A virtude do processo de decisão


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O primeiro-ministro tailandês, Prayuth Chan-ocha (direita), questiona o governador da província de Chiang Rai e comandante operacional do salvamento, Narongsak Osatanakorn (esquerda), sobre o plano para resgatar do sistema de grutas Tham Luang as doze crianças da equipa de futebol e o jovem treinador/Foto: Thailand Government House/Handout via REUTERS

 

Com as emoções atenuadas e os factos mais apurados, volvidos alguns dias depois do resgate bem-sucedido das doze crianças de uma equipa de futebol e do seu jovem treinador das entranhas do sistema de grutas Tham Luang na província remota de Chiang Rai na Tailândia, talvez seja importante fazer uma análise, não tanto à operação em si mesma, mas ao processo de decisão que esteve na sua origem. Porque, em grande parte, o final feliz desta história tanto se deve à coragem e perícia dos mergulhadores, como à “boa fortuna” e “virtude” dos decisores políticos que, sob pressão imensa, deram luz verde a uma operação quase impossível, numa lógica de mal menor, atendendo aos cenários dramáticos que se apresentavam: um salvamento imediato com riscos imensos para todos em plena época de chuvas; ou se aguardava por um abaixamento do nível da água, que poderia demorar meses, com vários imponderáveis que podiam resvalar facilmente para a tragédia. Embora as autoridades tailandesas nunca o tenham afirmado peremptoriamente, presume-se que esta segunda opção tenha acabado por ser posta de parte (se é que foi verdadeiramente equacionada), já que dificilmente as crianças sobreviveriam muitas mais semanas em ambiente de escassez crescente de oxigénio. Além do mais, havia ainda o risco, caso as chuvas se intensificassem, de, um momento para o outro, o nível da água subir de tal maneira que provocaria a inundação completa da caverna onde as crianças e o jovem treinador se encontravam.

 

Na prática, os decisores políticos, secundados pelo “expertise” militar e pressionados pela urgência da decisão face às previsíveis tréguas que a monção ia dar durante três dias, terão chegado à conclusão de que a escolha da segunda opção seria o mesmo que condenar aquelas treze pessoas à morte. É importante notar que a decisão última numa crise deste género é sempre solitária e, muito provavelmente, coube ao primeiro-ministro tailandês, Prayuth Chan-ocha, dar a aprovação final para que os militares avançassem pelo resgate imediato.

 

Uma decisão destas contém em si uma carga dramática, uma vez que não está isenta de riscos. Pelo contrário, qualquer dos cenários que foi colocado em cima da mesa de Prayuth Chan-ocha não dava garantia alguma de sucesso pleno, com os militares, certamente, a considerarem realisticamente a possibilidade de se verificarem baixas entre os resgatados e os mergulhadores (como, efectivamente, veio a acontecer).

 

É nestes momentos que se exigem decisões firmes aos líderes políticos, decisões que têm de ser tomadas num curto espaço de tempo, sob uma enorme pressão social e mediática, já para não falar na componente humana e emocional que se abate sobre um governante numa altura destas. Assim que a decisão foi tomada, passou a ser a estrutura castrense a liderar todo o processo, tendo o comando operacional do resgate ficado a cargo do também militar, o governador da província de Chiang Rai, Narongsak Osotthanakorn. Assumiu a operacionalização do plano, que contou com 150 militares e civis especializados de vários países do mundo. No terreno, coube aos Thai Navy Seals, sob a liderança do contra-almirante Arpakorn Yuukongkaew, implementarem cirurgicamente o que estava delineado no papel. E convém não esquecer de que estávamos a falar de uma gruta com cerca de três quilómetros de extensão, entre a entrada e o local onde se encontravam os resgatados, em que quase metade estava parcial ou totalmente inundada. Além disso, havia locais onde apenas passava uma pessoa e nada mais, nem mesmo a garrafa de oxigénio.

 

Analisando agora já com algum distanciamento, constata-se que tudo foi decidido e executado com determinação, firmeza e profissionalismo. E ao contrário do que foi dito por muitos, de milagre esta operação nada teve. Pelo contrário, se algo há a retirar de toda esta história, é que o Divino não teve qualquer papel relevante no processo de decisão política nem na operacionalização do plano. Quanto muito, os mais crentes poderão querer atribuir a causas mais místicas a “aberta” de três dias no tempo que permitiu a “janela de oportunidade” para que a operação avançasse.

 

A verdade é que este sucesso resulta de um processo virtuoso de decisão política, apoiado na única estrutura estatal capaz de dar resposta em ambientes particularmente adversos: os militares. O que aqui esteve em causa foi uma assunção cabal e corajosa do Estado na prossecução das suas funções mais elementares na defesa do seu Povo. Infelizmente, nesse aspeto, Portugal tem sido um triste e lamentável exemplo.

Blogue da Semana


odiplomata,

Admito que ando um pouco desinformado relativamente ao “mercado” dos blogues nacionais, no entanto, uma vez que quase toda a gente gosta de cinema, e para variar dos temas mais habituais da política, recomendo o Cinematograficamente Falando como Blogue da Semana. Da autoria de Hugo Gomes, o blogue já leva 11 anos sempre a falar de cinema, mas numa óptica bastante eclética, havendo espaço para todos os estilos, dos blockbuster aos filmes mais eruditos. Tinha-me sido recomendado por uma amiga amante de cinema e agora deixo aqui a sugestão no Delito.

“Novo” DN


odiplomata,

Por mais voltas que Ferreira Fernandes dê ao texto, e por melhor prosa que utilize para embrulhar este “novo” DN semanal, a verdade é que pouco mais é do que uma versão grande formato do agora defunto Diário. A mesma abordagem editorial, os colunistas desinteressantes de sempre e os suplementos andam próximo do sofrível (um deles chega mesmo a ser quase um catálogo de compras). Nada de novo, portanto, nas temáticas e na forma de abordá-las. Quando seria expectável que se apresentasse um produto de reflexão, que fosse ao encontro das novas tendências, àquilo que fervilha na sociedade, no fundo, que fosse o reflexo dos tempos e das suas correntes de pensamento e culturais, temos um jornal inócuo, que se arrasta na agonia. Para quem já viveu essa situação dentro de um jornal, sabe que nunca há volta a dar. É apenas uma questão de tempo até as rotativas pararem.  

 

Há umas semanas, alguém dizia que, no âmbito deste novo projecto, estaria a ser preparada uma espécie de New Yorker como suplemento, algo que seria muito bem vindo e que, naturalmente, seria uma iniciativa arrojada no panorama miserável da imprensa em Portugal e que poderia ter um nicho de mercado interessante. Na altura, essa ideia pareceu ao autor destas linhas demasiado ambiciosa, sobretudo se tivermos em consideração que, para tal, seria preciso que os donos dos grupos de comunicação social no nosso país se regessem por um novo paradigma, que é o de olhar para estas transformações dos jornais, não por necessidade financeira e, como tal, guiados pelo desinvestimento, mas, antes, como um upgrade na forma de fazer jornalismo, que, obviamente, pressupõe investimento e visão. Foi aliás o que fizeram jornais como o New York Times, El País, Washington Post, FT ou The Guardian, antecipando as mudanças tencológicas e comunicacionais, e introduzindo mais valias na forma de fazer jornalismo. E só assim, com conteúdos e formatos de qualidade, as pessoas estarão dispostas a pagar por notícias. Com cosméticas do refugo impresso e online (não basta dizer que é “premium”, tem mesmo que o ser) já não se vai lá, e este aviso não é só para o DN, dirige-se também a outros jornais, impressos e digitais.

 

Quanto ao “novo” DN, espera-se que consiga fazer a sua revolução no digital, já que no papel, dificilmente conseguirá chegar às 25 mil vendas, como é seu objectivo. Seguramente, não com este produto e por mais alusões estilísticas que Ferreira Fernandes faça às suas memórias e aos tempos áureos do jornalismo. Porque não é isso que o trará de volta.

Pensamento da Semana


odiplomata,

Uns glorificam-se, outros choram e lamentam-se e há aqueles que se posicionam, depois de um deplorável e degradante processo, onde ninguém esteve bem. Dos defensores do “status quo” estilo norte-coreano aos “challengers” que cobardemente nunca verdadeiramente o são, passando pelos intelectuais e “notáveis” que tiveram uma espécie de revelação e mudaram de agulhas, tudo foi muito mau. Os dementes chamam-lhe “golpe”, já aqueles que estão inebriados pela ilusória vitória, chamam-lhe “democracia”. A verdade é que pouco importa o lado do lamaçal, é tudo gente sem elevação e verticalidade, cidadãos pouco recomendáveis. O que se leu, o que se viu e o que se ouviu, sobretudo daquelas pessoas que se têm em conta como seres esclarecidos e sábios (e algumas com responsabilidades na sociedade), é revelador de como as nossas pseudo elites rapidamente embarcam na sua própria vaidade em direcção ao disparate. A contribuir para este espectáculo de cabaret esteve a comunicação social, com o seu jornalismo e comentário de sarjeta. Dizem que as elites acabam por ser um reflexo do povo. Mas será mesmo assim? Curiosamente, quando se convive com o cidadão comum, aquele que todos os dias apanha o comboio às oito da manhã no Cacém para entrar ao serviço, fica-se com a sensação de que uma grande maioria do povo se esteve literalmente a marimbar para uma querela intestina, estilo bizantino, entre Alvalade, as redacções e os “índios” das redes sociais. Deixa-se à reflexão…

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Distracções


odiplomata,

O mundo de hoje é mesmo assim, tão cedo as pessoas e as redes sociais se revoltam e se indignam com uma tragédia, como, rapidamente, a esquecem e as suas atenções se desviam para um outro assunto. O jornalismo histriónico, munido de comentadores e analistas pouco atentos, alimenta estas dinâmicas ilusórias, e os governantes (quase todos) vão navegando na espuma dos dias. Se, algures, uma injustiça é revelada ao mundo, surgem de imediato as vozes de indignação, os movimentos de sensibilização, as frentes comuns de “batalha” (parece que agora se está a formar um frente “anti-fascista, signifique lá o que isso significar). O problema é que este “despertar” súbito da sociedade para os problemas, não deixando de ser louvável, é efémero e, muitas vezes, contraproducente, porque aborda as questões pelo seu pior ângulo: o imediato e, muitas vezes, o demagógico.

