Blogue da semana


odiplomata,

Por (feliz) coincidência, um dia depois da Teresa me ter incumbido da (sempre) difícil tarefa de nomear o blogue da semana, recebo um e-mail de António Rodrigues, amigo e militar de profissão, que conheci há muitos anos ainda nos meus tempos de jornalista, estava ele com uma comissão na NATO, enquanto PIO (Public Information Officer). Desde então que, pessoal e profissionalmente, se foi cimentando uma relação forte entre os dois. O António serviu em várias missões NATO, do Paquistão ao Afeganistão, da Jordânia à República Centro Africana, e até há uns anos era o único não oficial a dar aulas na NATO School, em Oberammeragau, sobre assuntos árabes. E foi precisamente sobre esta temática que começou a escrever uma coluna no SEMANÁRIO, chamada “Um Certo Oriente”, e que mais tarde passaria para livro, no qual tive o privilégio de contribuir ao fazer o seu prefácio. O António Rodrigues é, provavelmente, o melhor arabista em Portugal, não apenas por causa do vasto conhecimento teórico que tem, mas sobretudo pela imensa experiência de terreno e vivência com a cultura árabe. Agora, acabou de lançar o blogue Um Certo Oriente, onde recupera algumas das suas experiências. Uma leitura imperdível para quem se interessa por assuntos arábes.

As outras mulheres…


odiplomata,

A determinadas horas nas quotidianas viagens de comboio que faço na linha de Sintra (coisa que desconfio que uma certa elite pensante lisboeta desconheça em absoluto), dou por mim a observar algumas mulheres, não aquelas que entusiasticamente metem likes em tudo o que tenha a hashtag “MeToo”, ou aquelas que, histericamente, reiventaram uma versão mais fundamentalista da queima dos soutiens dos anos 60, mas antes aquelas que se levantam às 5 ou 6 da manhã para irem trabalhar nas limpezas das empresas ou para entrar na caixa de um supermercado. Muitas delas, provenientes das antigas colónias e que residem naqueles subúrbios que tanta alergia causam a algumas almas que comentam euforicamente nas televisões e twittam ruidosamente, é como se ficassem com o refugo que a sociedade não quer. Ainda esta manhã, uma delas, ao frio e a apanhar com os pingos da chuva, esvaziava os caixotes de lixo na estação do Cacém. Por vezes, estas mulheres carregam aos ombros o sustento de uma família inteira. Os miúdos estudam (quando estudam) e o homem da família há muito que, cobardemente, se meteu ao largo. Olho para os rostos destas mulheres e não consigo descortinar as suas emoções. Não consigo perceber se estão tristes, felizes, angustiadas… Certamente estarão a fazer contas à vida. Cumprem as suas obrigações… Quando precisam, têm que esperar horas numa urgência, meses para uma consulta, ou fazer sacrifícios imensos naqueles dias caóticos de greves de transportes públicos porque não têm outra forma de chegar ao trabalho. E nestes casos, os patrões quase nunca são benevolente. São mulheres sofridas, mas as suas vozes são silenciosas. Não se queixam, ninguém lhes mete um microfone à frente e seguramente os seus temas não são suficientemente sexy para fazer a tendência do dia nas redes sociais. Estas mulheres são, de certa forma, vítimas de um certo tipo de exclusão social ou, talvez melhor dito, de uma apatia social.

 

Confesso que acho pouco interessante a discussão primária quando o assunto se coloca ao nível de feminino vs machismo, dos livros cor-de-rosa vs livros azuis, se as mulheres voluptuosas devem ou não estar na grelha de partida na Fórmula1 ou dar beijinhos aos vencedores das etapas em bicicleta (eu acho que devem, mas isso é outra questão). E mais, pouca credibilidade dou àquilo que saia do circo chamado Hollywood “embrulhado” em assunto sério (aliás, é de uma hipocrisia enorme que na cerimónia dos Óscares se fale dos previsíveis e populares temas e se “bata” (e bem) no Weinstein e Damon, mas nem uma palavra sobre o massacre de mulheres e crianças em Ghouta oriental). Naquilo que deve ser uma abordagem séria e intelectualmente consistente, prefiro a linha de raciocínio de António Guterres, secretário-geral da ONU, quando hoje em Nairobi disse que as mulheres são as principais vítimas da pobreza, dos conflitos e da violação dos direitos humanos. Porque, e de acordo com os indicadores da Organização Internacional de Trabalho, divulgados ontem, verificaram-se progressos substanciais nos últimos 20 anos, sobretudo nas sociedades ocidentais, em termos de desigualdade de género, embora haja muito caminho para percorrer até ser alcançada uma igualdade justa. No entanto, o problema continua particularmente acentuado em regiões como África ou Ásia. Ou seja, em situações limite, seja de abuso de poder governamental ou laboral, de conflito social ou militar, são as mulheres quem mais sofre.

 

E isto é tão válido para a mulher que percorre quilómetros para ir buscar água para a família algures na Etiópia, para a estudante em Riade que não pode ir ao cinema de mão dada com o namorado ou para a operária explorada por um chefe sem escrúpulos numa qualquer empresa do Vale do Ave. Mas não só. Essas situações limite podem assumir, por vezes, formas bem mais subtis e que levam as mulheres ao sofrimento, muitas vezes silencioso, mesmo no nosso quotidiano mais cosmopolita.

 

Veja-se aquela mulher que se levanta todos os dias, sozinha, trazendo às costas os problemas do dia anterior, que veste, alimenta e leva à escola os filhos. Após o tormento dos transportes públicos ou do trânsito, chega ao emprego e já está preocupada se sairá a horas para ir buscar os filhos e passar algum tempo de qualidade com eles, educá-los, mimá-los. Muitas vezes, o apoio é pouco ou nulo, estando entregues a si próprias. No trabalho, por vezes, as proclamações de boas práticas empresariais e os afectos públicos demonstrados pelos chefes não casam com aquilo que é, efectivamente, praticado. Tudo lhes é dificultado, os horários são inflexíveis, e quando é preciso compreensão, ela não existe. Com sensibilidade e bom senso, algumas destas angústias seriam facilmente resolvidas e contribuiria, seguramente, para um maior conforto da mulher. No final do dia, é o regresso de um longo calvário, com paragem obrigatória na escola para ir buscar os filhos, talvez também no supermercado e, finalmente, fazer o jantar. Por fim, a responsabilidade maternal desencanta tempo e paciência (sabe-se lá onde) para a educação e algum tempo de lazer com os filhos. Deitadas as crianças, é preciso ainda rever uma proposta do trabalho que o “chefe” pediu para ser enviado ainda nesse dia. E já no limiar das suas forças, uma zona onde normalmente os comuns mortais caem por terra, a mulher revela todo o seu esplendor, e ainda arranja tempo e disposição para ser fascinante. 

MIT Portugal e as parcerias internacionais de que poucos falam, mas tanto dão ao país


odiplomata,

Quando li há dias que arrancou a segunda fase do Programa MIT Portugal, prevendo-se mais dez anos de parceria entre universidades, investigadores nacionais e aquele prestigiado instituto, fiquei francamente contente, porque tive o privilégio de ter contribuído para o arranque desse projecto. O MIT Portugal, lançado em 2006, é considerado um caso de sucesso, sobretudo por duas razões: permitiu às universidades e investigadores nacionais terem acesso ao conhecimento e práticas geradas no MIT; trouxe para o nosso país uma cultura de relacionamento íntimo entre a academia/investigação e o desenvolvimento empresarial. Não é de estranhar que na altura do seu lançamento, o MIT Portugal tenha sido alvo de algumas críticas provenientes de uma certa academia mais conservadora, instalada nos seus feudos, onde o mais importante era manter um determinado status quo de interesses, pouco dada a privilegiar a produção de mais-valias de conhecimento ao serviço de soluções tecnológicas empresariais. O MIT Portugal foi a maior das quatro grandes parcerias internacionais que Portugal celebrou há doze anos (Austin Texas, Carnegie Mellon e Fraunhofer, foram as outras três que agora também foram renovadas), tendo os responsáveis daquela instituição de Massachusetts reconhecido com particular interesse as especificidades deste Programa face a outros do género em diferentes partes do mundo.

