Dar valor ao que se tem


odiplomata,

O Reino Unido está de saída da União Europeia e algumas vozes mais populistas, nomeadamente, da senhora Marine Le Pen, dessa autêntica “personagem” dos Países Baixos chamada Geert Wilders ou do menos conhecido Matteo Salvino, líder da Liga do Norte em Itália, vieram agitar também a bandeira do referendo. No seio do edifício europeu só se passou a falar no início do fim da União e na possível saída de mais países, como se a organização de que actualmente fazem parte fosse a fonte de todos os seus problemas e não lhes tivesse proporcionado prosperidade e desenvolvimento. Normalmente, como noutras situações da vida, só se dá valor às coisas quando ficamos sem elas ou quando não as temos e as queremos ter.

 

Muitos parecem esquecer ou desconhecer que o espaço geográfico da União Europeia é um dos mais desenvolvidos e pacíficos do mundo, onde, apesar de todas as imperfeições, impera a democracia e a justiça social. E se entre os (ainda) 28 haja quem olhe para a União Europeia como um projecto iníquo e perverso, outros países, que estão do lado de fora, vêem na Europa um farol de esperança e progresso. E por isso, numa altura em que uns falam em sair, há outros que aprofundam a sua ligação à UE. Hoje, por exemplo, entraram em vigor em toda a sua plenitude os Acordos de Associação com a Geórgia e com a Moldávia, que permitirão aproximar aqueles países às realidades económica, política, social e cultural da União Europeia. 

 

E já agora, também hoje se assinalaram cinco anos do Acordo de Livre Comércio entre a UE e a Coreia do Sul, que permitiu inverter uma situação de défice para excedente a favor do bloco europeu no que diz respeito à balança das trocas comerciais. Desde 2011 que as exportações europeias aumentaram 55 por cento para aquele país asiático, ao mesmo tempo que as empresas do Velho Continente pouparam 2,8, mil milhões de euros em impostos e taxas alfandegárias. O valor das trocas comerciais entre a UE e a Coreia do Sul atingiu em 2015 o valor recorde de 90 mil milhões de euros. 

 

Notícias como estas há muitas, a questão é que são daquelas notícias que não aparecem nos jornais nem nas televisões e muito menos fazem parte do discurso dos políticos e do racional dos jornalistas, analistas e comentadores que por aí andam. Muitos deles, na verdade, nem sequer sabem do que falam ou escrevem, limitando-se a reproduzir banalidades e distorções sobre o projecto europeu, aquilo que ele é e aquilo que ele representa. 

Algumas observações sobre o Brexit


odiplomata,

1. De sublinhar a elevada taxa de participação, a maior desde 1992 em votações nacionais. Segundo a YouGov, o erro das projecções e a vitória do “Leave” ficou-se a dever a uma taxa de participação acima do expectável em zonas partidárias da saída do Reino Unido da UE.

 

2. Uma das consequências mais importantes deste referendo vai fazer-se sentir dentro do próprio Reino Unido e não tanto com a União Europeia, e tem a ver com o “choque” geracional. Os resultados são claríssimos em termos de “gap” geracional em relação à distribuição de votos. Confirmou-se aquilo que já era expectável: os mais jovens, na sua grande maioria, votaram para ficar no Reino Unido, enquanto os mais velhos seguiram a tendência oposta. Esta divisão tão evidente poderá vir a criar graves problemas sociais em Inglaterra, já que, mais do que visões diferentes sobre o papel do Reino Unido no mundo, estão em causa visões divergentes em relação à forma como os mais jovens e os mais velhos querem estar em sociedade. Estes mostram-se mais conservadores na manutenção dos seus direitos adquiridos e receosos à imigração. Os mais jovens procuram os seus sonhos numa europa mais unida e integrada. Durante o dia de hoje, seja nas redes sociais ou em artigos de jornais, já é possível sentir a crispação, a frustração e até alguma raiva que é demonstrada por eleitores mais jovens em relação aos mais velhos. Este é um dos muitos comentários que se podem ler, neste caso publicado no Financial Times e citado pelo The Guardian. E esclarecedor: “The younger generation has lost the right to live and work in 27 other countries. We will never know the full extent of lost opportunities, friendships, marriages and experiences we will be denied. Freedom of movement was taken away by our parents, uncles and grandparents in a parting blow to a generation that was already drowning in the debts of its predecessors.”

 

3. Quanto à Escócia, era de esperar que aquele país fosse aproveitar o momento para agitar a bandeira independentista. E, neste aspecto, a primeira-ministra Nicola Sturgeon não falhou e adoptou um discurso firme, deixando bem claro que o seu país quer fazer parte da União Europeia e falou na possibilidade de um referendo independentista. Foi hábil na forma como usou a desilusão com os resultados na Inglaterra para enfatizar as diferenças entre os dois países. No fundo, o que ela está a fazer é colocar a responsabilidade de um eventual referendo da Escócia nos ombros dos ingleses. Ou seja, a Escócia tentou seguir um caminho conjunto, mas foi a Inglaterra que não quis. É assim que as coisas estão a ser apresentadas pelos escoceses. Com este resultado, deu-se uma alteração muito substancial no contexto da relação entre os dois países sob a coroa da Rainha. A partir daqui, a Escócia tem toda a legitimidade para seguir o seu caminho. E, não é por acaso, que logo a seguir ao discurso de Nicola Sturgeon, o Partido Nacionalista Escocês (SNP) e a organização Mulheres para a Independência (WFI) começaram a receber pedidos de adesão e donativos para ajudar a realizar o referendo. Nicola Sturgeon avisou ainda que vai pedir à Comissão Europeia e aos Estados-membros reuniões com carácter de urgência para manifestar a sua vontade de adesão. Entretanto, várias personalidades e empresas que se têm manifestado sempre contra a independência Escócia, admitem agora rever as suas posições.

 

4. Mas, talvez aquele que possa ser o problema mais complicado para os líderes ingleses, e que está a ser muito pouco falado, tem a ver com o futuro de Londres, uma realidade completamente à parte do resto do Reino Unido. Na “city”, tal como na Escócia, os resultados foram igualmente expressivos e claros a favor do “Remain”. Ora, isto vai criar uma questão política muito complicada, já que é a “city” o elo de ligação entre o Reino Unido e a União Europeia. Ou seja, na prática, é pela “city” e por tudo o que ela representa, e não tanto pelo “countryside” de Inglaterra, que este assunto ganha tanta relevância histórica. Aliás, Sadiq Khan, que percebeu perfeitamente isso, já passou uma mensagem de tranquilidade a todos os europeus que vivem naquela cidade, dizendo que eles são bem-vindos e que não vão sofrer consequências com o resultado deste referendo. Dirigiu-se também às empresas e investidores, num tom tranquilizador e, de certa forma, deixando a ideia de que se há-de arranjar uma solução que contorne eventuais restrições ao investimento e economia.

 

5. Perante tudo isto, é particularmente significativo que Nicola Sturgeon e Sadiq Khan tenham falado hoje, algo que poucos analistas têm mencionado, mas que é muito, mas muito importante. Sturgeon disse “que existe claramente uma causa comum” entre a Escócia e Londres. Entretanto, já começou nas redes sociais a campanha #Scotlond, onde precisamente se apela à permanência conjunta da Escócia e de Londres na União Europeia.

