O camponês da Ventosa


odiplomata,

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Foto de Adriano Miranda/Público

 

Não está a chorar, mas parece que já chorou. E muito. Talvez as lágrimas já se tenham evaporado com o calor infernal das chamas. O seu olhar nada espelha. A alma deve estar vazia… É o olhar de um homem devastado, não pela vida, porque estes são homens duros, habituados às agruras da terra, e muito menos pela Mãe Natureza, com quem deverá ter tido uma relação feliz de muitas décadas. Não, quem o prostrou fomos todos nós, enquanto sociedade, enquanto colectivo social, enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Governo. Fomos nós quem quebrou o espírito daquele camponês da Ventosa e o fez chorar.
A vida foi-lhe poupada pelo capricho cínico das chamas, mas sobre si abateu-se um céu dantesco, como que a lembrar ao camponês que de nada lhe serve a prece que parece estar a fazer, porque ninguém vem em seu auxílio. Está entregue ao seu triste destino, condenado a vaguear e a morrer, um dia, esquecido e sem nada. Até lá, vai sendo traído pelas memórias felizes dos tempos das lides nas suas terras, no trato dos animais, na sua casa, nas suas humildes posses que durante uma vida tentou juntar. Quanto mais a dor se vai instalando no espírito do camponês, mais nós, todos, vamos esquecendo que um dia aconteceram duas calamidades extraordinárias no mesmo Verão, que ceifaram mais de 100 vidas e destruíram literalmente parte de um país. Vamos esquecendo que, por acção ou omissão, acabámos por ser responsáveis pelo “duplo atentado” terrorista que auto-infligimos ao nosso país. E vamos contemporizando com todos aqueles que, pelas inerências das suas funções, mais obrigações têm na resposta de conforto e ajuda àqueles que mais sofreram com tudo o que se passou.
O olhar do camponês da Ventosa, que nos é trazido pela lente do Adriano Miranda no Público, atinge-nos no âmago dos nossos valores e princípios civilizacionais, porque nos lembra que, afinal, aquele Portugal que está na moda, aquele Portugal sofisticado e que é uma “estrela” internacional, é o mesmo Portugal que se deixou destruir, que deixou os seus cidadãos desprotegidos, morrerem barbaramente nas estradas, nas aldeias e vilas. E que vergonha tenho deste Portugal…

Paixão e sangue


odiplomata,

Este texto não pretende identificar os culpados por aquilo que se tem passado em Espanha, mas propõe-se a fazer uma leitura mais fria e racional, porventura, mais cínica e politicamente incorrecta dos acontecimentos em questão. Governo central, de um lado, e Generalitat, do outro, terão, eventualmente, razões várias para justificar os seus actos, o que não quer dizer que sejam legítimas ou até mesmo aceitáveis para um observador externo. Mas o que interessa mesmo é analisar a forma como os seus intervenientes olham para os argumentos apresentados por cada um dos campos em confronto. E, sobretudo, perceber-se até que ponto as ideias em confronto são de tal maneira mobilizadoras para que o povo saia à rua em “armas”, disposto a dar a vida pela independência. A secessão de uma região é nada mais menos do que uma questão de sobrevivência de um Estado, é um assunto literalmente de vida ou de morte. Fazer uma ruptura secessionista pacífica dentro de um Estado de Direito com um quadro institucional instituído é algo, por definição, contraditório. É um contrassenso, porque nenhum Governo aceita perder parte do seu território a não ser que tal solução lhe seja imposta pela persuasão da força. Tem sido assim ao longo da História. A “via negocial” é um eufemismo para aquilo que costuma ser a resignação forçada por parte de um Governo que, em determinada altura da sua história, seja obrigado a abdicar de parte do seu território.

 

O referendo da Catalunha foi uma farsa, não tanto pelo processo em si (totalmente descredibilizado), mas como elemento catalisador de uma independência que, a acontecer, deixaria a Espanha prostrada. Um movimento destes, que infligiria um rude golpe na existência daquele Estado, dificilmente aconteceria sem paixão e sangue. O que aconteceu no Domingo foi mais um espectáculo mediático, numa sociedade ocidental já pouco habituada a fracturas sangrentas no seu seio no que a nacionalismos diz respeito. Falou-se do excesso de violência no dia do referendo, com aquelas imagens sentimentais que hoje em dia facilmente se propagam pelas redes sociais, do polícia a ser abraçado pelo cidadão ou da manifestante a oferecer uma flor a um agente da autoridade. Pelo meio, mostram-se umas cabeças partidas ou uns arranhões e está feita a encenação para as manchetes dos jornais. Pois a leitura que se deve fazer é precisamente a contrária, ou seja, para o caldeirão que estava a ser criado, e tendo em conta o histórico de sangue da história espanhola, a violência foi praticamente inexistente (e ainda bem). A maior parte dos oitocentos feridos ou são ligeiros ou são ataques de ansiedade.

 

A independência de uma região é coisa séria, não vai lá com likes no Facebook, tweets ou “manifs” de jovens urbanos e elites intelectuais que abraçam uma causa que nem eles próprios compreendem o seu alcance. E não vai lá com líderes que não percebem que nem todo o povo está com eles nos intentos secessionistas. Avançar com uma “brincadeira” destas é de uma irresponsabilidade quase criminosa, porque acaba por criar clivagens dentro da própria sociedade, neste caso a catalã. A independência de uma região deve ser sempre um acto civilizacional, de progresso, de crença positivista nos direitos humanos e nunca um processo de burocracias políticas e judiciais ao serviço do capricho de alguns. A independência é o fim último, almejado para que um povo alcance um estádio de libertação com vista ao bem comum. E tal só pode acontecer com muito sacrifício, crença, empenho total e, muito importante, com a inspiração dos seus líderes. Alguém acredita que o senhor Carles Puigdemont estaria disposto a dar a vida pela independência da Catalunha? Poderá ser exagerada esta questão, mas a verdade é que no passado já tantos outros deram as suas vidas para ver os seus territórios independentes (e não se está a falar de um passado assim tão distante, mesmo na Europa). A História tem demonstrado que uma independência só se consegue com paixão e sangue. E isso os catalães demonstraram no Domingo que não estão dispostos a dar.

Crianças


odiplomata,

Tudo tem a sua escala. Quando uma mãe, um pai, está no parque infantil com o seu filho ou filhos, normalmente, deixa-os à vontade, naquele espaço controlado, onde os seus ocupantes têm o mesmo código de “conduta” e lógica de discurso (na verdade, ausência dela) e são livres de fazer as diabruras que lhes são permitidas pela tenríssima idade. Os adultos, de longe, vão “deitando o olho” para assegurar que os disparates não ultrapassam os limites aceitáveis e desculpáveis para aquelas pequeninas amostras de gente. Caso o façam, não tendo bem a noção das consequências, de imediato os pais intercedem e males maiores são evitados. No final, todos vão para casa contentes sem danos a reportar. Com alguma sorte, é precisamente isso que se passa entre Donald Trump e Kim Jong-un, ou seja, duas crianças a disparatar no “recreio”, enquanto os “adultos” (espera-se) vão controlando os comportamentos para que nenhum deles cometa a infantilidade de carregar no “botão”. E quem são esses adultos? O aparelho em Washington, as estruturas e sub-estruturas das instituições americanas e também a gente responsável e com senso que está nas chancelarias de Pequim e Moscovo. E, sabe-se lá, se no meio do esquizofrénico regime de Pyongyang não haja alguém na cúpula do poder dotado de uma clarividência já (pelo menos) na idade juvenil.