 

Os dramas de natureza política e social, ao contrário das catástrofes naturais, normalmente, não surgem de rompante nem de surpresa. Há sinais, indícios, que podem perspectivar determinados acontecimentos. É claro que para os identificar e interpretar é preciso tempo, conhecimento, dedicação profissional e, sobretudo, interesse. Admite-se que esse não seja o papel dos cidadãos comuns, que têm os seus empregos e actividades no quotidiano profissional e social, dando, assim, o seu contributo à comunidade. Para as pessoas, enquanto massa (sociologicamente falando) integrada numa democracia, está reservado o derradeiro papel: o voto. Essa leitura atempada e atenta deveria ser feita pelos “observadores” e actores dos respectivos sistemas políticos, por forma a produzirem-se decisões que pudessem, se não evitar, pelo menos atenuar o impacto de alguns dos dramas que acabam por irromper mais tarde.

 

É extraordinário constatar como, desde há poucos dias, se fazem ouvir as vozes revoltosas de comentadores, analistas, políticos e activistas, como se tivessem “acordado” agora para um tema, tema esse que se tivesse contado com este mesmo empenho há mais de um ano, provavelmente, mais de duas mil crianças não tinham sido separadas dos seus pais migrantes ilegais vindos do México em direcção aos Estados Unidos. Mas poderá o leitor perguntar, como é que isso seria possível, se só há cerca de dois meses se começou a concretizar esta política promovida pelas autoridades americanas. A questão é totalmente pertinente, no entanto, lá está, os tais sinais já existiam há mais de um ano. E nem se pode dizer que eram indícios ténues. Nada disso.

 

A 3 de Março de 2017, ou seja, há mais de um ano, a MSNBC avançava com um exclusivo que dizia: “Trump admin. plans expanded immigrant detention”. O que vinha nessa notícia era absolutamente assustador, porque ia muito para além de meras declarações estapafúrdias do Presidente Trump. Pelo contrário, essa notícia não trazia qualquer declaração do Presidente, demonstrava, isso sim, uma sistematização daquilo que poderia vir a ser o novo modelo de tratamento dos migrantes ilegais com filhos vindos do México.

 

Lia-se: “In a town hall with Department of Homeland Security staffers last month, Asylum Division Chief John Lafferty said DHS had already located 20,000 beds for the indefinite detention of those seeking asylum, according to notes from the meeting obtained by All In. This would represent a nearly 500% increase from current capacity.

The plan is part of a new set of policies for those apprehended at the border that would make good on President Trump’s campaign promise to end the practice critics call ‘catch and release’. 

‘If implemented, this expansion in immigration detention would be the fastest and largest in our country’s history’, says Andrew Free, an immigration lawyer in Nashville who represents clients applying for asylum. ‘And my worry is it’ll be permanent. Once those beds are in place they’ll never go away.’

[…]

Under the plan under consideration, DHS would break from the current policy keeping families together. Instead, it would separate women and children after they’ve been detained – leaving mothers to choose between returning to their country of origin with their children, or being separated from their children while staying in detention to pursue their asylum claim.”

 

Sublinhe-se. Este exclusivo foi avançado a 3 de Março de 2017 pela MSNBC, que ainda há dias voltou a relembrar o tema. Curiosamente, das muitas vozes agora indignadas, que estão “avalizadas” para comentar nos jornais e televisões e para decidir nos gabinetes, não se ouviu ao longo deste mais de um ano qualquer comentário ou acção concreta sobre este assunto. Tinham palco e condições para o fazer. Se não o fizeram não foi, supostamente, por falta de boa vontade, foi, simplesmente, porque, mais uma vez, estavam distraídos. Se tivessem estado um pouco mais atentos, talvez se pudesse ter evitado o choro e sofrimento de mais de duas mil crianças. Infelizmente, este é apenas um de muitos outros tristes exemplos.

Todos devem apoiar Trump


odiplomata,

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No sistema internacional, por vezes, as relações pessoais entre líderes contam muito/Foto: Evan Vucci/AP 

 

Por mais que custe a admitir aos opositores e detractores de Donald Trump, e independentemente do parco conteúdo da declaração conjunta da cimeira de Singapura e do inexistente “road map” a ser seguido nos próximos tempos, ao fim de várias décadas de gelo diplomático entre os EUA e a Coreia do Norte, seria sempre preferível ter um encontro amigável de alto nível, mesmo que inócuo, do que não ter nada e manter-se o clima instável e volátil que se vinha sentindo nos últimos meses entre Washington e Pyongyang. A guerra de palavras entre Trump e Jong-un tinha escalado para níveis nunca dantes vistos nas relações internacionais entre dois chefes de Estado, mas o problema maior tinha a ver com o processo nuclear norte-coreano que, apesar de tudo, foi fazendo o seu caminho, com testes atrás de testes e lançamentos atrás de lançamentos. Se a Coreia do Norte continuasse a seguir este caminho, seria muito provável que viesse a conseguir dotar-se de uma capacidade plena e eficaz nuclear, quer ao nível dos seus vectores de lançamento, quer na miniaturização das respectivas ogivas. Até ao momento, daquilo que se foi sabendo, ainda havia muito trabalho a fazer, mas algum dia esse percurso teria que ser travado… diplomática ou militarmente. Sendo a capacidade nuclear um factor de poder enormíssimo na hierarquia dos Estados no sistema internacional, uma coisa é Washington negociar com Pyongyang nesta fase, outra coisa seria um líder americano sentar-se à mesa com o seu homólogo norte-coreano numa altura em que este país já fizesse parte do exclusivo “clube” das potências nucleares. Aqui, as condições de negociação seriam certamente outras.

 

Trump deslocou-se a Singapura numa altura em que a Coreia do Norte ainda está longe de ser reconhecida como uma potência nuclear, com capacidade para militarizar a tecnologia até agora desenvolvida. Ainda não alcançou o estatuto de países como a Índia, o Paquistão ou Israel. Mas para lá caminha(va). Mais, Trump foi até Singapura com a certeza de que a Coreia do Norte está desesperadamente à procura de recursos financeiros (e outros) para colmatar a “falência” daquele país. Tudo na Coreia do Norte é uma ficção, uma ilusão, excepto a crise humanitária que aflige milhares de pessoas em proporções que, na verdade, não são verdadeiramente conhecidas.

 

Além disso (e isto em política internacional é muito importante), nota-se uma ânsia de diálogo e abertura por parte do líder Kim Jong-un. Não quer dizer necessariamente que seja uma vontade de suavizar o regime ou de “abrir” a sociedade, mas, para quem tem acompanhado com alguma atenção o percurso deste jovem líder, constata que há em si um ímpeto para ir além-fronteiras e estabelecer pontes com outros países e governantes. Às vezes quase que parece uma criança num loja de chocolates quando se confronta com a novidade. Parecem pormenores, mas, num regime unipessoal como é o da Coreia do Norte, estas matérias de personalidade podem fazer toda a diferença nos desígnios de uma nação.

 

Trump poderá estar certo quando diz que sentiu da parte do seu interlocutor vontade genuína para negociar. Resta saber o que será negociado e em que condições. Para já, pouco se sabe, mas presume-se, caso a cimeira tenha sido bem conduzida os seus protagonistas bem assessorados, que tenham sido estabelecidas as metas, os grandes objectivos políticos a serem alcançados. É para isso que servem estes encontros. Depois a forma de como lá se chega, concessão aqui, concessão ali, é um trabalho de bastidores, de muita paciência e, sobretudo, confiança entre as partes.

 

Se for verdade aquilo que Trump tem anunciado nestas últimas horas, então o mundo deve congratular-se pelo facto de aqueles dois líderes terem definido a “desnuclearização da Península da Coreia” como o principal objectivo. Provavelmente, os EUA terão que pagar um preço muito elevado como contrapartida, mas, a médio e a longo prazo, quem sabe se Washington não terá na Coreia do Norte um gigantesco receptor de ajuda financeira, à semelhança do Egipto e da Jordânia, países que, apesar das suas diferenças religiosas, culturais e políticas, se mantiveram sempre como preciosos aliados da Casa Branca.

 

Para já, e por mais disparates e erros que Trump tenha feito nos últimos meses e ódios que suscite, este esforço diplomático merece ser reconhecido e é por isso que ainda esta semana o insuspeito Nicholas Kristof escrevia que os democratas no Congresso não deveriam adoptar a mesma atitude dos republicanos e criticar por criticar a iniciativa do Presidente americano. Porque, neste momento, é do interesse de todos que esta jogada arrojada de Donald Trump se revele certeira.

A leviandade jornalística


odiplomata,

Lia-se esta Quinta-feira um título no Observador que dizia o seguinte: “Militares portugueses acusados de ‘crimes contra a humanidade’ na República Centro Africana.” Uma informação destas, pela sua gravidade, levou-me a ler a notícia de imediato e, curiosamente, constatei que, afinal, aquele título, além de enganador, é pouco condizente com o que está, efectivamente, escrito no texto. Por um lado, ainda bem, já que mantém intacta a reputação de elevado profissionalismo que os militares portugueses têm demonstrado nas várias missões internacionais que têm desempenhado, seja sob a badge da ONU, da NATO ou da UE. Por outro lado, não percebo a razão que levou o jornalista a optar por um título que, de certa maneira, está muito pouco (ou nada) “defendido” e que poderia afectar, injustamente, a reputação daqueles soldados ao serviço da MINUSCA, e que não reflecte o espírito daquilo que a notícia objectivamente diz. Além disso, ao enfatizar em título “crimes contra a humanidade”, está-se a empolar um dos mais hediondos crimes que pode ser praticado por um ser humano.