 

6. No que diz respeito à cena política inglesa, estamos agora na fase da mudança de lideranças. A decisão de David Cameron foi acertada, tendo o cuidado de sublinhar que não havia pressa, mas abrindo caminho para uma nova liderança. Naturalmente, que Boris Johnson se coloca na linha dianteira, no entanto, tem sido prudente nas suas declarações e, para já, não deu sinal de disputa pelo poder. Quanto a Jeremy Corby, que nunca foi propriamente um líder muito popular, poderá ter os dias contados à frente dos trabalhistas. A par de Boris Johnson, Nigel Farage, líder do UKIP, é o outro dos grandes vencedores deste referendo.

 

7. Chamo a atenção para o excelente e oportuno discurso do Governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney. Além do conteúdo da sua mensagem, garantindo, entre outras coisas, a liquidez suficiente no sistema financeiro, foi sobretudo o seu tom pausado e firme que mais fez lembrar a estóica e heróica tradição “churchilliana”. Aliás, logo a seguir, na CNN, Richard Quest dizia que não se lembrava de ver o Governador do Banco de Inglaterra a reagir desta maneira a um assunto.

 

8. A posição da União Europeia, ao dar o “recado” a Londres para sair o mais rápido possível, revela, pela primeira vez em muito tempo, alguma unidade e firmeza. Até Martin Schulz concorda que prolongar este processo é prejudicial para os interesses europeus. E perante esta firmeza da UE, que pretende “arrumar” rapidamente o assunto Reino Unido, percebe-se a posição de Boris Johnson, quando agora vem dizer que “não há pressa” neste processo. Pois claro, já que Jonhson não tem interesse que o artigo 50º do Tratado de Lisboa seja rapidamente aplicado, pelo menos enquanto não chegar a primeiro-ministro através de eleições, porque tem a noção de que o que vem aí não será o Paraíso na Terra, e quando se começarem a sentir os efeitos práticos da saída do Reino Unido da UE (hoje já se sentiram com a queda da libra e dos mercados) os adeptos do “Leave” podem esmorecer o seu entusiasmo. O jornal The Independent já referia hoje que o processo acelerado iria ser “painful” para a Inglaterra.

 

9. Hoje, Angela Merkel tocou no ponto essencial ao dizer que a ideia do projecto europeu é uma ideia de paz. As pessoas esquecem-se de que há setenta anos os povos europeus matavam-se uns aos outros no coração do Velho Continente. É preciso ter bem a noção de que em termos históricos, a Europa nunca conheceu tanta prosperidade e paz como no período do projecto europeu no pós-II GM. Hoje em dia, muita gente esquece essa perspectiva ampla e alargada, sobretudo os líderes europeus, que passam o dia-a-dia em discussões bizantinas, praticamente a contar números e a olhar para relatórios de Excel. Houve uma dimensão política, humanista e social que se perdeu na governança europeia, mas mesmo assim a Europa continua a ser um farol de liberdade e prosperidade.  

“Brincadeiras” que um dia podem correr muito mal


odiplomata,

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Lançamento na Quarta-feira de um dos dois mísseis de médio alcance Musudan com a presença de Kim Jong-un/Yonhap 

 

Nos últimos anos vai-se tendo cada vez mais a impressão de que, a acontecer qualquer drama militar de dimensões cataclísmicas, começará numa “brincadeira” para os lados da Ásia oriental. Se é na Península da Coreia (que, “by the way”, continua formalmente em estado de guerra), no Mar do Japão ou no Mar Oriental ou Sul da China, ainda está para se ver (esperemos que não). Além dos interesses territoriais inconciliáveis entre várias nações que se jogam naquelas paragens, esta região é, no actual contexto geopolítico e geoestratégico, uma espécie de ponto de confluência de várias “placas tectónicas”. Porque, além dos actores regionais directamente envolvidos nas disputas territoriais, tais como a China, o Japão, a Coreia do Norte, a Coreia do Sul, a Rússia, o Vietname, as Filipinas, entre outros, o jogo de alianças e de interesses acaba por envolver também os EUA, sobretudo pela sua ligação aos aliados nipónicos e a Taiwan.

 

Qualquer acidente ou incidente que por ali aconteça (e têm acontecido alguns) pode acender o rastilho para algo de dimensões problemáticas. Da disputa das Ilhas Curilhas, entre o Japão e a Rússia, à das Ilhas Spratly, entre Pequim e várias nações, tais como as Filipinas ou o Vietname, passando pelas “escaldantes” Ilhas Senkaku (ou Diayou para os chineses), sob administração japonesa mas reclamadas por Pequim, os factores de ignição são muitos. São recorrentes os episódios militares hostis, sobretudo por parte de Pequim, com Washington, por exemplo, à distância, a ir dizendo que não permitirá qualquer ameaça à integridade territorial do Japão. Isto já para não falar do “dossier” Taiwan. Mas é principalmente de Pyongyong que vem a maior ameaça sistémica. A Coreia do Norte não abdica da sua retórica bélica e provocadora e tem dado claros sinais de que a acompanha com uma escalada militar. Ainda ontem testou mais dois mísseis balísticos de médio alcance, conhecidos no Ocidente como Musudan, tendo o primeiro falhado, mas o segundo alcançado os objectivos. E trata-se de informação já confirmada pela Coreia do Sul e EUA.

 

Se ainda estou recordado das aulas de Problemática e Controlo de Armamentos, um míssil balístico de médio alcance (MRBM/IRBM) poderá ter um raio de acção entre os 500 quilómetros e os 5000. A partir daí estamos a falar de mísses Intercontinentais (ICBM). Este míssil norte-coreano terá voado 400 quilómetros, o que, segundo os especialistas, representa uma melhoria em relação ao teste anterior. Há poucas dúvidas de que se o regime de Pyongyang continuar a testar os seus mísseis, irá conseguir desenvolver na sua plenitude de forma eficaz estes vectores de lançamento de eventuais ogivas nucleares. E, por isso, o líder norte-coreando, Kim Jong-un já veio dizer que o seu país está em condições de atacar interesses dos Estados Unidos na ilha de Guam, no Pacífico. Se é certo que muitas das vezes a retórica proveniente dos líderes daquele regime é mera propaganda, desta vez, e a julgar por algumas reacções, as palavras de Kim Jong-un estão a ser levadas mais a sério.

Trump livrou-se do mal para se transformar num outro candidato


odiplomata,

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Corey Lewandowski foi até ontem o “campaign manager” de Donald Trump/Foto Getty

 

O dia de ontem na cena política dos Estados Unidos foi dominado pelo despedimento de Corey Lewandowski, nada mais nada menos do que o até agora “campaign manager” de Donald Trump e um dos operacionais responsáveis pela caminhada triunfante daquele candidato até à Convenção do Partido Republicano. A notícia caiu que nem uma bomba, porque apesar das divergências internas no seio da campanha de Trump e que eram conhecidas há algum tempo, os sinais dos últimos dias não anunciavam uma decisão deste genéro e, sobretudo, tomada desta forma tão abrupta. De tal maneira que Lewandowski, em entrevista à CNN poucas horas depois de ter sido despedido (o que por si só já é estranho), afirmou desconhecer as razões que levaram ao seu afastamento. A alguns colaboradores teria dito que seria uma questão de tempo até se demitir ou ser demitido, talvez estando ciente das forças que começavam a crescer contra si. E, talvez por isso, quando na Segunda-feira foi informado por Trump de que os seus serviços não eram mais precisos, Lewandoswki nada disse, levantou-se e quando saiu da sala do quartel-general da campanha na Trump Tower em Manhattan já tinha segurança à sua espera para o acompanhar ao seu lugar, arrumar as suas coisas e abandonar o edifício. Seja como for, não mostrou ressentimento e à CNN manifestou todo o seu apoio a Trump e que tudo faria para ajudá-lo a chegar à Casa Branca.

