Que paridade???


jmmcc,

A propósito do desaguisado que opôs Ana Gomes a Manuela Ferreira Leite, a propósito das "negociações" entre Alberto João Jardim e o PSD sobre candidatos(as) elegíveis, a propósito dos "piropos" que ainda estão para vir — a propósito, enfim, das candidaturas femininas impostas e desse inesperado número de mulheres obrigadas a entrar à força na política — receio bem que a lei da paridade só contribua para umas valentes e escusadas "peixeiradas".

Oxalá eu me engane, mas ainda estamos na pré-campanha e há já vários episódios que se dispensavam. De resto, se querem saber, nem vejo onde está a tal paridade. Uma mulher para cada dois homens? Isso é que é paridade? Pois a mim parece mais ménàge à trois…

Quem se vê na TV (14)


jmmcc,

Os falantes-em-teu-nome

São muito interessantes, à frente de uma câmara de televisão e de um microfone. Os falantes-em-teu-nome nunca respondem às perguntas do interlocutor, mas explicam ao interlocutor o que o interlocutor seria se o interlocutor fosse como eles.

É difícil entender o que lhes vai na mente: tanto pode ser modéstia, como pode ser imodéstia. Modéstia por não falarem deles ou imodéstia por assumirem uma atitude mais professoral, visto que se escusam a responder, mas manifestam grande preocupação por ensinar aos entrevistadores o que eles perderam por ser entrevistadores e não ser o que eles são.

Este grupo é, na sua esmagadora maioria, constituído por artistas. Podem ser actores, pintores, cantores, etc., mas artistas quase sempre, autores incluídos. Intelectuais, enfim. Os falantes-em-teu-nome tratam frequentemente os interlocutores por ‘tu’ e são conhecidos pelo modo desenvolto como se colocam no lugar destes. Pode ser assim:

Entrevistador – Ao fim de tantos anos de teatro, o que é que sente quando pisa o palco?

O falante-em-teu-nome – É difícil explicar. Ficas sempre como se fosse a tua  primeira vez, sentes aquele formigueiro pelo teu corpo acima. De repente, estás noutro lugar, não és tu, começas a encarnar o teu personagem, percebes?

Também pode ser assim:

Entrevistador – O que é que quiseste mostrar nesta tua segunda exposição?

O falante-em-teu-nome – Bem, tu sabias que tinhas de alargar os teus horizontes, que tinhas de apresentar uma pintura que estendesse o olhar das pessoas até onde querias ir, percebes? Como se tivesses sido conduzido por um impulso repentino que te fez ir mais além do que tu próprio julgavas que ias.

Ou então:

Entrevistador – O título mais recente é já um novo sucesso. Como é que começa um livro?

O falante-em-teu-nome – Nunca sabes quando vai acontecer, percebes? Um dia acordas como se tivesses sonhado com a história que tens dentro de ti, começas a escrever e sentes que é uma coisa imparável.

São muito interessantes, os falantes-em-teu-nome. Dá vontade de apanhar um e perguntar-lhe: «Como tem sido a tua vida de casado?» A resposta adivinha-se:

– Ah… Chegas a casa e ela está lá à tua espera, percebes?…

Sabia que…


jmmcc,

 

… o Fiat 600 Multipla, ainda em meados dos anos 50, foi o primeiro ensaio do conceito “monovolume”? É verdade: trata-se de um carro que criou a ideia de espaço amplo; ainda por cima, com motor traseiro, porque este modelo nasceu do histórico Fiat 600, cuja pequena mala e roda sobressalente eram na frente. Na foto (um modelo de 1966) do interior em que se vê o volante, vê-se também essa roda arrumada adiante do passageiro da frente, visto que o habitáculo teve de avançar sobre o eixo dianteiro.

Com seis lugares, quatro deles com bancos rebatíveis, o 600 Multipla era um carro versátil e invulgar, mas nunca conheceu grande sucesso, ao contrário do célebre 600 que lhe serviu de base e que teve várias gerações. Porém, os Fiat 600 Multipla foram táxis muito populares em várias cidades italianas, até ao início da década de 70.

