A vantagem de suceder a Sócrates


Rui Rocha,

 

De acordo com o barómetro TSF / Diário Económico, os primeiros 100 dias de governo assinalam uma subida expressiva do PSD e um desastre para o PS e para o CDS. O estado de desgraça do país é o palco de um estado de graça de Passos Coelho que reforça junto dos eleitores o benefício da dívida. Apesar de vários erros de percurso e de já ter sido obrigado a quebrar promessas eleitorais, o Primeiro-Ministro tem conseguido passar a mensagem essencial. É diferente de Sócrates. E isso marca um aspecto fundamental que deve ser considerado pela oposição nos próximos tempos. Não adianta insistir na reabilitação daquele que agora se dedica a cursar filosofia em Paris. A alternativa a Passos Coelho, sempre indispensável em democracia, não pode ser o regresso a Sócrates ou aos seus métodos. Há-de fazer-se por caminho diferente. O caminho que Seguro ainda não encontrou.

Seguro contra todos os riscos


Rui Rocha,

 

As críticas de António Costa e Francisco Assis ao novo líder parlamentar do PS confirmam que António José Seguro ainda não percebeu bem o que os socialistas esperam dele. Alguns pretendem reabilitar o líder anterior (José Sócrates). Outros querem lançar a candidatura do futuro líder (António Costa). A reabilitação de Sócrates pressupõe que Seguro actue como carro-vassoura, recolhendo os que caíram da governação e assegurando-lhes um transporte confortável até à meta. O lançamento de Costa implica que Seguro actue como  lebre. Cabe-lhe assegurar as despesas da corrida nas primeiras voltas à pista. Mas,  nessa missão, a lebre deve desgastar o Coelho, desgastando-se a si própria. Pode até ter vestida a camisola amarela. Todavia, em caso algum lhe estará reservada a vitória na corrida. Nenhuma destas encomendas é compatível com a proclamação de um partido novo. Para os que o vêem como carro-vassoura, o que se pretende são obras de fachada no partido velho. Para os que o querem como lebre, a ilusão do partido novo pode e deve esperar pelo momento oportuno. Os projectos políticos de certas pessoas estão primeiro.

Vindo de quem vem…


Sérgio de Almeida Correia,

“Ao contrário da maioria dos que costumo ler, não tenho aptidões augurantes para prever o futuro do secretário-geral do PS – mas reconheço um corredor de maratonas políticas quando o vejo. Seguro não é um velocista, mas alguém que sabe determinar o ritmo do seu passo mantendo o fôlego quando muitos já se estafaram em sprints inconsequentes“

Carlos Abreu Amorim, deputado do PSD, no DN

Verão misterioso do PS: outro pack


jmmcc,

A escolha do líder parlamentar socialista poderá ficar adiada para Setembro, o local para realizar o congresso do PS de 9 a 11 de Setembro ainda está a ser pensado, o espaço na Assembleia da República onde se reúne o grupo parlamentar socialista poderá ser transformado no gabinete do novo secretário-geral junto do Parlamento, a liberdade de voto dos deputados do PS prometida por António José Seguro poderá esbarrar na resistência de alguns parlamentares socialistas e até gerar cisões. Isto e mais uma mão-cheia de detalhes constituem agora o pack de preocupações do PS para o Verão.

Em suma: o partido das grandes «clarezas» e «transparências» anda perdido em mistérios.

A grande novidade, apesar de tudo, é a bancada parlamentar ganhar personalidade própria, conforme dá conta o Público de hoje: «A bancada parlamentar do PS espera que esta manhã, na sua primeira reunião com os deputados, o recém-eleito secretário-geral socialista, António José Seguro, desfaça o mistério em torno da sua escolha para a liderança do grupo.» O que aquele jornal quer dizer, afinal, é que a bancada parlamentar já se reúne com os deputados e até já fez saber que espera ver resolvido um dos vários mistérios que a consome.

Tem sorte, o Público: melhor do que esperar pelo despacho da Lusa é falar directamente com a própria bancada parlamentar. Antes e depois das reuniões desta com os deputados.