 

Mais à frente no texto percebe-se de onde vem o “crimes contra humanidade”. Vou limitar-me a transcrever a passagem, porque vale a pena perceber a “credibilidade” (ou falta dela) da “fonte” e a leviandade com que se propagam estas coisas: “Nas imagens postas a circular nas redes sociais são visíveis largas centenas de pessoas (os testemunhos diretos falam em 20 mil) que participam numa marcha, algumas das quais empunhando bandeiras da RCA e de França. À frente do cortejo, numa faixa branca, lê-se: 10 de abril de 2018 no PK5 (Bangui) e 30 de maio de 2018 em Bambari, os contingentes ruandês e português da MINUSCA [a missão das Nações Unidas no país] cometeram graves crimes contra a humanidade”. Sim, o leitor leu bem. A “fonte” é o que está escrito numa faixa durante um cortejo de contestação de populares e daí parte-se, imprudentemente, para o título: “Militares portugueses acusados de ‘crimes contra a humanidade’ na República Centro Africana.”  

 

É verdade que no já longo histórico das missões militares internacionais, sobretudo aquelas sob comando da ONU, têm acontecido alguns episódios poucos dignos e, nalguns casos mesmo, de atrocidades e violações de direitos humanos. Por vezes, por acção, noutras situações, por omissão. Situações que têm afectado em particular a reputação da ONU e que o Secretário-Geral Antonio Guterres definiu como prioritárias no seu mandato. Perante isto, qualquer pessoa conhecedora minimamente do que tem sido as missões dos “capacetes azuis”, sejam elas de “ peace enforcement” ou de “peacekeaping”, terá sempre que admitir a possibilidade de existirem eventuais abusos no terreno por parte das forças internacionais estacionadas em determinado palco de operações.

 

Ora, a questão é que dificilmente se acredita que os militares portugueses possam ter cometido os crimes de que são acusados na tal “faixa” e replicados no título da notícia do Observador. Na verdade, e atendendo à complexidade do teatro de operações na República Centro Africana, e ao que se vai sabendo, a actuação das forças portugueses tem sido de enorme competência e profissionalismo, à semelhança, aliás, do que tem acontecido noutros palcos de conflito. Daquilo que se lê (e vê) na própria notícia do Observador, e também do conhecimento teórico que se tem daquele conflito e das dinâmicas vis da região, mais facilmente se acredita na manipulação e instrumentalização das populações indefesas, através da intimidação (prática muito comum nestes cenários) e da contestação artificial, servindo interesses de determinados grupos. As reacções oficiais do Estado-Maior General das Forças Armadas e da ONU vão nesse sentido.

 

É claro que este tipo de notícias remete-nos para uma outra questão que tem a ver com a “morte” da reportagem de guerra. Porque, na verdade, tendo em conta a presença de um contingente significativo de militares portugueses num palco tão complicado, como é a República Centro Africana, o que as redacções já deveriam ter feito há algum tempo era ter enviado jornalistas para o “terreno”, de modo a fazerem reportagem a sério, trabalho de investigação e apuramento de factos.

Resist


odiplomata,

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 Os miúdos do Centro Social Comunitário do Bairro da Flamenga com Roger Waters, depois de terem saído do palco, onde fizeram o coro da música Another Brick in The Wall/Foto: Alexandre Guerra

 

A grandiosidade artística só está ao alcance daqueles que a procuram. Quem cria, o verdadeiro artista, tem pela frente um caminho difícil até produzir a sua obra-prima. Quando lá chega, a uma espécie de Olimpo, tem duas opções: ou se acomoda, confortavelmente, no lugar que lhe é devido para a Eternidade, passando a fazer uma evocação constante de um passado glorioso; ou continua, incessantemente, a trabalhar em busca da perfeição, procurando fazer pontes entre as suas criações de outrora e um desejo ardente de intervenção na sociedade actual, metendo o seu talento ao serviço da arte, entretanto transfigurada em mensagem social e política. Nos dias que correm são poucos os artistas que têm essa dimensão gigante, de potenciar, de forma consistente e brilhante, a sua arte em prol da intervenção social e política.  

 

Se a música já foi uma arte privilegiada para essa intervenção, hoje em dia, os nomes da ribalta pouco mais são do que produtos descartáveis ou de consumo imediato, com pouca firmeza nos combates de causas. E os que os fazem, muitas das vezes limitam-se a ir atrás das tendências das redes sociais, com declarações ou posições pífias e inconsequentes, sem qualquer dimensão intelectual. Quanto aos “gigantes” do antigamente, aqueles que fizeram obras-primas, lá está, vão fazendo uma evocação do passado sempre espectacular, é certo, mas sem se comprometerem com grandes “causas” do presente. É apenas a arte pela arte que têm para oferecer (o que já é muito, note-se).

 

É por isso que quando somos confrontados com a monumentalidade de Roger Waters, sentimos o peso avassalador da sua música, encorpada não só pela perfeição sonora e cénica, mas pela dimensão intelectual e humana, que a catapulta para a tal dimensão social e política. Mais do que um concerto da tournée Us + Them, o que milhares de pessoas viram no Domingo à noite no Altice Arena (e esta Segunda) foi um “statement” político poderoso. Hoje, nenhum artista o consegue fazer da forma que Roger Waters o faz, já que poucos têm o talento e dimensão para tal.

 

Aos 74 anos, Roger Waters nunca deixou ficar para trás o que criou, fazendo sempre a evocação do passado, mas teve um talento imenso para adaptar as suas músicas à realidade que o rodeia, fazendo uma espécie de “colagem” com a mensagem social e política que quer passar. Muitas das suas músicas têm décadas, no entanto, tornaram-se nestes tempos conturbados armas poderosos de crítica à soberba e à arrogância dos “pigs” que controlam os desígnios do mundo. Waters demonstrou este Domingo que, apesar de todo o seu legado materializado nos Pink Floyd, mantém-se focado na perfeição das suas criações, cada vez mais inspiradas nas causas que merecem as suas energias e emoções. Porque, como diz Rogers Waters, num mundo com tantas injustiças e desigualdades, é importante que cada um pense pela sua própria cabeça, não ceda à mediocridade e resista com todas as suas forças e convicções àqueles que tentam impor um pensamento dominante. 

O (quase) silêncio da Fatah


odiplomata,

A Grande Marcha de Retorno esbarrou literalmente na vedação que delimita a Faixa de Gaza do território de Israel. Era uma iniciativa que estava condenada desde o início. A ideia de uma caminhada triunfal de milhares de palestinianos até Jerusalém não seria mais do que uma fantasia, uma tentativa de reabilitar as intifadas de anos anteriores, numa espécie de grito de revolta por parte de quase dois milhões de pessoas desesperadas, que há vários anos estão autenticamente presas num território com cerca de 40 quilómetros de cumprimento e 10 de largura, onde as condições de vida se degradaram para níveis miseráveis, reflectindo-se em indicadores sociais muito preocupantes.

 

É importante sublinhar que, hoje em dia, quando se fala na causa palestiniana e num futuro Estado palestiniano, na verdade, o que está em análise são duas realidades distintas. Não quer isto dizer que ambas não possam vir a coexistir sob um único Governo e estrutura política, mas, actualmente, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza são dois mundos substancialmente diferentes. E se isso já era evidente há uns anos ao nível social e religioso, sendo Gaza uma sociedade claramente mais conservadora do que a Cisjordânia, agora, em 2018, as diferenças são consideráveis no campo político-económico, sobretudo, por duas razões.  

 

A primeira razão tem a ver com a morte de Yasser Arafat, em 2004, e a consequente perda de influência da Fatah na Faixa de Gaza. Recordo de ter estado em várias casas de famílias palestinianas na Faixa de Gaza e, quase sempre, numa das divisões havia uma fotografia do histórico líder. Isto, numa altura em que a Fatah já tinha pouca influência naquele território, mas onde Arafat continuava a ser o elemento político unificador. Após o seu desaparecimento, o Hamas rapidamente ascendeu ao poder, ao mesmo tempo que reforçava a sua presença na gestão dos serviços públicos e no apoio social. Ora, com a Cisjordânia historicamente dominada pela Fatah e a Faixa de Gaza nas mãos do Hamas, criou-se uma dualidade política que resultou em duas estruturas de poder diferentes e, por vezes, competitivas naquilo que é a luta pela liderança da causa palestiniana.

 

A outra razão está directamente relacionada com o bloqueio imposto por Israel que, basicamente, já vem dos tempos da intifada de al-Aqsa (2000-2005). Por esta altura, estive por duas vezes naquelas paragens e já então os palestinianos da Cisjordânia não podiam ir visitar os seus familiares à Faixa de Gaza e vice-versa. Era assim e assim continuou. E na altura cheguei a perguntar a muitos palestinianos como eram os tempos anteriores à intifada de al-Aqsa e todos me disseram que nem na primeira intifada (a chamada “revolta das pedras” entre 1987 e 1991) Israel tinha imposto tantas restrições de movimentos. Pois bem, os anos passaram e esse estrangulamento foi-se intensificando na Faixa de Gaza, com a agravante dos bombardeamentos israelitas em 2014 sobre aquele enclave, destruindo, ainda mais, muitas das suas infraestruturas públicas e de saneamento. Ao mesmo tempo, sem aeroporto e porto, e com as fronteiras encerradas com Israel (restando apenas a fronteira de Rafah Crossing com o Egipto, mas que muitas vezes está fechada), a débil economia da Faixa de Gaza foi-se degradando, empurrando a população palestiniana para um caos humanitário.

 

Na Cisjordânia, apesar das dificuldades existentes, tudo é diferente. Há uma estrutura de poder minimamente estável, os serviços públicos funcionam, existe uma economia, as universidades fervilham de actividade, os restaurantes e café estão abertos nas várias cidades palestinianas, digamos que há uma certa dinâmica de sociedade. Além disso, a circulação entre a Cisjordânia e Israel, através de vários postos de controlo ao longo da fronteira, é muito mais facilitada.

 

Este enquadramento talvez seja importante para se perceber a passividade com que a Fatah e os palestinianos na Cisjordânia estão a encarar esta sublevação. Na verdade, dos relatos que chegam da Cisjordânia, registam-se apenas alguns confrontos em Hebron e Nablus, mas pouco significativos e nada comparáveis aos protestos de Gaza. Tudo indicia que a Fatah não está interessada em promover uma nova intifada. A única declaração que se encontra é esta, algo inócua, na qual se apela ao mundo muçulmano para proteger Jerusalém. Ainda esta manhã, a BBC News passava imagens em directo da rotunda Al Manara, em Ramallah, onde, normalmente, se concentram manifestações, e o ambiente era estranhamento calmo para aquilo que costuma ser em momentos de contestação e que eu, pessoalmente, lá vivi em diversas ocasiões.

