Pontos nos is (2)


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DECISÕES

I

Sempre que ouço dizer que o Governo atirou fora as questões da Cultura dá-me vontade de rir. Lamento que isto assim dito por pessoas que têm responsabilidades públicas arraste gente anónima que facilmente absorve este tipo de pregões, mas estou-me nas tintas por dois motivos:

— não é a primeira vez que a representação governamental da Cultura deixa de ter um ministro e passa a ter um secretário de Estado;

— a Cultura não dá de comer no imediato a quem tem fome e os tempos são de óbvia e necessária austeridade, o que obriga a hierarquizar com especial critério a intervenção de quem governa.

Porém, acho que há ainda uma boa razão para contrapor aos pseudo-críticos do costume. Desde logo, a vida tem-me demonstrado que a intervenção institucional na Cultura é um tema que suscita sempre ideias geniais à mais distinta intelectualidade da nossa praça, enquanto do lado de fora, mas que os mais iluminados, quando se vêem a decidir, perdem depressa a imaginação criadora e a acção raramente ultrapassa a simples distribuição de verbas (leia-se: redistribuição de impostos).

A boa razão a que me referia é, pois, um dado substantivo e não um devaneio: a Cultura institucional está entregue a um homem de cultura que nada tem a provar para fazer currículo. Chega-me.

II

Vem agora a talhe de foice registar a decisão de Francisco José Viegas, não por ter substituído o director do Teatro Nacional D. Maria II, mas sim por ter demitido Diogo Infante do cargo.

Digo isto sem querer saber das possíveis qualidades de quem foi demitido. Diogo Infante pode ser um excelente actor, encenador, líder de uma companhia de artistas e até um bom economista, dentista, jornalista ou motociclista. Não me interessa. Interessou-me saber, em data recente, que era um mau director do Teatro Nacional D. Maria II, ao exceder as suas funções de modo inadmissível e com consequências públicas de claro impacto.

Ora, ao contrário dos péssimos hábitos portugueses, quando Diogo Infante declarou que a época de 2012 ficava sem efeito, não houve inquéritos nem quaisquer daquelas coisas que ficam a arrastar-se de gabinete em gabinete para intermináveis trocas de argumentos. Nada. O secretário de Estado apontou-lhe a porta de saída sem mais sobressaltos. Caso encerrado.

Teria Diogo Infante fundamentação para encerrar uma das mais importantes instituições culturais do Estado? Dou de barato: até podia ter. Contudo, faltava-lhe o fundamento dos fundamentos, o fundamento supremo, o fundamento indispensável: Diogo Infante não foi eleito pelos portugueses para qualquer posto que lhe permitisse tomar decisões políticas. Não fazia parte das suas atribuições.

O poder político está legitimado por eleições recentes e Francisco José Viegas está à altura do cargo. É bom saber que as questões da Cultura, afinal, não foram atiradas fora, mesmo que os meios sejam modestos. Chega-me.

Este envolvimento…


jmmcc,

Neste meu regresso à Terceira, fiz escala em São Miguel e passei algumas horas em Ponta Delgada, onde vivi três anos e onde não ia há uns dois anos e meio, desde que me mudei para Angra do Heroísmo. Guardo dentro de mim, sem o esconder, um imenso gosto por São Miguel e pela vida em Ponta Delgada, ainda que a cidade não seja especialmente atraente. Foi assim que me lembrei da primeira crónica que escrevi (com o título deste post) a pedido de uma publicação editada em Lisboa, pouco depois de me ter instalado nos Açores, em 2006. Não resisti a repescá-la.

 

 

Há qualquer coisa indefinida nos Açores que nos envolve. Em especial, na ilha espaçosa de São Miguel, a gente sente algo que está para lá do nosso olhar, do que é palpável, do que temos por óbvio. Somos misteriosamente envolvidos e vamo-nos deixando envolver.

O envolvimento imediato é a natureza. A moldura marítima da ‘ilha verde’ mal serve para conter os imensos cambiantes verdes da paisagem, que oscila entre os tons mais profundos e as manchas mais subtis. Quase temos medo de lhes tocar, para que não se estraguem.