 

Muitos republicanos viram neste gesto um passo positivo na direcção de um registo mais conservador e menos populista e conflituoso, características que marcaram o estilo de Lewandowski e que chegaram mesmo a criar situações extremadas, nomeadamente na relação com jornalistas. A verdade é que Trump bem pode agradecer ao seu antigo colaborador, mas a questão é que o processo do seu afastamento foi pouco claro, intempestivo e com contornos ainda por esclarecer. Talvez um dia, em livro, Lewandowski conte a história toda. Aquilo que se vai lendo é que Trump terá começado a sofrer muito pressão de alguns dos seus aliados e doadores para mudar a estratégia da campanha, numa altura em que vai iniciar uma corrida nacional e para a qual Lewandowski não estaria preparado. Também os filhos de Trump terão tido um papel no despedimento daquele assessor. Provavelmente, Lewandowski terá sido vítima da sua própria “criação” política, transformando um homem que era gozado pelo seu cabelo num temido candidato presidencial. Como disseram algumas pessoas próximas de Lewandowski, ele neste momento tinha inimigos em todo o lado e, perante este cenário, dificilmente se poderia assistir a outro desfecho.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata.

A tendência histórica da Rússia para o absolutismo


odiplomata,

Muitos ficaram surpreendidos com as recentes declarações de Sergei Lavrov, ao classificar de “absolutamente inaceitável” a detenção de adeptos de futebol russos pelas autoridades francesas. A questão é que as palavras do ministro russo dos Negócios Estrangeiros não têm nada de surpreendente e inserem-se na mesma lógica de sempre: o desrespeito completo pelas práticas e hábitos que regem as sociedades democráticas ocidentais. Para os líderes russos pouco importam as circunstâncias que norteiam o quotidiano legal e jurídico dos chamados Estados de Direito, porque a “Mother Russia” não é tolerante nem compreensiva com os estrangeiros que tentam aplicar a lei contra os seus concidadãos. Esse é um exclusivo do Estado russo.

 

As lideranças russas e os seus cidadãos têm um “contracto” social muito diferente daquele que rege a relação entre governantes e governados nas sociedades democráticas. É um “contracto” que dá muito músculo a quem manda e poucos direitos e garantias a quem é mandado. E o problema é que historicamente essa diferença nunca foi compreendida, e muito menos aceite, por quase todos os líderes ocidentais. Mas a verdade é que desde sempre que a Rússia tem uma tendência histórica para o absolutismo. Uma tendência sempre cultivada pelas elites que, por um lado, oprimiam e puniam o seu povo e ao mesmo tempo também eram capazes de o elevar à condição de herói intocável.

 

Vladimir Putin venerou sempre o sacrifício dos russos ao derrotarem – nas palavras de Eric Hobbswam – a “máquina de guerra mais formidável do século XX”. O Exército Vermelho vergou a Alemanha nazi, e tal como já tinha acontecido contra as forças napoleónicas, os soldados russos impediram que uma potência estrangeira se apropriasse do território da sua nação. Pagando o elevado preço de 27 milhões de mortos, a Rússia pôde sair vitoriosa da II Guerra Mundial e assumir-se como uma superpotência das relações internacionais. Tal como em tempos passados, a grandiosidade do Estado russo sustentou-se no sacrifício do povo.

 

A história da Rússia é particularmente penosa e sofrida, marcada por uma escuridão constante que se reflecte no modo de estar do seu povo. Do autoritarismo czarista ao totalitarismo estalinista, os últimos trezentos anos moldaram a mentalidade de um povo que, desde sempre, viveu sob um modelo de sociedade hermeticamente fechada, sem espaço para usufruir as ondas de choque provocadas pelas revoluções europeias. “Para leste das potências atlânticas, ficava um Estado que se situava na Europa, mas que não fazia parte da Europa (…) Com excepção de alguns pouco frequentes e confusos contactos, tais negociações diplomáticas com Roma e com Viena em finais do século XV e com a Inglaterra no século XVI, seguidos por alguns encontros florescentes no século XVII com a Polónia, Suécia e Áustria, manteve-se isolada da Europa ocidental, até praticamente, Pedro I, o Grande. Mas, mesmo por alturas da morte de Catarina, a Grande, a ocidentalização manteve-se dentro de limites bastante restritos”, escreve S. E. Fiener, proeminente cientista político e historiador de Oxford, na sua obra “História do Governo”.

 

O iluminismo de Auguste Comte ou o liberalismo de John Lock permaneceram ausentes do pensamento russo. Numa altura em que a Europa fervilhava em ideias, que alimentavam revoluções e contra-revoluções, a Rússia do século XIX mantinha-se incólume a este tipo de tendências. “O núcleo da sociedade russa manteve-se profundamente intocável” e as sementes da Revolução Francesa espalhadas por toda a Europa através do império napoleónico não conseguiram florescer em território russo.

 

O isolamento da Rússia, “quase absoluto” até ao século XV, conduziu aquele país “em linhas completamente diferentes dos Estados ocidentais. A principal influência intelectual e religiosa foi a de Bizâncio, embora a língua grega não fosse habitualmente utilizada (…). O país nunca utilizou o latim, nunca acolheu o equivalente à filosofia escolástica ocidental, nunca teve a experiência da reforma Protestante, do Renascimento ou de um iluminismo nativo”, acrescenta Fiener.

 

Mas, um dos factores mais importantes que ajuda a compreender melhor as posições autoritárias do Presidente Putin e a aceitação destas por parte da população, é a ausência histórica da tradição do “carácter vinculativo da lei”. Ou seja, o Direito Romano, pedra angular dos modelos de sociedade dos Estados europeus ditos ocidentais, nunca fez doutrina na Rússia.

 

De acordo com alguns historiadores, a “teoria e a prática do direito na Rússia foram inspirados por uma fonte muito diferente e muito estranha, comparada com a do Ocidente, ou seja, os mongóis”. Na verdade, as raízes do centralismo e autoritarismo russos, hoje visíveis na pessoa de Vladimir Putin, podem ser encontradas nas tradições mongóis, que serviram de inspiração para Ivan IV, o Terrível (1533-1584), aquando da sua autoproclamação como Czar de Toda a Rússia, em 1547. “(…) o seu modelo não foi o imperador bizantino (há muito extinto, aliás) mas o Cã tártaro (que se denominava a si próprio, em russo, czar). Pretende-se que foi esta a primeira autoridade centralizada que os príncipes russos tiveram de enfrentar e foi a partir desta fonte que aprenderam tudo sobre o absolutismo (…).”

 

Os russos nunca experimentaram outro tipo de regime (talvez, salvo raras excepções) e jamais se abriram aos seus vizinhos europeus. Esta vivência foi acumulando um pessimismo reinante, ensombrando qualquer perspectiva sobre o futuro da sociedade. Uma realidade que se tornou particularmente evidente nos anos de Boris Yeltsin, na ressaca da queda do império e na emergência de um clima de anarquia e caos.