 

Acompanhei o processo praticamente desde o início, enquanto consultor de comunicação do MIT Portugal, já que a agência onde trabalhava tinha precisamente acabado de ganhar essa “conta”. Foi uma experiência enriquecedora, onde foi possível perceber as diferenças abissais entre os modelos das duas academias, sobretudo o pragmatismo, a simplicidade e a simpatia na forma de trabalhar dos responsáveis e investigadores do MIT. A mim, enquanto responsável pela comunicação do Programa, cabia-me “puxar” pelo MIT Portugal, comunicá-lo nas suas diferentes vertentes, contando histórias de projectos, promovendo entrevistas e conversas com investigadores do MIT, organizando conferências, entre tanta outra coisa. Tudo isto, naturalmente, sempre em contacto permanente com os meus homólogos no MIT, em Boston, além do acompanhamento próximo da tutela, nomeadamente do saudoso ministro Mariano Gago, um homem do conhecimento e que importante legado deixou com estas parcerias. Anos depois, quando a vida profissional me levou por outros caminhos e deixei de trabalhar com o MIT Portugal, senti que o Programa tinha ganho fôlego e estava no bom caminho, embora pairassem muitas dúvidas quanto à sua continuidade por causa de questões de financiamento. De vez em quando ia acompanhando o “estado da arte” daquele Programa e ficava com a sensação de que alguns agentes da sociedade portuguesa, empresas e media nunca reconheceram a verdadeira importância destas parcerias internacionais. Infelizmente, e atendendo à falta de massa crítica nesses círculos, continua-se a assistir à primazia de acontecimentos mediatos e mediáticos, de fácil consumo e muito “trendy”, mesmo que poucos ou nulos resultados produzam para o conhecimento e tecido económico nacional.

 

No que me toca, gosto de enaltecer o bom trabalho que é feito em prol do conhecimento sólido e do desenvolvimento empresarial sustentável, com base na verdadeira inovação e não em clichés. Doze anos após a criação do MIT Portugal e das outras parcerias internacionais, e depois de muito trabalho, o retorno para a sociedade portuguesa é inegável, tendo sido formados centenas de mestres e doutores, produzidos papers, feitas descobertas científicas e geradas soluções inovadores, e criadas centenas de startups, algumas delas a valerem mais do que empresas cotadas no PSI20. Provavelmente, uma Web Summit (que tem muitas virtudes) nunca irá gerar este tipo de riqueza para o país, mas veja-se a atenção, os recursos e o foco que tal iniciativa mobiliza. Ou ainda, a forma como os media e agentes políticos não hesitam em abraçar a criação de startups da “moda” que tão rapidamente aparecem como desaparecem, sem terem deixado qualquer mais-valia para Portugal. Agora, se o leitor pensar bem, quantas vezes ouviu falar do MIT Portugal? Quantas reportagens viu sobre as parcerias com Carnegie Melon ou Austin Texas? Quantas empresas nascidas destas parcerias mereceram a atenção da classe política ou das elites? O leitor já ouviu falar na Veniam? Vale 118 milhões. E da Feedzai? Vale 508 milhões de euros. Dá que pensar, mas é precisamente a pensar que estas parcerias internacionais conseguiram gerar estas empresas 

Os trolls que eu conhecia…


odiplomata,

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Os únicos trolls que conhecia, até há umas semanas, eram aqueles que fazem parte do folclore escandinavo, figuras que de encantador têm pouco e que vivem afastadas dos humanos, no meio da escuridão das montanhas. São feios, rudes, pouco simpáticos, talvez um pouco estúpidos e cínicos e, dizem, transformam-se em pedras sempre que expostos à luz solar. Quando há muitos anos visitei a Noruega, gostei de ouvir os mitos e lendas associados aos trolls, uma tradição que as pessoas mantinham viva (e provavelmente mantêm), fosse através da actividade turística e comercial ou de rituais, como o de se fazerem pequenos montes de pedras ao longo das estradas, simbolizando as tão queridas criaturas. Estes eram os trolls que conhecia, tendo, inclusive, trazido comigo um debaixo do braço (na foto) até ao bom clima de Portugal.

 

Os anos passaram, o mundo foi mudando e os trolls lá continuaram descansados, na longínqua e misteriosa Escandinávia. Até que, com as eleições presidenciais norte-americanas, se descobriu que o Kremlin tinha mobilizado um exército de “trolls”, com o objectivo de influenciar aquele acto eleitoral, através da manipulação da opinião pública, com a propagação de informação falsa via Facebook e Twitter.  Mas estes trolls não se dedicaram apenas a divulgar publicidade enganosa ou “fake news”, utilizaram também as redes socias (recorrendo aos bots, software usado na internet para simular acções humanas com determinado padrão), para criarem e influenciarem movimentos sociais e políticos que servissem os interesses de Moscovo.

 

Quem não andasse atento à agenda mediática de Washington, ainda iria julgar que Moscovo tinha contratado os trolls à Noruega, mas não, estes trolls de que agora tanto se fala, e que os principais responsáveis da comunidade de “intelligence” dos Estados Unidos já admitiram ser uma ameaça real e perigosa, são bem humanos. Provavelmente, serão feios e estúpidos como os outros, mas, seguramente, serão mais cínicos e maléficos. O troll da internet é um indivíduo que, de forma anónima ou através de diferentes identidades falsas, motivado por crenças exacerbadas ou apenas por dinheiro, utiliza as redes socias e outras plataformas digitais para propagar ideias disruptivas, divisionárias e provocatórias, orientadas para fomentar discussões ou comportamentos emocionais.

 

Daquilo que se vai sabendo, muitos destes trolls estarão a operar na penumbra a partir de Moscovo, com a cobertura do Kremlin, numa actividade que parece continuar em alta. Ainda há duas semanas, os principais responsáveis das agências de “intelligence” norte-americanas, perante o comité do Senado para estes assuntos, disseram de forma clara que as operações levadas a cabo pelos trolls contra os Estados Unidos vao continuar durante este ano e, muito provavelmente, terão as eleições intercalares de Novembro como um dos principais alvos da sua acção. Aquilo que, basicamente, os chefes dos “espiões” americanos disseram foi que é quase impossível ir atrás destes operacionais e capturá-los, já que podem estar a laborar em qualquer parte do globo, sendo, por isso, mais realista assumir que os ataques irão continuar. Cabe, pois, aos EUA tomarem todas as medidas de ciber-segurança para combater estes trolls que, ao contrário das típicas figuras escandinavas, facilmente se confundem no meio da multidão e não se transformam em pedras à luz do sol. 

Desta vez há algo de novo e Trump (estranhamente) percebeu


odiplomata,

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Ilustração de Andrea Ucini/NYT 

 

Quem diria que seria Donald Trump a propor uma mudança legislativa restritiva em matéria de armas… É certo que a ordem executiva que o Presidente assinou, e que obriga o Departamento de Justiça a rever a lei, é bastante limitada e incide apenas na proibição da venda de acessórios (“bump-stocks) que permitem modificar armas semi-automáticas em automáticas, mas, mesmo assim, já é qualquer coisa. É também certo que Trump, num laivo de bom senso político ou bem aconselhado, percebeu rapidamente que precisava de aliviar a pressão. Antes, já tinha também anunciado que estava disponível para apoiar legislação que aperte o controlo ao “background” de possíveis compradores de armas. Estas medidas são claramente insuficientes e, na verdade, até têm o apoio da National Rifle Association (NRA), o que se compreende, já que, através destas cedências, aquela organização vai gerindo a agenda das armas nos EUA, mantendo intacto o enquadramento legal que verdadeiramente interessa e que permite ter no mercado todo o tipo de armas.

 

Aliás, poucos acreditam que a vontade reformadora de Trump vá ao ponto de se poder vir a discutir a proibição da venda de armas de assalto. No entanto, isso não significa que a Casa Branca, nesta altura, não alimente junto da opinião pública a percepção de que Trump poderá estar comprometido com novas medidas restritivas. E neste sentido, as declarações da sua porta-voz, Sarah Huckabee Sanders, são muito interessantes, porque quando questionada pelos jornalistas sobre a possibilidade da proibição da venda de armas de assalto, responde que a Casa Branca “não fecha a porta em nenhuma frente”. Isto é o mesmo que dizer que Trump admite rever a lei para proibir a venda daquele tipo de armas, o que é uma posição arrojada, para um Presidente republicano que se assumiu um “true friend and champion in the White House” da NRA.  A questão é que mesmo sabendo-se que dificilmente será concretizada algum tipo de iniciativa, a “intenção” presidencial já foi lançada para a opinião pública.

 

Se olharmos com clareza para as últimas décadas, constatamos que em matéria de controlo de armas os presidentes americanos têm sido impotentes ou passivos, ficando sempre amarrados aos seus interesses e ao “gun lobby”. Nem Barack Obama conseguiu mexer substancialmente no sistema vigente. Os massacres sucedem-se, mas a acção política tem-se ficado pelos lamentos. Pelo menos, até agora. Trump, por pouco que seja, está a fazer algo de concreto e, como foi acima referido, tem tido a preocupação de passar a ideia da “intenção” de fazer ainda mais. E esta “intenção” não deve ser desvalorizada, tendo em conta as pressões, os lobbies e os financiamentos eleitorais que se fazem sentir e jogam na arena das armas. Trump parece estar a ir um pouco mais além do que, por exemplo, Barack Obama terá ido em matéria de controlo de armas.

