.

 

Cenário mau. O mesmo cenário, mas com posições invertidas: vitória tangencial do PSD, o que levaria a social-democrata Berta Cabral – que conduziu o essencial da sua campanha nas regionais a demarcar-se de Pedro Passos Coelho, ao ponto de anunciar que os deputados do PSD-Açores em Lisboa votariam por determinação dela contra o Orçamento do Estado ainda sem este documento ser conhecido – a formar um bloco central nos Açores. O PS seria desgraduado: em vez de um presidente do Governo Regional, teria apenas um vice-presidente.

 

Cenário péssimo. O PS perde esta eleição, mas sem possibilidade de ascender ao Governo. Seria a segunda derrota consecutiva de Seguro (após a da Madeira), o que levaria os seus adversários internos a acelerar as movimentações para uma mudança de ciclo no partido a nível nacional. Líderes alternativos não faltam – e estão em boa forma, como demonstraram Francisco Assis na sua intervenção parlamentar em nome do PS no recente debate das moções de censura ao Governo e António Costa, intervindo mais como protagonista político de primeiro plano do que como presidente da câmara de Lisboa nas cerimónias do 5 de Outubro. Falta apenas um bom pretexto para qualquer deles avançar.

 

Esta é, portanto, uma eleição que António José Seguro precisa de ganhar. Mais do que qualquer outra, mais do que qualquer outro.

A procurar abrir caminho.


Luís Menezes Leitão,

 

Estas declarações de António Costa a referir que tem qualidades úteis para ser secretário-geral do PS e que houve alturas em que desejou o cargo são, como é óbvio, um frontal ataque à liderança de Seguro. O mesmo, aliás, não tardou a responder-lhe, dizendo que se sentia muito feliz com a qualidade dos dirigentes do partido.

 

É evidente que António Costa deseja ser Presidente da República ou Primeiro-Ministro, tendo a sua ida para a Câmara de Lisboa o objectivo apenas de arranjar um perfil mais presidenciável, à semelhança do que fez Jorge Sampaio. Com isso António Costa evitou ser arrastado pela desgraça em que ele bem percebeu que iria cair o governo Sócrates, de que fazia parte. Por esse motivo, António Costa não se envolve nos assuntos correntes da Câmara de Lisboa, apenas aparecendo nas grandes cerimónias, e deixando as polémicas para Manuel Salgado.

 

Aquando da queda de Sócrates, e perante a tragédia em que o país tinha caído, António Costa pensou que o secretário-geral seguinte seria inevitavelmente queimado por essa pesada herança, e recusou-se a avançar, deixando Seguro ser devorado pelas feras. Era de facto o cenário mais previsível, ainda mais tendo o PS um grupo parlamentar maioritariamente socratista e que não hesitaria em desafiar Seguro, como se viu no episódio da fiscalização do corte de subsídios pelo Tribunal Constitucional.

 

Os cálculos de Costa, no entanto, saíram furados. Em primeiro lugar, Seguro não hesitou em afrontar Costa, como se viu no episódio de ter interrompido uma entrevista que ele estava a dar num programa de televisão. Em segundo lugar, apesar de estar a fazer uma oposição fraquíssima, Seguro tem vindo paulatinamente a ganhar pontos, capitalizando os sucessivos erros e as hesitações em que o governo tem caído. E, por último, a gestão da Câmara de Lisboa está a revelar-se um desastre total, por muitas ajudas que tenha do governo, como foi esta entrega de 286 milhões apenas em troca de um “reconhecimento da propriedade”.

 

Costa sentiu por isso que precisava de desafiar Seguro quanto antes. Efectivamente, o seu caminho aberto pode afinal revelar-se bem fechado e cheio de espinhos.

Está na cara


Rui Rocha,

 

António Seguro garante que é a cara do emprego. Isto preocupa-me. Confesso que vi o emprego poucas vezes. E há muito tempo. Mas estava capaz de jurar que tinha um aspecto muitíssimo diferente. Por isso, das duas uma. Ou sou mesmo um péssimo fisionomista e não o consigo reconhecer quando dou de caras com ele, ou Seguro não se tem visto ao espelho. Nenhuma das alternativas é, convenhamos, muito agradável. Em todo o caso, uma coisa é certa. Se Seguro tiver razão, está na cara que se trata de emprego precário.