Quem se vê na TV (12)


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Os inconfidentes figurados

Constituem um grupo em crescimento imparável. Os inconfidentes figurados podem ser muito agradáveis a falar, mas têm um problema com as ideias: nunca querem dizer exactamente o que dizem, com receio de cometer inconfidências atrás de inconfidências.

O mais curioso é que são incapazes de escolher as palavras certas para exporem claramente o que lhes vai na mente. É escusado esperar isso dos inconfidentes figurados: a sua característica distintiva está no emprego permanente de palavras que eles não querem dizer, mas que dizem. Ou melhor: eles querem dizê-las, mas querem que se saiba que não as dizem para ser tomadas à letra; sugerem todas as inconfidências, mas não as cometem!

Tal como a própria designação do grupo indica, as conversas que mantêm são recheadas de termos usados em sentido figurado. Jamais se perceberá por que motivo eles não são directos, não dizem com as palavras certas o que querem realmente dizer. É que nunca vão direitos ao assunto com as palavras todas: «chamar os bois pelos nomes» é uma fórmula que os inconfidentes figurados desconhecem. Contudo, esforçam-se imenso para que a sugestão que deixam a pairar seja totalmente compreensível!

O aspecto mais complexo da sua conversa é ficar a nosso cargo a dedução do que eles querem dizer, quando dizem o que não querem dizer. Porque eles são incapazes de dizer o que não dizem e querem dizer, mas dizem facilmente o que não é bem o que dizem, sem ser bem o que querem que fique dito. Isto é: dizem mal o que querem bem entendido!

São fáceis de reconhecer. Quando estão a falar em televisão, não há que enganar: sempre que recorrem às palavras que não devem ser interpretadas por aquilo que elas são, os inconfidentes figurados põem as duas mãos no ar como se tivessem sentido uma arma apontada às costas, seguram em ambas os dedos anelares e mindinhos com os polegares, destacam os dedos indicadores e médios dos dois lados como se fossem dois Vês de Vitória, curvam-nos ligeiramente e fazem plic-plic com eles, ao mesmo tempo que dizem «entre aspas».

O gesto é apenas por nós não sabermos o que são aspas sem vermos um desenho. Já a frase «entre aspas» mais não é do que a legenda do desenho que fazem no ar. Só que a dúvida há-de ficar para sempre: será que eles queriam mesmo dizer «entre aspas», ou seria em sentido figurado para não cometerem a inconfidência de dizer "em itálico"?…

Passo-me com os ‘isaltinanços’!


jmmcc,

Sempre que uma televisão conta mais um capítulo do julgamento do presidente da Câmara de Oeiras, dou por mim a pensar na única confissão que ele parece já ter feito perante a Justiça: o cacau posto a salvo, aí uns 400 mil euros, eram sobras do que recebeu para se isaltinar em várias campanhas eleitorais, que nada o obrigava a devolver ao Estado.

Passo-me com estas coisas. Nada o obrigava a devolver? Nada mesmo? Nem a consciência? Nem o decoro? Nem por termos sido nós todos a dar-lho? Tê-lo-á ele doado às crianças abandonadas, aos sem-abrigo, às instituições que procuram minorar os males dos desamparados? Não! Depois de se isaltinar como bem lhe apeteceu, transferiu-o para uma contita bancária mantida a recato. Talvez — coitado — para não correr o risco de entregar o pilim a alguém pouco honesto!

Passo-me todo com isto, acreditem! É uma coisa que não consigo evitar, mesmo no respeito pela presunção de inocência do homem, conforme a lei me obriga. Estou-me nas tintas para saber que factos ficarão provados no julgamento e se o tribunal irá ou não condená-lo. Passo-me na mesma, porque ainda não sei se ele vai isaltinar-se outra vez este ano, se vai ter direito a mais uma maquia para se isaltinar à fartazana, quanto é que vou ter de dar para lhe pagar os isaltinanços e quanto é que irá sobrar para ele se abotoar! Passo-me, pronto! É superior a mim, é uma coisa que me ultrapassa.

Olhem, se ele se recandidata… nem sei… Socorro!

Quem se vê na TV (11)


jmmcc,

Os updated da palavra

Os modelos mais recentes da expressão oral pertencem a este grupo. Os updated da palavra são os falantes da moda: pegam em todos os neologismos, mesmo (e sobretudo) se forem disparates, e adoptam a mais recente terminologia que lhes chega aos ouvidos, tão ávidos por renovar as palavras e substituir os termos como por mostrar na televisão a linguagem que usam.

Já viveram várias fases, desde o «pronto» a abrir uma frase até ao «é assim» a abrir outra, passando por «manter toda a serenidade e toda a tranquilidade», «percepcionar», «visualizar», «desadequar» e «intervencionar».

Os updated da palavra deixaram para a História — entre toneladas de exemplos — os acessos, a desculpa e os contratos, definitivamente substituídos pelas «acessibilidades», pela «desculpabilização» e pelas «contratualizações». Mas não renegam a História: estão sempre mortos por dar valor histórico àquilo que a História nunca registou. É o que acontece quando encontram um mínimo ou um máximo nunca antes visto e a que chamam logo «novo mínimo histórico» ou «novo máximo histórico».

Estão neste grupo os mais fluentes a falar ‘acordortografiquês’: treinam todos os dias «à séria» e estão sempre a «revisar» os conhecimentos. Também dominam bem o inglês: «Devemos realizar duas vezes antes de falar.»

