A diplomacia do “vai-se andando”


odiplomata,

Portugal é o país do “vai-se andando”, do “assim-assim”. Pergunta-se a alguém como está e lá vem a invariável resposta: “Vai-se andando” ou “assim-assim”. O português, por natureza, não assume um estado de espírito polarizado, nem que está bem, nem que está mal. Prefere o conforto da zona intermédia, para não ter que gerir expectativas elevadas se estiver tudo bem, evitando, assim, as desilusões, e para não ter que assumir os malefícios se estiver tudo mal, fugindo, deste modo, às depressões. Não se veja nisto um defeito ou uma crítica, até porque esta posição contempla uma certa sabedoria e uma dose de realismo e moderação, ou seja, uma aceitação daquilo que é. Os portugueses, ou os “indígenas”, como diria Vasco Pulido Valente, viveram sempre num certo estádio de alheamento de outras realidades, mas a verdade é que parecem ter-se dado bem com isso, escapando às grandes tragédias da História.

 

Vendo bem as coisas, Portugal é assim há quase 900 anos, “vai andando” ao longo da História, gerindo os seus interesses, sem assumir posições dolorosas ou dramáticas, sem escolher campos ou causas. Quando se estuda a história político-diplomática portuguesa compreende-se a razão pela qual o nosso país foi conseguindo navegar nos conturbados tempos da História sem perder a sua independência e nacionalidade, conseguindo feitos admiráveis para um Estado desprovido do poder das armas. Um desses feitos passa precisamente pela capacidade que Portugal tem de levar os seus interesses por diante ou de resistir a ameaças de grandes potências quando foi confrontado com elas. Soube reagir a momentos de crise e resistir contra o inimigo dentro das suas fronteiras.

 

É um dos Estados-nação mais antigos do mundo, lançou a globalização, chegou a dividir o mundo em dois, construiu impérios, obteve riqueza, propagou uma língua global, criou laços emocionais com os povos colonizados como mais nenhuma antiga potência criou. Esteve sempre presente nos grandes concertos europeus e mesmo quando não alinhou claramente junto dos aliados na IIGM, conseguiu sair dessa guerra como um dos “vencedores”. Embora seja membro fundador da NATO, é visto como um país pacífico e um dos mais seguros do mundo. Apesar de participar em inúmeras missões militares contra o terrorismo, está fora do radar do fundamentalismo islâmico. Está totalmente integrado nos principais fóruns do sistema internacional e, às vezes, muitos esquecem que, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, Portugal está entre a elite dos 50 países mais desenvolvidos do mundo.

 

Nos últimos anos, conseguiu feitos absolutamente notáveis ao nível da sua diplomacia, projectando uma imagem externa muito para lá daquilo que é o seu efectivo poder. Promoveu cimeiras históricas, forjou tratados internacionais e até elegeu líderes internacionais. Portugal, neste seu pequeno canto, posiciona-se hoje novamente no topo do mundo. A poderosa Espanha vai olhando para Portugal com alguma inveja da nossa diplomacia. E tudo isto para dizer o quê? Simplesmente, para dizer que em matéria de política externa, a nossa diplomacia merece todo o crédito.

 

É verdade que Portugal não esteve no grupo da frente na resposta dada à Rússia na sequência do envenenamento de um espião duplo e da sua filha em território britânico. À primeira vista, pode ser considerada uma traição à aliança histórica com a Inglaterra, mas, a verdade, é que a diplomacia contém muito mais do que aquilo que é aparentemente público. Desconhece-se se houve conversas prévias entre Lisboa e Londres, desconhece-se qual o enquadramento para Portugal ter agido da forma que agiu. Mas mais importante, e apesar das suspeitas, ainda não foi revelada uma prova concreta que envolva directamente o Kremlin neste acto. Se houvesse, era muito provável que Londres a revelasse aos seus aliados. O que se sabe é que, num segundo momento, as Necessidades optaram por chamar o embaixador português a Lisboa para “consultas”. É um “instrumento” ao serviço da diplomacia e que tem o seu significado. Noutros tempos, aliás, esse era um gesto que podia ser visto como um prenúncio de declaração de guerra.