 

A questão é saber se neste momento interessa à Autoridade Palestiniana e à Fatah abraçarem a causa dos seus “irmãos” da Faixa de Gaza, sabendo de antemão que qualquer acto mais agressivo contra Israel terá consequências dramáticas na Cisjordânia, em cidades como Ramalhah, Belém, Hebron ou Nablus. Do que se vai percebendo, a Fatah e o poder instalado em Ramalhah não parecem estar dispostos a sacrificarem a sua condição para dar força a uma terceira intifada. Para já, os palestinianos na Faixa de Faza estão entregues à sua sorte, como aliás, tem acontecido há quase 20 anos.   

Gibson, uma parte da América que faliu


odiplomata,

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Donald Trump observa várias Gibson expostas na Casa Branca durante o evento “Made in America”, realizado em Julho do ano passado e que juntou 50 marcas emblemáticas americanas

 

Quando um jovem decide ser guitarrista, quando acalenta o sonho de um dia poder desferir uns valentes acordes e solos em cima de um palco, creio que, inspirado pelos seus ídolos, há uma decisão que toma de forma quase involuntária, que tem a ver com o estilo que vai assumir: se vai ser um guitarrista Gibson ou um guitarrista Fender. É certo que esta divisão é bastante redutora, atendendo às muitas marcas de guitarras (algumas históricas), no entanto, parte da sonoridade da história do rock da segunda metade do século XX assenta, precisamente, na diferenciação vincada entre aquelas duas marcas. Na diferença dos estilos das guitarras, nos seus braços, nas suas formas, nas suas afinações, nos seus pickups, no seu som…

 

Qualquer guitarrista, profissional ou amador, qualquer entusiasta de música perceberá de imediato o que é o som Gibson e o som Fender. Mesmo as pessoas que gostam de música, mas não nutrem aquela verdadeira paixão, quase de certeza que perceberão as diferenças do som da Gibson Les Paul de Jimmy Page e da Fender Stratocaster de Eric Clapton, da Les Paul de Gary Moore e da Strato de Jimi Hendrix, da Gibson “Lucille” de BB King (adaptação da ES-355) e da Fender Telecaster de Stevie Ray Vaughan, da Les Paul de Slash e da Strato de John Frusciante.

 

A Gibson e a Fender representam, de certa maneira, uma parte do espírito americano. Tal como a Harley Davidson, a Coca Cola, o Jack Daniels, a Levi’s ou a Ford, são um elemento da consciência colectiva da cultura popular dos Estados Unidos e que deu o contributo para a América exportar o seu “soft power” como potência global. Por isso, é também uma parte da alma americana que se perde, quando a Gibson anunciou esta quarta-feira que accionou o mecanismo de protecção de credores, o tristemente célebre “Chapter 11”, reconhecendo a falência perante uma dívida brutal que pode ir até aos 500 milhões dólares. Este desfecho já era expectável e resulta, em parte, de três factores.

 

O primeiro tem a ver com os inúmeros erros de gestão, sendo que um deles prende-se com as más estratégias de investimento e diversificação de negócio, levando a Gibson a descurar o seu “core business” e a dedicar-se a outras áreas que, definitivamente, não correram bem. O segundo factor, que não será propriamente um erro, resulta, paradoxalmente, de a Gibson ser uma marca ainda cem por cento americana, significando, isso, que as guitarras têm elevados custos de fabrico. São construídas à mão nos Estados Unidos, com as melhores madeiras e materiais, indo para o mercado a preços absurdos, praticamente inacessíveis para a maioria dos guitarristas, não apenas os amadores ou aspirantes, mas também os profissionais. Uma questão que se torna ainda mais evidente quando a também histórica Epiphone, detida pela Gibson, além das guitarras originais, fabrica excelentes réplicas devidamente validadas pela “casa mãe”, a preços muito mais competitivos que, em muitos casos, podem ser 10 vezes menos.

 

Veja-se, por exemplo, o caso de uma guitarra acústica que adquiri no ano passado, a Epiphone EJ-200SCE. Neste momento, pode ser comprada a 450 euros, apresentando uma construção sólida, com madeira standard para este tipo de instrumento, equipada com pickups tecnologicamente avançados e acabamentos cuidados. Nos sites da especialidade, as “reviews” são muito favoráveis. Esta guitarra começou a ser produzida pela Epiphone recentemente e recuperou a “King of the Flat Tops”, o famoso modelo J-300 introduzido pela Gibson em 1937. Vários sites no Youtube comparam as duas guitarras e num deles, que representa uma importante loja especializada americana, os dois guitarristas chegam ao ponto de brincar com a situação. E porquê? Porque, atendendo às (poucas) diferenças de som entre as duas guitarras, se eu quiser comprar a Gibson J-300 terei que desembolsar mais de 3000 euros!!! É óbvio que existem diferenças entre as guitarras, e que qualquer guitarrista prefere ter uma Gibson a uma Epiphone, porém, a diferença de preços é de tal forma abismal que chega a ser ridícula. Perante este cenário, e sem qualquer mudança na estratégia da Gibson, era previsível que um dia viesse a perder capacidade competitiva, dado ser incomportável para um guitarrista adquirir umas das suas icónicas guitarras. É certo que, segundo a Gibson, as vendas de guitarras (provavelmente à custa da Epiphone e não da Gibson) mantêm-se estáveis, no entanto, essa dinâmica dificilmente chegará para revitalizar a marca.

 

A tudo isto junta-se um terceiro factor, mais abrangente e sociológico, e que reflecte as tendências culturais dos últimos anos, nas quais a evolução dos gostos musicais e da criação da própria música transitou para o digital. Os instrumentos clássicos tendem a dar lugar a caixas de ritmo, sintetizadores, pedais, “samplers”, mesas de mistura, a programação em computador, entre outras formas electrónicas de gerar sons e ritmos. A formação clássica de banda é coisa cada vez mais “old school” e o consumo de instrumentos tradicionais tende a ser menos atractivo junto das gerações mais novas de músicos ou aprendizes. A Gibson acabou por ser vítima dessa transformação e a determinada altura dedicou-se ao negócio de componentes electrónicos e digitais, na tentativa de responder às novas tendências, desvirtuando a sua essência, quando o que devia ter feito era focar-se naquilo que a tornou famosa e tentar fabricar guitarras a preços mais competitivos. Não é por isso de estranhar que, no comunicado de imprensa enviado esta quarta-feira, a Gibson informe que pretende alienar as áreas de negócio mais recentes e volte a focar-se nas guitarras. Diz ainda que depois do processo de revitalização, espera que os mais jovens possam ficar a conhecer aquilo que torna tão único o som de uma Gibson. A questão, como bem colocava a revista Rolling Stone, é saber se essas novas gerações estão predispostas a aprender a tocar guitarra. Esperemos que sim e que a Gibson continue “Made in USA” durante muitos e bons anos. De preferência a preços mais acessíveis.

O drama de Alfie transformado numa questão fracturante


odiplomata,

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James Evans, pai de Alfie, recebido pelo Papa Francisco no Vaticano/Foto:Alfies Army/Facebook

 

Alfie Evans não chegou a completar dois anos de vida. Morreu no Sábado de manhã no Hospital pediátrico de Alder Hey, em Liverpool, não conseguindo resistir mais a uma doença degenerativa rara no cérebro, que o tinha condenado a um estado semi-vegetativo. Alfie esteve cerca de um ano nesta condição, ligado a uma máquina de suporte vital, sem qualquer sinal de recuperação. Pelo contrário, os vários exames mostraram que quase todo o cérebro do bebé estava destruído. Para os médicos, nenhum tratamento existente poderia reverter o estado de Alfie e assegurar-lhe uma vida minimamente digna. Por isso, tomaram a difícil decisão de desligar a máquina de suporte vital. Mas o amor imenso dos pais pelo filho sobrepôs-se a qualquer evidência científica, com a esperança a imperar sobre a racionalidade. Dificilmente para um pai ou para uma mãe, poderia ser de outra maneira. E embora a lei inglesa dê aos pais o direito de procurarem o melhor tratamento para os seus filhos, não se trata de um princípio absoluto, visto que se uma entidade pública considerar que essa decisão possa implicar riscos significativos para a criança, então esse mesmo direito parental pode ser contestado.

 

E foi isso que aconteceu a 20 de Fevereiro quando o “High Court” deu razão ao hospital e reconheceu as provas médicas que foram apresentadas, ou seja, de que o pequeno Alfie não tinha salvação e que a ligação à máquina representava um prolongamento artificial da vida, com dor e sofrimento. Os pais do bebé acabaram por recorrer aos tribunais, incluindo o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, e é partir deste momento que a tragédia do pequeno Alfie começa a assumir contornos fracturantes no seio da sociedade inglesa.

 

No passado dia 23, depois de os pais terem perdido todos os recursos que interpuseram, os médicos desligaram a máquina de suporte vital. Desde então, o debate intensificou-se, com o Papa Francisco e o Estado italiano a prontificarem-se para receber a criança, defendendo que os pais estavam no direito de procurar novos tratamentos para o Alfie. As autoridades inglesas recusaram a possibilidade do bebé viajar para fora do país, apesar das insistentes diligências feitas pelo chefe do Vaticano.