Vencer com paixão


odiplomata,

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No desporto há dois tipos de vencedores: aqueles que, de acordo com as suas competências e capacidades, vão gerindo a sua carreira de forma metódica e cuidada, com muito trabalho e empenho, apoiando-se e confiando numa equipa para alcançar os seus êxitos; e há aqueles que, para lá disso tudo e do talento que é sempre preciso ter, emanam uma forte paixão, uma estética intangível, uma irreverência e um espírito combativo destemido, muitas vezes em desafios quase condenados ao fracasso. São aqueles atletas que arriscam sempre, que vão contra tudo e contra todos. São aqueles atletas que emocionam, que fazem sonhar, que levam crianças e adultos a chorar pelos seus feitos ou desaires. Alberto Contador é um desses atletas. O que se viu este Sábado na penúltima e decisiva etapa da Vuelta na subida ao mítico Alto do Angliru foi grandioso e memorável, daqueles momentos que ficam na memória de todos os que gostam de desporto, em geral, e de ciclismo, em particular. Era o último desafio de Contador antes de terminar a sua carreira, com o fim da Vuelta este Domingo. Ele sabia que tinha de chegar em primeiro ao topo do “inferno” do Angliru. Todos nós esperávamos isso, como se tratasse de um final épico cinematográfico. Contador atacou logo ao início da subida e foi passando por todos os ciclistas à sua frente. Paixão, sacrifício, talento, arte… deixou tudo na estrada, ao mesmo tempo que era retribuído pela euforia de milhares de pessoas em delírio. No fim, ganhou. O desporto assim, é simplesmente belo.

Uma obrigação cívica


odiplomata,

Estranho país este, onde metade está a banhos e a outra metade se auto-destrói. Dizem que a culpa é do calor e do vento, mas, de acordo com os dados divulgados há dias pelo Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais (EFFIS) da Comissão Europeia, desde 1 de Janeiro até 5 de Agosto, arderam quase 140 mil hectares em Portugal, ou seja, mais de um terço de toda a área ardida nos países da União Europeia nesse mesmo período. É a falência do Estado na protecção do seu território perante uma “ameaça” que nos destrói. O Inferno veio passar o Verão a Portugal e, confortavelmente, vai-se passeando por montes, serras, vales e aldeias. Para trás, fica a terra queimada e, em lágrimas, os despojados dos bens de toda uma vida. É certo que estamos em período estival, pouco convidativo a grande reflexões, mas tudo isto é demasiado triste para não deixarmos de pensar no país que vamos deixar aos nossos filhos e netos. É uma obrigação cívica.

Que grande lição deu Gatlin aos cosmopolitas londrinos


odiplomata,

Amazing… Aos 35 anos e ainda por cima a correr na pista 8 (das piores), Justin Gatlin sagra-se campeão do mundo dos 100 metros no Estádio Olímpico de Londres. O que foi também impressionante, mas pela negativa, foi ver os tão cosmopolitas londrinos a assobiarem e a vaiarem Gatlin das três vezes que foi à pista para as eliminatórias e final. Tratado como se fosse um proscrito. Lamentável aquilo que lhe fizeram mal cortou a linha de meta ao vencer a medalha de ouro. Em tantos anos que acompanho eventos deste género nunca tinha visto nada semelhante. Foi um comportamento vergonhoso com alguém que, apesar de ter caído nas malhas do dopping há uns anos, cumpriu o seu longo castigo de suspensão e teve direito a recomeçar a sua carreira. Uma sociedade que não percebe nem respeita este princípio basilar de um Estado de Direito, é porque está doente.

 

Fazer o papel de Deus


odiplomata,

Um homem, uma mulher… Um casal quer ter um filho, mas um deles tem uma doença crónica hereditária, ou seja, uma deformação genética que vai passando de geração em geração. São inúmeras as doenças e os dramas… Mas, imagine-se que, numa espécie de milagre da Criação, os cientistas arranjam forma de reprogramar o ADN do embrião do tão esperado filho. E uma criança que, muito provavelmente, poderia “herdar” a doença dos progenitores tem agora pela frente toda uma vida saudável. Foi o advento dessa revolução biotecnológia que a revista Nature ontem anunciou. Qual é a questão disruptiva em tudo isto? É que, para muitos, o papel de Deus está reservado apenas ao próprio.

 

PS: Já agora, e passando a auto-promoção, recupero um post do Pedro Correia no qual, simpaticamente, recomendou o meu livro lançado em Novembro passado, que, precisamente, aborda estas temáticas.

John McCain


odiplomata,

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Há uns dias Barack Obama referia-se a John McCain como um herói americano e um dos mais corajosos lutadores que conheceu. E num acto de força e encorajamento, o ex-Presidente escrevia no Twitter que o “cancro não sabia com quem se tinha metido”, numa alusão ao tumor cerebral diagnosticado a McCain. Eu só posso subscrever as palavras de Obama, sobre um homem e político republicano que tenho acompanhado ao longo dos anos e que, acima de tudo, foi sempre fiel aos seus valores e princípios. Herói de guerra, nunca se deixou enlamear pelas guerras intestinas partidárias do Congresso, em defesa daquilo em que acredita e sempre a pensar no superior interesse dos seus concidadãos. Ontem à noite, McCain voltou a ser um herói e um lutador ao votar ao lado dos democratas contra o desmantelamento do Obamacare, um dos mais importantes saltos civilizacionais da sociedade americana das últimas décadas. Ele e mais as colegas Susan Collins e Lisa Murkowski desafiaram a “disciplina partidária” tão cegamente seguida em Portugal e foram contra o seu próprio Partido Republicano. No final, a votação no Senado ficou 51-49 a favor da manutenção do Obamacare. Coube a McCain o voto decisivo e é nesses momentos em que se definem os bravos lutadores, que se desprendem de interesses e conivências em benefícios egoístas, para assumirem um combate duro, muitas vezes solitário, em prol de um bem maior.

Do sublime ao grau zero


odiplomata,

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Através da lente de João Silva, vê-se Ken Oosterbroek, morto durante os incidentes de Tokosa, África do Sul, a ser carregado pelo seu colega Gary Bernard/18 de Abril de 1994

 

Durante algum tempo, quando era mais jovem e iniciava o meu percurso universitário no curso de Relações Internacionais, tive um recorte de jornal com esta fotografia colado na parede do meu quarto. A imagem abria uma janela para realidades dramáticas, mas ao mesmo tempo alimentava-me o sonho que um dia ambicionava concretizar. Muito por inspiração do meu pai, poucas dúvidas tinha na altura de que iria ser jornalista. Mas ao contrário dele, a minha paixão puxava-me para a área do jornalismo de internacional (o que veio a acontecer). A política nacional pouco me interessava, o que eu queria mesmo era acompanhar as grandes questões do mundo e lançar-me ao desafio supremo: ser repórter de guerra. No âmbito da política internacional, ainda tive o privilégio de fazer umas coisas engraçadas, para lá do tradicional jornalismo de takes da Reuters, da AFP ou da AP, e quanto a reportagem de guerra, tive a oportunidade de passar o primeiro verão explosivo da intifada de al-Aqsa na Palestina e Faixa de Gaza (jornalistas portugueses nem vê-los). Rebentavam bombas todas as semanas em Telavive e Jerusalém e os “territórios ocupados” viviam a ferro e fogo, sob o cerco das Forças de Segurança Israelitas. Voltei lá no ano seguinte por uns dias, quer a Gaza, quer a Ramalhah e, por coincidência, apanhei o bombardeamento à Mukata de Yasser Arafat.