 

De um momento para o outro, os russos viam-se sem a tradicional liderança forte e absoluta, assistindo à deterioração do império e de toda a estrutura social sem compensações evidentes. Democracia e liberdade, tal como os ocidentais as entendem, são conceitos estranhos àquela sociedade. Há uns anos, Richard Pipes, professor de História na Universidade de Harvard e director do departamento de assuntos soviéticos da Europa de Leste no Conselho de Segurança Nacional em 1981-82, escreveu um extraordinário artigo na “Foreign Affairs”, especificando o que de facto os russos queriam para a sua sociedade.

 

Uma das ideias chave defendidas pelo autor referia que os russos apoiavam o estilo “antiliberdade e antidemocrático” de Putin, sustentando com estudos de opinião, em que apenas um em cada dez russos se interessava por “liberdades democráticas e direitos civis”. Na verdade, estes e outros conceitos, como propriedade privada e justiça pública, nunca fizeram parte da tradição russa. Por exemplo, apenas cerca de um quarto da população russa considerava que a propriedade privada é importante como direito humano.

 

Pipes sustentou as suas afirmações em estudos levados a cabo pelo All-Russian Center for Study of Public Opinion e pelo Institute of Complex Social Studies da Academia de Ciências Russa. De acordo com os dados obtidos na altura, 78 por cento dos russos considerava que a “democracia é uma fachada para um governo controlado pelos ricos e grupos poderosos”. Apenas 22 por cento expressava preferência pela democracia, contra os 53 por cento que se lhe opunham. Sobre os eventuais benefícios das eleições multipartidárias, 52 por cento dos russos considerava que estas eram prejudiciais, sendo apenas 15 por cento a percentagem de russos que as viam como positivas.

 

Numa outra sondagem do Centro de Estudos Sociológicos da Universidade de Moscovo, citada por Pipes, 82 por cento dos russos estavam convictos de que não tinham qualquer influência no Governo nacional, e 78 por cento acrescentava mesmo que não influenciava os desígnios do governo local. Mais interessante, mas pouco surpreendente, era a escolha feita entre “liberdade” e “ordem”. Oitenta e oito por cento dos inquiridos na província de Voronezh manifestaram preferência pela “ordem”. Apenas 11 por cento afirmaram não estar dispostos a abdicar das suas liberdades de expressão e de imprensa em troca de estabilidade. Na verdade, um outro estudo, conduzido no Inverno de 2003-04, pela Romir Monitoring, sustentava que 76 por cento dos russos eram favoráveis à reposição da censura nos “media”.

 

Estes números reflectiam uma avidez, por parte do povo russo, de autoritarismo governativo. Uma exigência apreendida pelos políticos que, segundo Pipes, se manifestou nas eleições para a Duma, em Dezembro de 2003, nas quais nenhum dos partidos mais votados utilizou, sequer por uma vez, a palavra “liberdade”. Um dos outros anseios do povo russo prendia-se com o poder da sua nação, sendo que 78 por cento “insiste que a Rússia tem de ser uma grande potência”. Embora estes números já tenham vários anos, é muito provável que a percepção da sociedade russa não se tenha alterado substancialmente.

 

A Rússia é um território imenso que, desde o século XIX, tem tentado manter o estatuto de potência entre as potências. Hoje, tal como no século XIX, em que a Rússia tentava expandir a sua presença sobre a Sublime Porta e Balcãs, os interlocutores de Putin terão de compreender os seus intentos e suas sensibilidades. “Para Metternich, o problema posto pela Rússia não era tanto o de como conter a sua agressividade, mas o de como temperar as suas ambições”, escreve Henry Kissinger, no seu livro Diplomacia, relatando as preocupações do chanceler do império austro-húngaro face à Rússia. Antes, assim como hoje, também o czar Alexandre I suscitava a desconfiança de alguns líderes europeus. A Rússia era tida como “instável e intrometida” nos interesses que se jogavam no Velho Continente, mas particularmente nas zonas de influência eslava.

Brexit, um debate pouco inteligente


odiplomata,

Quando morreu Ralf Dahrendorf, faz sete anos no próximo dia 17, escrevi que ele era uma “síntese em si mesmo”, sendo uma das poucas pessoas que se conseguia definir ao mesmo tempo como alemão e como britânico. É importante relembrar que Dahrendorf era cidadão britânico e membro da Câmara dos Lordes desde 1988, mas nascera em Hamburgo, a 1 de Maio de 1929. Em tempos perguntaram-lhe numa entrevista que cidade ele considerava a sua casa e a resposta foi clara: “Sou um londrino.” 

 

Mas Dahrendorf combinou sempre o liberalismo político com uma visão social da economia. O sociólogo político, que entre 1974 e 84 foi presidente da London School of Economics and Political Science, era ainda um europeísta sincero ao mesmo tempo que via no eixo atlântico uma necessidade natural. Entre 1987 e 1997 foi decano do St. Antony’s College da Universidade de Oxford. Acima de tudo, Dahrendorf era um homem da democracia política, enquanto veículo para se alcançar a liberdade. Aliás, já na altura, citei um artigo da Teresa de Sousa no Público em que referia que o  “amor [de Dahrendorf] pela liberdade talvez o tenha aprendido nos anos da sua juventude, quando teve de conviver com dois totalitarismos. Disse muitas vezes que os dois anos mais importantes da sua vida tinham sido 1945 e 1989”.

Da política às mulheres, a Itália é tudo menos recatada


odiplomata,

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 Apresentadora da RAI3, com um dos seus célebres decotes/Foto actualizada

 

Segundo aquilo que se leu na imprensa, desde a semana passada que vigora um novo código de indumentária na RAI (televisão pública italiana), para que as suas pivots de informação tenham “uma imagem mais recatada, menos provocadora”. Decotes, vestidos justos e outros trajes que possam ser considerados mais arrojados estão proibidos. Em qualquer outra televisão pública europeia ou de outra parte do mundo esta medida até passaria despercebida e até poderia ser compreensível. Mas fazer isto na RAI é quase o mesmo que vestir uma tanga ao David de Miguel Ângelo. 

 

A Itália é um país fascinante a vários níveis e a RAI é também um pouco o espelho da realidade daquele país, com tudo o que tem de bom e de mau. A arte, a história, a cultura, a beleza, a elegância, o prazer, a gastronomia, a paisagem, tudo se conjuga de uma forma desorganizada, mas ao mesmo tempo irresistível. E com a política italiana passa-se o mesmo. Apesar de, por vezes, ser dominada por uma total ausência de ordem e lucidez, a verdade é que é impossível ficar-se indiferente ao que por lá se vai passando. De certa maneira, assemelha-se a uma arena romana que vai servindo para entreter o povo, onde tudo é possível, mesmo as maiores barbaridades, mas os aplausos não deixam de soar.

 

Em Itália tudo é vivido com intensidade, paixão e irracionalidade, para o melhor, mas também para o pior. Nada é inconsequente. Só em Itália se encontram fenómenos como o da deputada Cicciolina (hoje seria apenas uma pequena excentricidade, mas como explicar uma coisa destas ainda nos anos 80?) ou de Silvio Berlusconi (imagine-se, o político que se manteve durante mais tempo no cargo de primeiro-ministro desde a II GM). Ou nos anos mais recentes, o da ascensão meteórica de um palhaço (no sentido literal) na cena política transalpina. É por isso que o sistema político italiano é um autêntico laboratório. Em Itália tudo é possível e tudo é aceite com a maior das normalidade. Regras e normas ficam para os europeus “normais”, já que os italianos preferem a incerteza do dia seguinte e a animação da anarquia sistémica. Mas, o curioso é que o sistema político italiano lá vai funcionando. À sua maneira, é certo.