Estava escrito


Pedro Correia,

 

A 3 de Maio de 2010, escrevi aqui no DELITO que António José Seguro seria o próximo líder do PS. Era uma altura em que o consulado de José Sócrates, no País e no partido, já apresentava sinais de notória decadência: apenas os mais fiéis e os distraídos do costume teimavam em não encarar esta realidade. Como acentua Javier Cercas no seu livro Anatomia de um Instante, a análise política só funciona quando somos capazes de detectar o que está vivo no que parece estar morto e o que está morto no que parece estar vivo.

Era já também então evidente, para quem soubesse olhar, por que motivo Seguro partia em vantagem perante qualquer outro adversário interno: enquanto Sócrates domava o partido, e o vergava ao seu mando, do deputado natural de Penamacor e eleito por Braga partiram iniciativas que o distinguiram e enobreceram. Como o seu voto solitário contra o novo regime de financiamento dos partidos políticos que permitia o regresso dos homens cheios de malas com ‘dinheiro vivo’. E a sua firme oposição, também na Assembleia da República, à quebra de uma das mais emblemáticas promessas eleitorais de Sócrates: a realização de um referendo europeu, rapidamente metida na gaveta quase sem um sobressalto entre os socialistas. Já para não falar da reforma que liderou para alterar o regimento parlamentar, que hoje dá mais protagonismo à oposição e obriga o primeiro-ministro a deslocar-se quinzenalmente ao hemiciclo de São Bento.

Nada mais natural, portanto, que os militantes socialistas, convocados para as primárias, tenham atribuído a vitória a Seguro – por cerca de dois terços dos votos – contra Francisco Assis, o candidato favorito do desagregado aparelho socrático e dos nostálgicos do ciclo político encerrado nas legislativas de 5 de Junho, fora e dentro da blogosfera.

Estava escrito. Nas estrelas e não só.

 

P. S. (sem conotações): deves-me uma aposta, Luís.

Declaração de interesses


Sérgio de Almeida Correia,

Algumas razões que me levam a apoiar António José Seguro:

 

1 – A defesa dos valores de democracia e da liberdade, tendo presentes as exigências de uma ética de responsabilidade política e a necessidade de preparar o PS para o futuro, dotando-o de uma estrutura e de uma liderança à altura do século XXI e de um novo ciclo livre de fantasmas e dos constrangimentos do passado.

 

2 – Porque acredito que a candidatura de António José Seguro seja capaz de trazer e enquadrar um maior número de pessoas, reforçando a diluição das fronteiras entre os militantes e os eleitores, de maneira a que estes possam participar num processo de reconstrução colectiva encabeçado pelo PS.

 

3 – Os modelos de liderança autocráticos, personalizados e centralizados contribuíram para a marginalização dos militantes, das estruturas partidárias e dos próprios dirigentes locais, pelo que importa inverter o modelo clientelar e burocrático que tem sido utilizado para a obtenção de unanimidades de duvidosa utilidade, as quais se têm revelado incompreensíveis para os militantes e eleitores e prejudiciais para o Partido e o País.

 

4 – O incremento da participação e a realização de um debate político sério e consequente é indissociável de uma nova forma de fazer política e da vontade que todos têm de ajudar à reconstrução do PS.

 

5 – A marginalização dos militantes e das bases do PS por parte dos seus órgãos de direcção, incluindo os regionais e locais, afastando-os da formulação das políticas, do desenho das estratégias e da selecção dos candidatos, conduziu à criação de lealdades difusas e a uma grave erosão do princípio da responsabilidade, aliás espelhadas na centralização do aparelho, na autonomia que gozam os dirigentes, na ausência de mecanismos internos de controlo da sua acção e na falta de um debate regular e participado.

 

6 – O PS perdeu autonomia e capacidade de intervenção junto da sociedade, os seus militantes tornaram-se números destinados à legitimação do controlo interno e chamados a participar apenas quando há actos eleitorais e campanhas políticas, o que é inaceitável num partido que se quer moderno e estruturante do tecido social.

 

7 – Porque quero um partido que seja capaz de combater a propensão oligárquica e nepotista e suficientemente forte para dizer não à descaracterização ideológica que o transformou numa amálgama.