É difícil perceber que há terra por baixo disto tudo, terra mesmo, terra pura, terra mineral, terra dura e terra mole, terra de pedra e terra de pó. É difícil encontrá-la. A terra está ali, tem de estar, mas não se vê. Com excepção de um ou outro cabeço de vegetação parca e rasteira, onde se descobrem os basaltos, tudo o resto é coberto de verde. A vegetação estende-se sem deixar terra à vista: se não é bosque denso, é pastagem ampla; se não é arvoredo, é erva; se não são arbustos de folha perene, são flores coloridas sazonais. Terra? Terra só se adivinha. Não se vê.

Continua a haver mais qualquer coisa. Percebe-se que há carinho. A ilha é lavada e aparada todo o tempo. Grupos de cantoneiros e jardineiros correm diariamente as estradas da ilha: o asfalto é lavado e as bermas são limpas; as águas pluviais, quando chegam para regar a ‘ilha verde’, acompanham livres as descidas das estradas; os homens aparam as ervas pujantes, plantam arbustos, preenchem intervalos; os da frente trabalham com cortadeiras e juntam com instrumentos de cabo os pequenos montes que os de trás recolhem em viaturas. Cantoneiros e jardineiros abraçam a natureza e plantam carinhos.

Mas há mais qualquer coisa. A opinião pública vem aos jornais: aqui, o sinal de trânsito ameaça dobrar-se; ali, aquele muro pequeno foi derrubado e está a desmanchar-se; acolá, aquela árvore precisa de ser podada e reencaminhada para o céu; além, aquela curva da estrada está a receber uns deslizes de terras quando chove. Depois, a gente vai aos lugares e vê que já se compôs: o sinal foi recolocado, o muro foi refeito, a árvore foi cuidada, as terras foram sustidas e a curva foi limpa.

Há mais qualquer coisa. Os sentidos percebem o que se alcança, mas pressente-se algo mais que nos rodeia. A via rápida que contorna Ponta Delgada não tem qualquer designação fria e formal. Não se chama primeira ou segunda circular, nem via de cintura interna ou externa, tão pouco eixo Norte-Sul ou Nascente-Poente. Nas placas avisadoras que a apontam, lê-se o nome que lhe dão: «envolvente».

É poético, é carinhoso. É também um detalhe, é certo. Por isso é ainda mais poético, mais carinhoso. Nunca podia ser simples via rápida: é «envolvente». É assim, em São Miguel: há sempre mais qualquer coisa. É este afago constante que nos envolve…

Pontos nos is (1)


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EMPOBRECIMENTO

O termo anda gasto. Começou por servir para lembrar que temos um caminho duro para percorrer e, desde então, a nossa (!) Esquerda faz dele uma marca do tempo, uma característica capaz de distinguir a nossa crise da situação periclitante generalizada que consome outros povos por essa crise fora, uma diferenciação que nos confere um lugar marcado na plateia das crises que grassam. E como o faz essa Esquerda? Histericamente, de dedo acusador em riste, como se fosse coisa nunca vista, impensável e completamente ao arrepio de tudo o que pudesse ser razoável acontecer-nos.

Não viria daí qualquer mal ao mundo, se não fosse tal atitude um ditame básico de certa(s) ideologia(s). Aproveita-se a fragilidade dos mais frágeis, acrescenta-se a dos que estão a fragilizar-se e junta-se a dos que temem a fragilidade que se aproxima como um susto. Porquê? Faz parte do plano básico: toda a gente sente o drama e alinha inconscientemente com os que bradam. Não por concessão ideológica, mas por parecer que discordar resolve o assunto e altera a triste realidade. Alinha-se por mero desabafo, portanto.

Vamos então ao ponto. O empobrecimento é chocante? Até pode ser, mas nada existe que o substitua. Todos o sabemos, se pararmos para pensar antes de alinhar no coro de protestos. Sabemos que andámos anos e anos a viver com mais do que tínhamos, a gastar acima do que auferíamos, a comprar mais do que podíamos e a recorrer a linhas de crédito acima das nossas possibilidades.

Chegada a hora de arrumarmos as contas, temos de fazer o quê? Temos de viver com o que temos, de gastar só o que auferimos, de comprar só o que podemos e de esquecer o recurso ao crédito. Isto é: temos de viver com menos, muito menos. Significa isto que temos de viver pior, abaixo dos hábitos que criámos. Claro que devemos trabalhar mais, para minorar as consequências, mas o próprio trabalho escasseia e a receita fica sem tradução.