Blogue da semana


odiplomata,

girl on film é um blog sobre Cinema e Televisão feito à medida da proprietária. Um espaço onde a Sétima Arte e as séries de televisão estão sempre em destaque. O girl on film tem uma vertente muito peculiar que o distingue dos restantes blogs do género: a junção do Cinema e da Televisão, ao mundo da Moda, da Publicidade e da Música. No que diz respeito à Moda, o blog tem uma rubrica especial intitulada #feiradasvaidades dedicada à Fotografia, alojada no tumblr.

Fora de série (16)


odiplomata,

Quando o Pedro Correia lançou o desafio desta nova rubrica, a dificuldade que nos assaltou de imediato foi o que escolher. Foi como se fôssemos umas crianças numa loja de brinquedos e nos dissessem que só podíamos escolher um brinquedo para levar. Neste caso, não é difícil de imaginar a dispersão de cada um de nós, em regressar aos tempos de infância e juventude e escolher apenas uma das muitas séries que marcaram essas fases das nossas vidas. Porque, a verdade é que não houve apenas uma, mas sim várias séries que nos agarraram à televisão e onde se cumpria religiosamente o hábito semanal de assistir a mais um episódio à hora marcada, porque, se por qualquer motivo falhássemos, já nada havia a fazer. O tempo dos youtubes, dos DVD, das box da tv cabo ainda eram coisa do futuro.  

 

Já aqui foram recordadas séries que marcaram diferentes infâncias e adolescências. No que me diz respeito, foram mencionadas algumas que me agarraram literalmente ao ecrã na segunda metade dos anos 80 e no íncio dos anos 90, tais como Sledge Hammer, Ficheiros Secretos, Blackhadder, O Polvo, A Balada de Hill Street ou o Espaço 1999. E muitas outras poderia referir, quase todas de produção britânica ou norte-americana. Mas, com todo o orgulho, posso dizer que uma das séries que mais gostei de ver e que ainda hoje recordo ou revejo (está a passar na RTP Memória) com alegria e saudade, é de produção nacional e dá pelo nome de Duarte e Companhia. Penso que a partir daqui já não preciso de escrever mais nada… 

 

Episódio “O Artista do Crime”. Hilariante o diálogo inicial entre o Duarte e o Tó.

 

Pensando hoje um pouco sobre essa série, estamos obviamente perante algo muito datado, que reflectia um Portugal ainda muito atrasado, uma Lisboa algo “provinciana”, uma população “cinzenta”, ou seja, havia um contraste brutal na cor e na dimensão daquilo que nos chegava através das séries que vinham dos Estados Unidos e aquilo que os episódios do Duarte e Companhia nos mostravam. Portanto, não foi a dimensão do “espectáculo” que me contagiou, mas sim a ingenuidade de tudo aquilo, os personagens irrealistas, a rivalidade infantil entre o “Átila” e o “Lúcifer” e respectivos bandos, os diálogos que tinham tanto de cómico como de absurdo, criando um ambiente sempre alegre e, apesar de tudo, de convivência pacífica entre todos, onde até as cenas de pancadaria mais pareciam um ajuntamento de amigos do que outra coisa.

 

Duarte (interpretado por Rui Mendes) ao voltante do seu Dois Cavalos e o seu parceiro Tó (cujo papel era desempenhado pelo saudoso António Assunção) eram os polícias que tinham a difícil (nem tanto) missão de combater Átila (Luís Vicente) e Lúcifer (Guilherme Filipe), mafiosos e gangsters à portuguesa, que tinham tanto de tolos como de inofensivos. Pelo meio, havia um grupo de personagens absolutamente hilariantes, como o Japonês, o Albertini, o Rocha, a Joaninha ou a temida sogra do Duarte. Ainda hoje, tenho gravado na minha memória muitos dos nomes, das cenas, das falas, de muitos dos episódios do Duarte e Companhia.

 

A série passou inicialmente na RTP na segunda metade dos anos 80, estando agora a ser retransmitida na RTP Memória. No entanto, penso que já estão editadas em DVD quase todas as temporadas. É daquelas coisas que vale sempre a pena rever, porque é boa disposição garantida.

 

Episódio “A cadeira do Poder”. A estupidez foi sempre um característica reinante nos bandos do Átila e do Lúcifer. 

Algumas notas sobre música


odiplomata,

1. Depois de ter lido bastante sobre o álbum e o artista, já andava há meses para comprar o “To Pimp a Butterfly” do rapper Kendrick Lamar. Fi-lo hoje. Tinha sido considerado de forma quase unânime pela crítica como um dos melhores álbuns de 2015, o que é um feito, já que estamos a falar de hip hop agressivo e duro, vindo directamente de Compton. A cidade no sul de Los Angeles, casa dos gangues rivais Crips e Bloods e que, nos anos 80, viu nascer o “gangsta rap”, por um grupo que iria ficar para a história, os N.W.A. Os Niggaz Wit Attitudes tinham, entre outros, o Dr. Dre e o Ice Cube na sua formação. A difícil conjuntura social que se vivia na altura e a vivência hostil da comunidade negra em particular naquela grande zona metropolitana, acabou por ser inspirador para a composição do primeiro e mítico álbum daqueles rappers, Straight Outta Compton (1988). Entretanto, os anos foram passando, e depois dos trágicos acontecimentos de 1992 em Los Angeles, o final dessa década e o início dos anos 2000 trouxeram alguma acalmia a Compton, mas nem por isso os problemas desapareceram e a criatividade se esvaiu. Pelo contrário, “To Pimp a Butterfly” de Kendrick Lamar espelha as várias fracturas que os Estados Unidos teimam em não sarar, mas também a sua própria visão crítica enquanto “nigga” de Compton. O racismo, a discriminação, a violência policial sobre os negros, a exclusão e a auto-exclusão social dessa comunidade, a violência e desunião entre entre os “niggas”…ouvindo as músicas de Lamar, percebe-se que a América de hoje continua a ser tão perturbadora como a dos anos 80. E também por isso, o álbum é poderoso.  