 

8 – Entendo que a participação dos militantes tem de se fazer um quadro de contribuição para a definição das linhas de acção do Partido e não como uma participação limitada à legitimação das decisões previamente tomadas sem debate por uma qualquer coligação dominante.

 

9 – Um partido renovado não se alcança apenas com a eleição de uma nova liderança e a substituição de alguns protagonistas, mas sem uma nova liderança e a substituição dos protagonistas de sempre não será possível abrir o PS à sociedade.

 

10 – Se os protagonistas forem os que nos trouxeram até aqui e se limitam a alinhavar ideias vagas e confusas para não se comprometerem demasiado e estarem sempre disponíveis para ocuparem lugares na liderança seguinte, será escusado pensar em mudar.

 

11 – Entendo que é possível mudar com critério, fazer mais e melhor do que tem sido feito, sem ostracizar ninguém, mas também sem abdicar dos nossos valores fundamentais, sem necessidade do uso de malabarismos verbais ou do recurso a éticas duvidosas para a afirmação política.

 

12 – Porque acredito que é possível vencer lutando, trabalhar sem “esquemas” e sem que as vozes independentes e críticas tenham de permanecer silenciosamente na sombra para garantirem “solidariedade na asneira”.

O maior derrotado


Pedro Correia,

                       

José Sócrates foi o maior derrotado do debate desta noite entre os dois candidatos à liderança do PS, na SIC Notícias: o seu nome esteve ausente da discussão entre António José Seguro e Francisco Assis, o que revela bem até que ponto o legado do governo derrotado nas urnas a 5 de Junho é incómodo para o PS.

O debate – bem moderado, como de costume, por Ana Lourenço – demonstrou que este combate entre os socialistas pode deixar cicatrizes: em diversos momentos, Assis e Seguro trocaram palavras muito ríspidas. Deixando evidente que têm duas formas distintas de encarar o PS. Seguro, com assinalável subtileza, reclamou-se da herança de António Guterres, de quem foi secretário de Estado e ministro. Assis, que na recta final do consulado de Sócrates se destacou como um dos homens de confiança do derrotado primeiro-ministro, optou por lembrar o seu notável currículo – que incluiu a presidência da câmara de Amarante, dois anos como deputado europeu e a liderança da bancada parlamentar em São Bento. O problema, para Assis, é que Seguro pode medir-se facilmente com ele em termos de currículo político e partidário. A diferença entre ambos reside sobretudo na distância crítica que o deputado eleito por Braga soube manter em relação a Sócrates. Não perdeu a oportunidade, por exemplo, de acentuar que nestes últimos anos foi apenas membro da Comissão Política Nacional enquanto Assis integrava o Secretariado – ou seja, o núcleo dirigente do partido. Recordou também o contributo pessoal dado para a reforma do Parlamento, em 2007, que repôs a Assembleia da República como centro do debate político em Portugal, e sobretudo as posições públicas que tem defendido no “combate implacável à corrupção, que mina o Estado de direito em Portugal”. É de elementar justiça reconhecer-lhe tais méritos.

Assis – que, de gravata azul, surgiu mais nervoso perante as câmaras – esteve bem. Mas o seu antagonista, de gravata vermelha, esteve melhor. Um exemplo ocorreu mesmo no fim do debate. Quando o ex-líder parlamentar sublinhava a necessidade de “abrir o partido à sociedade”, Seguro limitou-se a perguntar-lhe com o ar mais natural do mundo: “Tu foste do Secretariado nos últimos anos. Só descobriste isso agora?”

A conversa aquecia. Infelizmente, Ana Lourenço, por imposições do cronómetro, teve de dar por concluído o frente-a-frente, que podia e devia ter-se prolongado por mais meia hora. Ao que parece, foi o único confronto televisivo entre os dois candidatos à liderança do PS: Seguro recusou novos encontros com Assis defronte das câmaras. A avaliar por este – que infelizmente não decorreu num canal aberto – é uma decisão que não consigo entender: ele seria o primeiro interessado na multiplicação dos debates.

………………………………………………………

 

FRASES:

Assis – «Nunca fugi de nenhum combate, estive sempre presente, nunca me preocupei se isso me iria prejudicar ou beneficiar.»