Experimentem perguntar-lhes, por exemplo: «Por que é que vocês chamam ‘embaixadora’ à embaixatriz?» A resposta é imediata: «A diplomata é ‘embaixadora’; embaixatriz é a mulher do embaixador.» Como os updated da palavra são muito susceptíveis, não lhes perguntem depois por que razão a mulher do diplomata há-de ter um título, ou que título será devido ao marido da «embaixadora». Nem perguntem como deverá chamar-se o cônjuge de um diplomata se for um casal do mesmo sexo (deve ser ‘embaixadora‘ e embaixatriz, ou embaixador e ‘embaixatrás‘). Passem adiante sem os contrariar, porque é a actualidade deles que nos dá lições e não o contrário.

Para eles, um dos grandes temas da moda é a «terceira travessia do Tejo». Escutaram a expressão uma vez a alguém e actualizaram-se imediatamente, arrematando logo a frase para si. O Tejo ainda só tem duas travessias? Não terá já mais de três travessias mesmo antes de entrar em Portugal? Já se esqueceram dos anos de ouro da velha travessia de Vila Franca de Xira?

Esqueçam. Como ficou esclarecido atrás, nada de contrariá-los. Nem importa, porque as três travessias do Tejo, para os updated da palavra, mais não representam do que a sua visão de uma gasta teoria de outrora: "Portugal é Lisboa, o resto é paisagem." Ou era, visto que os updated da palavra têm uma forma recriada: Portugal é a Grande Lisboa e a «litoralidade», o resto é «interioridade»…

Parece um filme


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Pilot Dies, and Passenger Lands PlaneNem sempre a ficção ultrapassa a realidade. Na Flórida (EUA), o piloto de um bimotor "turboprop" morreu durante o vôo. O avião voava então bem alto e em piloto automático, quando um passageiro, de 56 anos, com brevet apenas para os pequenos monomotores do tipo Cessna172, já por validar e sem pilotar há 18 anos, saltou para os comandos do encorpado King Air.

Depois de informar os controladores de tráfego aéreo da emergência e de ter sido posto em contacto com um conhecedor dos King Air devidamente certificado, o passageiro conseguiu desligar o piloto automático e manter o aparelho no ar até aterrar com sucesso. Entre as poucas pessoas que seguiam a bordo, estavam a mulher e as duas filhas deste herói.

Pura coincidência?


jmmcc,

              

Coloquei lado a lado a famosa capa do álbum Abbey Road  (The Beatles) e a imagem de apresentação do jogo virtual Street Sesh (online). Coincidência, seguramente, porque uma tem três jovens calçados e um descalço na passadeira e é quadrada e a outra tem um rapaz de skate fora da passadeira e é rectangular…

Até a RTP dá conta do vestuário!


jmmcc,

Creio que este já deve ser, pelo menos, o terceiro post sobre esta matéria, mas torna-se irresistível: a própria RTP-1 alinhou no Telejornal a "notícia" (?) sobre o vestuário recomendado (por que é de um manual de recomendações que se trata, vejam bem) para a Loja do Cidadão que abriu algures no Algarve.

A RTP fez mais: deu voz a um gingão dirigente sindical algarvio já com idade para ter juízo, com a barba por fazer e com o ar de quem tinha ficado sem água em casa, que se manifestou indignadíssimo com as tais recomendações. Estas, que não sei se descem aos detalhes antes divulgados, incluem, afinal, coisas como não mascar pastilha elástica e outras do género.

Ao fim e ao cabo, o manual de recomendações só tem de ridículo a sua existência. O que não é defeito do manual: é o triste resultado da perda de valores que faziam parte da nossa vida em sociedade e que, de tão simples, nunca foram tidos como comportamentos associados ao bom senso, mas ao mero senso comum. Ao menos, a "notícia" da RTP teve a vantagem de me deixar mais esclarecido.

Só me custa a entender por que razão umas regras básicas como estas hão-de estar confinadas àquele serviço, em lugar de serem comuns a todos. Ainda há quem se sinta revoltado e se ponha ao lado daquele indescritível dirigente sindical algarvio? Haja algum decoro e educação, que o novo negócio dos manuais morre à nascença.

Os tiques militarizados


jmmcc,

Seria bom «que as pessoas preparassem a sua viagem ou o seu deslocamento» — recomendou na televisão o jovem oficial da GNR sobre a "Operação Páscoa" que está nas estradas. Se o fizerem, «as pessoas vão poder usufruir desta Páscoa com uma forma de prazer e não de angústia» — acrescentou ele.

Correcto e afirmativo — digo eu sobre o dispositivo no terreno. Mais um oficial subalterno que não sabe falar melhor e que não é capaz de dizer as coisas com simplicidade, porque foi assim que o ensinaram e foi assim que aprendeu. Ainda um jovem e já deixou o mundo normal para passar ao mundo dos discurcionários! Por isso é que os seus superiores hierárquicos lhe proporcionaram este deslocamento à televisão: tem de estagiar em estúdio.

Mais outra do novo “duce”


jmmcc,

Silvio Berlusconi prometeu que a região afectada pelos sismos iria ser reconstruída, mesmo sem ver com os seus próprios olhos o quadro mais desolador da catástofre. Com efeito, embora tivesse prometido que ia «visitar pessoalmente as áreas mais atingidas da cidade de L’Aquila», o primeiro-ministro italiano esteve na cidade, mas acabou por não se deslocar até às zonas mais atingidas.

Faltar ao prometido não é coisa completamente desconhecida entre os primeiros-ministros da Europa do Sul. “Sismo” Berlusconi deu um belo exemplo sobre as obrigações de solidariedade e apoio pessoal que cabem aos mais altos responsáveis políticos perante uma tragédia: deve ter receado que lhe caísse algum calhau periclitante em cima do seu conhecido bom-senso…