 

Naturalmente, o lado humanista de Francisco impeliu-o a tomar uma posição sobre este assunto, a envolver-se, a sensibilizar-se, mas enquanto chefe da Igreja Católica teve que, obrigatoriamente, assumir este “combate”, perante o primado da ciência e da lei sobre aquilo que, para um crente, pode ser considerado um acto de fé, o de depositar o destino da vida de uma pessoa nas mãos de Deus. Aliás, Francisco, em jeito de aviso, enunciou um princípio conservador e imutável desde a fundação da Igreja: só Deus pode criar e tirar vida. E nas alas mais conservadoras, do outro lado do Atlântico, Newt Gingrich, num artigo na Fox News (onde podia ser mais?) não perdeu tempo ao afirmar que o pequeno Alfie foi “condenado à morte” pelo “assustador Estado britânico secular”. Neste texto particularmente agressivo, Gingrich, uma voz sempre activa em matérias fracturantes nos EUA, volta a lembrar que por causa das correntes progressistas que instituíram governos seculares de esquerda, os “our God-given rights” estão a dar lugar a “direitos” contratualmente estabelecidos com governos tiranos. Embora seja radical no tom, a verdade é que a posição de Gingrich não é (nem podia ser) muito diferente daquela que Francisco e a Igreja adoptaram no âmbito da problemática em torno do drama de Alfie Evans.

 

As questões fracturantes, por norma, tendem a polarizar-se em campos extremos, sendo que é possível encontrar argumentos válidos (ou pelo menos compreensíveis) em ambos os lados do debate. É assim há séculos: progressistas vs conservadores, ciência vs religião, lei vs fé, paixão vs razão… Seja como for, a convivência em sociedade vai-se fazendo através de cedências e negociações, mas não nas questões fracturantes. Para quem as vive e as sente, não há meios-termos, não há compromissos possíveis. Consoante o lado em que se está, há o certo ou o errado, há o moral ou o imoral, há o aceitável ou o inaceitável, há o preto ou o branco… Estes temas assumem contornos dramáticos e emocionais, onde há um vencedor e um perdedor, porque, de certa maneira, reflectem formas de estar em sociedade, das quais as pessoas não podem nem querem abdicar. E quando se trata de legislar sobre as mesmas, muitas das vezes é dada liberdade de voto aos legisladores, sob o argumento de se tratarem matérias de “consciência” individual. 

 

Se partirmos de um modelo de análise em que admitimos que, para as correntes mais conservadoras, a política faz-se sob o primado dos valores, da ética e da moral, e para as áreas mais progressistas, o fenómeno é visto sob a perspectiva positivista e científica – aceitando-se o primado da técnica e da razão –, então é possível enquadrar e antecipar determinados debates. Problemáticas, essas, que na Europa nem sempre são tão inflamadas como nos EUA, mas mesmo assim são fracturantes e criam rupturas. Veja-se, por exemplo, em Portugal, onde nos últimos tempos, temas como a eutanásia ou as “barrigas de aluguer” vieram para o topo da agenda política e mediática. Aliás, se considerarmos o pressuposto acima enunciado, é possível prever, com algum grau de certeza, a tendência de voto de alguns dos legisladores quando o assunto da eutanásia descer ao Parlamento. É também muito provável que, à medida que o dia da votação se aproxime, as diferentes correntes na sociedade façam ouvir a sua voz e se manifestem de forma emocional em diferentes campos.

 

O drama do pequeno Alfie Evans, e todo o debate intenso que suscitou, demonstra que as chamadas questões fracturantes continuam a despertar as convicções mais primárias que existem em cada um de nós, enquanto seres sociais, e que, apesar de uma certa uniformização comportamental nas sociedades ocidentais, há matérias que, pela sua natureza específica, enfatizam apaixonadamente as diferenças dos vários modelos de pensamento.

25 de Abril, a reflexão


odiplomata,

Desde que me lembro das comemorações do 25 de Abril, pouco mais tenho retido na memória do que discursos e proclamações na Assembleia da República e a tradicional descida na Avenida da Liberdade liderada pelo PCP. E há ainda o cravo, esse símbolo luminoso… Seja como for, não vejo em nada disto qualquer problema, nem um suposto “esquecimento” da História, porque as efemérides servem para isso mesmo, para momentos solenes, muitos dos quais perante a indiferença quase total do Povo, sobretudo à medida que o tempo vai passando sobre o acontecimento.

 

Caberá, pois, a cada um de nós celebrar esta data à sua maneira, reinterpretando aquilo ficou conhecido como os “ideais de Abril”. Nesse exercício introspectivo, devemos relembrar aqueles que, num dado momento da nossa História, se sacrificaram e arriscaram em prol de um ideal maior. Com humildade e espírito combativo, desafiaram um regime instalado e corporativo. Cada um deles lá tinha as suas convicções, porque, nestas coisas das revoluções, nunca há gente desprovida de interesses ideológicos. Mas, focados num bem maior, esses soldados levaram a sua revolução por diante.


Hoje, quarenta e quatro anos volvidos, arriscar-me-ia a dizer que se cada português reflectir sobre aqueles que deviam ser os guardiões do regime, facilmente chegará à conclusão de que a Política deixou de ter actores dignos, a senhora Justiça prostituiu-se a quem lhe dá mais e o Jornalismo definha para o pântano. 
São três pilares fundamentais para qualquer democracia saudável e que neste momento estão frágeis, em grande parte por culpa própria dos seus actores, nos quais não se vislumbra nem humildade, nem espírito combativo, apenas interesses egoístas.

O inimigo da literatura


odiplomata,

Mario Vargas Llosa escreveu há umas semanas, na coluna que assina regularmente no El País, um texto que, sem ser um rasgo de brilhantismo literário, é um statement arrojado e corajoso nos dias que correm, desafiando os cânones de um certo fanatismo moral e ético instalado no pensamento mainstream destas novas sociedades. Sociedade, essas, que parecem ser cada vez mais assépticas nos seus comportamentos sociais e, consequentemente, mais limitadas nas liberdades da criação intelectual e artística. É quase como se estivéssemos perante as tais “nuevas inquisiciones” de que Vargas Llosa fala. As novas “fogueiras”, metamorfoseadas em headlines e redes sociais, para “queimar” aqueles que, na sua arte e intelecto, desafiam o status quo ou o pensamento predominante que é passiva e acriticamente aceite pela maioria (o muitas vezes chamado “politicamente correcto”). Llosa foca-se naquilo que vê como uma autêntica castração da liberdade literária, na qual esta é descontaminada das imoralidades, dos vícios, dos machismos, das perversidades, no fundo, desprovida daquilo que torna os homens pequenos, mesquinhos, vis, é certo, mas igualmente humanos e não meros seres utópicos.

 

Para Vargas Llosa, o “feminismo”, enquanto movimento radical (não todas as “feministas”, como ele próprio refere), é uma fonte destruidora da literatura. Percebe-se a sua ideia, porque a literatura, aquela que vale a pena ler e conforta a alma, tem que ser vista como um refúgio para, através da pena do criador, serem descritas, sem constrangimentos e amarras, todas as aventuras e ideais protagonizados por todos os homens, sejam os bons ou os maus, os virtuosos ou os iníquos, os valentes ou os cobardes, os inteligentes ou os ignorantes, os santos ou os pecadores, os justos ou os injustos… os feministas ou os machistas. A literatura, como qualquer forma de arte, deve ter espaço para contemplar o belo e o horrível, o perfeito e o imperfeito, o harmonioso e o chocante, o aceitável e o inaceitável, o moral e o imoral…

 

O princípio sustentado por Vargas Llosa, de que uma literatura, uma cultura, realmente creativas, “de alto nivel, tiene que tolerar en el campo de las ideas y las formas, disidencias, disonancias y excesos de toda índole”, é um bastião que deve ser preservado com todas as nossas convicções e forças. Não apenas por ser uma condição natural para a criação artística e intelectual, mas, sobretudo, por ser um direito humano inalienável, o da diferença de opinião, o de podermos expressar numa folha, numa tela ou numa pauta o que nos vai na alma, por mais chocante que seja para o próximo. Os tempos estão perigosos no campo das ideias verdadeiramente livres, porque há quem, muitas vezes subtilmente, as queira asfixiar ou condicionar, os mesmos que fazem novos Índex, os mesmos que tendem para o revisionismo com a sua “verdade” e “moral” absolutas. Os mesmos que não hesitarão em “queimar” os livros que repudiam, em vez de aprenderem com eles.  

Três questões vitais onde Israel nunca cederá


odiplomata,

O conflito israelo-palestiniano voltou a escalar nos últimos dias. Já morreram 16 pessoas e ficaram feridas quase trezentas. Tem sido assim nas últimas décadas, na verdade, desde a criação do Estado de Israel a 14 de Maio de 1948. Até aqui, nada de novo e muito menos de surpreendente. O que surpreende verdadeiramente é como que, ao fim destes anos todos, políticos e analistas internacionais ainda olham para isto com algum idealismo e não tenham percebido que há três questões vitais sobre as quais Israel nunca cederá, sabendo que no dia em que o fizer, é o dia em que sobrevivência do seu Estado fica em causa. Aqui fica uma explicação muito simplificada:

 

1.A primeira questão prende-se com o acesso à água doce, um recurso escasso naquela região do planeta e que Israel tratou de assegurar. O controlo israelita dos Montes Golã, mais do que a sua importância estratégica enquanto “zona tampão” com a Síria, é vital pelo facto daqueles aquíferos montanhosos alimentarem o Rio Jordão. Toda aquela zona é muito verde e propícia à agricultura. É importante notar que um terço da água consumida em Israel vem dali. Sobre este assunto, muito há para dizer, mas o importante é ter-se a noção de que Israel nunca abdicará de qualquer controlo sobre as fontes de água doce na Cisjordânia, exercendo uma espécie de “hidro-hegemonia”, impedindo que a Autoridade Palestiniana desenvolva infraestruturas de fornecimento de água, criando-se, assim, um regime discriminatório com efeitos perversos.