 

 

2.Há uns anos recordo que eu e dois colegas meus tivemos uma daquelas discussões (estúpidas) que não levam a lado algum sobre qual seria a banda que mais importância e impacto teria na história da música recente, se os Red Hot Chili Peppers ou os Radiohead. Naquela altura, era (e sou) um grande fã de Anthony Kiedis, Flea e companhia e embora já tivesse sido num passado longínquo que a banda californiana dera a conhecer ao mundo o genial “Blood Sugar Sex Magik (1991)”, os alicerces que criaram ao nível do funk rock abriram caminho para a inspiração criativa de muitas outras bandas. É certo que o seus trabalhos posteriores entraram num caminho que se afastou dessas raízes primitivas e mais agressivas, para um estilo menos funk e mais pop. Mas mesmo assim, sempre considerei que os seus álbuns estão na generalidade sempre muito acima do que se vai fazendo por aí. Quanto aos Radiohead, com um estilo musical completamente diferente, os meus dois colegas também tinham argumentos de peso na defesa do seu caso, já que em 1997 a banda de Thom Yorke lançou um dos melhores álbuns dos últimos 20 anos: “Ok Computer”. Também este disco se tornou uma referência musical, quer ao nível criativo, quer ao nível do conteúdo da sua mensagem. Os Radiohead nunca mais voltaram àquele nível (o que é normal), mas continuaram a fazer álbuns de grande qualidade e aclamados pela crítica. Por coincidência, e depois de alguns anos sem terem editado nada, os Radiohead e os Red Hot estão a lançar álbuns novos, que deverão chegar nas próximas semanas em formato físico às lojas. A banda de Thom Yorke já lançou o álbum, A “Moon Shaped Pool”, nas plataformas digitais, antecipando-o com dois singles e respectivos vídeos que espelham bem a qualidade superior desta banda: o incendiário Burn the Witch e o poético Daydreaming, realizado por Paul Thomas Anderson. Os Red Hot deram apenas a conhecer uma música do novo “The Getaway”, que começa com uma malha fortíssima do baixo do Flea.

 

 

3. Roberta Medina poderá dar as voltas que quiser e até dizer que o Rock in Rio é um festival “mainstream” (que efectivamente é), mas isso não poderá servir para iludir a realidade e não constatar que a edição deste ano teve um alinhamento muito débil ao nível dos cabeças de cartaz. Exceptuando a noite de Bruce Springsteen, todas as outras não tiveram nomes com o verdadeiro estatuto de cabeça de cartaz num festival deste género que pode levar até 85 mil pessoas ao recinto. Maroon 5, Hollywood Vampires, Queen com Adam Lambert ou Avicii??? Não está em causa a sua qualidade ou actuação, mas basta consultar todas as edições desde 1985 e facilmente se percebe que ao Rock in Rio 2016 faltaram aqueles grandes nomes que dão dimensão musical e até histórica ao acontecimento.

Ser Presidente até ao último dia


odiplomata,

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Barack Obama na Sala Oval, 19 de Maio (Foto: White House/Pete Souza) 

 

Num dos episódios da realista série The West Wing, com o título “365”, a equipa da presidência de Josiah Bartlet (Martin Sheen) vê-se confrontada com a inevitável aproximação do final do segundo mandato, num misto de nostalgia, desmotivação e desânimo. Normalmente, os poderes executivos, sejam Governo (em sistemas parlamentares ou semi-parlamentares) ou chefes de Estado (sistemas presidencialistas), olham para os últimos tempos de funções como um mero cumprimento de calendário, aguardando passivamente o dia em que os seus sucessores lhes tomem o lugar. Regra geral, a um, dois anos do término do mandato, há uma espécie de ideia tácita que pouco já nada há fazer, adiando-se grandes decisões e políticas para o próximo Executivo. Em países como Portugal, por exemplo, existe um consenso político-partidário em que os governantes que se encontrem nessa situação, ou seja, com a porta da rua semi-aberta, já não podem ousar assumir grande protagonismo, correndo o risco de serem acusados de estarem a condicionar o trabalho dos seus sucessores. 

 

Mas a verdade, é que um primeiro-ministro ou um Presidente está de plenos poderes até ao último dia do mandato e, como tal, deve exercê-los com a mesma determinação e convicção como se estivesse a iniciar funções. Nesse episódio aqui referido, e perante o “baixar de braços” do Presidente e de quase todo o “staff”, conformados com o fim à vista do seu mandato, entra em cena Leo McGarry (John Spencer), chefe de Gabinete da Casa Branca, experiente e sábio, que, num discurso emotivo, lembra à sua equipa que ainda faltam 365 dias para o mandato terminar e que em cada um destes dias eles tinham o poder, como mais ninguém tinha, de fazer algo pelo bem comum.  

Como em tantas outras passagens daquela série, também esta parece ter sido premonitória em relação ao que Barack Obama viria a fazer (e está a fazer) nos seus dois últimos anos de mandato, aproveitando todas as oportunidades para fazer história. Acordo do clima de Paris, Tratado Trans-Pacífico, reatamento das relações diplomáticas com Cuba, reaproximação ao Irão e agora a visita a Hiroshima, são apenas alguns eventos da agenda externa de Obama dos últimos meses, carregados de significado e importância histórica. Também a nível interno, Obama tem mantido uma actividade política constante, até porque ainda tem alguns dossiers da máxima importância para resolver. Tudo leva a crer que nestes meses finais Obama não irá abrandar a sua acção governativa. E caso isso se confirme, é assim mesmo que deve ser… Presidente até ao último dia.      

Uma operação “Top Secret” de prestígio


odiplomata,

A operação “Top Secret” levada a cabo pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) e pela Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária, e que resultou na detenção de um espião dos Serviços de Informações de Segurança (SIS), é um enorme atestado de competência e de credibilidade para as “secretas” nacionais. Ao contrário do que muitos possam pensar, este episódio digno de um livro do John Le Carré não revela qualquer fragilidade ao nível operacional das secretas nacionais. Pelo contrário, é demonstrativo que a sua capacidade de “contra-espionagem” funciona e tem capacidade de agir na defesa dos interesses da segurança de Portugal e, muito importante, das organizações políticas e de defesa a que pertence, nomeadamente a NATO. 

 

Ovelhas tresmalhadas sempre houve, há e haverá em todos os rebanhos, o que é o mesmo que dizer que nenhum serviço de “intelligence” está livre de não ter nas suas fileiras algum infiltrado a trabalhar para o inimigo. A Guerra Fria está repleta de casos desses, alguns dos quais bastante espectaculares, atendendo ao seu grau de sofisticação e criatividade. Mas já nesta era da globalização pós-queda do Muro de Berlim, têm sido vários os casos de espionagem e contra-espionagem que, de tempos a tempos, ocupam as páginas dos jornais. Assim de repente, recordo dois ou três e, curiosamente, todos eles envolvendo a Rússia. 

 

A operação “Top Secret” resultou de uma investigação que se prolongou durante vários meses, depois de terem surgido as suspeitas sobre o agente do SIS em causa, e só na passada Sexta-feira foi possível reunir todas as condições para apanhar em flagrante delito o espião português num encontro em Roma com um operacional do SVR (ex-KGB) para vender-lhe documentos confidenciais relativos à NATO. Ora, esta detenção só foi possível graças à colaboração pronta da polícia italiana e porque havia um mandado de captura europeu, fazendo desta operação um feito inédito ao nível da parceria trans-europeia em matéria de contra-espionagem. De tal forma, que o próprio Eurojust congratulou-se publicamente pelo sucesso da operação. 

A vaca e o porco


odiplomata,

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Animals (1977) 

Ao ver a vaca voadora de António Costa veio à memória o célebre episódio que ocorreu em finais de 1976, quando um piloto de um avião comercial nos arredores de Londres terá reportado à torre de controlo que estaria a ver um “porco a voar”. A história ganhou contornos de mito urbano, mas a sua origem pouco tem de mitológica e remete-nos para um balão de nove metros cheio de hélio em forma de porco e que ficaria imortalizado na capa do álbum Animals (1977) dos Pink Floyd concebida pelo genial Storm Thorgerson. Mas ao contrário da vaca fofinha de Costa, que não se conseguiu livrar da mão controladora do poder instalado, o Mr. Pig (como se lê num dos cartazes da banda), que devia ficar preso e a pairar sobre a Central Eléctrica de Battersea (já desactivada), localizada junto ao Rio Tamisa, mostrou toda a sua “teimosia” e libertou-se da sua amarra logo na primeira sessão fotográfica e lá foi ele a voar livremente pelos céus de Londres (esta ideia de “libertação não deixa de ser irónica, se tivermos em consideração que este porco foi inspirado pela famosa obra de Orwell, “Animal Farm”). O porco acabaria por ir parar a Kent e terminaria aí a sua aventura, sendo recuperado por um agricultor local que se mostrou irritado porque o suíno terá assustado as suas vacas, que lá estavam tranquilamente com as patas bem assentes na chão, que é onde, aliás, devem estar. 