Seguro – Fui membro do Governo de António Guterres. (…) Ele [Assis] não esteve, eu estive. E fui cabeça de lista em Braga três vezes, em 2005, 2009 e 2011. Em Braga o PS teve melhor resultado do que no Porto [onde Assis era cabeça de lista].»

Assis – «Eu represento uma distância maior em relação ao actual primeiro-ministro do que o António José Seguro. As questões de estilo são importantes em política: reflectem muito a natureza das personalidades políticas. (…) Não devemos resvalar para a pequena política. Esse é um argumento muito débil.»

Seguro – «É preciso manter o nível do debate, com elevação.»

Assis – «Não és tu que me vais dar nenhuma lição de dignidade na forma de estar na política. Eu tive no Porto um resultado absolutamente idêntico ao que tiveste em Braga: foi uma diferença de décimas, só que eu tive no Porto uma esquerda mais forte do que tu tiveste em Braga. Uma coisa é certa: foram ambos maus.»

Seguro – «Tu falas muito bem. Mas é preciso descer à realidade. Convém que te acalmes um bocadinho. Essa coisa de dizeres, com palavras bonitas, que eu sou parecido com Pedro Passos Coelho não cola.»

Quem tramou Francisco Assis?


Rui Rocha,

A candidatura de Francisco Assis a Secretário-Geral do PS promete transformar-se num longo calvário pessoal. Logo à partida, e como bem salienta o Paulo Tavares, António Costa escolheu a pior maneira de manifestar-lhe apoio. Hoje, foi José Lello, outro apoiante declarado da sua candidatura a acertar-lhe em cheio. Os tiros com origem nas nossas próprias linhas são sempre os mais perigosos. No caso de Assis, este é um friendly fire de chumbo grosso. Quem é posto em causa desta forma pelos amigos e apoiantes está condenado a nunca ser eleito, sequer, para Administrador de Condomínio. Já todos tínhamos percebido que o papel de Assis era o de uma lebre. Agora, ficámos a saber que se trata de uma lebre no churrasco. Sem se comprometer com uma única ideia política concreta, o António José está cada vez mais Seguro.

O próximo líder do PS


Pedro Correia,

 

António José Seguro, o próximo líder do PS, assinou um notável artigo no Expresso que devia merecer reflexão nos blogues alinhados com José Sócrates. Sintomaticamente, nenhum deles o menciona.

“As estimativas relativas ao crescimento potencial do nosso país não ultrapassam o 1% da riqueza nacional anual. Considero uma enorme irresponsabilidade confundir o nosso principal problema (fraco crescimento económico) com os recentes ataques que os especuladores estão a dirigir a Portugal. Estes ataques são para levar a sério e necessitam de uma resposta pronta e enérgica. Desejavelmente através de um plano, concreto e eficaz, resultante de um consenso gerado, no mínimo, entre os responsáveis políticos, empresariais e sindicais, e eficazmente transmitido à sociedade e ao mercado”, escreve Seguro. Vendo mais longe do que a maioria dos socialistas, como vem sendo costume.

À atenção do Tiago Barbosa Ribeiro, entre vários outros.

Seguramente


jmmcc,

António José Seguro considera «obscenos» os valores pagos ao presidente da EDP, que classifica como «uma imoralidade»: «Em fase de enormes dificuldades e de exigência de sacrifícios aos portugueses, é incompreensível como se atingem estes valores remuneratórios.»

À medida que o tempo passa, Seguro afirma-se e mostra-se cada vez mais solto em relação à maioria dos seus pares socialistas com peso na vida pública. Sem pressa, vai trilhando um percurso próprio do qual sobressaem valores e critérios de justiça social que revelam um padrão que tem andado muito arredado.

Seguramente, ainda tem muito para dar.

O deputado do ano


Pedro Correia,

 

ANTÓNIO JOSÉ SEGURO foi considerado o melhor deputado do ano legislativo que agora termina na votação que decorreu de sexta-feira a domingo aqui no DELITO DE OPINIÃO e também no Corta-Fitas.