A má estratégia de Santos Silva


jmmcc,

Que eu desse por isso, entre todos os que andaram a fazer apreciações aos discursos no Parlamento, o único que só se centrou na intervenção de Paulo Rangel para dizer ‘cobras-e-lagartos’ foi Augusto Santos Silva. Tem o mesmo direito que os outros para opiniar o que lhe convier, é evidente. Mas não parece seguro que a apreciação seja conveniente à sua função partidária interna, como também é evidente. Mostrar tanto nervosismo denota fraqueza. E denotar fraqueza é má estratégia. E má estratégia é meio caminho para perder uma batalha. E se a perder terá uns meses para dar largas ao seu nervosismo.

Quem não se vê na TV (especial)


jmmcc,

Os profissionais-a-propósito

Trata-se de um pequeno grupo que nunca vai à televisão (pelo menos, que se saiba). Os profissionais-a-propósito vagueiam pela blogosfera e vão pousando pelas caixas de comentários.

A gente nunca dá com eles; são eles que dão com a gente. Quando ganhamos alguma experiência e estamos com saudades deles, é fácil atraí-los. Basta alocarmos um post, por exemplo, sobre o Dia Mundial do Livro. Aparece logo um a comentar: «Não sei onde iremos parar. A esse propósito escrevi www.preciso-de-trocar-de-carro-ainda-este-ano.»

Claro que, para chamar pelos profissionais-a-propósito, é importante escolhermos um tema adequado para o post. Se discorrermos sobre a discussão semanal na RTP-1 entre a Fátima Campos Ferreira e o público-que-bate-palmas, é possível que não apareçam. Mas se escrevermos sobre a crise social ou a nacionalização da banca, é seguro que há-de surgir pelo menos um nos comentários: «Concordo. Pode ver o que já escrevi aqui a propósito www.fiqueisemnamoradaenaotenhonadaparafazer.» Ou então: «A propósito até escrevi www.vou-sair-para-almocar. Abraço.»

A propósito, não sei se já vos disse que eles são comentadores profissionais…

Quem se vê na TV (13)


jmmcc,

Os profissionais da identidade difícil

Temos aqui um grupo de jornalistas muito curioso e que nem é exclusivo das televisões. Os profissionais da identidade difícil também estão nas rádios e nos jornais e são em número cada vez maior.

Este grupo surgiu há alguns anos e são os mais novos, os recém-chegados à profissão, que têm tendência para aderir. Não se percebe a vantagem, mas a verdade é que estão a aumentar.

Vem a propósito um caso de que estou a lembrar-me. Há uns anos, um conhecido jornalista aparecia de quando em vez nos telejornais da RTP2 (salvo erro) para uns comentários esporádicos (não me lembro se generalistas ou especializados). Na primeira linha do rodapé aparecia o nome dele e, na segunda linha, em letra de corpo inferior, a profissão. O que se lia era

José da Silva                                                                                                                                      

Jornalista                                                                                                                                            

e recordo-me de dar comigo a pensar — com um toque de ironia, mas sem maldade — que quase valia a pena fazer a troca: Jornalista, primeiro, e José da Silva, em letra mais pequena, depois. Com efeito, vinha-me sempre à cabeça que era menos vulgar ser jornalista do que ser José da Silva.

Em certa medida, admirava-o pelo nome profissional que usava, porque é provável que ele tivesse mais nomes entre José e Silva, mas não sentira a necessidade ou a tentação de fazer outro ajuntamento mais personalizado. Deixou ficar simples o que deve ser simples.

Ora, os profissionais da identidade difícil estão exactamente nos antípodas do José da Silva. Só nunca saberemos o que os move.

