Previsões


odiplomata,

“Tivesse a economia americana tido um desempenho como aquele que o Congressional Budget Office previra em Agosto de 2009 – já depois das medidas de estímulo aprovadas e da recuperação em andamento – e o PIB dos Estados Unidos teria de ser hoje 1,3 bilião de dólares (trillion em inglês) maior do que aquilo que é.”

Esta constatação é de Lawrence H. Summers, antigo Secretário do Tesouro, que, na última edição da Foreign Affairs, refere que ninguém esperava que os níveis de recuperação do crescimento económico nos últimos anos fossem tão tímidos. Um erro de expectativa criado, em parte, pela experiência de outras recessões, a seguir às quais se assistiu a uma recuperação relativamente rápida, tanto ao nível do desempenho económico, como na criação de emprego. Desta vez, e apesar de todas as medidas de estímulo e das “agressivas políticas monetárias” da Reserva Federal, não foi assim.

Summers, actualmente professor de Economia em Harvard, lembra que em 2009 ninguém imaginaria que as taxas de juro norte-americanas estivessem perto do zero durante seis anos, que na Europa viessem mesmo para terreno negativo, e que os bancos centrais do G7 inundassem massivamente os respectivos mercados com liquidez. Mais, diz Summers, que se isto fosse dito na altura a qualquer analista ou economista, este não teria qualquer dúvida em prever um problema de inflação generalizada nas economias desenvolvidas. Ora, a verdade é que nem esta previsão se concretizaria.

Seja como for, por mais modelos matemáticos e sistemas estatísticos que se usem na elaboração de uma qualquer previsão económica, o mais provável é que esta nunca se concretize exactamente nos moldes em que foi pensada. O que é perfeitamente aceitável, já que existem inúmeros factores (alguns até à partida desconhecidos) que são de impossível antecipação.

É, por isso, fundamental que, além de toda a componente científica e técnica, exista bom senso e sensibilidade por parte de quem elabora ou defende uma previsão, porque, por vezes, é a essa componente subjectiva que se deve a credibilidade (e o sucesso) de algumas previsões, não apenas no campo económico, mas também noutras áreas de interesse da sociedade.

0 comentários em “Previsões”

  1. Caro Senhor Alexandre Guerra:
    Ideia semelhante foi expressa há dias pelo economista e deputado independente pelo PS, Paulo Trigo Pereira, numa inquirição a seis personalidades sobre o PEC.
    Dizia ele, na linha do que o senhor agora expressa no seu post:
    «No documento de estratégia orçamental 2012-16 apresentado pelo governo PSD-CDS em Bruxelas, previa-se um défice orçamental para 2015 de 1% do PIB e um rácio da dívida no PIB de 109,5%.
    Ficámos a saber agora pelo Eurostat que aqueles valores serão respetivamente de 4,4% (incluindo efeito Banif) e de 129%.
    Este otimismo das projeções orçamentais de médio prazo em relação à realidade tem sido uma constante com governos de várias orientações políticas (como documentado pelo Conselho das Finanças Públicas) e em vários países.
    Valerá mesmo a pena apresentar e analisar documentos desta natureza?
    Acho que sim. Mesmo que o Programa de Estabilidade (PE), agora apresentado não seja cumprido no seu detalhe, ele fornece uma orientação clara.
    É aliás sabendo isso que anualmente se atualiza o PE.»
    Paulo Trigo Pereira, O caminho das reformas e da consolidação orçamental, in jornal Observador.

  2. Permita o Alexandre que afirme com toda a naturalidade e certeza, e sem tiques do politicamente correcto, que a maioria dos economistas não sabe o que anda a fazer e tampouco o que diz. Fazem lembrar os garimpeiros que, no escuro, vão mudando aleatoriamente de local na esperança de encontrar uma qualquer pepita.

    Mas devo fundamentar o porquê desta afirmação. Esta traduz-se na constatação de terem transformado os gráficos financeiros numa espécie de tabela periódica que determina a rigidez e composição dos seus elementos. Mas a economia, para quem sabe, tem elementos fiáveis que determinam a previsibilidade de seu comportamento a médio e longo prazo.

    A leitura desses elementos passa por verificar as transacções das commodities, nomeadamente o petróleo, o ferro, o aço e outras referências, que oferecem a visão sobre como estão e irão comportar-se as indústrias e o fluxo de bens transaccionáveis.
    Associada a esta leitura, determinar com rigor os movimentos especulativos das empresas cotadas nas principais bolsas cujo valores são papeis, acções, que não reflectem os stocks das matérias primas realmente em seu poder. E aqui é necessário ter uma visão política sobre os acontecimentos futuros nas mais diversas regiões.

    Logo, o saneamento financeiro, refiro-me aos activos tóxicos, que foi levado a cabo nos EUA, sendo uma medida correcta e que gerou resultados juntamente com outras medidas que dizem respeito ao evitar do colapso da indústria automóvel e ao estímulo da economia por via do consumo da classe média, poderia ter sido mais bem aproveitado se tivéssemos uma UE que soubesse o que fazia e que acompanhasse a evolução industrial e comercial nos mais diversos continentes. Pois como sociedades de trocas que hoje vivemos a interdependência devia ter sido equacionada.

    Acontece que a previsibilidade dos modelos políticos vigentes e dominantes conduziu a que a única saída possível para a situação que se vive seja precisamente a injecção de capital estatal na economia, pelas diversas vias que se conhecem, para contrariar o ciclo de sucessivos agravamentos da mesma com base no dogma de que o sector financeiro resgatado resolveria tudo sem se equacionar que depois o mesmo não se manteria à tona sem que os verdadeiros agentes dessa mesma economia, os consumidores, pudessem originar as normais transacções que sustentam tal sistema, isto é, a relação comercial entre bancos e empresas e particulares. Logo, também não é de estranhar o volume de crédito malparado por via da asfixia económica que resultou na descapitalização dos consumidores.

    É mentira que sejam as empresas que geram empregos. São os consumidores que as originam. São estes os mercados.

    Concluindo, O PE tem vindo a assentar sobre a ignorância e a instabilidade de todos estes agentes que a propagam e reflectem.

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