 

Voltando à fotografia, ela lembrava-me também que os verdadeiros jornalistas de guerra (e não aqueles que dizem que são) podem às vezes ser eles as próprias vítimas das “histórias” que cobrem, mas mesmo assim sem nunca perderem o seu sentido profissional e, sobretudo, de missão. Os lamentos e os choros ficam para depois. Mas afinal o que se vê nesta fotografia? Vê-se o fotojornalista Ken Oosterbroek a ser carregado pelo seu colega Gary Bernard, depois de ter sido morto num fogo cruzado entre elementos da força de manutenção de paz e apoiantes do ANC na cidade sul-africana de Tokoza, a 18 de Abril de 1994, poucos dias antes das primeiras eleições livres pós-Aparheid. Só que esta imagem, de certa maneira icónica pelo que representa, só é possível vê-la porque naquele momento lá estava João Silva, fotojornalista luso-sul-africano, que, perante a morte do seu amigo, manteve o sangue-frio e, refugiando-se atrás da lente, fez aquilo que tinha que fazer. O seu trabalho.

 

Morria assim um dos quatro elementos do famoso Bang Bang Club que, além de Silva e de Oosterbroek, contava ainda com Kevin Carter e Greg Marinovich. Autênticos companheiros, destemidos repórteres de guerra que durante anos trouxeram ao mundo os horrores dos conflitos através das suas lentes. Os quatros fotojornalistas, todos eles premiados, cobriram juntos a violência na África do Sul durante vários anos até 1994, ano das eleições que deram a vitória a Nelson Mandela e que puseram fim ao regime de Apartheid.

 

A violência e a pressão psicológica a que estiveram expostos, ao longo de quase toda uma vida profissional, e os acontecimentos dramáticos de Tokoza, acabaram por levar ao suicídio de Carter, logo em Julho de 1994. Mais tarde, em 2000, Silva e Marinovich lançaram o livro The Bang Bang Club: Snapshots from a Hidden War, no qual os dois fotojornalistas espelharam as suas experiências, angústias e medos. Mas o sofrimento no seio do “clube” continuou, tendo João Silva, durante muitos anos fotojornalista no New York Times, sofrido um grave acidente em Outubro de 2010, ao pisar uma mina durante uma patrulha de soldados americanos em Kandahar. As suas duas pernas abaixo do joelho ficaram estilhaçadas, mas a sua máquina continuou a disparar. Com um enorme espírito de sacrifício e a ajuda de próteses fornecidas pelo Exército americano, João Silva recuperou, voltou ao activo e até o próprio Barack Obama fez questão de o receber na Sala Oval.

 

Perguntará o leitor a que propósito escrevo este texto. Escrevo-o porque, acima de tudo, considero que o (bom) jornalismo, seja ele de guerra, de sociedade ou de cultura, é essencial para termos uma sociedade livre e democrática. O que acima escrevi contempla uma ideia genérica de princípios concretos que devem nortear o jornalista. Sacrifício, coragem, inteligência, humildade, camaradagem, bom senso, princípios que se deveriam aplicar no quotidiano de qualquer jornalista, seja aquele que esteja a tentar entrar em Raqqa, como aquele que faz a cobertura de um assalto numa bomba de gasolina em Odivelas ou aquele que acompanha um comício de uma qualquer campanha eleitoral. São princípios orientadores de uma profissão que se quer sublime, mas que, infelizmente, em Portugal, chegou ao grau zero. É um exercício penoso e lamentável, para quem, como eu, e por força das circunstâncias profissionais, se vê obrigado a acompanhar quase ao minuto tudo o que se vai dizendo ou escrevendo nos órgãos de comunicação social, tudo o que os “jornalistas” vão twittando ou postando no Facebook, perdendo a compostura e a noção de respeito pela sua própria profissão, toda a arrogância e vaidade camufladas de pseudo-sabedoria. Mas é nestes momentos que gosto de voltar a olhar para a fotografia de João Silva e relembrar a história do Bang Bang Club para continuar a acreditar que ainda há jornalistas dignos desse privilégio.

Incêndios, uma questão de soberania nacional*


odiplomata,

Dizem os manuais de Ciência Política que os elementos constitutivos do Estado são três: Governo, Povo e Território. Este tríptico assume um estatuto quase divino a partir do momento em que a integridade e a inviolabilidade de cada elemento são essenciais para a manutenção da soberania de um Estado. Um Estado que veja ameaçado o seu Território, o seu Povo ou o seu Governo, é um Estado que se vê ameaçado a si próprio, que vê ameaçada a sua soberania. É verdade que as fronteiras da soberania têm revelado uma enorme elasticidade, levando a que os Estados redefinam historicamente os conceitos de interesse e de defesa nacional. No entanto, nos Estados ditos ocidentais, qualquer ameaça que recaia sobre um daqueles três elementos deve ser vista como contrária ao interesse nacional e um perigo para a defesa nacional.

Daqueles três elementos, talvez o do Povo e o do Governo tenham sido os mais imutáveis desde a antiguidade clássica. Na verdade, os seus conceitos pouco se alteraram e, como tal, também as suas ameaças. Já o conceito de Território tem sofrido várias mutações ao longo da história dos Estados. O Território enquanto mera delimitação geográfica já faz pouco sentido em países como Portugal, integrados em zonas geopolíticas estáveis e consolidadas. Ou seja, perspectivar a ameaça com base neste princípio é um exercício obsoleto.

Se durante muitos anos, décadas e até séculos, Portugal teve parte do seu dispositivo militar colocado no terreno em função da fronteira com Espanha, ora, hoje em dia, nada disso faria sentido. Mas isto não quer dizer que o Território tenha perdido peso no tal tríptico divino aqui referido. Pelo contrário. O conceito evoluiu à medida que as sociedades evoluíram. O Território deixou de ser um assunto de fronteiras. Hoje, o Território é, mais do que tudo, o património do País, a fonte de recursos naturais (minérios, água, petróleo, alimentos, madeira, entre outros).

Da mesma maneira que a violação física de uma fronteira de um País era imediatamente tida como uma ameaça à soberania nacional – tendo por isso os Estados adoptado mecanismos permanentes para fazer face a essa realidade –, hoje esse princípio aplica-se numa lógica diferente: o desvio de um curso de água, a destruição de culturas, a apropriação ilegal de recursos minerais (diamantes, petróleo, entre outros), o comércio ilegal de madeira, etc. Quanto mais vitais são aqueles recursos para os Estados, mais o interesse nacional está em jogo e, consequentemente, os respectivos mecanismos de prevenção, protecção e reacção.

 

Nem todos os países encaram o seu Território da mesma maneira nem o valorizam da mesma forma. Sobre essa matéria é lamentável que Portugal seja um triste exemplo, não valorizando qualquer das suas componentes. Em sentido contrário, encontram-se países como a Noruega, Israel, Egipto, Sudão, Etiópia, Brasil ou Serra Leoa (imagine-se) que, por razões diferentes, fizeram do seu território/recursos uma questão de segurança nacional. Um assunto de guerra se for caso disso. Isto não significa que as suas políticas na sua valorização e protecção sejam totalmente profícuas, mas revela uma abordagem do Estado mais actual e sensível àquilo que é a defesa da soberania nacional em termos territoriais. A Noruega vê a sua área florestal (cerca de 38 por cento do território) como um meio de sobrevivência económica e, como tal, tem políticas de preservação únicas no mundo. Israel protege os seus parcos recursos hídricos a todo o custo, com as forças de segurança israelitas (IDF) se for preciso. Também o Egipto, o Sudão ou a Somália não contemplam no que diz respeito à utilização das águas dos Nilos (azul e branco). O Brasil já há muito que assumiu a problemática da desflorestação como um assunto de superior interesse nacional, embora se trate de um combate muito difícil. E a Serra Leoa, um dos países mais pobres do mundo e devastado por uma guerra civil, conseguiu há uns anos implementar uma série de reformas para a protecção da indústria da extracção de diamantes, que tem um peso considerável no PIB do país.