 

O que terá então acontecido para que Trump, um republicano “amigo” das armas, esteja a ter uma posiçao aparentemente mais interventiva do que Obama, claramente identificado com um outro tipo de sociedade? A resposta, na minha opinião, tem a ver com um fenómeno que está a acontecer desta vez e que não se verificou em tragédias anteriores semelhantes: a resposta e a mobilização dos jovens estudantes. Para quem tem acompanhado os meios de comunicação social norte-americanos nos últimos dias, percebe que há uma dinâmica crescente, que tem potencial para se transformar numa questão política e social, sobretudo a partir do momento em que os jovens estudantes decidiram fazer uma “marcha” sobre Washington. A Casa Branca percebeu o que tinha pela frente, porque desta vez não se trata apenas de uma campanha dos media das elites de Washington contra a administração. A causa dos jovens estudantes tem um aliado muito mais poderoso: os seus pais. Se, por um lado, a irreverência e temeridade da juventude dá a dinâmica ao movimento, os pais dão a consistência e a dimensão. Trump percebeu isso ao ponto de alguém ter “passado” ao Washington Post a informação de que o Presidente tinha ficado muito sensibilizado quando viu as reportagens dos jovens estudantes e que se terá virado para os seus convidados, que estavam com ele na residência de férias de Mar-a-Largo na Flórida, e lhes terá perguntado o que mais poderia fazer pelo controlo de armas. Provavelmente, Trump saberia melhor do que ninguém naquela sala o que poderia fazer, mas a questão é que da forma como a história é contada e transmitida (como se de uma grande cacha do Post tratasse), as pessoas ficam com a percepção de que o Presidente, na sua intimidade, se importa genuinamento com o assunto. E isso em comunicação política é o que, por vezes, mais conta.

Massacres à conta da Segunda Emenda


odiplomata,

A América, mais uma vez, chocada, chora os seus mortos. Não aqueles que pereceram em combate algures no Iraque ou no Afeganistão, mas aqueles que tiveram a trágica infelicidade de estarem na mira de uma semi-automática nas mãos de um perturbado jovem americano numa escola secundária de Parkland, na Flórida. A história sangrenta repete-se. Desta vez, foram 17 mortos e outros tantos feridos. Nestes momentos, vem sempre ao de cima o eterno debate sobre a questão da posse de arma nos EUA, esse princípio constitucional e, para muitos, sagrado. De um lado, aparecem os habituais e impotentes críticos ao actual sistema e do outro lado, com a poderosa National Rifle Association (NRA) à cabeça, os defensores da liberdade de acesso às armas. Nesta arena política não há meios-termos. Os campos estão bem delimitados, com as palavras (ou ausência delas) a denunciarem as posições dos governantes. Veja-se, por exemplo, o senador Mark Rubio e o Governador republicano Rick Scott da Florida, em que lamentaram a tragédia, apelando a orações e ao fim da violência nas escolas, mas ao mesmo tempo, hipocrisia das hipocrisias, ambos têm “A+” dada pela NRA, um rating atribuído àqueles que mais têm feito pela defesa da Segunda Emenda e pelos esforços na promoção do direito pela posse e porte de arma.

 

O lobby das armas nos Estados Unidos é poderosíssimo e, em parte, essa força advém do culto à arma e ao papel que esta desempenhou na construção da América, assente num certo ideal de Nação, onde cada cidadão tem o direito a proteger-se. E sendo para muitos um bem de necessidade básica, eis que pode ser adquirido em qualquer grande superfície perto de si, nomeadamente a tristemente célebre AR-15, a arma mais usada nos massacres nas escolas. A NRA ostenta com orgulho o estatuto de a AR-15, uma adaptação civil da M-16, ser a arma mais popular dos EUA, porque, imagine-se, é “costumizável, adaptável, de confiança e precisa”. De acordo com a NRA, ainda há mais razões para comprar uma: é uma arma “versátil”, que tanto dá para “tiro desportivo, caça e situações de auto-defesa”. E a cereja no topo de bolo é o facto de ser uma arma “personalizável” nas suas peças, “o que a torna tão única”. Estima-se que esta arma esteja em 8 milhões de lares americanos.

 

Tudo isto é perturbador e faz-me lembrar uma cena do documentário Bowling for Columbine, onde, a determinada altura, Michael Moore entra num banco para abrir uma conta e sai de lá com uma arma. Ou seja, como se fôssemos ali à Caixa ou ao BCP para abrir uma conta e nos oferecessem uma pasta ou um relógio para incentivar à concretização do negócio.

 

Obviamente que qualquer acção legislativa no sentido de um maior controlo na venda e posse de armas suscitará um debate intenso e polémico na sociedade americana. E porquê? Como acima foi dito, porque, basicamente, uma grande parte dos americanos acha-se no direito constitucional de ter uma(s) arma(s). E, efectivamente, a Segunda Emenda (1791) sustenta essa realidade quando defende o “Right to Bear Arms”. Mas, a Segunda Emenda também é clara no propósito final subjacente a esse direito: “A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed.” Ou seja, os “legisladores” providenciaram o direito constitucional aos cidadãos de terem armas e de poderem andar com as mesmas como meio para garantir a virtude do Estado e do seu Governo e não como instrumento de defesa pessoal ou de serviço a outros interesses particulares.

 

Esta Emenda foi criada com base na desconfiança filosófica e ideológica que os legisladores tinham em relação ao Governo, por acreditarem que este poderia, nalgum momento, desvirtuar-se. Só com o povo dotado de armas poderia depor esse Governo e repor um novo “príncipe” virtuoso. De certa maneira, estaria aqui subjacente o princípio bíblico de armar o mais fraco (o justo) para derrotar o mais forte (o ímpio), e que permitiu a David, com a sua funda, derrotar Golias.

 

Ora, o problema, é que algures no caminho, os americanos esqueceram-se dos propósitos virtuosos e das boas intenções dos “legisladores”, agarrando-se apenas ao “Right to Bear Arms” para se armarem até aos dentes.

 

 

 

I Am Not Your Negro


odiplomata,

 

Uma obra inacabada do poeta, escritor e activista James Baldwin deu origem a este documentário que há dias tive ocasião de ver. Aclamado pela crítica, I Am Not Your Negro (2016) é um exercício intelectual brutal sobre a América. Não é sobre os “negros”, é sobre homens que continuam “agrilhoados” aos preconceitos da História e que tiveram em figuras como Medgar Evars, Malcolm X ou Martin Luther King Jr., líderes na luta pela sua “libertação”. Nos dias de hoje, onde os temas inquietantes da Humanidade se debatem de forma frívola e histérica nas ditas “redes”, é estimulante ver um documentário destes, que apela ao que de mais inteligente as pessoas têm para se reflectir sobre assuntos que, infelizmente, ainda continuam a assombrar as sociedades. 

A Lisboa que interessa a um outro tipo de “turistas”


odiplomata,

 

A equipa de skaters da Globe, marca australiana mundialmente conhecida e que se dedica à produção de material para as modalidades de skate, snowboard e surf, esteve em Lisboa numa sessão fotográfica para a histórica Thrasher Magazine. O anúncio está em destaque na homepage da marca e, do que se pode ver no trailer, a acção desenrola-se longe dos (insuportáveis e já pouco imaginativos) locais turísticos da capital portuguesa. Aqui, os pontos de interesse são outros, ou não fosse esta uma sessão bem fiel ao espírito street… Aquilo que os prós do skate gostam, sítios com pouco glamour, mas cheios de alma urbana e, se formos a ver bem, genuinamente lisboetas.

Parabéns ao Hot Club pelos seus 70 anos


odiplomata,

O Hot Club está a celebrar 70 anos, o mítico clube de jazz da Praça da Alegria, em Lisboa, um dos melhores e mais antigos da Europa que, ao longo destas sete décadas, tem promovido a divulgação daquele estilo de música no nosso país, através do seus inúmeros concertos e jam sessions na obscura cave (agora nem tanto), com nomes nacionais e internacionais. Mas, mais do que isso… Do que conhecia, o Hot Club era (e certamente ainda é) uma escola de jazz com uma componente prática que, provavelmente, não tinha paralelo em mais qualquer escola do país, e por onde passaram muitos dos melhores músicos nacionais.