Acta de um jantar sem azar numa Sexta-feira,13


odiplomata,

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A noite era de sexta-feira,13, mas nem por isso houve qualquer azar ou mau olhado sobre a mesa do restaurante Dieci, Campo Pequeno, onde estavam sentados os onze “delitantes” que responderam ao desafio do Pedro Correia para mais um jantar do Delito de Opinião. Para quase todos os presentes foi o reencontro, mas para mim e para o Diogo Noivo foi a estreia nestes momentos de convívio na qualidade de “caloiros” deste blogue (citando as simpáticas palavras do Pedro). Confesso que ainda tentei negociar a incumbência que me foi dada para fazer a acta deste jantar, mas parece que não fui suficientemente persuasivo para que o Diogo, o outro caloiro, assumisse esta tarefa que, certamente, a faria com mais elegância e interesse do que eu.

 

Sendo assim, cá estou eu a dar uma nota sobre o que se passou e falou ontem ao longo do jantar, que começou por volta das 20 (confesso que cheguei atrasado e a Joana Nave apareceu um pouco depois) e se prolongou até às 23h30. E começo por fazer um apontamento mais pessoal, já que foi um prazer enorme rever o Fernando Sousa, que não via desde 2001/02, altura em que estagiei na grande secção de Internacional do Público (que saudades desse jornalismo) e onde ele era o “expert” em América Latina. E, naturalmente, que me dá sempre gosto rever o Pedro e o Luís Naves, que já conheço há alguns anos de outras andanças e com quem vou estando de tempos a tempos. Quanto aos outros ilustres à mesa, os seus nomes já me eram familiares há muito, mas só ontem tive o prazer de os conhecer pessoalmente e em boa hora isso aconteceu. Aliás, para mim, essa é uma das grandes virtudes destes jantares, porque além de reforçarem conhecimentos e amizades, servem para associar um nome a uma cara. Isso faz toda a diferença quando se está num blogue colectivo como o Delito de Opinião.

 

Simpatia e inteligência, duas palavras que me vieram de imediato à cabeça para caracterizar este grupo, no seio do qual a diversidade de opiniões, de tendências, de ideologias, de opiniões e de idades só podia resultar numa “ementa” variada, mas toda altamente recomendável. O jantar de ontem reflectiu na perfeição aquilo que é o Delito de Opinião, com as conversas e os temas a serem lançados para cima de mesa, às vezes sem ligação aparente, mas debatidos com argumentos válidos e inteligentes e, sobretudo, sempre com respeito pelas outras opiniões, mesmo quando divergentes ou até mesmo contrárias. Exemplo disso, foi a conversa animada sobre a complexa relação entre o Ocidente e o Islão e sobre os fenómenos extremistas nas nossas sociedades, com todos a esgrimirem as suas opiniões, tendo o Diogo, o Luís Menezes Leitão, a Ana Vidal, o Pedro e o Luís Naves estado particularmente activos nessa interessante discussão. Eu próprio dei o meu modesto contributo. Nem todos estávamos de acordo, mas a riqueza de um blogue como o Delito é mesma essa. Ao contrário de outros blogues colectivos, o Delito não é um monolito intelectual nem ideológico. 

 

E por falar em ideológico, muito se falou de Salazar e dos militares, de Franco e da Catalunha, de Hitler e da lógica das massas, com as contribuições particularmente sabedoras do Diogo (um homem da Ciência Política) e do Luís Menezes Leitão (com obra de grande envergadura sobre algumas destas matérias). Como não podia deixar de ser, o tema Trump não passou ao lado e o Luís Naves, que há anos se debruça sobre estas matérias, tentou explicar a sua interessante teoria sobre Donald Trump e a forma de como alguma parte do eleitorado está a ser levada numa espécie de “paranóia” e “realidade alternativa”. Estranhamente (ou nem tanto), falou-se muito pouco de política nacional (ainda bem). 

 

Não pense o leitor destas linhas que naquela mesa os temas discutidos ficaram circunscritos a estas matérias de grande profunidade intelectual académica e científica. Longe disso. Muito se falou de cinema. O Pedro estava empenhado em saber a nossa opinião sobre qual o melhor filme português de sempre. Um tema que gerou muito entusiasmo, mas que parece ter gerado algum consenso: “O Pai Tirano”. Chegámos também à conclusão que os clássicos do cinema português tinham uma qualidade nos diálogos sem paralelo no que se faz hoje em dia. E precisamente sobre a actualidade, falou-se muito de cinema internacional, turco, espanhol, italiano… mas nada americano. Dos Estados Unidos, hoje em dia, o que vale a pena ver são as séries. Todos reconhecemos isso. Ao falarmos no House of Cards, fiquei a saber através do Luís Menezes Leitão e do Diogo que a versão original é inglesa e que vale mesmo a pena ver. Irei seguir essa recomendação. Mas as velhinhas séries da nossa infância ou juventude também não foram esquecidas e até houve mesmo quem falasse no Verão Azul (sim, aquela série espanhola do Chanquete e do Piraña).

 

Conversa animada e cheia de boa disposição, que era também aquilo que eu via estampado nos rostos do João Campos, da Joana, do José Navarro de Andrade e da Teresa Ribeiro, mas que estavam um pouco mais distantes de mim, já que eu estava numa das extermidades da mesa. Reconheço que este apontamento está um pouco incompleto, porque me foi difícil captar as conversas do outro lado e, por isso, deixo aqui o desafio para que esta “acta” possa ser melhorada, porque será com muito gosto que lerei o testemunho de outros “delitantes” sobre o jantar de ontem.   

Bernie


odiplomata,

Bernie Sanders é um fenómeno político espectacular. Não tanto pelos resultados que tem alcançado nas primárias do Partido Democrata (embora de digno registo, tendo em conta a poderosa máquina de Hillary Clinton), mas sobretudo pela onda de entusiasmo que criou numa parte considerável do eleitorado norte-americano. Seria (tal como foi) impensável para qualquer analista ou comentador, até há poucos meses, que uma personalidade como o senador de Vermont pudesse sequer ser considerado um actor para ser levado a sério à escala nacional, atendendo àquilo que ele é e à forma como se apresentou aos americanos. No sistema político americano, políticos como Sanders, conotados com um proibitivo socialismo “vermelho”, muito para lá da esquerda do Partido Democrata, foram sempre vistos como autênticos “párias”, aos quais estava interdito qualquer acesso aos grandes palcos das disputas da política nacional. A verdade é que, tradicionalmente, a América sempre tolerou mais os políticos de correntes à direita do GOP do que à esquerda do Partido Democrata. Não importa agora aqui estudar o porquê dessa realidade, mas a questão central é que o sistema político dos Estados Unidos teve sempre mais espaço para a projecção nacional de figuras como Joe McCarthy, Sarah Palin ou Ted Cruz. Efectivamente, olhando para as décadas a seguir ao pós-II GM, pode-se constatar que Sanders é, porventura, o político (talvez o único) assumido de esquerda e socialista que mais projecção nacional conseguiu. 