A gente entende que há sobrenomes indissociáveis por tradição: Sotto Mayor, Eça de Queiroz, Castelo Branco, Corte Real, etc. A gente entende e aceita-os com naturalidade. Também se aceitam as junções que ajudam a personalizar o nome profissional e que não só soam bem juntos como também são fáceis de pronunciar: Mesquita Nunes, Barbosa de Oliveira, Ferreira de Almeida, Coutinho Ribeiro, Gomes André, Reis Figueira e outros.

O que não se percebe é o que leva alguns a decidir-se por nomes profissionais como Alberta Marques Fernandes, Frederico Mendes Oliveira, Afonso Azevedo Neves, Tiago Azevedo Fernandes, Tiago Mota Saraiva, Rogério da Costa Pereira, etc., entre muitos exemplos possíveis (mas impossíveis de recordar), cheios de sílabas, difíceis de pronunciar e com proveito duvidoso. Se é para as pessoas não se lembrarem do nome deles, então conseguem-no: é mais fácil dizer «aquela jornalista que tem a mania que é boa e que dá sempre uns pontapés na gramática» ou «aquele repórter que segura o microfone com as pontas dos dedos como se fosse a Teresa Salgueiro no Coliseu».

Tenho para mim que não vem longe o dia em que as reportagens dos profissionais da identidade difícil irão terminar assim: (…) com imagem de Rui Pinto, do Aeroporto de Alcochete para as notícias das 8, Américo Henrique Teixeira Pinheiro da Silveira…

 

A Educação 28 ministros depois


jmmcc,

HABILITAÇÕES E DISFUNÇÕES

DAS GERAÇÕES PERDIDAS

 

Prestes a concluir-se uma legislatura com um Governo apoiado por uma maioria absoluta no Parlamento, o Ministério da Educação volta a desiludir por nada de substancial ter alcançado na sua esfera – que é (ou devia ser) o esteio do desenvolvimento real de qualquer país.

Em 35 anos de regime, Portugal teve 28 ministros da Educação, dos quais só três levaram uma legislatura do princípio ao fim: Marçal Grilo, Roberto Carneiro e (por antecipação) Maria de Lurdes Rodrigues. Esta instabilidade, como é evidente, espelha bem o insucesso da Educação.

Vezes sem conta se iniciaram e impulsionaram reformas educativas e raramente se introduziu algo diferente da experimentação e da confusão generalizada, todas elas condenadas a ficar pelo caminho.

 

Maria de Lurdes Rodrigues - Click to view 360-pageAo fim de 35 anos, quais são os resultados? As novas gerações possuem cada vez mais habilitações e cada vez menos conhecimentos. Estão afectadas por uma deficiência cognitiva que coloca o País, no ranking europeu, sempre em lugares muito abaixo do desejável e do necessário – sobretudo, abaixo da decência.

Os jovens portugueses obtêm cada vez mais habilitações, sim, mas mostram-se em geral incapazes de coisas tão simples como expressão oral e escrita escorreitas, interpretação de textos, operações básicas de cálculo, pensamento crítico, etc., porque as suas crescentes habilitações não correspondem a uma crescente formação académica no sentido amplo, mas apenas à colagem de matérias estreitas, impostas por políticas que visam exclusivamente as estatísticas.

Por isso, ficam soltas e tornam-se erráticas as competências que a Educação devia convocar, no seu papel essencial para a formação da juventude, do que resultam as consequentes fraquezas que se sabe.

 

Teoricamente habilitados e praticamente disfuncionais para os aspectos mais elementares da vida quotidiana, os nossos jovens estão a afastar-se dos seus iguais europeus como Portugal se distancia dos seus parceiros comunitários.

Nesta pré-campanha eleitoral, já alguém pensou no debate sério destes temas basilares que nos distinguem da Europa pelos piores motivos? Ou tencionam continuar a enveredar por tretas pseudo-europeias e a deixar a Educação para as mesas de café nacionais?