 

Tive o privilégio de estudar jazz e guitarra no Hot durante uns meses, quando a escola ainda funcionava no velhinho e carismático edifício da Praça da Alegria (agora só o clube funciona na cave). Era um adolescente que estava a descobrir o jazz (ainda hoje continuo a descobrir) e recordo que todo aquele ambiente me transportava para um universo desconhecido e cativante. Para quem vinha da guitarra clássica, onde o método, a técnica e o rigor da interpretação são pilares inamovíveis de ensino do Conservatório, o jazz colocava outros desafios… Não é que não exija técnica ou rigor (porque exige, e muita), mas nem tudo está definido à partida, cabendo-nos a nós seguirmos o caminho que queremos, dentro de alguns limites. Há um lado aventureiro e profano no jazz, de desafiar convenções, e tudo isso se sentia ao entrar na escola do Hot, onde o que interessava era o resultado da arte e não tanto como lá se chegava. Era isso que nos pediam, é essa a essência do jazz, “perdermo-nos” melodicamente no meio de uma harmonia, sabendo encontrar o caminho que nos conduz ao fim.

 

Lembro-me numa das primeiras aulas de estar a tocar um standard de bossa nova e vinha eu de tal formatado do ensino clássico que não me conseguia “libertar” do que estava literalmente escrito na pauta. Aquilo não estava a soar de forma fluída, estava preso, muito mecanizado, até que a determinada altura “ousei” meter mais umas notas pelo meio e fazer umas brincadeiras, ou seja, divertir-me, e foi nesse momento em que começou a soar a qualquer coisa minimamente decente. Já nas aulas de Combo, recriação de uma pequena banda de jazz, a experiência é absolutamente única, ao tocar aqueles magníficos standards clássicos, dando a sensação de que fazemos parte de uma certa época. E não esqueço as lições aprendidas na cadeira de História do Jazz, dadas por Bernardo Moreira, contrabaixista e pai de uma família de músicos, incluindo o filho homónimo, conceituado contrabaixista. Ainda hoje recorro às definições que ele me ensinou para explicar o que foi o swing e o bebop, talvez os dois maiores movimentos do período de ouro do jazz. Dizia Bernardo Moreira que o swing era caracterizado, basicamente, pelo ritmo de colcheia e semicolcheia e o bebop identificado, nada mais nada menos, pelo uso e abuso da quarta aumentada. Uma definição que simplifica uma construção tão complexa. E jazz também é isso, simplificar aquilo que é complexo.

O saber é aquilo que não se esquece


odiplomata,

É com bastante entusiasmo que estou a ler o último livro de Jaime Nogueira Pinto, Bárbaros e Iluminados (D. Quixote). Algumas das passagens relembram-me as aulas dadas pelo autor numa das cadeiras do meu curso de Relações Internacionais, na segunda metade dos anos 90. Ao contrário de muitos dos meus colegas da altura – mais interessados em fazer “ditados” do que era dito –, provavelmente, eu era dos poucos que via naquelas aulas uma fonte de verdadeiro conhecimento, o saber que não esquecemos e que nos ajuda a perceber as forças dinâmicas da História e a antecipar algumas das imprevisibilidades do sistema internacional. Jaime Nogueira Pinto nunca foi do estilo professoral e dizia sempre, para aqueles que estavam mais obcecados em fazer “sebentas”, que datas e conteúdos factuais podiam ser encontrados num qualquer manual. O importante era perceber as motivações dos actores da História e saber interpretar as consequências das suas acções. Neste aspecto, Jaime Nogueira Pinto preferia ter como ponto de partida as histórias e estórias da História para depois lhes dar o devido enquadramento político e ideológico.

 

Foi nestas aulas que comecei a interessar-me seriamente pela relação íntima entre a dimensão literária de Dostoievsky (e outros) e o movimento histórico subsequente. Comecei a entender a obra deste escritor de outra maneira, vendo nela uma amostra sociológica de uma Rússia aburguesada e intelectual asfixiada pelo regime czarista e ansiosa por um admirável mundo novo. Escreve Jaime Nogueira Pinto que “não era de estranhar que as novas gerações intelectuais e técnicas, oriundas das classes médias e da burocracia estatal […]” se atirariam para os “braços dos grupos revolucionários”. Em romances como O Idiota, Os Irmãos Karamazov ou Os Demónios, “Dostoievsky antevira o tipo de pessoas em que [esses burgueses] se transformariam”. Apesar dessa ânsia de mudança, Dostoievsky nunca teve dúvidas quanto aos “riscos do moralismo e do construtivismo utópicos dos intelectuais, fundamentados numa versão optimista da condição humana”. Pelo contrário, toda a literatura de Dostoivesky é marcada pela imperfeição humana, pelo conflito, pela injustiça. O mundo idílico dos utopistas para uma nova Rússia não cabia na visão de Dostoievsky e, para mim, depois daquelas aulas, isso passou a ser tão evidente nos textos daquele escritor.

 

Neste processo revolucionário, Jaime Nogueira Pinto volta ao incontornável Yevgeny Zamyatin, um autor de que ouvi falar pela primeira vez precisamente nas suas aulas. Desde então tornou-se uma espécie de referência bibliográfica em livros ou textos que escrevo. Talvez pela irreverência própria da juventude, Zamyatin tinha o sonho de mudar a sociedade russa, à semelhança de qualquer revolucionário que se prezasse, no entanto, o seu “ímpeto foi decrescendo à medida que crescia a propensão autoritária e controladora do Partido Comunista e a censura das Letras e das Artes”. De eufórico revolucionário, Zamyatin passou a um dos mais críticos do regime de Estaline, tendo sido preso e, mais tarde, com a ajuda dos bons ofícios de Gorky junto de Estaline, conseguiu exilar-se em França. Sem ilusões quanto ao carácter virtuoso da nova sociedade e do “novo homem” soviético, em 1920 publica “a primeira obra utópica, depois da implantação da utopia”. Nós é um livro fascinante, que conta a história, num futuro muito distante, de uma sociedade perfeita, orientada por um Estado único, onde tudo é eficaz e as pessoas vivem felizes. O único problema é que esse poder organizativo é totalitário e tudo assenta numa aparente ilusão e numa “alteração forçada da condição humana”, tal como aconteceu com o bolchevismo nos primeiros anos.

 

Desde as aulas de Jaime Nogueira Pinto, nunca mais esqueci a importância de Zamyatin na tradição literária da “distopia política” do século XX. E, sobretudo, aprendi a olhar para algumas obras, não apenas como ferramentas de enquandramento social e político de fenómenos do sistema internacional, mas também como elementos prospectivos daquilo que possa estar para vir.

Reavivar uma paixão antiga


odiplomata,

Gostei de ver o The Post, não tanto pelo filme que é em si, mas pelos sentimentos que despertou em mim, tendo em conta as minhas fortes ligações ao jornalismo. Não é que o filme esteja mal feito (porque não está) ou que tenha erros factuais significativos (porque não os tem). Não se trata disso. Dias antes tinha visto Newspaperman, um documentário produzido pela HBO, lançado no passado mês de Dezembro, e que retrata precisamente a vida de Ben Bradlee, desde a sua juventude até ao reinado no Washington Post. Um documentário muito bem feito. Acho até estranho que à “boleia” do The Post ninguém fale neste documentário, já que dá uma perspectiva muito mais realista e objectiva de todo o enquadramento político e social de Bradlee e do Washington Post. Seja como for, o The Post reavivou uma paixão antiga.

 

Fui jornalista durante alguns anos, a maior parte do tempo no SEMANÁRIO, mas já o meu avô tinha sido tipógrafo no Diário Popular (na verdade, era linotipista, operador dos linótipos, aquelas máquinas tão bem retratadas neste filme do Spielberg). O meu pai é jornalista desportivo desde sempre, tendo passado toda a sua carreira bem no coração daquela profissão, o Bairro Alto. Esta zona de Lisboa foi durante muitos anos o centro nevrálgico de quase todos os grandes jornais em Portugal, onde os maiores detinham gráficas próprias, também localizadas nas entranhas daquele bairro histórico (hoje só a A Bola lá continua) Em criança ainda tive o privilégio de conviver com esse ambiente noctívago, dos prédios antigos com as escadas em madeira, onde as redacções se acomodavam como podiam. Lá dentro, o som poético das máquinas de escrever, acompanhado pela precursão característica dos telex, e a azáfama dos “operários” das letras, banhados pela atmosfera pesada do fumo. Havia noites em que esperava pelo meu pai na casa da minha avó no Príncipe Real, onde ele ia jantar quase sempre. De regresso ao jornal, houve várias vezes em que o acompanhei para assistir ao fecho da edição, a horas proibitivas nos dias de hoje. Estamos a falar dos anos 80. Ficava fascinado com o que via. Só podia. Os pais dos meus amigos tinham profissões “normais”, com horários “normais”, em escritórios “normais”, com assuntos “normais”. Na redacção eu via todo um mundo novo. Para um rapaz nos seus 8, 9, 10, 11 anos, imagine-se o fascínio por estar dentro de uma aventura, na qual o trabalho era vivido com paixão e euforia. O trabalho era escrever sobre futebol. Aquela vida passou a ser, de certa forma, a minha “normalidade”, onde a agenda familiar era, muitas vezes, definida em função do calendário do Benfica ou de outros clubes. Vá-se lá saber porquê, mas nunca esqueci que a minha irmã mais nova nasceu na noite em que o Benfica jogou com a Universidade Craiova, nas meias-finais da Taça UEFA, em Abril de 1983.