Houve 45 votos, distribuídos desta forma:

António José Seguro (PS) 19

Paulo Rangel (PSD) 13

Nuno Melo (CDS) 9

Francisco Louçã (BE) 4

Foi igualmente proposto o nome do deputado comunista Honório Novo, que não teve nenhum voto.

 

Curiosamente, no Corta-Fitas Rangel foi o mais votado. Os votos aqui distribuiram-se por lá distribuiram-se desta maneira:

Paulo Rangel 8

António José Seguro 7

Nuno Melo 5

Francisco Louçã 2

 

Já no DELITO a votação foi a seguinte:

António José Seguro 11

Paulo Rangel 4

Nuno Melo 4

Francisco Louçã 2

Decidi contar também os dois votos do Rui Costa Pinto, no seu blogue Mais Actual – um em Seguro, outro em Rangel.

 

Razões para a escolha do parlamentar socialista?

Eis algumas, anotadas nas caixas de comentários dos dois blogues:

“Pelo sinal que deu aos cidadãos que na politica devemos seguir a nossa consciência em vez dos carneirismos politicos que os partidos estimulam, logo pela credibilização dos deputados como representantes do povo e não dos interesses sectários dos partidos, o meu voto vai para António José Seguro.”

“Por ter votado contra a lei do milhão de euros em dinheiro vivo para o financiamento partidário.”

“AJS destacou-se porque foi capaz de assumir a sua voz própria, num dado momento, contra tudo e contra todos.”

“Numa bancada com 121 almas, foi das poucas que pensou pela própria cabeça.”

“A transparência que deve existir no Estado e no exercicio de funções públicas fazem de AJS uma referência a reter no panorama político do País.”

Melhores deputados do ano


Pedro Correia,

 

 

 

5. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO (PS)

 

Numa bancada parlamentar domesticada, onde raras foram as vozes dissonantes, António José Seguro destacou-se pela qualidade e pelo desassombro das suas intervenções, várias vezes fora do coro unânime a que José Sócrates quis reduzir o grupo parlamentar socialista. Já anteriormente se notabilizara ao subscrever uma reforma do regimento parlamentar que em muito valorizou o papel do órgão legislativo como fiscalizador dos actos do Executivo e centro por excelência do debate político em Portugal. Mas o seu gesto mais digno de elogio ocorreu no dia da votação da lei do financiamento partidário: foi o único dos 230 deputados a votar contra este diploma, que uniu o hemiciclo de extremo a extremo. O posterior veto do Presidente da República a esta lei, por "várias objecções de fundo" bem acolhidas pela generalidade dos comentadores políticos, só confirmou Seguro como uma das vozes mais independentes do Parlamento. E uma das mais prestigiadas.

 

Memória: há um ano foi esta a minha escolha.

À espera do veto de Belém


Pedro Correia,

  

António José Seguro, única voz discordante de uma das mais lamentáveis sessões parlamentares desta legislatura, marcou pontos no PS. Mas marcou sobretudo pontos no País, que importa mais do que qualquer partido. Refiro-me ao seu solitário e desassombrado voto contra o novo regime de financiamento dos partidos políticos, que deu luz verde ao regresso dos homens das malas cheias de dinheiro, com o beneplácito da união nacional parlamentar – do CDS ao Bloco de Esquerda – e o estranho silêncio de alguns blogues onde impera a indignação selectiva. Restaurar o financiamento com ‘dinheiro vivo’, abrindo as portas legais aos esquemas de corrupção vigentes durante demasiados anos no sistema político português, foi o propósito desta lei, que devia envergonhar o Parlamento de um país em crise. Como há dias José Miguel Júdice sublinhava num artigo de opinião no Público, «no tempo do multibanco, dos computadores, das transferências bancárias facilitadas e sendo possível registar donativos com o nome, assinatura e bilhete de identidade dos generosos militantes, tudo isto soa demasiado a falso e, pior que isto, parece significar que estão a gozar connosco tomando-nos a todos por burros».

Júdice termina o seu artigo dizendo confiar num veto político do Palácio de Belém. Subscrevo. Nem outra coisa seria de esperar de Aníbal Cavaco Silva. Contra os ‘homens das malas’ que não queremos voltar a ver nas imediações das sedes partidárias.