 

2.A segunda questão vital tem a ver com o estatuto de Jerusalém (na verdade, o problema coloca-se com a Cidade Velha de Jerusalém). Por mais pretensões (e razões) que os palestinianos possam ter, Israel nunca permitirá que a Cidade Velha de Jerusalém fique sob domínio palestiniano e se torne a capital do Estado Palestiniano. De pouco servem as pressões internacionais, o facto é que são as Forças de Segurança Israelitas (IDF) que controlam todas as entradas e saídas do lado oriental da cidade, assim como o acesso à Esplanada das Mesquitas dentro dos muros da histórica cidade. No que diz respeito à defesa do seu território e da sua capital, Israel já deu provas de lidar bastante bem com a anátema de ser uma potência ocupante. E apesar de existir uma certa opinião pública israelita que contesta a política de ocupação hebraica, pouca força tem quando se trata de mudar o curso da História

 

3. A terceira questão vital está directamente relacionada com o famoso direito de retorno de todos os palestinianos refugiados. Este estatuto tem origem na primeira guerra de 1948, sendo depois aplicado a todos os palestinianos que foram sendo obrigados a sair das suas casas e terras no seguimento da ocupação israelita dos territórios da Cisjordânia ao longo das décadas. Nas vésperas do 70º aniversário da criação do Estado de Israel, ou da Nakba (“catástrofe”), na perspectiva palestiniana, milhares de pessoas da Faixa de Gaza iniciaram a “Grande Marcha do Retorno”, uma marcha que marchou pouco, porque, para todos os efeitos, está parada em vários pontos da vedação fronteiriça que separa aquele enclave de Israel. Realisticamente falando, trata-se de um acto mais simbólico do que consequente, sendo que as únicas consequências se traduzem em mortos e feridos. Por mais apelos internacionais e campanhas de sensibilização, Israel nunca irá contemplar com aquele movimento e a marcha não sairá dali, nem hoje, nem nunca. Ou pelo menos, enquanto o Estado hebraico existir. Se, por um lado, os palestinianos reclamam por um direito histórico válido, a posição de Israel é compreensível, porque, a julgar pelos dados oficiais da UNRWA, devem haver mais de cinco milhões de refugiados espalhados pela Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Líbano, etc. Ora, a partir do momento em que Israel reconhecesse o “direito de retorno”, era o dia em que iniciava uma guerra que nunca iria ganhar: a da demografia.

 

Há uns anos, um ilustre académico palestiniano de Nablus, e que chegou a candidatar-se contra Yasser Arafat nas eleições presidenciais, dizia-me que o grande problema daquele líder histórico foi ter assinado os Acordos de Oslo, porque foram uma armadilha. Explicava-me esse professor e activista que aqueles acordos nunca contemplaram as matérias vitais acima referidas, essenciais para a criação de um verdadeiro Estado palestiniano independente. O problema é que comprometeram a Autoridade Palestiniana num acordo que definia um status quo favorável a Israel.

 

Na altura, achei que poderia seria uma análise algo exagerada, mas hoje não tenho qualquer dúvida de que Israel nunca formalizará um acordo onde tenha que ceder numa destas três questões. Quem acreditar nisso ou apelar a isso não estará seguramente a fazer um favor à paz. Aliás, é de uma ambição desmedida querer alcançar-se paz entre palestinianos e israelitas, quando aquilo que os líderes internacionais deveriam primeiro pensar era na conquista da estabilidade entre dois povos, dois estados, mas isso só se alcança com realismo e algum cinismo, porque, infelizmente, é assim nas relações internacionais e na História das nações.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata

A diplomacia do “vai-se andando”


odiplomata,

Portugal é o país do “vai-se andando”, do “assim-assim”. Pergunta-se a alguém como está e lá vem a invariável resposta: “Vai-se andando” ou “assim-assim”. O português, por natureza, não assume um estado de espírito polarizado, nem que está bem, nem que está mal. Prefere o conforto da zona intermédia, para não ter que gerir expectativas elevadas se estiver tudo bem, evitando, assim, as desilusões, e para não ter que assumir os malefícios se estiver tudo mal, fugindo, deste modo, às depressões. Não se veja nisto um defeito ou uma crítica, até porque esta posição contempla uma certa sabedoria e uma dose de realismo e moderação, ou seja, uma aceitação daquilo que é. Os portugueses, ou os “indígenas”, como diria Vasco Pulido Valente, viveram sempre num certo estádio de alheamento de outras realidades, mas a verdade é que parecem ter-se dado bem com isso, escapando às grandes tragédias da História.

 

Vendo bem as coisas, Portugal é assim há quase 900 anos, “vai andando” ao longo da História, gerindo os seus interesses, sem assumir posições dolorosas ou dramáticas, sem escolher campos ou causas. Quando se estuda a história político-diplomática portuguesa compreende-se a razão pela qual o nosso país foi conseguindo navegar nos conturbados tempos da História sem perder a sua independência e nacionalidade, conseguindo feitos admiráveis para um Estado desprovido do poder das armas. Um desses feitos passa precisamente pela capacidade que Portugal tem de levar os seus interesses por diante ou de resistir a ameaças de grandes potências quando foi confrontado com elas. Soube reagir a momentos de crise e resistir contra o inimigo dentro das suas fronteiras.

 

É um dos Estados-nação mais antigos do mundo, lançou a globalização, chegou a dividir o mundo em dois, construiu impérios, obteve riqueza, propagou uma língua global, criou laços emocionais com os povos colonizados como mais nenhuma antiga potência criou. Esteve sempre presente nos grandes concertos europeus e mesmo quando não alinhou claramente junto dos aliados na IIGM, conseguiu sair dessa guerra como um dos “vencedores”. Embora seja membro fundador da NATO, é visto como um país pacífico e um dos mais seguros do mundo. Apesar de participar em inúmeras missões militares contra o terrorismo, está fora do radar do fundamentalismo islâmico. Está totalmente integrado nos principais fóruns do sistema internacional e, às vezes, muitos esquecem que, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, Portugal está entre a elite dos 50 países mais desenvolvidos do mundo.

 

Nos últimos anos, conseguiu feitos absolutamente notáveis ao nível da sua diplomacia, projectando uma imagem externa muito para lá daquilo que é o seu efectivo poder. Promoveu cimeiras históricas, forjou tratados internacionais e até elegeu líderes internacionais. Portugal, neste seu pequeno canto, posiciona-se hoje novamente no topo do mundo. A poderosa Espanha vai olhando para Portugal com alguma inveja da nossa diplomacia. E tudo isto para dizer o quê? Simplesmente, para dizer que em matéria de política externa, a nossa diplomacia merece todo o crédito.

 

É verdade que Portugal não esteve no grupo da frente na resposta dada à Rússia na sequência do envenenamento de um espião duplo e da sua filha em território britânico. À primeira vista, pode ser considerada uma traição à aliança histórica com a Inglaterra, mas, a verdade, é que a diplomacia contém muito mais do que aquilo que é aparentemente público. Desconhece-se se houve conversas prévias entre Lisboa e Londres, desconhece-se qual o enquadramento para Portugal ter agido da forma que agiu. Mas mais importante, e apesar das suspeitas, ainda não foi revelada uma prova concreta que envolva directamente o Kremlin neste acto. Se houvesse, era muito provável que Londres a revelasse aos seus aliados. O que se sabe é que, num segundo momento, as Necessidades optaram por chamar o embaixador português a Lisboa para “consultas”. É um “instrumento” ao serviço da diplomacia e que tem o seu significado. Noutros tempos, aliás, esse era um gesto que podia ser visto como um prenúncio de declaração de guerra.

 

Muitos dirão que Portugal agiu tarde e que já tinha pouca margem para não fazer nada, mas o tempo dirá se a decisão de Lisboa foi acertada ou não. O que também já se percebeu, a julgar por algumas notícias, é o cinismo de algumas chancelarias, em que ao mesmo tempo que expulsam diplomatas cimentam as relações comerciais com Moscovo. Portugal, mais uma vez, optou por um registo “ponderado”, evitando assumir posições polarizadas. Foi alvo de críticas, mas convém não esquecer que ao longo da sua História, não se tem dado nada mal com essa estratégia.

O que se pode aprender com uma “porn star”


odiplomata,

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Não foi tanto pelos contornos políticos (e muito menos por outro tipo de contornos), foi sobretudo por interesse profissional na vertente comunicacional que vi com atenção a entrevista que Stormy Daniels deu a Anderson Cooper. Sempre gostei da forma como os americanos fazem estas coisas, porque parece que têm um talento inato para fazer informação em televisão, tanto os entrevistadores como os entrevistados. Não é por acaso que o 60 Minutes da CBS News está a celebrar meio século de existência (imagine-se) e ainda consegue proporcionar momentos de grande qualidade informativa e televisiva.

 

Analisando a entrevista, percebe-se como Stormy Daniels estava muitíssimo bem preparada para enfrentar aquele momento. Se eu tivesse que apostar, diria que há ali muito trabalho por trás, tudo é muito profissional. Não há hesitações, as respostas são curtas, assume o que fez, reconhece as suas fraquezas, tem ideias objectivas e claras. E mesmo perante perguntas mais escorregadias por parte de Anderson Cooper, não há silêncios comprometedores, mas sim declarações assertivas. É uma autêntica lição de media training dada por uma porn star. Quem diria… Por outro lado, na sociedade americana este tipo de fenómeno não é assim tão raro, em que a ascensão social é um “elevador” onde todos querem entrar, seja quem for, em que “andar for”. E quando a oportunidade surge, neste caso, quando uma porn star tem um slot para ascender ao estrelato mainstream, não o desperdiça.

 

Stormy Daniels chegou lá, tornou-se numa estrela pop e ela sabe-o bem. Não é a primeira actriz de “filmes para adultos” a fazer esta transfiguração. O caso mais conhecido é o de Jenna Jameson, que a partir de determinada altura da sua ascensão ao mundo pop, disse que “não voltaria a abrir as pernas” para ganhar a vida. A mesma Jenna Jameson que foi citada no final da entrevista, com Anderson Cooper a recuperar esta frase que ela disse recentemente em relação à situação de Daniels: “The left looks at her as a whore and just uses her to try to discredit the president. The right looks at her like a treacherous rat. It’s a lose-lose. Should’ve kept her trap shut.” É uma frase ácida, que poderia abalar a capacidade de resposta da visada, mas Stormy Daniels não hesitou e disse: “I think that she has a lotta wisdom in those words.”