Em 35 anos – que vão agora completar-se – estamos em risco de perder duas gerações a que faltou uma Educação adequada. Com a agravante de termos já a primeira a educar (?) a segunda…

Fico comovido


jmmcc,

Vou espreitando aquele programa das noites de segunda-feira na RTP-1. Ilda Figueiredo está farta de aproveitar o tempo de antena para perorar sobre «o neoliberalismo, o federalismo e o militarismo». Fico comovido. Se há quem possa denunciar todas as formas de militarismo é quem representa a velha cartilha soviética! Isto comove-me, pronto.

Ministro(s) a mais


jmmcc,

Por falta de vontade, o que é grave, ou por falta de capacidade, o que é mais grave, o governo tem óbvia dificuldade para diminuir as suas despesas. Contudo, para grandes males, grandes remédios: se o governo não consegue de outro modo, mais valia ter cortado um ministério inteiro, que a poupança já seria jeitosa.

Com efeito, tratava-se apenas de decidir entre ter um Ministério do Ambiente e da Cultura ou um Ministério da Cultura e do Ambiente. Um e outro são tão transparentes que ninguém sentiria a falta nem daria pela diferença. Percebe-se, claro, que a decisão seria complicada. Afinal, se cortasse os dois teria poupado muito mais. E também ninguém daria por isso…

Os filmes das nossas vidas (2)


jmmcc,

 

  

O GRANDE DITADOR: QUASE OBRA-PRIMA

 

Em The Great Dictator, Charles Chaplin esteve em vias de alcançar a sua verdadeira obra-prima, quer pela criação magistral desta grande metragem (por sinal, "super"-grande), quer pelo seu duplo e extraordinário desempenho: além de autor e realizador, ele é o ditador Adenoid Hynkel e um pobre barbeiro judeu (um ex-piloto que perdera a memória na queda do avião de combate).

 

O filme data de 1940 e satiriza, com um humor invulgar e perfeitamente adequado à tragédia humana que o inspira, a última fase da Grande Guerra. No ano seguinte, é estreado nos EUA e é nomeado para quatro dos cinco Óscares então atribuídos pela Academia: melhor actor e melhor guião original (Charles Chaplin), melhor actor secundário (Jack Oakie) e melhor música (Meredith Willson, que há-de receber um Óscar no ano seguinte pelo tema de The Little Foxes); apenas falha à nomeação de melhor imagem (e duvido que não merecesse). Nada arrecada, nem por já viver nessa altura em Beverly Hills há vários anos, nem pela obra que já soma, mas começa a coleccionar distinções por todo o mundo (algumas já póstumas).

 

O que é que faltou, para que The Great Dictator fosse a obra-prima do grande mestre? A propósito de Casablanca, o Pedro Correia assinalou-o muito bem: «a retórica antinazi datou irremediavelmente» este filme, «na célebre cena final». O longo e bem conseguido discurso que funciona abertamente como moral da história é um panegírico ao papel dos Aliados e ao envolvimento dos EUA que podia (poderia totalmente?) ter sido evitado. Ainda assim, vale a pena recordar o final desse discurso.

«Hannah, estás a ouvir-me? Onde estiveres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos a sair das trevas para a luz! Estamos a entrar num mundo novo — um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do Homem ganhou asas e já começa a voar! Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hanna! Ergue os olhos!»

 

Hannah, a "sua" inevitável Paulette Goddard, que Chaplin conhecera em 1932 e que, um ano antes desta obra, fizera The Woman e chegara a estar indicada para Gone With the Wind (desempenho que perderia para Vivien Leigh). O casamento secreto de ambos, em 1936 (ano de Modern Times), estava a chegar ao fim quando também terminava a rodagem de The Great Dictator. Nunca saberemos se o divórcio teve alguma consequência no modo pouco criativo como Chaplin se rendeu ao desfecho propagandístico que caracterizou tantos outros, neste filme que, ainda assim, será sempre uma enorme referência da Sétima Arte (e um dos filmes da minha vida).

Fosse como fosse, a perfeição do génio estava já consagrada desde o tempo do mudo. E The Great Dictator é quase perfeito.