 

A emoção, o entusiasmo, a excitação, a adrenalina de tudo aquilo… Não se tratava apenas de uma profissão, mas de um modo de vida que ia para lá do convencional e que, desde o início, me apaixonou. Depois do jornal “fechado”, e uma vez que o meu pai tinha um cargo de chefia, acompanhava-o à gráfica do Diário de Popular, mesmo em frente ao Conservatório de Lisboa, onde eram também impressos o Record (onde o meu pai trabalhava na altura) e a A Bola (para onde foi trabalhar posteriormente). Penso que esta era a maior gráfica do Bairro Alto, chegando a ter duas impressoras. Mas, por exemplo, nas ruas próximas, também o Diário de Lisboa tinha a sua gráfica, tal como a Capital ou o Século. Com tudo pronto, chegava o momento mágico, aquele em que as rotativas começam a girar. É uma experiência única, porque toda ela simboliza a força da liberdade de imprensa, é o momento em que a verdade se torna imparável. Como disse Kat Graham, publisher do Washington Post, interpretada por Meryl Streep, no final do filme, os jornais são o primeiro “draft” da História. É uma grande frase.

 

Muitos anos mais tarde, em tempos onde o jornalismo já tinha perdido quase toda a sua aura romântica, a maior parte da minha modesta carreira de jornalista foi no SEMANÁRIO (um projecto jornalístico político que um dia merece que se lhe dedique algum tempo na sua história). Foram tempos inesquecíveis e, tal como o Washington Post (e aqui, naturalmente, pede-se ao leitor que contemple o devido distanciamento entre as duas realidades), o SEMANÁRIO tinha uma gráfica própria que funcionava por baixo da redacção, num edifício industrial cor-de rosa no Dafundo, à saída de Lisboa. Percebi que relação íntima entre a redacção e a gráfica é como a relação entre um homem e uma mulher apaixonados… Dê lá por onde der, corra mal o que tiver de correr, no final do turno, o jornal vai para a rua e o final é sempre feliz. E depois vem o sentimento de missão cumprida. Quantas vezes não fechámos o jornal às quintas à noite e lá íamos jantar tardiamente, seguido de um “copo” algures. De madrugada, passávamos pela gráfica para ir buscar um exemplar ainda “quentinho”, acabado de sair das rotativas. É uma magia que não se explica e quando, por vezes, tento fazê-lo, sinto que não sou bem sucedido. Filmes como o The Post têm a virtude de nos fazer reviver essa magia e mostrar, a quem nunca esteve neste meio, o quão absorvente e romântica era aquela profissão.

Após um ano de retórica, Trump “ataca” a China com máquinas de lavar


odiplomata,

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Foto:Reuters/Jonathan Ernst 

 

A notícia passou quase despercebida, mas esta segunda-feira o Presidente Donald Trump tomou a primeira medida concreta que dá corpo à retórica agressiva que tem proferido durante o último ano contra a liberalização do comércio internacional. A retirada dos EUA do Acordo Transpacífico (TPP) e o anúncio da revisão da sua participação no NAFTA foram sinais importantes e reveladores do caminho que a nova administração queria seguir, mas não foram mais do que isso, sinais. Pelo menos, até agora. Trump, em plena ressaca da crise do “shutdown” e com os holofotes mediáticos apontados para a guerra entre democratas e republicanos, anunciou que vai aumentar as tarifas de importação para máquinas de lavar e painéis solares. Estas medidas afectam, principalmente, países como a China e a Coreia do Sul e, segundo conselheiros citados pelo New York Times, outros produtos, como aço e alumínio, poderão vir a ser alvo de semelhante medida. Trump parece ter sido sensível ao “lobby” de empresas norte-americanas, como a Whirlpool (máquinas de lavar) ou a Suniva e a SolarWorld Americas (ambas de painéis solares). Os números revelados são muito significativos. Por exemplo, no primeiro ano, as primeiras 1,2 milhões de máquinas importadas sofrerão um acréscimo de 20 por cento nas respectivas tarifas, subindo para 50 por cento sobre todos os equipamentos comprados ao estrangeiro acima daquele número. A partir do terceiro ano, os valores descem para 16 por cento, no primeiro caso, e 40 por cento, no segundo. Quanto aos painéis solares importados, sofrerão um aumento de 30 por cento, um valor que cairá para 15 por cento no quarto ano.

 

Se aquelas empresas têm motivos para celebrarem, o sentimento não parece ser unânime na indústria da energia solar nos EUA, receando que estas medidas tornem o mercado menos competitivo. Também os ambientalistas temem que o aumento dos painéis solares comprometa o investimento da população nestas soluções. Além disso, são evidentes os potenciais efeitos nocivos que estas medidas podem ter no comércio internacional e nas relações de confiança entre os principais actores mundiais. Pequim e Seul já demonstraram o seu desagrado e ameaçam recorrer à OMC, no entanto, não anunciaram, para já, qualquer represália. Trump passou da retórica aos actos, naquilo que considera ser a concretização do seu lema: “America First”. Ora, aquilo que Trump não parece estar a ver é que, num primeiro momento, estas medidas até poderão beneficiar algumas empresas americanas e galvanizar uma parte do eleitorado, sobretudo aquele mais ligada à indústria pesada americana, mas, a médio prazo, os efeitos serão contraproducentes para a economia americana. A História, aliás, tem demonstrado que as economias crescem muito mais quando se abrem ao exterior do que quando se fecham com medidas restritivas.

Isso é dos livros, mas sobre essa matéria, Donald Trump não deverá estar muito ciente daquilo que é verdadeiramente benéfico para a América.

Por falar em vender a alma ao Diabo…


odiplomata,

O lendário pacto de Fausto com Mefistófeles, no qual entrega a sua alma ao demónio em troca do domínio pleno da técnica e do conhecimento, tem sido reinterpretado ao longo dos séculos, seja através da literatura, pintura, teatro ou cinema. Goethe imortalizou aquela lenda alemã e, provavelmente, a ele se deve o facto de algumas almas mais perdidas se sentirem tentadas a forjar um acordo com o Diabo para obterem, digamos, certos benefícios especiais.

 

Uma dessas almas terá pertencido a Robert Johnson, o misterioso e célebre músico de blues do Delta do Mississippi e que, em certa medida, foi o precursor do que mais tarde viria a ser o Rock&Roll e o inspirador de guitarristas como Muddy Waters, Jimi Hendrix, Eric Clapton ou Keith Richards, entre tantos outros. Johnson morreu em 1938, com apenas 27 anos, e para a posteridade deixou um conjunto de músicas gravadas em duas sessões no Texas (Novembro de 1936 e Junho de 1937). Essas gravações são uma espécie de Bíblia para quem vive a música, não apenas como entretenimento, mas como paixão, como um dos elementos da vida. Aquelas gravações contêm a alma do Delta, quer o sofrimento sentido nos campos de algodão, quer a euforia electrizante da comunidade negra nas tardes de Sábado naqueles lugarejos poeirentos perdidos nos confins do Mississippi e Lousiana.

 

Johnson tocou como ninguém, como se tivesse sido bafejado por forças do Além. E é aqui que a lenda de Robert Johnson se cruza com a de Fausto. Esta é aliás uma das histórias mais importantes do folclore da zona do Delta. Por volta de 1930, em Robinsonville, Mississippi, Robert Johnson era um “little boy”, que nem tocava mal harmónica, mas era um desastre com a guitarra, diria anos mais tarde Son House, um dos pais do blues do Delta e que conviveu com o jovem músico. Vários relatos históricos dizem, de facto, que sempre que Johnson tocava era um suplício para quem o ouvia. É por esta altura que Johnson deixa Robinsonville durante alguns meses para ir aprimorar a sua técnica com Ike Zimmerman, de quem se dizia que tocava a sua guitarra de forma sobrenatural durante as visitas nocturnas que fazia às campas dos cemitérios.