 

Um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos, que foi New York Times Best Seller, foi precisamente a biografia de Jenna Jameson, que teve como co-autor, Neil Strauss, jornalista, escritor, ghost writer, e colunista da Rolling Stone e do New York Times. Neste livro, Strauss ajuda a contar a história de vida de Jameson que, de estela porn star passou a ícone da cultura pop norte-americana. O livro está longe de ser uma grandeza literária, mas tem o seu valor, por ser cru e pragmático, espelhando aquilo que a sociedade americana é. Se, por um lado, os preconceitos e o puritanismo fazem parte do quotidiano de uma certa América, por outro lado, aquela sociedade é de tal forma livre ao ponto de uma pessoa poder chegar ao topo, sendo aceite pelo sistema mainstream e não ser julgada pela sua “profissão” ou passado. De facto, o “céu é o limite” e o american dream é sempre possível, independentemente de onde se venha ou do que se tenha feito.

Uma semana (pouco) santa


odiplomata,

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Uma pintura de Giovanni Cariani (1490-1547) que retrata Verónica a ir de encontro a Jesus Cristo, quando este percorria a Via Dolorosa em direcção ao Calvário, para, com o seu véu, lhe limpar o sangue e suor do rosto, que ficou estampado no tecido. E assim terá ficado eternamente, tendo o “Véu de Verónica” tornado-se numa das mais famosas “relíquias” do Cristianismo.

 

Além do seu significado religioso, a Semana Santa representa um dos acontecimentos políticos e sociais mais importantes da Humanidade: a chegada em glória de Jesus Cristo, o “rei” dos judeus revoltosos contra o domínio de Roma, a Jerusalém. O motivo era a celebração da Páscoa judaica, mas os dias que se seguiram foram conturbados, de autênticas manobras políticas, conspirações e traições. No fim, a condenação e crucificação de Jesus Cristo, não sem antes sofrer na caminhada pela Via Dolorosa com a cruz às costas, perante uma sociedade instrumentalizada e instigada. O percurso final de Jesus Cristo para o Calvário, na altura situado numa colina fora da cidade velha de Jerusalém, começa no local onde Pilatos terá “lavado as mãos”, desresponsabilizando-se do destino do “rei” dos judeus. A partir daí, a Via Dolorosa vai atravessando parte da cidade velha de Jerusalém, uma experiência única e de um interesse admirável. Percorri-a algumas vezes, primeiro no Verão de 2001 e depois em 2002, anos marcados pela violência da intifada de al Aqsa (de Setembro de 2000 a 2005), que afastaram por completo os turistas da Cidade Santa. Se é verdade que esse facto provocou um enorme rombo no comércio local, por outro lado, proporcionou uma experiência rara, ao permitir a um estrangeiro andar pelas muralhas da cidade de Jerusalém apenas em convívio exclusivo com os (poucos) locais. É muito emocionante percorrer as várias estações que compõem a Via Dolorosa e que assinalam diferentes momentos bíblicos dessa caminhada de Jesus Cristo, realizada nesta altura do ano há cerca de 2000 anos. É um exercício interior e introspectivo, que nos confronta com o mal e sofrimento humano, mas também com a solidariedade e o amor do próximo. Para lá de qualquer leitura religiosa, pensando um pouco naqueles acontecimentos e na sociedade da altura, percebemos que são poucas as pessoas que vão em auxílio de Jesus Cristo. São sobretudo mulheres que O ajudam na sua caminhada em sofrimento. Maria, Verónica e depois as “mulheres de Jerusalém” choram pelo filho de Deus e acompanham-No com toda a sua compaixão ao Calvário. 

 

Dizem os Evangelhos que foram essas mesmas mulheres, as primeiras a dirigirem-se ao túmulo de Jesus Cristo e a constatarem que estava vazio. Os textos sagrados não são suficientemente claros quanto aos contornos específicos desse momento, se foi apenas uma “Maria”, provavelmente Maria Madalena, ou se outras “Marias”, mas uma coisa é certa: Pedro e João souberam da Ressurreição pela voz de uma dessas mulheres, a quem Jesus, coberto por vestes brancas, lhes terá dito para transmitir tão importante mensagem aos apóstolos. Mensagem essa que foi recebida com bastante relutância por parte de Pedro e João, porque não concebiam que um acontecimento desta magnitude lhes fosse transmitido por mulheres. Rapidamente se dirigem ao túmulo para serem confrontados com uma realidade que não conseguiram compreender.

 

No entanto, ao nível do poder político, parece ter havido uma compreensão imediata do potencial problema que representava o misterioso desaparecimento do corpo de Jesus Cristo. As autoridades judaicas quando souberam do fenómeno, através dos guardas do túmulo, mantiveram segredo em relação à versão original que lhes contaram e não perderam tempo a forjar uma teoria da conspiração para justificar o acontecimento, fazendo passar a mensagem de que os discípulos de Cristo tinham roubado o seu corpo durante a noite, no que poderia ser interpretado com um acto de fanatismo. Ironicamente, para os historiadores, esta posição da parte dos anciãos judeus, acabaria por ser a assunção de que o túmulo estava, efectivamente, vazio, dando força a uma das ideias centrais do Cristianismo: a Ressurreição. 

Tupac e Notorious


odiplomata,

Houve uma altura em que o hip hop era uma forma de afirmação de poder nas ruas de alguns bairros de Nova Iorque e de Los Angeles. Foi uma época onde se afirmaram grandes nomes, que mais tarde iriam inspirar tantos outros artistas. Em Nova Iorque, nos meados dos anos 80, aparecia na cena rap nomes como Run DMC, LL Cool J, The Beastie Boys ou Salt-n-Pepa. Mas, é no sul de Los Angeles, em Compton, casa dos gangues rivais Crips e Bloods, que, nos finais daquela década, se vê nascer o “gangsta rap”, por um grupo que iria ficar para a história, os N.W.A Os Niggaz Wit Attitudes tinham na sua formação, entre outros, o já falecido Eazy-E, o Dr. Dre e o Ice Cube.

 

A difícil conjuntura social que se vivia na altura e a vivência hostil da comunidade negra em particular naquela grande zona metropolitana, acabou por ser inspirador para a composição do primeiro e mítico álbum daqueles rappers, Straight Outta Compton (1988). Álbum agressivo, com uma letra e uma batida vindas directamente da violência das ruas e da opressão policial. Aliás, uma das músicas chama-se “Fuck tha Police”, uma expressão de protesto que viria a ser adoptada por muitos afro-americanos que se sentiam marginalizados pelas autoridades (desconheço se já antes algum músico a tinha utilizado, mas duvido. Mais tarde, os Rage Against The Machine fizeram uma versão mais heavy e tocaram-na inúmeras vezes ao vivo).

 

Os N.W.A e os seus artistas tornaram-se símbolos do grito de revolta de uma parte substancial da comunidade negra que vivia nas margens e à margem de Los Angeles. O grupo acabaria em 1991 por divergências pessoais e profissionais entre os membros da banda e o Dr. Dre viria a lançar o seu primeiro álbum a solo. The Chronic tornar-se-ia também numa referência do hip hop. É neste álbum que emerge outro nome: Snoop Doggy Dogg.

 

Este foi um período marcado pelos problemas de uma América negra marginalizada, em que famílias viviam em bairros degradados, num ambiente dominado pelas drogas, pela violência entre gangues e pela opressão policial (o culminar dessa tensão deu-se com os motins de 1992 em LA).

 

Poucos anos depois, o hip hop harcore começa a começa a suavizar, a resvalar para o r&b, com o surgimento de nomes como Puff Daddy (sobretudo dedicado à produção) e os gigantes Notorious BIG e Tupac Shakur, as principais referências dos anos 90, com a particularidade de cada um vir a representar as rivalidades entre as costas Leste e Oeste, Nova Iorque vs Los Angeles. Uma rivalidade que levaria à morte prematura de ambos, abatidos a tiro em circunstâncias ainda hoje pouco claras num espaço de poucos meses. Recordo bem a comoção que a morte daqueles dois artistas provocou nos Estados Unidos.

 

Embora tendo nascido no Harlem, Tupac mudou-se com os pais para a Califórnia e tornou-se na principal figura do rap da West Coast. Notorious nasceu em Brooklin e foi nas ruas daquele bairro que, no meio do tráfico de droga, encontrou a música. Com estilos diferentes, mas com um talento enorme e inspirados pelas suas vivências duras, são hoje tidos como dos maiores rappers de sempre.

 

Em tempos tinham sido amigos, mas um incidente em Nova Iorque acabou por distanciá-los e alimentar a desconfiança entre ambos. Tupac foi baleado e assaltado quando estava a ir ter com o Notorious e ficou sempre com a ideia de que este tinha estado por detrás do que aconteceu. Um sentimento que se adensou depois de Notorious ter lançado, apenas um mês depois, uma música chamada “Who Shot Ya?”, a qual Tupac interpretou com uma provocação. Notorious negou sempre essa leitura ou qualquer envolvimento nos acontecimentos, mas a resposta de Tupac não se fez esperar, com o célebre tema “Hit ’Em Up”, um “diss track”, visando directamente Notorious e a costa Leste.

 

Tudo isto acabou por confluir na rivalidade entre a West Coast e a East Coast, um conflito que foi enchendo páginas de jornais e noticiários. De um lado, Tupac e a Death Row Records, do outro, Notorious e a Bad Boy Records (de Puff Daddy). Tupac foi baleado em Las Vegas a 6 de Setembro de 1996, com 25 anos. Morreria seis dias mais tarde. Notorious, durante uma deslocação a Los Angeles, foi abatido a tiro quando estava dentro do seu carro, a 9 de Março de 1997. Tinha 24 anos. Foram tempos violentos, que acompanharam as dinâmicas das cidades de Los Angeles e Nova Iorque, mas foram também os dias de ouro do hip hop, quando este era um assunto de vida ou de morte e não apenas uma fonte de entretenimento ou de negócio.

