José Sócrates foi o maior derrotado do debate desta noite entre os dois candidatos à liderança do PS, na SIC Notícias: o seu nome esteve ausente da discussão entre António José Seguro e Francisco Assis, o que revela bem até que ponto o legado do governo derrotado nas urnas a 5 de Junho é incómodo para o PS.
O debate – bem moderado, como de costume, por Ana Lourenço – demonstrou que este combate entre os socialistas pode deixar cicatrizes: em diversos momentos, Assis e Seguro trocaram palavras muito ríspidas. Deixando evidente que têm duas formas distintas de encarar o PS. Seguro, com assinalável subtileza, reclamou-se da herança de António Guterres, de quem foi secretário de Estado e ministro. Assis, que na recta final do consulado de Sócrates se destacou como um dos homens de confiança do derrotado primeiro-ministro, optou por lembrar o seu notável currículo – que incluiu a presidência da câmara de Amarante, dois anos como deputado europeu e a liderança da bancada parlamentar em São Bento. O problema, para Assis, é que Seguro pode medir-se facilmente com ele em termos de currículo político e partidário. A diferença entre ambos reside sobretudo na distância crítica que o deputado eleito por Braga soube manter em relação a Sócrates. Não perdeu a oportunidade, por exemplo, de acentuar que nestes últimos anos foi apenas membro da Comissão Política Nacional enquanto Assis integrava o Secretariado – ou seja, o núcleo dirigente do partido. Recordou também o contributo pessoal dado para a reforma do Parlamento, em 2007, que repôs a Assembleia da República como centro do debate político em Portugal, e sobretudo as posições públicas que tem defendido no “combate implacável à corrupção, que mina o Estado de direito em Portugal”. É de elementar justiça reconhecer-lhe tais méritos.
Assis – que, de gravata azul, surgiu mais nervoso perante as câmaras – esteve bem. Mas o seu antagonista, de gravata vermelha, esteve melhor. Um exemplo ocorreu mesmo no fim do debate. Quando o ex-líder parlamentar sublinhava a necessidade de “abrir o partido à sociedade”, Seguro limitou-se a perguntar-lhe com o ar mais natural do mundo: “Tu foste do Secretariado nos últimos anos. Só descobriste isso agora?”
A conversa aquecia. Infelizmente, Ana Lourenço, por imposições do cronómetro, teve de dar por concluído o frente-a-frente, que podia e devia ter-se prolongado por mais meia hora. Ao que parece, foi o único confronto televisivo entre os dois candidatos à liderança do PS: Seguro recusou novos encontros com Assis defronte das câmaras. A avaliar por este – que infelizmente não decorreu num canal aberto – é uma decisão que não consigo entender: ele seria o primeiro interessado na multiplicação dos debates.
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FRASES:
Assis – «Nunca fugi de nenhum combate, estive sempre presente, nunca me preocupei se isso me iria prejudicar ou beneficiar.»
Seguro – Fui membro do Governo de António Guterres. (…) Ele [Assis] não esteve, eu estive. E fui cabeça de lista em Braga três vezes, em 2005, 2009 e 2011. Em Braga o PS teve melhor resultado do que no Porto [onde Assis era cabeça de lista].»
Assis – «Eu represento uma distância maior em relação ao actual primeiro-ministro do que o António José Seguro. As questões de estilo são importantes em política: reflectem muito a natureza das personalidades políticas. (…) Não devemos resvalar para a pequena política. Esse é um argumento muito débil.»
Seguro – «É preciso manter o nível do debate, com elevação.»
Assis – «Não és tu que me vais dar nenhuma lição de dignidade na forma de estar na política. Eu tive no Porto um resultado absolutamente idêntico ao que tiveste em Braga: foi uma diferença de décimas, só que eu tive no Porto uma esquerda mais forte do que tu tiveste em Braga. Uma coisa é certa: foram ambos maus.»
Seguro – «Tu falas muito bem. Mas é preciso descer à realidade. Convém que te acalmes um bocadinho. Essa coisa de dizeres, com palavras bonitas, que eu sou parecido com Pedro Passos Coelho não cola.»