 

A lenda de Robert Johnson nasce nesta altura, aquando do seu regresso a Robinsonville meses depois, com uma técnica e domínio da guitarra inexplicáveis para tão pouco tempo de aprendizagem. Diz a lenda que nos meses em que esteve fora terá feito um pacto com o Diabo (na figura de Legba) num “crossroads” próximo da plantação de Dockery. Nunca foi possível identificar o local do encontro, havendo várias referências a uma intersecção de estradas em Clarksdale, sabendo-se apenas que terá sido num cruzamento entre quatro caminhos poeirentos no meio do nada. O encontro deu-se à meia-noite, com a chegada de um homem negro e alto ao entroncamento, que pegou na guitarra de Robert Johnson, afinou-a e tocou umas músicas. De seguida, devolve a guitarra a Johnson. Em troca da sua alma, Johnson estava agora em condições de criar e tocar os blues que lhe iriam trazer fama e glória.

 

Esta história perdurou no tempo, tendo o próprio Son House confirmado, numa entrevista mais tarde, a veracidade do pacto firmado entre Johnson e o Diabo. Ao longo dos anos muito se tem especulado sobre o maléfico encontro e as capacidades (quase sobrenaturais) de aprendizagem do guitarrista. A lenda de Robert Johnson continua a fascinar todos aqueles que vêem no blues uma música que, mais do que notas, mostra aquilo que vai na alma do seu intérprete.

 

Esta é uma das cenas do filme “Crossroads” dos anos 80, inspirado precisamente na lenda de Robert Johnson, mas numa versão mais moderna e que se tornou objecto de culto para os amantes do blues e da guitarra. Aqui, Willie Brown, um dos músicos mais importantes do Delta e que tocou com Son House, agora retratado ficticiamente numa idade já avançada, aguarda pelo Diabo no “crossroads” para poder recuperar a sua alma.  

O “jornalismo de causas” não é jornalismo


odiplomata,

Uma conversa recente fez-me recordar uma polémica antiga (embora recorrente de tempos a tempos para quem se interessa por estas coisas) sobre a problemática do “jornalismo de causas”. Lembro-me que há uns bons anos a então editora de Internacional do Público, Margarida Santos Lopes, pessoa com quem tive o privilégio de trabalhar sob sua orientação naquela mesma secção do jornal e que, seguramente, é das jornalistas portuguesas mais conhecedoras da realidade do Médio Oriente, em particular do conflito israelo-palestiniano, se envolveu num debate de ideias com Pacheco Pereira a quem, goste-se ou não, concorde-se ou não com as suas opiniões, não se pode negar a sua capacidade intelectual de pensar. A discussão, que teve como pretexto mais imediato as dinâmicas noticiosas registadas em vários países associadas ao polémico “massacre de Jenin” ou à ideia distorcida de uma “França contra Le Pen (pai)”, deu-se nas páginas do Público em Abril de 2002, com Pacheco Pereira a denunciar aquilo que considerava ser um “jornalismo de causas”, no qual os factos e a função primeira do jornalismo, de relatar os acontecimentos com objectividade e equidistância certas, eram preteridos em função das convicções pessoais, morais, sociais e políticas dos jornalistas.

 

Pacheco Pereira lamentava que as “causas” se tivessem sobreposto aos “factos”, conduzindo, muitas vezes, a omissões deliberadas ou a edições mais “convenientes” por parte dos jornalistas, “orientados” para um determinado “resultado” (expressões minhas). Nada de novo, na verdade, e nada que não tenha continuado a verificar-se em Portugal ao longo dos anos, sendo, aliás, uma prática cada vez mais comum. Basta olhar para o ano que agora terminou e analisar com seriedade algumas dinâmicas noticiosas e facilmente se constatam todos esses males, nalguns casos de forma escandalosa, sem que haja qualquer escrutínio ou consequência. Já na altura, Pacheco Pereira explicava o fenómeno: “Há muitas razões para explicar o domínio do ‘jornalismo de causas’ em Portugal. Ele é favorecido pela relativa homogeneidade política das redacções – muito mais à esquerda do que a sociedade portuguesa -, por uma estrutura de controlo de qualidade, de “edição”, muito frágil ou inexistente, pela falta de cultura geral necessária para escrever sobre política, falta de noções de história e de filosofia política básicas. Mas é acima de tudo justificado pela vontade, que se verifica ser muito mais motivadora do que a de se ser, pura e simplesmente, bom jornalista, de substituir as regras do jornalismo pela intervenção política.”

 

De todas as razões acima descritas por Pacheco Pereira, prefiro centrar-me na última questão, a de que o jornalista se destitui da sua missão a partir do momento em que “atropela” as regras e conceitos básicos do jornalismo, muitas vezes para contar a “história” que lhe dá mais “jeito” ou, eventualmente, a que lhe dá mais audiência. Aqui, nem sequer se trata de ser bom ou mau jornalista, trata-se apenas de ser jornalista ou não. Pode apresentar-se como tal e achar que os seus trabalhos são reportagens ou notícias, mas, efectivamente, não são mais do que conteúdos, seguramente não jornalísticos, porque, para isso, o crivo tinha que ser outro.

 

Por vezes, as emoções e os interesses subjectivos são de tal maneira gritantes que aos “jornalistas” em causa só lhes falta colocarem a capa de super-heróis para irem em defesa dos fracos e oprimidos. E quando o fazem, fazem-no sempre de acordo com a sua “lente” ou com a sua visão parcial de um determinado assunto. Ora, por mais meritória que essa missão até possa ser, o jornalismo não é isso. O jornalismo tem outro propósito, que é o de informar as pessoas e colocá-las, o mais próximo possível, da realidade de um determinado assunto. Um jornalista não deve escolher qualquer lado da barricada, não deve tomar partidos, não deve ceder perante preconceitos ou ideias pré-concebidas… Não deve ser o super-herói, não deve ser parte da história que está a relatar! Acima de tudo, o compromisso do jornalista é para com a verdade factual, para com os leitores, os telespectadores ou os ouvintes, no dever de lhes fornecer informação devidamente validada, com todos os ângulos de uma problemática, e não apenas uma visão parcial, para que eles, sim, possam fazer os juízos que bem entenderem.

 

Os defensores e mobilizadores de causas devem existir e são fundamentais em democracia na construção de uma sociedade mais justa e solidária, mas não devem ser protagonizados por jornalistas quando estão no exercício da sua profissão. São missões e papéis diferentes, mas o problema é que em Portugal há jornalistas que deixaram de perceber essa diferença, embarcando em causas, por vezes de forma exacerbada e cega, esquecendo-se de que estão a prestar um mau serviço ao jornalismo.

 

Que 2018 traga bom jornalismo, porque, como ainda esta Terça-feira escrevia o filósofo político Daniel Innerarity no El País, para se poder “reinventar” um país ou fazer alguma mudança no mundo, acima de tudo, é preciso saber interpretar bem a realidade.

Os “jogadores” da política


odiplomata,

“Todos os políticos são, em certa medida, jogadores em relação aos acontecimentos. Tentam prever o que vai acontecer para se posicionarem do lado certo da história.” A frase é de Boris Johnson, antigo mayor de Londres e actual ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, que, numa entrevista recente à Fox News, considerou o Presidente americano uma “grande marca mundial” em termos políticos, enaltecendo as capacidades de comunicação de Donald Trump e a eficácia dos seus tweets matinais, por mais “indisciplinados” que possam ser. E se há alguém que percebe de indisciplina enquanto ferramenta de comunicação, é precisamente Boris Johnson, que fez sempre dessa característica um factor poderoso na sua afirmação enquanto político dentro do próprio sistema. Indisciplinado, irreverente, turbulento, Johnson tem feito do choque constante, da provocação permanente, a sua forma de estar na política.

 

Aquele seu cabelo desgrenhado não é um acaso, é um activo comunicacional que “casa” com a imagem que pretende que a opinião pública percepcione dele. Da mesma forma que o charuto de Churchill (de quem Johnson é admirador e a quem dedicou uma excelente biografia de onde foi retirada a citação do início) foi mais um elemento importante na construção da sua imagem enquanto estadista, já que aquele “adereço” representava o espírito do aventureirismo romântico, quase ingénuo, associado aos tempos gloriosos passados na Guerra da Independência de Cuba, em 1895. E à medida que os anos evoluíram, o charuto passou a ser também um símbolo de poder e autoridade. São, aliás, raras as vezes em que o antigo primeiro-ministro aparecia publicamente sem o charuto. A este propósito, algumas histórias que se contam à volta das exigências de Churchill para poder satisfazer o seu vício (também comunicacional) são totalmente disparatadas, mesmo para os tempos da altura. Provavelmente, umas serão mito, outras nem tanto. Seja o charuto de Churchill, o cabelo de Johnson ou as meias de Justin Trudeau (que, intencionalmente, reflectem a jovialidade quase infantil do primeiro-ministro canadiano), são elementos que resultam, em parte, de uma combinação entre aquilo que é genuíno nos políticos e uma dimensão encenada, fazendo parte de uma certa liturgia comunicacional e que parece cativar, cada vez mais, os eleitores.