Em Portugal, e com a questão das fronteiras há muito resolvida, a “defesa” do Território foi secundarizada. Deixou de ser um assunto de soberania. Hoje, as nossas terras são o palco onde todas as atrocidades acontecem, perante a complacência do Estado e do Povo. Os rios são invadidos cegamente com barragens, os habitats naturais são destruídos sem complacência, o betão invade a costa nacional sem qualquer critério e milhares de hectares ardem todos os anos sem que haja qualquer mudança no paradigma da noção de Território.

Os lamentos lá se vão ouvindo de ano para ano, elogiam-se os bombeiros voluntários, discutem-se os problemas de sempre, mas tudo fica na mesma. Imagine o leitor que um dia destes os espanhóis entravam por Portugal adentro e que os portugueses se limitavam a encolher os ombros. É um pouco o que acontece com a tragédia dos incêndios que todos os anos ameaça a soberania nacional e à qual ninguém dá a resposta adequada.

E que resposta seria essa? Poderia começar pela reconsideração e redefinição da ideia de Território ao abrigo do Conceito Estratégico de Defesa Nacional. A partir daí, seriam adoptados os mecanismos necessários para fazer face àquilo que seria considerado uma ameaça à segurança nacional. A seriedade e a veemência com que o assunto seria tratado em nada se assemelharia ao triste e incompetente espectáculo que se tem assistido sobretudo ao nível da prevenção dos incêndios. No rescaldo de cada tragédia, aquilo que os governantes vão dizendo e proclamando são apenas banalidades sem qualquer valorização da floresta portuguesa e que não perspectiva a curto prazo uma mudança de paradigma. Enquanto se espera, o território português vai sendo “atacado” ano após ano perante a passividade de todos.

O flagelo dos incêndios que neste momento assola Portugal é uma tragédia crónica que se repete quase todos os anos. As declarações de lamento vão-se sucedendo e os problemas vão sendo identificados teoricamente, a questão é que após a “época” de incêndios terminar, tudo cai no esquecimento e nada se efectiva no terreno. Para trás, Portugal volta a “perder” parte do seu território e recursos, ficando mais frágil enquanto Estado do sistema internacional. Portugal tem uma média anual de incêndios pouco normal, quando comparado com outros países, sobretudo se se constatar a relação entre a área ardida e o tamanho (reduzido) do país.

Desde há alguns anos que Adriano Moreira, nas suas inúmeras intervenções públicas, tem vindo a alertar os governantes e homens com responsabilidades de liderança em Portugal para a problemática da “exiguidade” do Estado. Na base desta preocupação está a deterioração constante dos vários factores de poder que sustentam a soberania e a “viabilidade” nacional. Factores, esses, que se materializam em diferentes realidades, tais como a extensão e a riqueza natural do território, a capacidade militar, os recursos financeiros, a vitalidade social e cultural ou os recursos agrícolas e energéticos. Todos estes factores, cuja sua importância vai-se alterando de acordo com a evolução das sociedades, acabam por influenciar directa ou indirectamente o “peso” de um Estado no sistema internacional. Ora, sempre que aqueles vão sendo delapidados, o Estado vai-se fragilizando. Muitos exemplos poderiam ser dados, mas situações como a eventual debilidade crescente das forças armadas de um país, o aumento da sua dependência financeira face a países ou entidades terceiras, ou ainda a destruição dos seus recursos naturais, que pode ir desde a contaminação dos rios, passando pela exploração descontrolada dos mares, até à destruição dos solos e florestas, dão uma ideia daquilo que se está a falar.

Se a Noruega é um bom exemplo, Portugal neste capítulo continua a ser uma triste referência na forma como lida com o seu Território. Embora seja um dos Estados da Europa com maiores recursos florestais e características naturais únicas, a verdade é que governantes, dirigentes com responsabilidade e comunidades em geral revelam um desrespeito atroz pelo ambiente que os rodeia. Se é certo que em países como a França ou Espanha ocorrem os normais incêndios de Verão, dificilmente estes assumem cronicamente contornos de tragédia nacional. Ao contrário, em Portugal fica-se com a sensação de que quase todos os anos se está perante o fatalismo de um flagelo que vai ardendo literalmente pedaços do país. O fatalismo sentido nos últimos anos resulta em grande parte de um problema de liderança em Portugal, ausente e desacreditada, mas também de uma lacuna na forma como os portugueses interiorizam o conceito de cidadania.

A verdade é que após a tragédia de 2003, pouco mais foi feito do que o investimento nalguns meios (não aéreos) e recursos humanos. Mas além da passividade e da falta de coragem política dos sucessivos governos, também os cidadãos não limparam os seus quintais ou as matas circundantes às suas casas, não organizaram os seus terrenos e nem se preocuparam em alertar as autoridades para eventuais situações potencialmente perigosas. Na verdade, tudo o que possa ser dito agora funciona apenas como “cortina de fumo” perante a falência do Estado (leia-se Poder e Povo) e das suas estruturas na defesa do seu Território. Sim, porque é precisamente disso que se trata: defesa do território nacional. Não é que os espanhóis estejam a mobilizar infantaria junto da fronteira ou que os marroquinos estejam a invadir as águas territoriais portuguesas, é antes a incapacidade do Estado em proteger o seu território e recursos face a “ameaças” mais assimétricas, que muitas das vezes têm quase só a ver com comportamentos humanos. Incúria, desleixo, irresponsabilidade, crime, (des)interesses, desordenamento, são apenas algumas das palavras que podem ajudar a explicar incêndios que subsistem durante vários dias com frentes activas de quilómetros, rivalizando com alguns que, de uma forma mais compreensível, sempre vão acontecendo em realidades geograficamente gigantescas como a Austrália, a Califórnia ou a Rússia. Neste capítulo, Portugal está junto destas grandes potências.

 

*Texto publicado no jornal Público a 11 de Agosto de 2016. Infelizmente não mudei uma linha.

 

“Enough is enough”, disse May. Mas só agora?


odiplomata,

Na ressaca de mais um atentado terrorista em Londres, Theresa May, confrontada com aquilo que de pior pode acontecer a um líder político – que é o de não conseguir garantir a segurança dos seus concidadãos –, disse uma coisa extraordinária e reveladora da impotência da chefe de Governo na luta antiterrorista que, como se sabe, é sobretudo feita ao nível da prevenção. “Enough is enough”, disse May à porta do Nº 10 de Downing Street, palavras que só podem causar estranheza pelo timing em que foram proferidas, se atendermos ao histórico sangrento do Reino Unido em matéria de terrorismo. A ideia que transparece é que só agora May chegou à conclusão de que “já é de mais” toda esta violência, que havia uma linha vermelha que só agora foi cruzada pelos terroristas islâmicos. Só agora? Um desastre completo em matéria de “public relations”, já para não falar nas acusações disparatadas às grandes empresas tecnológicas, por, supostamente, permitirem “safe space” para os terroristas difundirem a sua propaganda ideológica através das várias plataformas da Internet.

A questão é que, provavelmente, gigantes como a Google ou a Facebook têm feito muito mais dentro das suas competências e possibilidades do que o Governo liderado por May em matéria de contra-terrorismo. “Blaming social media platforms is politically convenient but intellectually lazy”, dizia à BBC News a este propósito, Peter Neumann, director do International Centre for the Study of Radicalisation (ICSR) no King’s College de Londres. É claro que muito mais pode ser feito por estas empresas na restrição do acesso por parte dos terroristas às suas plataformas, mas a questão que deve ser ponderada pelas agências anti-terroristas e forças de segurança britânicas é se a estratégia que está a ser seguida é a mais indicada. Existem muitas dúvidas em relação a essa matéria e, apesar de Theresa May já ter anunciado que vai rever a estratégia global contra-terrorista, neste momento, não parece estar à altura dos acontecimentos e vamos ver até que ponto isso não se irá reflectir nos resultados das legislativas de Quinta-feira.