Israel admite operação secreta sob o manto da “doutrina Begin”


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Um dos F-16 israelitas da Esquadra 253, momentos antes de levantar voo na noite de 5 de Setembro de 2007, com destino ao complexo de Al Kibar em Deir Ezzor na Síria/ Foto:IDF

 

Em relação ao programa nuclear iraniano, tive sempre a convicção de que estaria muito longe de representar qualquer ameaça imediata para a região do Médio Oriente. Mesmo quando este tema estava no topo da agenda das preocupações de Washington, poucas dúvidas tinha de que os esforços de Teerão se limitavam a pouco mais do que a instalação de centrifugadoras em cascata. Esta quase certeza não tinha como base qualquer fonte privilegiada de “intelligence” junto do regime dos ayatollahs, mas apenas um facto muito simples, embora revelador: se houvesse o menor indício de ameaça a curto ou a médio prazo por parte do Irão, os caças-bombardeiros israelitas não perderiam tempo na destruição de qualquer alvo suspeito. Porque, a partir do momento em que os serviços de “intelligence” israelitas reunissem informação que colocasse o Irão na iminência de alcançar a bomba atómica, Israel atacaria cirurgicamente as várias instalações nucleares iranianas, sem qualquer aviso prévio, incluindo a Washington, que só deveria ter conhecimento da operação quando aquela já estivesse em curso.

 

Este princípio tanto se aplica ao Irão como a qualquer outro país da região, nomeadamente a Síria e o Iraque. A Mossad está sempre atenta a tudo o que se passa à sua volta, tal como sempre esteve em relação aos programas nucleares da Síria e do Iraque, tendo no passado agido preventiva e militarmente contra estes dois países a partir do momento em que se sentiu, efectivamente, ameaçada. Esta Quarta-feira, como forma de aviso ao Irão, o Governo israelita admitiu uma dessas operações secretas, ocorrida em 2007.

 

Na noite de 5 para 6 de Setembro de 2007, o primeiro-ministro, Ehud Olmert, pôs em prática a “doutrina Begin”, através de uma operação que Israel sempre negou, até hoje. Recordo que há uns anos, o New Yorker explicava como Israel tinha bombardeado secretamente o suposto reactor nuclear de Al Kibar sem que ninguém desse por isso e o assumisse posteriormente. “O ataque resultou de uma operação da Mossad em Viena, em Março de 2007, na qual recolheu ‘intel’ na casa de Ibrahim Otham, o director da Comissão Síria de Energia Atómica. As provas recolhidas, incluindo fotos do local do reactor, eram conclusivas. Washington foi informado, mas o Presidente George W. Bush não ficou muito convencido. Olmert, por seu lado, tinha poucas dúvidas e a 5 de Setembro, pouco antes da meia-noite, quatro F-15 e quatro F-16 levantaram voo de bases israelitas com destino à Síria.  Através de mecanismos electrónicos, os israelitas “cegaram” o sistema de defesa anti-aéreo sírio, entre as 00:40 e as 00:53, o suficiente para entrarem no espaço aéreo do inimigo sem serem vistos e lançaram várias toneladas de bombas sobre o alvo. Hoje, cinco anos depois, ninguém fala no assunto ou o reconhece, seja Israel ou a Síria”. Escrevi isto em Outubro de 2012, no entanto, este assunto nunca mais foi referido. Hoje, Israel assumiu este ataque, com as IDF a revelaram alguns detalhes, e avisou que nunca permitirá que qualquer país da região obtenha armas nucleares.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata.  

Rússia, uma longa história de autoritarismo


odiplomata,

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Foto: Kremlin Press Service

 

A Rússia, já nos tempos da sua formação enquanto reino, sempre foi uma região muito especial no que à dinâmica entre governantes e governados dizia respeito. Para quem conhece e segue a história das lideranças russas, constatará uma tendência crónica para o autoritarismo (já para não falar em totalitarismo, nalguns períodos). É uma evidência histórica contra a qual nada há a fazer, apesar das ilusões que muitos ainda alimentam de que a democracia ocidental prevalecerá sobre todos os outros modelos de governação. Para já, pelo menos, isso não vai acontecer e o que se passou nalguns países assolados pela “Primavera Árabe” é um exemplo de que o anúncio da vitória da democracia liberal sobre todas as demais formas de Governo foi manifestamente exagerado. Ou seja, perante a oportunidade de opção, a democracia não tem sido suficientemente cativante para parte substancial dessas sociedades. Noutros países, é mesmo a maioria dos cidadãos que nem sequer considera os valores e princípios democráticos como algo essencial nas suas vidas. É como se fosse algo genético, a aceitação pelo povo de estilos mais autoritários dos seus governantes. A Rússia é, hoje, talvez o melhor exemplo dessa forma de estar. E ao contrário de países como a Coreia do Norte – ou até mesmo a Bielorrússia e a China –, no caso da Rússia já não se pode utilizar o argumento de que a população não tem acesso à informação independente ou que a liberdade de opinião está totalmente estrangulada – embora ao nível da crítica política esteja muito restrita, como têm sido exemplares nos últimos anos, alguns casos de pressão ou de perseguição política. 

 

Na Rússia, há claramente uma opção consciente por um estilo de governação e de liderança mais musculada. Os russos sempre aceitaram bem líderes autoritários, mas nunca foram particularmente entusiastas com governantes mais ocidentalizados, tais como Mikhail Gorbachev – por muitos russos, considerado um traidor – ou Boris Yeltsin – que por outros nunca foi levado muito a sério. A chegada de um homem como Vladimir Putin ao Kremlin foi vista pelos russos como o regresso dos gloriosos líderes dos tempos do império soviético. Hoje, quando a Rússia está diplomaticamente mais isolada, quando atravessa economicamente momentos muito complicados, quando tem milhares de soldados “plantados” nalguns conflitos fronteiriços (alguns “congelados”, outros mais “quentes”),Vladimir Putin consegue ter um nível de popularidade genuinamento alto. Mesmo admitindo que os resultados das eleições de Domingo possam estar inflacionados, Putin goza de um enorme apoio popular, como, aliás, sempre gozou. 

 

É importante notar que os russos nunca experimentaram outro tipo de regime e jamais se abriram aos seus vizinhos europeus. Esta vivência foi acumulando um pessimismo reinante, ensombrando qualquer perspectiva sobre o futuro da sociedade. Uma realidade que se tornou particularmente evidente nos anos de Boris Yeltsin, na ressaca da queda do império e na emergência de um clima de anarquia e caos. De um momento para o outro, os russos viam-se sem a tradicional liderança forte e absoluta, assistindo à deterioração do império e de toda a estrutura social sem compensações evidentes. Democracia e liberdade, tal como os ocidentais as entendem, são conceitos estranhos àquela sociedade. Há sensivelmente 13 anos, Richard Pipes, hoje com 94 anos, conceituado especialista da história russa e antigo director do departamento de assuntos soviéticos da Europa de Leste no Conselho de Segurança Nacional em 1981-82, escrevia um extraordinário artigo na “Foreign Affairs”, especificando o que de facto os russos queriam para a sua sociedade. Uma das ideias-chave defendidas pelo autor referia que os russos apoiavam o estilo “antiliberdade e antidemocrático” de Putin, sustentando, com estudos de opinião, que apenas um em cada dez russos se interessava por “liberdades democráticas e direitos civis”. Na verdade, estes e outros conceitos, como propriedade privada e justiça pública, nunca fizeram parte da tradição russa. Por exemplo, apenas cerca de um quarto da população russa considerava que a propriedade privada era importante como direito humano. Isto apenas há 13 anos, note-se.

 

Pipes sustentava as suas afirmações em estudos levados a cabo pelo All-Russian Center for Study of Public Opinion e pelo Institute of Complex Social Studies da Academia de Ciências Russa. De acordo com os dados obtidos na altura, 78 por cento dos russos considerava que a “democracia era uma fachada para um governo controlado pelos ricos e grupos poderosos”. Apenas 22 por cento expressava preferência pela democracia, contra os 53 por cento que se lhe opunham. Sobre os eventuais benefícios das eleições multipartidárias, 52 por cento dos russos considerava que estas eram prejudiciais, sendo apenas 15 por cento a percentagem de russos que as viam como positivas. Numa outra sondagem da mesma altura, do Centro de Estudos Sociológicos da Universidade de Moscovo, citada por Pipes, 82 por cento dos russos estavam convictos de que não tinham qualquer influência no Governo nacional, e 78 por cento acrescentava mesmo que não influenciava os desígnios do governo local. Mais interessante, mas pouco surpreendente, era a escolha feita entre “liberdade” e “ordem”. Oitenta e oito por cento dos inquiridos na província de Voronezh manifestaram preferência pela “ordem”. Apenas 11 por cento afirmaram não estar dispostos a abdicar das suas liberdades de expressão e de imprensa em troca de estabilidade. Na verdade, um outro estudo, conduzido no Inverno de 2003-04, pela Romir Monitoring, sustentava que 76 por cento dos russos eram favoráveis à reposição da censura nos “media”.

 

Estes números reflectiam uma avidez, por parte do povo russo, de autoritarismo governativo. Uma exigência apreendida pelos políticos que, segundo Pipes, se manifestou nas eleições para a Duma, em Dezembro de 2003, nas quais nenhum dos partidos mais votados utilizou, sequer por uma vez, a palavra “liberdade”. Um dos outros anseios do povo russo prendia-se com o poder da sua nação, sendo que 78 por cento insistia que a Rússia tinha de ser “uma grande potência”. A questão é saber se, 13 anos depois destas observações feitas por Pipes, a percepção do povo russo em relação aos seus líderes e ao modelo de governação se alterou? A julgar por aquilo que se vai vendo, lendo, e pelos vários estudos de opinião que se vão conhecendo, provavelmente, não terá mudado assim tanto. Trata-se de um território imenso que, desde o século XIX, tem tentado manter o estatuto de potência entre as potências. Na altura em que tentava expandir a sua presença sobre a Sublime Porta e os Balcãs, a Rússia era tida como “instável e intrometida” nos interesses que se jogavam no Velho Continente. Os líderes europeus olhavam-na com desconfiança, tentando ler à luz da “realpolitik” o comportamento de Moscovo, tal como hoje, os interlocutores de Putin, desprovidos de qualquer abordagem idealista, terão de compreender os intentos e as sensibilidades do homem forte do Kremlin. Já o famoso Metternich, chanceler do império austro-húngaro, dizia que “o problema posto pela Rússia não era tanto o de como conter a sua agressividade, mas o de como temperar as suas ambições”.

 

Texto adaptado de um artigo de opinião publicado no PÚBLICO a 7 de Março de 2015