 

Verdade seja dita que muito antes da ascensão ao estrelato político desta nova vaga de líderes “pop” e populistas, que se enquadram nas novas tendências sociais de um público-alvo cada vez mais urbano e em “rede”, já Boris Johnson cultivava a imagem de um político disruptivo na forma de se apresentar, fazendo questão de se fazer transportar em bicicleta pelas ruas de Londres, naquele seu ar de aparente descontração, numa cena tipo hipster, ainda muito antes do revivalismo desta tendência. Quando se tornou mayor da City, há quase dez anos, a sua imagem rompia com tudo aquilo a que estávamos habituados a ver num político de topo. Quase que parecia um ser exótico, para não dizer excêntrico, embora estivesse longe de ter a exposição mediática internacional que alcançaria mais tarde.

 

Se, hoje em dia, o “número” da bicicleta é irrelevante e as meias coloridas de Justine Trudeau já são quase um acontecimento mainstream na comunicação política, há uns anos poucos seriam os políticos que ousariam fugir ao figurino instituído para os chefes de Estado e de Governo. Aliás, até há bem pouco tempo, quem, no seu perfeito juízo, ousaria prognosticar que a França viria a ter um Presidente abaixo dos 40 anos? Ou que a Áustria elegeria o jovem Sebastian Kurz, com apenas 31 anos, para a chefia do Governo, onde, numa imagem de campanha, apareceu sentado em cima de um espalhafatoso todo-o-terreno Hummer numa pose que faria inveja a qualquer rapper de Compton? Ou que Trump, o multimilionário da melena ridícula que apresentava o “The Apprentice”, viria a sentar-se na Sala Oval? Ou que em Portugal um Presidente pudesse vir a ser quase tão popular como Cristiano Ronaldo?

 

São figuras de liderança que, de uma maneira ou de outra, são disruptivas. Não necessariamente na forma de fazer política, mas na maneira de comunicar e “enfeitar” essa política. Nalguns casos, o conteúdo até pode não trazer nada de novo, porém, o “embrulho” em que a mensagem é oferecida à opinião pública é completamente diferente, é apelativo, é vendável (a tal “brand” de que Boris Johnson fala).

 

A experiência diz que parte dessa forma de estar em política tem origem na natureza intrínseca de cada um, mas a outra parte é fruto de um trabalho orientado para determinados fins comunicacionais. Virtuosos ou não. O problema é que quanto melhor é o “jogador” político, mais dificuldades o cidadão terá em perceber o que é genuíno e o que é encenação. Esses dois factores estão sempre presentes e o que as pessoas vêem é um produto final, um personagem político que lhes despertará determinados sentimentos e emoções, porque em comunicação política é a percepção (e não a realidade) o que mais importa.

As portas do Inferno


odiplomata,

Conheço relativamente bem Israel e a Palestina. Estive lá por duas temporadas durante a intifada de al-Aqsa, numa altura em que turistas ou peregrinos não se atreviam ir à Terra Santa. Numa altura em que Jerusalém era a cidade com mais correspondentes a seguir a Washington, numa altura em que os atentados suicidas eram uma constante nas principais cidades israelitas. No lado palestiniano, os check points das Forças de Segurança Israelitas (IDF) eram cada vez mais intrusivos, os ataques aéreos sucediam-se, a construção de colonatos judeus avançava de forma intensa, os palestinianos deixaram de poder circular em Israel, nomeadamente entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. O Hamas e a Jihad Islâmica afirmavam-se, tal como as milíciasTanzim, uma espécie de braço terrorista da Fatah, liderada entāo por Yasser Arafat. O clima que se vivia foi dos mais violentos e sufocantes desde a última guerra israelo-árabe. A maior parte das infraestruturas palestinianas ficou reduzida a entulho. Na Faixa de Gaza, fosse na cidade de Gaza ou em Rafa, no sul, vi escombros sobre escombros, o porto e o aeroporto totalmente destruídos, projectos que tinham sido financiados pela UE. Israel também sofreu na sua economia, no seu turismo, na sua imagem internacional. Entre 2000 e 2005, terão morrido mais de 3000 palestinianos e cerca de 1000 israelitas. A violência tinha voltado a assolar aquela região e tudo porque Ariel Sharon, na altura líder do Likud na oposição, decidira fazer uma visita aparatosa, em jeito de provocação, à Esplanada das Mesquitas, um dos locais mais sagrados para os muçulmanos. Agora, é só imaginar o que poderá novamente acontecer com esta decisão de Donald Trump. O Hamas já veio dizer que se abriram as “portas do Inferno” e sobre isso não tenho qualquer dúvida.

Desleixo ou desinteresse


odiplomata,

Vinte e três Estados-membro da UE assinaram ontem a notificação conjunta para a instituição da Cooperação Estruturada Permanente (PESCO), um passo muito importante na tua almejada política de Segurança e Defesa europeia comum e pela qual Portugal se tem batido. Mas, com bastante surpresa, constatou-se que o nosso País não esteve no grupo fundador, ainda por cima sendo este um instrumento previsto pelo Tratado de Lisboa. É certo que se pode juntar mais tarde e que para já estamos apenas a falar de uma notificação, mas a verdade é que para a História, Portugal não esteve no grupo da frente, rompendo com a boa tradição da diplomacia portuguesa, de ter sabido sempre posicionar-se na vanguarda do projecto europeu. E que ilações se pode tirar disto? Das duas uma: ou desleixo nacional, por não se terem cumprido uns prazos quaisquer (segundo as justificações do próprio chefe da diplomacia nacional), ou desinteresse. Em qualquer dos casos, é lamentável que a diplomacia portuguesa, historicamente sempre de grande qualidade, desta vez não tenha percebido onde Portugal devia estar.

Catalunha, uma reflexão sistémica


odiplomata,

A questão da Catalunha tem suscitado inúmeras análises, muitas delas com pertinência e qualidade, outras, nem tanto, visto serem motivadas por preconceitos ideológicos, onde se esgrimam argumentos cuja validade pouco interessa para a compreensão daquele problema. Então o que há a acrescentar ao que se tem escrito e dito? Na verdade, não é tanto aquilo que se pode acrescentar em termos de informação, mas sim a forma como se pode ler tudo o que está em causa, partindo-se de uma abordagem sistémica à luz da história. Muitas vezes, fazendo-se esse exercício, que é uma prática comum para quem estuda Relações Internacionais, chegam-se a modelos que nos permitem, dentro de um certo limite, encontrar algumas respostas ou antecipar dinâmicas de um conflito ou de uma crise. De pouco serve recuar um, dois ou até cinco anos para se chegar a um racional sólido. Esse, aliás, tem sido um dos vícios na forma como a questão da Catalunha tem sido abordada, gerando, por vezes, equívocos. Neste caso, é importante recuar um pouco mais atrás, à altura em que surge a consciência política das massas trazida pela Revolução Francesa, depositando no Povo e na Nação a legitimidade do Estado. Essas sementes florescem em força com os nacionalismos do século XIX, apesar da tentativa de controlo sistémico promovido no célebre Congresso de Viena de 1815 (que marca politicamente o início do século XIX), no qual se definiu o “direito das nações se organizarem politicamente como Estados soberanos (embora sempre sob a vigilância dos grandes impérios)”.

É importante notar que o nacionalismo catalão nunca fez parte deste jogo dos nacionalismos exacerbados europeus. No entanto, um pouco por toda a Europa, com mais ou menos intensidade, o choque entre os resquícios do absolutismo do antigo regime e as sementes da Revolução Francesa faziam-se sentir no confronto entre Estado absoluto versus Estado nação. E, de certa forma, com contornos específicos, foi a isso que se assistiu durante o século XIX também em Espanha. E aqui, a história dos nacionalismos acaba por surgir no final do século XIX, altura em que se assiste à emergência dos chamados nacionalismos periféricos, assentes, sobretudo, no desenvolvimento económico, mas também nas nuances étnicas, culturais e linguísticas de algumas regiões espanholas face a Castela. O País Basco e a Catalunha, as duas regiões mais avançadas no final do século XIX em Espanha, são os projectos mais evidentes, no entanto, com vocações completamente diferentes. Aqui, neste texto, interessa apenas o nacionalismo catalão, claramente “o arauto da modernização e do progresso contra o conservadorismo do regime de Madrid”, escreveu Maria Regina Marchueta na obra “Os Nacionalismos Periféricos em Espanha (Edições Duarte Reis, Lisboa 2002. Pref. Adriano Moreira)”, a sua tese de doutoramento do ISCSP e de leitura obrigatória para quem gosta deste tema.