Convém, aliás, não esquecer que May foi Secretária da Administração Interna entre 2010 e 2016, tendo Jeremy Corbyn, líder do Labour, acusado-a de nesses anos ter cortado no financiamento às polícias. A Sky News mostrava esta Segunda-feira de manhã um gráfico arrasador para May, em que mostrava um decréscimo anual do número de polícias durante os anos em que tutelou a Administração Interna. O mesmo Corbyn, juntamente com o líder dos Democratas Liberais, Tim Farron, pressionaram ontem à noite a primeira-ministra para divulgar um relatório sobre os supostos financiamentos aos movimentos jihadistas que operam no Reino Unido. Um documento que devia ter sido apresentado na Primavera do ano passado, mas que até ao momento não saiu da gaveta, tendo, entretanto, o Governo informado que ainda não está pronto para ser divulgado. O problema é que esse relatório incide sobre a Arábia Saudita, um país a quem o Reino Unido vendeu nos últimos dois anos cerca de 3,3 mil milhões de libras em armamento.

Numa altura em que o Reino Unido precisa de um líder forte para enfrentar um dos períodos mais difíceis da sua história moderna, May está demasiado frágil para levar por diante essa combate que é preciso travar. E se na Quinta-feira não conseguir obter, pelo menos, uma maioria com 12 deputados de diferença – que é aquela que existe actualmente, herdada de David Cameron –, a sua força política ficará comprometida e os terroristas verão nisso uma oportunidade para espalhar ainda mais terror.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata.

O que eu senti (25 anos depois)


odiplomata,

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Foto: Nuno Ferreira Santos/Público 

 

Senti sempre no hard rock um acto de libertação, de rebeldia, de excessos. Além do género musical propriamente dito (de que sou enorme fã), sempre associei o hard rock a um estilo de vida irrequieto, um desafio aos cânones tradicionais da sociedade e ao politicamente correcto. E sempre vi no hard rock um meio de confronto saudável em democracia ao poder instituído. Sempre me identifiquei com isso, talvez por sempre preferir os inconformados aos resignados, os rebeldes aos acomodados, os críticos aos silenciosos, os irreverentes aos submissos, os temperamentais aos indiferentes, os apaixonados aos calculistas.

As super-bandas de hard rock, de uma maneira de ou outra, personificaram esse espírito. Depois dos quatro meninos bem comportados de Liverpool, o contraste não podia ser maior, quando no final dos anos 60 surge Jimi Hendrix, o artista rock por excelência em toda a sua plenitude, fosse na sua arte, na forma como se apresentava em palco, fosse na forma como vivia (excêntrica e excessivamente) em sociedade. Morreu cedo, mas inspirou todos os grandes homens do rock que se lhe seguiram. Para a história fica a célebre interpretação de Star Spangled Banner (o hino nacional dos EUA), apenas ao som da sua Fender Strato, naquela manhã do Festival de Woodstock, num acto claramente de provocação e protesto em nome de uma América revoltada com o poder político. O hard rock é o único estilo musical que desempenhou esse papel, reservado apenas àqueles que são o produto genuíno em palco e fora dele. E, sobretudo, que assumem de forma destemida esse papel.

Os Guns N’Roses foram a última dessas grandes bandas. Quando surgiram no final dos anos 80 chocaram pela sua ousadia e até perversidade. Para a história fica também aquela actuação nos MTV Music Awards de 1988, quando o mundo vê em directo Axl, Slash e companhia, com botas por fora das calças de cabedal, ostentando adereços de todo o tipo, provavelmente com alguma droga e muito álcool à mistura, a cantarem músicas de chocar e arrasar. A ingenuidade dos anos 80 (deliciosos, note-se) acabara ali. Excederam-se em tudo, mas em tudo mesmo. Criaram o Appetite for Destruction que tinha tanto de genial como de destrutivo. Foi um “turning point” para o hard rock no final dos anos 80. Mas foi mais do que isso, foi um abanão ao status quo das cores florescentes e dos yuppies.

Na altura, os GNR pegavam-se com tudo e com todos e até os Metallica chegaram a dizer que era insuportável andar em tournée com eles. Por onde passavam, era como se um furacão por lá tivesse andado, mas uma juventude em todo o mundo aclamava-os e identifica-se com o que representavam. Quando em 1992 aterraram no velho Estádio de Alvalade, na companhia dos Soundgarden de Chris Cornell e dos Faith No More de Mike Patton, estavam no auge da fama e da loucura. Não havia limites para aqueles senhores e era precisamente essa ideia que nos contagiava a todos. Eu, como tantos outros jovens que lá estávamos, vivíamos uma espécie de histeria colectiva, numa idade em que o importante era embarcar nos impossíveis. No final, foi o que se sabe. E isso também ficou para a história, porque, a verdade é que ninguém esqueceu esse concerto.

Vinte e cinco anos depois o impensável aconteceu. Sobre o (brutal) concerto em si não vou estar com grandes análises, basta ler as várias críticas que foram publicadas este Sábado e logo se percebe porque razão os GNR foram a banda que mais lucrou no ano passado em concertos. É outro nível, é outro estofo em relação aos demais “players” que por aí andam. Provavelmente, o Passeio Marítimo de Algés não voltará a ter uma banda desta magnitude carismática a actuar por ali.

Quando vivemos numa sociedade cada vez mais igual e monótona em termos de mainstream, regida pela ditadura do politicamente correcto, quase que numa lógica asséptica ao nível de pensamento e costumes, é um conforto para a alma ver uma banda de hard rock à séria a partir a “louça toda”. Axl, Slash e Duff juntos são um tónico de rebeldia e de adrenalina. Os “meninos” ficaram em casa na Sexta-feira à noite, mas no Passeio Marítimo de Algés estiveram lá 57 mil que, de uma maneira ou de outra, têm algo dentro deles que os inquieta. E é sempre bom saber que não estamos sozinhos.

The Art Of Slowing Down


odiplomata,

Arte, o único tema com direito a vídeo até ao momento. Grande malha.

 

Há uns dias, o agente do Slow J tinha-me perguntado se eu tinha gostado da “cena”. A “cena” a que ele se referia era o The Art Of Slowing Down (TAOSD), o novíssimo álbum de estreia do sadino João Batista Coelho, conhecido no mundo musical como Slow J. Eu não só gostei imenso da “cena”, como acho (a crítica ficou rendida) que estamos perante uma das melhores “cenas” feitas nos últimos anos em Portugal. É muito raro a música nacional oferecer-nos criações verdadeiramente inovadoras e disruptivas. É certo que há muita coisa com qualidade no mercado português, mas poucas merecedoras de um estatuto superior.  

 

“Eu estou aqui para fazer música nova”, disse há umas semanas este jovem de vinte e poucos anos numa entrevista ao Público. E fê-lo. Hip hop, R&B, rock, pop, electrónica, fado, semba, jazz, estão lá todos estes estilos, conciliados de uma forma irreverente e selvagem e ao mesmo tempo ordeira e precisa. É um daqueles álbuns que ouvimos com um prazer imenso na tranquilidade do lar, pela sua criatividade, pela sua qualidade, pelo rigor na produção. As letras cruas e acutilantes atingem-nos na alma.