Ora, isso quer dizer que nos resta empobrecer. É isto o empobrecimento. Inevitável. Fizemos vida de ricos com dinheiro de remediados, agora caímos na realidade, mas já cheios de dívidas e sem posses. Se alguém quiser interromper os protestos para apresentar alternativas, que o diga já ou que se cale para sempre. O resto é folclore de muito mau gosto.

Estou a ler… alcoviteirices (5)


jmmcc,

 

Se fosse há ainda não muito tempo, teria de dizer-vos que estava a ler o “Manual de Acolhimento do Centro Hospitalar de Gaia”, vejam só. Afastada esta que mais parece uma nota de humor negro, tenho de confessar que estou a ler (imaginem) Amantes dos Reis de Portugal, um livro de segredinhos e mexericos históricos de alcova que tive de interromper há já vários meses e em que repeguei agora.

Não, não posso cair na tentação alcoviteira de agitar camas e reposteiros, sedas e damascos, linhos e estopas; tão-pouco devo deixar que se escapem alfazemas e suores ou outros aromas e odores. Não posso, porque seria injusto. O trabalho de quase 400 páginas é sério na pesquisa profunda e no modo fundamentado como expõe as histórias da História que são propostas: «o “estatuto” das amantes dos Reis de Portugal», entre «o proibido e o legitimado».

 

Dir-se-ia que um tema destes só poderia ser escrito por mulheres, certo? Deixo isso aqui à vossa consideração. Ora vejam só: uma Professora Auxiliar do Departamento de História, uma licenciada em História e Mestre em História Moderna e uma doutorada, as três da (ou pela) Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, co-autoras deste livro.

Com elas, percorremos a Dinastia Afonsina, recuada ao nascimento do Reino e à relação de D. Henrique e D. Teresa, a Dinastia de Avis, que arranca com um bastardo feito rei, a Dinastia Filipina, em que só o do meio é fiel à sua rainha, e a Dinastia de Bragança, o longo período de um regime que caminha para uma agonia cheia de pecados que ainda hoje desafiam os nossos sentidos.

 

Narrativas que devassam a vida na Corte em séculos de Monarquia, através de passos disfarçados e de olhares fugidios, carregados de culpa? Intromissão concupiscente e lânguida em camarins e docéis, antecâmaras e quartos, corredores escuros e lugares esconsos da Casa Real? Nada disso: «este não é um livro de história frívola, anedótica e muito menos voluptuosa que pretenda estudar um tema tão apelativo, mas nem por isso menos complexo», conforme garantem as autoras.

Nos matrimónios de Estado e na sucessão dinástica, não raro «os afectos secundarizavam-se face às estratégias políticas régias». Procriar, assegurar o nascimento de um varão e ultrapassar as eventuais frustrações dos soberanos (das rainhas, em especial) nesse capítulo essencial justificavam um padrão comportamental que colocava a política em primeiro lugar (ou nela se escudava para cobrir ilicitudes), em amplos períodos da História de antanho. Já noutros períodos mais chegados, com princípios morais menos elásticos e políticas mais adaptadas à realidade para que a continuidade da nação não fosse posta em perigo, passaram a considerar-se bem menos recomendáveis os devaneios incontidos do poder.

 

«Por detrás da história oficial dos reis portugueses e dos seus casamentos de Estado com princesas de toda a Europa, esconde-se uma história de paixões arrebatadoras, filhos ilegítimos e amores ilícitos que nunca foi contada.

Damas da rainha, prostitutas, barregãs, negras, escravas, cantoras líricas, atrizes, mulheres do povo ou senhoras da alta burguesia, todas competiam pela atenção e pelos favores do rei.»

Escrito por historiadoras, tem o mérito de integrar a historiografia portuguesa sem discussões, numa abordagem inesperada e inédita. E nem sequer perde tempo a decidir se voluptuosidade se escreve com p ou sem p, ou se capela-mor é com hífen ou sem hífen, porque a escrita, essa, passa ao lado do “novo acordo ortográfico” sem pestanejar.

 

É a tua vez, Laura. Conta-nos lá o que andas a ler.