 

Muitos dirão que Portugal agiu tarde e que já tinha pouca margem para não fazer nada, mas o tempo dirá se a decisão de Lisboa foi acertada ou não. O que também já se percebeu, a julgar por algumas notícias, é o cinismo de algumas chancelarias, em que ao mesmo tempo que expulsam diplomatas cimentam as relações comerciais com Moscovo. Portugal, mais uma vez, optou por um registo “ponderado”, evitando assumir posições polarizadas. Foi alvo de críticas, mas convém não esquecer que ao longo da sua História, não se tem dado nada mal com essa estratégia.

11 comentários em “A diplomacia do “vai-se andando””

  1. Esqueceu-se da geografia – canto da Europa – da pobreza do território e dos interesses Ingleses para a perenidade de Portugal

  2. Diplomacia:

    Os russos vão retaliar a expulsão dos 3 tecnicosos Kamovianos, vão expulsar tres funcionários da TAP!

  3. Correndo o risco de parecer uma troll, tenho muita dificuldade em perceber o fascínio com o “pôr portugueses em lugares”, a começar pelo SGNU. Sim, é um cargo de prestígio, a eleição foi difícil e foi um lindo trabalho diplomático, e o senhor é fantástico e bla bla bla… mas às vezes parece que é precisamente por Portugal ser inofensivo e irrelevante que conseguimos os lugares. E não vejo que benefícios é que tanto líder internacional tem trazido para Portugal.

    Quanto à não expulsão de russos, estivemos bem. A histeria colectiva foi bastante triste de observar.

  4. Era uma vez um país onde não existia corrupção nem bandidos na política. Nesse país não fazia qualquer sentido alguém alguma vez pensar que os seus governantes pudessem estar comprometidos com um país terceiro ao bloco a que pertence. Mesmo que existissem contratações de, por exemplo, equipamentos de combate a incêndio que nunca provaram terem sido um boa escolha e cuja manutenção sempre teria sido extraordinariamente cara e dependente do país fornecedor.
    Imaginemos que nesse país imaginário, ocorreram incidentes de tal gravidade que os ditos equipamentos mais uma vez falharam e desta vez todas as contratações estranhas passaram a ser observadas com mais atenção. Era natural que, nesse país imaginário, fosse necessário fabricar um incidente paralelo para justificar a interrupção do serviço e a substituição dos tais equipamentos. Claro que isso iria incomodar o país fornecedor e talvez isso enfraquecesse a capacidade de o país comprador tomar opções diplomáticas alinhadas com o bloco a que pertence. Nesse hipotético cenário seria sempre menos arriscado ser modesto e contido nas manifestações, não fosse o país fornecedor revelar alguma informação que expusesse os decisores da referida contratação.
    Se a isto se acumulasse um episódio de um espião do país comprador ter sido condenado por traição a favor do já referido país fornecedor tudo poderia ser estranho demais.
    Felizmente isto seria impossível em Portugal.

  5. Exactamente. O deixa andar, ou de modo mais positivo, o “não polarizar” é o que se chama civilização. A alternativa, como a História prova, é a barbarie

    1. “Exactamente?!”

      Vamos imaginar uma Grê Bretanha “deixa andar” nas vésperas da Segunda Grende Guerra…

      “All that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing”

  6. “Ir andando” não é, forçosamente, negativo, como já ficou demonstrado. “Ir andando” não é estar parado. É reduzir a velocidade do andamento, é poder observar, ponderar, ver as encruzilhadas, comandar o movimento com antecipação e evitar a colisão. Grande sabedoria! O importante é saber por onde se anda e para onde se anda.

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