 

(Ainda) Longe do panorama mainstream, Slow J estudou Engenharia de Som em Londres e demorou três anos a fazer este álbum. Ele já tinha criado algum buzz nos meandros da música nacional em 2015, aquando do lançamento do EP The Free Food Tape. Mas, agora, com o lançamento do álbum TAOSD, o nível é outro. Numa época de produção cultural massificada e de consumo imediato sem grande filtro crítico, é uma satisfação ver que há artistas que se entregam de corpo e alma à verdadeira criação artística.

O discurso de Merkel


odiplomata,

O discurso de Angela Merkel proferido este Domingo num comício para 2500 pessoas em Munique é daqueles que poderá ficar para a História da construção europeia. Não se pode dizer que tenha passado despercebido à imprensa internacional, porque, que se recorde, é a primeira vez que se vê a chanceler alemã a pronunciar-se de uma forma tão assertiva para a necessidade dos europeus contarem com eles próprios e não estarem dependentes dos “aliados” tradicionais, em referências directas aos “afastamentos” dos EUA e do Reino Unido. Ao dizer que a União Europeia tem que “tomar o futuro pelas suas próprias mãos”, Merkel está na prática a assumir que está na hora dos líderes europeus começarem a pensar seriamente na criação de uma efectiva política europeia de defesa e segurança, algo que não existe neste momento. É certo que existem muitas proclamações políticas e alguns mecanismos, mas nada perto daquilo que poderá garantir a defesa física da Europa como um todo perante uma ameaça externa. E nesse ponto é importante não esquecer que a NATO continua a ser a única organização com essa capacidade de resposta, ou seja, com a agilidade de mobilizar forças de diferentes países sob um único “badge” (comando). Em termos de meios militares, a NATO propriamente dita tem uns aviões AWACS (que vão reforçar a sua acção na recolha e partilha de informação entre todos os Estados-membro da Aliança), alguns quartéis-generais e pouco mais, no entanto, tem uma experiência acumulada de décadas, que lhe permite reagir a diferentes ameaças e em diferentes cenários através da interoperacionalidade oleada das forças dos diferentes países colocadas ao serviço NATO. Na prática, a NATO tem sido a estrutura comum da defesa europeia e até há poucos anos o território europeu tinha o exclusivo da sua acção.

 

Não é mentira quando Trump enfatiza o desequilíbrio das contribuições financeiras de cada país aliado para aquela organização. É um facto histórico com origens conhecidas no surgimento da Guerra Fria e que durante muito tempo serviu os propósitos norte-americanos na lógica do sistema bipolar, onde parte da Europa era claramente uma área de influência sob o “guarda-chuva” de Washington. Desde o fim da ameaça do Exército Vermelho sobre a Europa que a discussão sobre a Defesa do Velho Continente tem sido recorrente, nomeadamente ao nível do investimento que é preciso ser feito por cada país. Concomitantemente, várias administrações em Washington têm, ao longo dos anos, lançado avisos à Europa para que começasse a investir mais na Defesa e no orçamento da NATO. Por várias vezes, e sobretudo em momentos de crise, política ou militar, líderes europeus vieram para a praça pública falar entusiasticamente na necessidade da Europa começar a gastar mais na sua Defesa. Chegaram a ser ensaiados alguns projectos comuns, mas que nunca se concretizaram. Por isso, aquilo que Merkel disse no Domingo não é propriamente novo no conteúdo nem na forma. A verdadeira novidade foi ter sido Merkel a dizê-lo, sobretudo no tom particularmente firme em que o disse. É certo que estava influenciada pelo ambiente pouco diplomático provocado por Donald Trump nas cimeiras da NATO e do G7, mas para a chanceler ter assumido uma posição daquele calibre é porque a mesma deverá vir acompanhada de uma política firme nos próximos tempos.

Merkel foi a primeira líder europeia a assumir uma divergência desta magnitude com a administração Trump. Em causa estão valores fundamentais para a Europa, como são as alterações climáticas, mas é preciso não esquecer que, à margem da cimeira da NATO, o Presidente americano tinha ameaçado restringir as importações de carros alemães para os EUA. Nestas coisas da política internacional, e ao contrário do que muita gente possa pensar, as relações pessoais entre líderes podem fazer toda a diferença no adensar ou no desanuviamento de uma potencial situação de escalada político-diplomática. Neste caso, admite-se que a convivência entre os dois, primeiro em Bruxelas e depois em Taormina, não tenha corrido pelo melhor. Acontece. Agora, é preciso que nos corredores da diplomacia sejam encetados esforços no sentido de se manterem os canais de comunicação abertos entre Berlim e Washington, porque, uma coisa é certa: a Europa não está em condições de caminhar sozinha em matéria de Defesa e vai continuar a depender do envolvimento dos EUA na NATO durante muitos e longos anos. Por outro lado, Trump não deve esquecer, nunca, que apesar de todas as diferenças, é com a Europa com quem os EUA partilham os valores basilares da democracia e do liberalismo que norteiam a sua democracia e sociedade. Além disso, Trump também não se deve esquecer de um conceito muito importante e desenvolvido há uns anos por Robert Keohane e Joseph Nye, o da interdependência complexa. E neste aspecto, EUA e Europa estão ligados um ao outro como dois siameses.

642


odiplomata,

O terrorismo, sob as suas diversas formas, é um fenómeno que esteve sempre presente na Europa. Se formos a ver bem, o rastilho da I Guerra Mundial é aceso com um acto terrorista. Ao longo das décadas posteriores, o Velho Continente foi assistindo à emergência de vários grupos terroristas, com inspirações ideológicas várias e objectivos circunscritos a uma específica realidade, mas nunca estando em causa a ameaça generalizada a um determinado estilo de sociedade ocidental. Mesmo movimentos terroristas muçulmanos (alguns ligados à causa palestiniana) que surgiram nos anos 70, 80 e 90 tinham nas suas “declarações de guerra” fins muitos bem definidos que pouco ou nada tinham a ver com a destruição do modo de vida ocidental.

 

A Globalização que ganha força no início dos anos 90 após a queda do sistema bipolar das Relações Internacionais veio tornar o mundo mais igual, mais “flat” (pedindo emprestada uma expressão a Thomas Friedman), mas este movimento acaba por criar um paradoxo. Porque, se, por um lado, vai tornando o mundo cada vez mais interdependente e comunicativo entre os países, culturas e religiões, por outro, vai realçando as fracturas dos diferentes paradigmas de sociedade, criando fricções ou, se preferirmos, os tais “choques” de civilizações de que Huntington falava.

 

Se é verdade que Huntington identificava zonas geográficas claras de confronto entre civilizações, o terrorismo global fundado por Osama bin Laden acabaria por levar esse “choque” para as ruas de cidades como Nova Iorque, Paris, Bélgica ou Londres. A al Qaeda é a primeira “multinacional” do terrorismo, com “franchisados” em quase todo o mundo, e a partir desse momento vai inspirando cada vez mais seguidores. Os ataques de 11 de Setembro de 2001 a Nova Iorque e a Washington são uma espécie de “apresentação” hollywoodesca ao “mercado”, sendo que já antes a al Qaeda tinha actividade e era sobejamente conhecida das autoridades, mas totalmente desconhecida do grande público e jornalistas. As imagens dos aviões a embater nas Torres Gémeas a sua consequente queda foram de tal maneira impressivas, com quase três mil mortos, que a al Qaeda ganhou a tal notoriedade que pretendia para poder mobilizar, recrutar e inspirar milhares de militantes radicais em diferentes partes do mundo que estavam “adormecidos”. Tudo o resto, nomeadamente o Estado Islâmico, já é uma consequência disso.

 

Se verificarmos a lista dos principais atentados do terrorismo islâmico na Europa desde 2004, chegamos ao número 642. É o número de pessoas que morreram desde aquele ano até hoje. É certo que a ETA matou mais de 800 pessoas desde a sua fundação em 1959 e o IRA Provisório terá matado cerca de 1800 pessoas entre 1969 e 1997, mas escusado será sublinhar as diferenças evidentes nos tipos de terrorismo em causa e das suas finalidades. Numa análise fria, convenhamos, foram tantas as notícias de mortes em Espanha e no Reino Unido por causa daqueles movimentos e, para lá da comoção momentânea, as pessoas nos vários países europeus nunca sentiram que os seus modelos de sociedade estivessem em causa e muito menos a segurança dos seus estilos de vida. Era um conflito lá “deles”, ou seja, não havia uma sensação de ameaça generalizada na Europa.

 

Ora, ataques como o de ontem em Manchester resultam de uma guerra generalizada e arbitrária à Europa, infligindo o medo e o receio transversais a todos os seus cidadãos, estejam onde estiver, vivam onde viver. E o pior é se cada cidadão começa a pensar que podia fazer parte daquelas 642 pessoas que morreram nos últimos anos em várias cidades europeias, em locais tão comuns, como um mercado ou uma sala de concerto, e isso condicionar a sua liberdade. Se isso vier a acontecer, é a partir desse momento que o terrorismo começa a vencer.

Um grito constante de sofrimento


odiplomata,

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Recordo, há uns anos, em conversa sobre o Guernica, de alguém me dizer que, para um especialista em pintura ou para um aspirante a pintor, mais do que apreciar aquele famoso quadro, o mais emocionante era ver e estudar os 45 esboços e estudos prévios igualmente expostos nas galerias contíguas. Compreendi a lógica. Muitas vezes, e dependendo sempre da perspectiva de quem vê, o mais importante pode ser o processo técnico e artístico que conduz a um determinado fim.

 

Para um simples admirador de pintura, como é o meu caso, é naturalmente a obra final que mais interessa, porque é lá que a arte e a mensagem atingem a sua plenitude, aquelas que o artista queria transmitir, deixar para a Humanidade. E no caso do Guernica, o que vi há uns anos no Museu Reina Sofia, em Madrid, foi a expressão máxima da violência e da destruição, provocada pelo bombardeamento dos aviões da Alemanha Nazi, aliada de Francisco Franco, sobre a pequena aldeia basca perto de Bilbao, precisamente a 26 de Abril de 1937, em plena Guerra Civil Espanhola. Todo o quadro é um retrato premonitório do horror apocalíptico que se viria viver poucos anos depois na II Guerra Mundial e uma antecipação dos bombardeamentos massivos que seriam levados a cabo pela Luftwaffe. Mais mais do que isso, é um grito constante de sofrimento de uma população indefesa. 

 

Além de toda a componente artística, aquilo que me toca tanto neste quadro é o facto de representar uma reacção imediata do pintor aos acontecimentos, uma espécie de “fotografia” em tela… E, sobretudo, a visão e o sofrimento de Picasso, o seu statement contra a perversidade que o Homem consegue infligir ao seu semelhante.

 

Guernica foi criado como um manifesto pacifista ou anti-guerra (ou pelo menos adquiriu esse estatuto) contra as acções políticas que conduzem a um massacre deliberado de homens, mulheres, crianças e até animais. Infelizmente, hoje, ao olharmos para o quadro de Picasso, sabemos que há sempre alguém, algures no mundo, a gritar de sofrimento por causa das motivações perversas do Homem. E nisso, 80 anos depois do génio ter pintado aquela obra prima, o mundo continua igual.

O dia em que entrevistei o “Mandela palestiniano”


odiplomata,

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Ilustração de Marwan Barghouti da autoria de Durar Bacri/Haaretz

 

Marwan Barghouti é, desde há alguns anos, a maior figura palestiniana na liderança da resistência palestiniana. É aquela que mais carisma tem junto da população da Cisjordânia, sobretudo a que está mais identificada com a Fatah. Para muitos, é visto como o sucessor natural de Yasser Arafat, visto que o actual Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, pelo seu perfil moderado e apagado, nunca despertou grandes paixões numa região que vive diariamente inflamada pelo conflito com Israel. É, por isso, normal que, tanto palestinianos, como líderes mundiais, o vejam como o único homem capaz de conduzir a Palestina à independência. O problema é que Barghouti, que liderou as milícias Tanzim, braço armado da Fatah (uma acusação que ele sempre negou), está encarcerado nas prisões israelitas, sentenciado a passar ali o resto dos seus dias. Tendo sido em tempos secretário-geral da Fatah e alvo de inúmeras tentativas de assassinato por parte dos serviços secretos do Exército de Israel (Shin Bet), Barghouti foi um dos principais líderes da Intifada de al-Aqsa, acabando por ser preso em 2002, em Ramallah, pelas Forças de Segurança Israelitas (IDF). Desde então, a sua popularidade e notoriedade aumentaram exponencialmente, passando a ser uma voz activa atrás das grades e um símbolo da resistência palestiniana, o que lhe valeu a alcunha de “Mandela palestiniano”.

 

Este Domingo, voltou a promover uma acção pacífica de contestação, ao dar início a uma greve de fome que envolve 700 reclusos palestinianos ligadas à Fatah, que se estendeu também a mais algumas centenas de prisioneiros da Jihad Islâmica e do Hamas. Esta iniciativa poderá reacender a tensão nas ruas das principais cidades da Cisjordânia e recentrar a problemática israelo-palestiniana no topo da agenda internacional, já que Barghouti tem hoje mais influência política do que tinha há 15 anos. Alguns governantes, como Ehud Barak, e responsáveis militares israelitas, estão conscientes desse facto. Aliás, o próprio Barak, aquando da detenção de Barghouti, ligou para Shaul Mofaz, na altura chefe do Estado-Maior das IDF, e disse-lhe o seguinte: “Have you lost your mind? What’s the story with Barghouti? If it’s part of your struggle against terrorism, it’s meaningless. But if it’s part of a grand plan to make him a future national leader of the Palestinians, then it’s a brilliant scheme, because what’s really missing in his résumé is direct affiliation with terrorism. He will fight for the leadership from inside prison, not having to prove a thing. The myth will grow constantly by itself.”

 

Conheci Barghouti um ano antes, quando ele era secretário-geral da Fatah. Fui entrevistá-lo. No seu escritório em Ramallah, lá estava ele, uma figura de pequena estatura, com ar amistoso e com o seu famoso bigode (hoje anda de barba). Cordial e acessível, embora não exibisse uma simpatia excessiva, o militante da Fatah demonstrou desde logo uma convicção política firme. A entrevista foi partilhada com um jornalista da agência de notícias alemã, e apesar das insistências, Barghouti nunca admitiu que era o líder das milícias Tanzim, responsáveis por vários atentados terroristas contra Israel. Recordo que ele se serpenteava como um verdadeiro político na forma como respondia às perguntas mais sensíveis que lhe eram colocadas, chegando mesmo a dizer que acreditava que a Palestina ia ser independente “dentro de cinco anos” (foi este o título da entrevista depois publicada no jornal Público. No entanto, a História viria demonstrar que Barghouti estava errado). Relembro que dias antes, Barghouti tinha escapado a um atentado selectivo das IDF contra o carro onde viajava. Um ano mais tarde, os soldados israelitas acabariam por deter Barghouti, sendo condenado posteriormente a cinco penas perpétuas. Quando,10 anos depois, foi tornado público um importante acordo de troca de prisioneiros que estava a ser forjado entre o Governo israelita e o Hamas, uma centelha de esperança reacendeu-se para milhares de palestinianos, que viram ali uma oportunidade para fazer regressar a casa o carismático Barghouti. Mas, rapidamente essa esperança se esvaneceu. Sabendo do prestígio e da notoriedade do ex-líder das Tanzim, as autoridades israelitas tiveram o cuidado de deixar bem claro desde o início desse processo de troca de prisioneiros, que Barghouti não estava incluído nas listas dos palestinianos a serem libertados. Mas, a questão é que Ehud Barak foi certeiro quando ligou a Mofaz, porque quanto mais tempo Barghouti estiver preso, mais o seu carisma e a sua capacidade de mobilização popular vão aumentando. É muito provável que, para Israel, Barghouti se torne cada vez mais um problema atrás das grades do que em liberdade. Para já, o “Mandela palestiniano”, com apenas 57 anos, vai fazendo a sua resistência pacífica, que lhe poderá vir a ser muito mais eficaz do que os anos de violência que perpetrou na tal luta pela independência que sempre almejou.