A verdade é que até finais do século XIX, e ao contrário do que muito se tem escrito e dito, a questão dos nacionalismos em Espanha não existia, quer em termos conceptuais, quer em termos políticos. Madrid iniciou esse papel, já que a Catalunha perdeu muito do seu poder com a decadência do comércio no Mediterrâneo, ao mesmo tempo que Castela assumiu a “sua função directora, de perfil militar e religioso”, orientando o seu projecto histórico numa lógica religiosa de Reconquista. “O nacionalismo espanhol, ainda inexistente esta época, seria o resultado de um processo gradual, que se ia completando à medida que recebia as contribuições da implantação do sistema nacional de educação primária, da ampliação territorial do recrutamento militar, da extensão dos meios de comunicação e do próprio desenvolvimento da organização do Estado”, lê-se no livro de Marchueta.

Neste quadro e receando tornar-se “um mero apêndice de França”, a Catalunha “aposta então pela Espanha imperial, oferecendo-lhe, como contrapartida, uma armadura ideológica ao seu deficitário conceito e nação, ainda demasiado preso, quer de uma concepção política teológica, quer da visão racionalista dos direitos naturais”. Se, por um lado, Madrid vai construindo uma ideia de Nação “através da captação das forças vivas das províncias”, por outro, vê reforçada essa construção com a reacção acérrima às invasões napoleónicas por parte das regiões. É importante constatar que a independência nunca foi um objectivo da Catalunha, que optou sempre por gerir os seus interesses sempre dentro do Estado espanhol. Porém, que não haja ilusões, esta construção da nação espanhola é forçada, precisamente, pelos interesses, o que não quer dizer que não seja concreta nem efectiva. E também não quer dizer que as diferentes sensibilidades não subsistam. É precisamente neste período que a esquerda republicana se começa a instalar na Catalunha, claramente defensora de um federalismo regional, muito por oposição ao carlismo conservador enraizado nas populações mais rurais (ideias que irão, décadas mais tarde, estar em confronto na sangrenta Guerra Civil).

Maria Regina Marchueta identifica a “independência de Cuba, a rebelião das Filipinas e a derrota frente aos EUA” como factores “reveladores da extrema debilidade de Espanha” e que “supuseram um rude golpe na consciência colectiva do país”. Além disso, “a Catalunha, firme na convicção de ser a sede da riqueza nacional, denunciará o falhanço da política centralizadora de Madrid”. E é precisamente nos finais do século XIX que surgem os primeiros teóricos que dão corpo doutrinário ao nacionalismo catalão. Talvez o mais importante seja Eric Prat de La Riba, que no seu livro “La Nacionalitat Catalana” formulou o catalanismo como a afirmação da identidade histórica, cultural e económica da Catalunha, mas sempre dentro do Estado espanhol. O catalanismo propôs-se também a ser um movimento regenerador face ao poder conservador de Madrid.

Não obstante os devaneios de um ou outro aventureiro (e Carles Puigdemont pode ser incluído nessa categoria), se olharmos para a história política da Catalunha, constata-se que a independência nunca foi a questão central nem reclamada por aquela região, mas sim a autonomia ou o federalismo. Muito se tem falado na Constituição de 1978 e no Estatuto de Autonomia, mas, na verdade, foi a Constituição espanhola de 1931, com a implantação da curta e turbulenta II República, que abre caminho para a solução do problema regional. “A Constituição da II República constituía, assim, o original precedente da organização territorial do Estado, mercê do reconhecimento da realidade histórico-cultural da Espanha”, escreve Marchueta. É aqui que se institui a Generalitat e que em 1978 é recuperada. Entretanto, em 1932 era aprovado o Estatuto catalão, em 1933 o basco e em 1936 o galego. O que aconteceu a seguir, com a Guerra Civil e o franquismo, acabou por oprimir os nacionalismos periféricos e adormecer a esquerda republicana. A própria ideia de nacionalidade espanhola ficou associada ao projecto do Estado franquista.

A Constituição de 1978 pode ser vista, de certa forma, como uma solução inevitável para descomprimir a pressão exercida durante décadas sobre os nacionalismos periféricos. Poderá nunca ter criado as expectativas que a Constituição de 1931 provocara nos movimentos nacionalistas, já que estávamos perante um documento progressista elaborado num regime republicano, mas a verdade é que a Lei constitucional de 78 permitiu arrumar os nacionalismos periféricos dentro do Estado espanhol até hoje e, diga-se, sempre com uma certa ordem sistémica. E no que à Catalunha diz respeito, Jordi Pujol foi uma figura central na gestão desse equilíbrio, entre o projecto nacionalista moderado e conservador e o Estado espanhol. Pujol personalizou aquilo que tantos outros líderes catalães foram fazendo ao longo da história daquela região: gerindo os interesses e cinismos de uma nação, que nunca se viu verdadeiramente empenhada em lutar por ser um Estado independente, mas também que nunca aceitou ser um elemento passivo na construção do Estado nação espanhol. Uma das virtudes do actual modelo de autonomia é que tem permitido, precisamente, a coabitação entre diferentes correntes nacionalistas na Catalunha e o relacionamento estável com Madrid. E isso, com mais ou menos questão pelo meio, tem funcionado dentro daquilo que seria expectável num país como a Espanha.

Perante o que aqui foi escrito, ou Carles Puigdemont não fez a devida leitura histórica ou assumiu que o “seu” povo lhe iria dar o projecto de nação independente. Ora, o que hoje já se pode assumir com toda a certeza (e era óbvio), é que o povo catalão, no seu todo, não se revê nesse projecto de nação protagonizado por Puidgemont. Nem de perto nem de longe e quando assim é, não há processo de auto-determinação que chegue a bom porto. O princípio da nação independente assenta, antes de mais, numa vontade popular imensa e massificada em partilhar uma ideia comum. Esse desejo ardente e quase irracional do povo assumir os desígnios do seu futuro, ao ponto de dar a vida por isso, é uma espécie de combustível para qualquer processo disruptivo e de independência. A questão é que os ímpetos independentistas nacionalistas nunca pulsaram com essa intensidade na história catalã, mesmo em períodos difíceis e turbulentos. Se assim foi – e sem que as relações de força entre Madrid e Barcelona estivessem a viver momentos particularmente especiais –, por que razão achou Carles Puigdemont que a História lhe teria concedido o privilégio de estar a viver um tempo especial? Uma coisa é certa, são muitos aqueles que, consumidos pelo seu ego ou até mesmo delírio, se consideraram predestinados para fazer algo de grandioso e acabaram na sarjeta da História… ou em manicómios.

Pensamento da semana


odiplomata,

Pouco iluminados e recompensados ficam aqueles que, por interesse cívico ou obrigação profissional, têm de acompanhar o que se vai escrevendo e dizendo por uma pseudo elite, cuja sua “sabedoria” resulta de uma vivência confinada ao micro-cosmos delimitado por escassos quilómetros quadrados no centro de Lisboa, onde os egos se retroalimentam em almoços de “trabalho” e para quem Rio de Mouro ou Massamá são uma espécie de enclaves onde vivem os indígenas nas palhotas. Quase nada acrescentam aqueles protagonistas que diariamente fazem opinião na imprensa ou nas “redes” a pavonearem-se e a darem ares de sofisticação, mas ricos na incoerência, ignorantes nos argumentos e arrogantes na disponibilidade de apreender o desconhecido no confronto de ideias. E a verdade é que quanto mais os temas fracturam, mais os preconceitos e radicalismos emergem, numa lógica de proselitismo contra aqueles que, no seu pleno direito e através de argumentos válidos, têm uma opinião diferente que desafie o pensamento dominante do status quo ou o autoritarismo do politicamente correcto. É por isso que aliar o saber dos antigos ao conhecimento contemporâneo, juntando-se-lhe a experiência do quotidiano do povo, com uma pitada de humildade e bom senso, talvez seja a fórmula correcta para se ter uma opinião ponderada e fundamentada sobre os assuntos da sociedade, em geral, e da política, em particular. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana