O Hot Club está a celebrar 70 anos, o mítico clube de jazz da Praça da Alegria, em Lisboa, um dos melhores e mais antigos da Europa que, ao longo destas sete décadas, tem promovido a divulgação daquele estilo de música no nosso país, através do seus inúmeros concertos e jam sessions na obscura cave (agora nem tanto), com nomes nacionais e internacionais. Mas, mais do que isso… Do que conhecia, o Hot Club era (e certamente ainda é) uma escola de jazz com uma componente prática que, provavelmente, não tinha paralelo em mais qualquer escola do país, e por onde passaram muitos dos melhores músicos nacionais.
Tive o privilégio de estudar jazz e guitarra no Hot durante uns meses, quando a escola ainda funcionava no velhinho e carismático edifício da Praça da Alegria (agora só o clube funciona na cave). Era um adolescente que estava a descobrir o jazz (ainda hoje continuo a descobrir) e recordo que todo aquele ambiente me transportava para um universo desconhecido e cativante. Para quem vinha da guitarra clássica, onde o método, a técnica e o rigor da interpretação são pilares inamovíveis de ensino do Conservatório, o jazz colocava outros desafios… Não é que não exija técnica ou rigor (porque exige, e muita), mas nem tudo está definido à partida, cabendo-nos a nós seguirmos o caminho que queremos, dentro de alguns limites. Há um lado aventureiro e profano no jazz, de desafiar convenções, e tudo isso se sentia ao entrar na escola do Hot, onde o que interessava era o resultado da arte e não tanto como lá se chegava. Era isso que nos pediam, é essa a essência do jazz, “perdermo-nos” melodicamente no meio de uma harmonia, sabendo encontrar o caminho que nos conduz ao fim.
Lembro-me numa das primeiras aulas de estar a tocar um standard de bossa nova e vinha eu de tal formatado do ensino clássico que não me conseguia “libertar” do que estava literalmente escrito na pauta. Aquilo não estava a soar de forma fluída, estava preso, muito mecanizado, até que a determinada altura “ousei” meter mais umas notas pelo meio e fazer umas brincadeiras, ou seja, divertir-me, e foi nesse momento em que começou a soar a qualquer coisa minimamente decente. Já nas aulas de Combo, recriação de uma pequena banda de jazz, a experiência é absolutamente única, ao tocar aqueles magníficos standards clássicos, dando a sensação de que fazemos parte de uma certa época. E não esqueço as lições aprendidas na cadeira de História do Jazz, dadas por Bernardo Moreira, contrabaixista e pai de uma família de músicos, incluindo o filho homónimo, conceituado contrabaixista. Ainda hoje recorro às definições que ele me ensinou para explicar o que foi o swing e o bebop, talvez os dois maiores movimentos do período de ouro do jazz. Dizia Bernardo Moreira que o swing era caracterizado, basicamente, pelo ritmo de colcheia e semicolcheia e o bebop identificado, nada mais nada menos, pelo uso e abuso da quarta aumentada. Uma definição que simplifica uma construção tão complexa. E jazz também é isso, simplificar aquilo que é complexo.