Rollback


odiplomata,

Com mais ou menos polémica e trapalhada, mais ou menos anúncio espalhafatoso, a verdade é que, até ontem, Donald Trump ainda não tinha concretizado qualquer medida que fosse verdadeiramente maléfica para a Humanidade. Nalguns casos até se mostrou mais moderado em relação à sua posição inicial, como observou (e bem) o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Portas, esta semana numa conferência em Lisboa, ao lembrar que Trump “fez a revisão do acordo NAFTA, mas não o denunciou, como não denunciou o acordo com o Irão, optando por vigiá-lo” e também “abandonou a ideia de transferir a embaixada [dos EUA] de Telavive para Jerusalém”. E já houve até um ou outro caso de humilhante derrota face àquilo que tinha prometido em campanha, como aconteceu na passada Sexta-feira ao ser obrigado a retirar do Congresso a “ bill” que iria revogar o Obamacare.

 

Mas ontem, não. Ontem, Trump clamou “vitória” e assinou um decreto presidencial na Sala Oval que tem como objectivo reverter muitas das medidas implementadas por Barack Obama em matéria ambiental. Algumas ainda nem sequer estavam em vigor, mas, muito provavelmente, e à luz desta nova orientação, nunca chegarão sequer a concretizar-se. Como também dificilmente se alcançarão as metas definidas nos Acordos de Paris de 2015, aquilo que tinha sido um marco histórico na política ambiental norte-americana.

 

É um autêntico “rollback” na política ambiental da administração Obama, com consequências nefastas a médio e a longo prazo e que depois serão difíceis de reparar. Porque, a questão não se põe só ao nível das medidas que Obama tinha implementado (já por si muito importantes), mas também no exemplo e motivação que os Estados Unidos deram ao mundo para que outras nações, nomeadamente algumas das mais poderosas e poluentes, seguissem políticas mais sustentáveis em termos ambientais. Quando Obama se comprometeu com os Acordos de Paris estava claramente a dar um sinal ao mundo, em nome dos Estados Unidos, para a necessidade de serem adoptados modelos de sustentabilidade nas economias mais desenvolvidas, por modo a fazer-se face à realidade inequívoca das alterações climáticas e do aquecimento global.

 

Ao assinar aquele decreto presidencial, Trump não só deitou por terra todo o esforço e pedagogia que Obama desenvolveu, como legitimou e recuperou as teses mais ignorantes e retrógradas em matéria ambiental. E isso é assustador e triste.

It’s not the economy


odiplomata,

Na campanha presidencial de 1992 contra Bush pai, o staff de Bill Clinton tinha como uma das mensagens-chave a famosa expressão “the economy, stupid”, forjada pelo estratego James Carville (ex-CNN e actual FOX News). Mais tarde, quando esse conceito transbordou para a esfera pública, a frase foi usada e abusada ao longo dos anos na sua versão mundialmente conhecida: “It’s the economy, stupid”. Ainda hoje aquela expressão é utilizada vezes sem conta por comentadores e opinion makers nas suas colunas de jornais e revistas. A questão é que além daquela frase ser completamente datada, o seu conteúdo (que na verdade nunca terá sido bem interiorizado por muitos que ainda hoje a utilizam), pouco ou nenhum sentido faz nos dias que correm se olharmos com atenção para as realidades políticas e eleitorais de alguns países, nomeadamente os Estados Unidos ou o Reino Unido.

 

Na altura, o ainda governador do Arkansas colocou a economia como tema central da campanha, talvez não tanto pela questão do estado real dessa mesma economia americana (que embora não sendo famosa, não era dramática), mas porque, no fundo, Carville sabia que era necessário encontrar um factor de contraste evidente com o mandato de George H. W. Bush que, pela força das circunstâncias, foi dominado pela política espectacular dos grandes acontecimentos mundiais e das grandes cimeiras. Para quem se recordará desses tempos ou tem algum conhecimento das relações internacionais, dificilmente encontrará um período da História recente tão “político”, interessante e entusiasmante como aquele que Bush pai viveu enquanto Presidente entre 1989 e 1993.

 

Foi aquilo a que os especialistas chamam de período de transição sistémica. Hoje é um assunto arrumado de que o século XX acabou ali. Para trás, ficaram décadas de Guerra Fria, onde a economia jamais tinha suplantado a política enquanto tema de campanha ou de topo de agenda mediática. Em quatro anos, e apesar dos problemas da economia dos EUA, o mundo assistia à morte do comunismo, à queda do Muro de Berlim, à implosão da União Soviética, às reformas na China, à primeira Guerra do Golfo, à intervenção americana no Panamá e na Somália, já para não falar na Guerra da Bósnia. Aliás, já antes, Ronald Reagan tinha ficado para a História como o homem que vencera a Guerra Fria.

 

Poder-se-á dizer que os acontecimentos de política externa pouco ou nada interessavam aos americanos perante as dificuldades que enfrentavam no seu dia-a-dia. Pois, mas a questão é que nem os problemas da economia americana eram assim tão dramáticos, como alguns desses acontecimentos internacionais entraram no quotidiano dos americanos de uma forma bastante intensa. Além disso, é preciso notar que a América já tinha vivido períodos bem mais difíceis em termos de economia em décadas anteriores, bastando referir, por exemplo, o processo de desindustrialização nos anos 70 e 80, nomeadamente no sector automóvel, com o surgimento da concorrência asiática.

 

A verdade é que olhando para os tempos de Guerra Fria não havia grande “espaço” para a prevalência da economia sobre a política na condução dos Estados e muito menos para os comentadores económicos e para as análises económicas híper-amplificadas nos media (os canais também eram diminutos, note-se). A política pura e dura dominava e os tempos que se viviam eram deveras muito interessantes. É certo que a partir do início dos anos 90, com o advento da globalização e com as teorias do Fim da História e outras, a política vai perdendo relevância para dar lugar à economia enquanto móbil da História. Os grandes líderes e estadistas foram desaparecendo e surgiram os tecnocratas ou os dirigentes orientados por critérios quantitativos. Começa-se a criar uma ideia (errada) de que a política acabou e as sociedades ocidentais entram num Fim de História, dominadas pelo capitalismo e democracias liberais.

 

A euforia durou até 11 de Setembro de 2001, que foi uma espécie de “wake up call”, mas foram precisos vários anos e muitos acontecimentos geopolíticos para se perceber que, afinal, o mundo está longe de ser “plano” e que a política impera naquilo que é a história dos Estados e as Relações Internacionais. Aliás, olhando para os fenómenos eleitorais mais recentes, com resultados que muitos consideraram de “protesto”, como foram os casos dos EUA, com a eleição de Trump, e do Reino Unido, com o referendo ao Brexit, constata-se que as motivações da maioria do eleitorado pouco ou nada tiveram a ver com economia, pelo menos numa lógica directa, já que ambos os países apresentam índices bastante satisfatórios nestas matérias, quer em crescimento do PIB, quer em taxa de desemprego.