 

A ascensão de Sanders ao estrelato nacional e a sua penetração nos “hearts and minds” de muitos americanos há de ser, a seu tempo, um “case study” e que, em parte, poderá ser explicado pelo distanciamento temporal ao fim da Guerra Fria e do fantasma “comunista”, se tivermos em conta que muito do eleitorado que aquele candidato tem cativado é jovem. Além disso, como ainda há dias uma jovem apoiante de Sanders dizia na CNN, aquilo que para muitos americanos é visto como extrema esquerda, na Europa é considerado apenas de centro-esquerda, ou seja, mainstream, e daí não vir mal ao mundo. E é precisamente esta leitura que muitos jovens eleitores norte-americanos começam a fazer, alguns sem qualquer memória da ameaça “vermelha” e libertos dos preconceitos e medos da Guerra Fria. Para muitos destes jovens, inclusive, os despojos do comunismo fazem hoje parte de uma cultura pop muito apreciada. 

 

Dificilmente Sanders retirará a nomeação a Hillary, mas de todo este processo é sem dúvida ele quem mais personifica o “tempo novo” na política americana. Apesar dos seus 74 anos, encontrou um novo filão de eleitorado, com muitos jovens, que viram no seu discurso uma esperança e uma alternativa. De certa maneira, encontra-se aqui algum paralelismo com o que aconteceu com Barack Obama nas primárias de 2008 e, curiosamente, também contra a poderosa máquina de Hillary. 

É uma perspectiva de ver as coisas


odiplomata,

No Sábado, o Expresso, aquele que é considerado o jornal de referência em Portugal, publica uma notícia a propósito da visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a Moçambique, onde se pode ler um disparate monumental (e para quem não se aperceba da questão, basta ler este take da Lusa de 2011). 

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Sem qualquer pedido de desculpa por parte do jornal, hoje, às 8h00 da manhã, a mesma jornalista faz uma suposta “actualização” da notícia na edição on line e onde se passa a ler isto (e atenção que a frase nem sequer termina com ponto). 

Marcelo. Não há momentos incómodos para visitar

E no final acrescenta a seguinte nota:Texto publicado na edição do Expresso de 30/04/2016 atualizado com informação relativa a encontro com filho do pintor Malangatana. Ora, para o jornal, nao se tratou sequer de um “erro” grosseiro, mas de informação que estava desactualizada. É uma perspectiva de ver as coisas…

A paixão do jornalismo no News Museum


odiplomata,

“É a maior experiência de Media e Comunicação da Europa.” É desta forma que o News Museum se apresenta no seu site e posso garantir, porque tive o privilégio de o visitar antes de ser inaugurado na noite de 24 para 25, que não é exagero. Aliás, conta quem sabe, este novo espaço dedicado à história do jornalismo e comunicação é bastante superior àquele que já existe há alguns anos em Washington. Na verdade, da parte dos responsáveis do News Museum, houve um cuidado em inovar e apresentar algo diferenciado ao que já existia. O resultado é simplesmente surpreendente, numa mistura muito bem conseguida entre o conteúdo e a forma.

 

Este projecto teve o contributo de vários profissionais da comunicação, nomeadamente de grandes referências do jornalismo em Portugal, de meios de comunicação social, e envolveu, seguramente, um investimento de muitos milhares de euros e o recurso a “know how” e software desenvolvido de raiz por algumas das empresas do grupo LPM Comunicação.

 

O News Museum representa um marco importante em Portugal a vários níveis. Não apenas pelo projecto em si, que é simplesmente obrigatório para quem gosta de jornalismo e comunicação e para quem cultiva o conhecimento da história e da sociedade contemporâneas, mas também porque materializa a visão daquilo que, como eu falava com alguém durante a visita, é um projecto inédito de gestão de reputação e notoriedade. Algo a que em Portugal não estamos habituados a ver por parte do sector privado, já que, normalmente, tudo o que é criado em termos de oferta do conhecimento à sociedade ou é feito à “sombra” do Estado ou é desenvolvido por empresas que durante décadas foram monopolistas e que hoje se apresentam como “privadas”, e quase que têm uma obrigação moral de servir a comunidade para além dos serviços que “cobram”.

 

O News Museum não surge de qualquer obrigação empresarial, mas sim de uma espécie de filantropia misturada com um legítimo interesse próprio. Embora tenha sido concretizado por uma equipa específica, é a Luís Paixão Martins que se deve a sua criação, o mesmo que há cerca de trinta anos trouxe para Portugal conceitos e metodologias de comunicação insitutucional para o mundo económico, empresarial e, mais tarde, político. A verdade é que houve um antes e um depois do LPM no que à disciplina das “public relations” em Portugal diz respeito. Tornou-se num dos homens mais relevantes da comunicação institucional em Portugal, se não o mais importante, construindo uma reputação sólida e uma empresa de sucesso, e hoje dá corpo àquilo que é, sobretudo, um monumento vivo e interactivo à paixão do jornalismo.

Previsões


odiplomata,

“Tivesse a economia americana tido um desempenho como aquele que o Congressional Budget Office previra em Agosto de 2009 – já depois das medidas de estímulo aprovadas e da recuperação em andamento – e o PIB dos Estados Unidos teria de ser hoje 1,3 bilião de dólares (trillion em inglês) maior do que aquilo que é.”

Esta constatação é de Lawrence H. Summers, antigo Secretário do Tesouro, que, na última edição da Foreign Affairs, refere que ninguém esperava que os níveis de recuperação do crescimento económico nos últimos anos fossem tão tímidos. Um erro de expectativa criado, em parte, pela experiência de outras recessões, a seguir às quais se assistiu a uma recuperação relativamente rápida, tanto ao nível do desempenho económico, como na criação de emprego. Desta vez, e apesar de todas as medidas de estímulo e das “agressivas políticas monetárias” da Reserva Federal, não foi assim.

Summers, actualmente professor de Economia em Harvard, lembra que em 2009 ninguém imaginaria que as taxas de juro norte-americanas estivessem perto do zero durante seis anos, que na Europa viessem mesmo para terreno negativo, e que os bancos centrais do G7 inundassem massivamente os respectivos mercados com liquidez. Mais, diz Summers, que se isto fosse dito na altura a qualquer analista ou economista, este não teria qualquer dúvida em prever um problema de inflação generalizada nas economias desenvolvidas. Ora, a verdade é que nem esta previsão se concretizaria.

Seja como for, por mais modelos matemáticos e sistemas estatísticos que se usem na elaboração de uma qualquer previsão económica, o mais provável é que esta nunca se concretize exactamente nos moldes em que foi pensada. O que é perfeitamente aceitável, já que existem inúmeros factores (alguns até à partida desconhecidos) que são de impossível antecipação.

É, por isso, fundamental que, além de toda a componente científica e técnica, exista bom senso e sensibilidade por parte de quem elabora ou defende uma previsão, porque, por vezes, é a essa componente subjectiva que se deve a credibilidade (e o sucesso) de algumas previsões, não apenas no campo económico, mas também noutras áreas de interesse da sociedade.