 

Amantes dos Reis de Portugal

Paula Lourenço (coord.), Ana Cristina Pereira e Joana Troni

Edição: A Esfera dos Livros

1.ª ed.: Novembro/2008

2.ª ed.: Dezembro/2008

3.ª ed.: Dezembro/2008

Imagem da capa: Geoffrey Clements – Corbis

ISBN 978-989-626-136-8

Estou a ler hei-de dizer-vos o quê


jmmcc,

Recebo com gosto a chamada que o nosso João Campos me lança aqui por baixo, deixando por minha conta o quinto post desta série sobre as nossas leituras. Venho apenas dar uma satisfação, uma vez que a bola fica do meu lado.

Acontece que deixo amanhã o meu Porto-natal e regresso finalmente à minha morada açoriana dos últimos anos. A ligação aérea que vou fazer irá ocupar-me uma boa parte do dia, até à noitinha. Além disso, depois de amanhã estarei de volta às funções que interrompi em Fevereiro passado.

Visto isto — e assegurada que está a continuidade desta série — o mais provável é que só lá para o fim-de-semana consiga alinhavar um texto à altura da responsabilidade. Mesmo assim, não hão-de perder pela demora, se pensavam que iam livrar-se de mim tão facilmente.

O prometido é devido, como diz um conhecido conterrâneo meu.

O abuso de um direito


jmmcc,

Este post da Leonor Barros aqui mais abaixo levanta algumas interrogações sobre um assunto que tem estado na agenda dos cidadãos: a continuidade de certos transportes públicos, o aumento dos preços dos transportes, o fim dos passes sociais, etc., tudo isto em confronto com situações de aparente excepção que parecem manter-se inexplicavelmente à margem da crise. Estão entre estas as deslocações, as ajudas de custo, as presenças no local de trabalho e outros benefícios destinados aos deputados.

Foi então que me lembrei de posts como este e este, que afloram (entre outros privilégios escandalosos e inexplicáveis) o problema dos transportes públicos gratuitos que constituem um dos direitos de que gozam os juízes. Recorde-se que estes não só beneficiam de transportes públicos gratuitos, sem qualquer exigência de fundamentação confinada a deslocações em serviço, como até se dão ao luxo de prolongar esse benefício mesmo depois de aposentados (jubilados) e, por isso, sem motivo para efectuar deslocações em serviço.

Não se trata de pôr fim ao direito dos juízes a transportes públicos gratuitos. Nem pouco mais ou menos, a meu ver. Admito que o direito pode conservar-se e faz sentido. O que deve terminar e já tarda tem outro nome: abuso do direito.

Muitos juízes fazem de conta que desconhecem essa figura, que caracteriza a obtenção abusiva de um privilégio ao abrigo de um direito indevidamente tornado elástico. Mais: não procedem por imperativo individual de consciência em conformidade com padrões de exigência e de estatura moral desejáveis — ainda mais desejáveis pela crise que nos afecta a vida colectiva — o que é impróprio de membros de órgãos de soberania.

Então, é preciso impor-lhes regras claras que estabeleçam o uso e o abuso. De vez, porque a situação já se arrasta há muito e os envolvidos continuam a assobiar para o lado. Uns assobiam e outros pagam. É justo?

Os comícios parlamentares


jmmcc,

 

Perante a proposta de Orçamento do Estado, será o comportamento dos diferentes grupos parlamentares idêntico? Ano após ano, a resposta é a mesma: não. Este ano, por exemplo, a proposta pertence ao Governo do PSD e CDS e coube ao PS manter o suspense durante um certo tempo sobre o seu sentido de voto.

Já o PCP e o BE mal esperaram para dar uma vista de olhos à proposta. Saltaram para a praça pública sem demora e apressaram-se a dizer que iam votar contra ela. É suposto que tenham então explicado as suas razões. Devem tê-lo feito, mas também sentiram certamente o receio de não ter sido ouvidos o bastante.

Onde está a diferença entre uns e outros? Uns privilegiam o debate parlamentar, enquanto outros usam o hemiciclo da Assembleia da República como palco para comícios. O PCP e o BE são incapazes de entender um regime que sempre odiaram. Olham para o Parlamento e o que vêem é mais um palanque.