Saltos à Vara


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Se há alguém neste país cujo percurso inspira a mais profunda admiração é Armando Vara, que se prepara agora para ser o presidente do BCP-Angola.

Anteontem não tinha um curso superior, ontem já tinha uma licenciatura pela Universidade Independente. Anteontem era empregado bancário, ontem já era administrador na banca, hoje é vice-presidente num banco, amanhã será presidente.

É irresistível observar a sua tenacidade, o modo como tem subido a pulso na vida. Um exemplo de vencedor que deve ser apontado a todos os que querem chegar mais alto. Aprendam a saltar, vá.

Recado da treta


jmmcc,

Fiquei satisfeito por ver que há no Jugular quem tivesse apreciado o que ontem escrevi aqui. Eis a apreciação feita por lá, depois de transcrito texto meu: «É sempre bom saber que essa treta da igualdade de direitos não passa disso mesmo, de uma treta.» Também me pareceu ser bom, mas não era preciso o recado ir tão longe: chamar-lhe treta não será exagero?

Diz ainda a mensageira daquele blogue: «uma das hipóteses explicativas para tal postura é ela vir de um XY (quem será?) que, diz a voz popular (diz mesmo?), não conseguem (quantos são?) funcionar em multifunção (tipo bissexualidade?) – felizmente estão aí os Miguéis (de diferentes orientações sexuais)»…

Como se vê, tive de colori-lo, porque não é uma prosa propriamente brilhante. Aquele blogue merecia melhor e eu não teria tantas dúvidas azuis. Mas fiquei satisfeito…

Tão cheia de nada


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Se há estilo que aprecio na blogosfera é o de f. (vulgo Fernanda Câncio). Vejo naquele seu jeito tão especial para renunciar de alma e coração às maiúsculas, naquela convicção que-parece-preguicite-mas-não-é, uma forma visionária de pincelar harmoniosamente a tela do MSWord ou da caixa do blogue.

Rendo-me perante esse modo sublime de sintetizar a "reinvenção da escrita sem pontuação" à Saramago e a "experimentação das letras sem compaixão" à menino na pré-primária que mora aqui perto na minha rua.

Só tenho pena que ela seja obrigada a escrever à moda antiga no jornal, mas compreendo que até um artista também precisa de ganhar a vida e perdoo-lhe essa faceta conservadora.

Vão ler o que f. escreve (e como escreve, senhores!) aqui sobre o livro apreendido pela polícia em Braga. Não sei se é importante, mas verte profusa informação essencial para qualquer candidato a intelectual e até tem o cuidado de dizer (como quem não quer a coisa, claro) que não teve pachorra para procurar não-sei-o-quê na net. Portanto, tudo feito de memória, como seria de esperar.

Mas o melhor, como já disse, é irem ler. A única desilusão é ela desfiar aquele conhecimento todo para concluir nada.

“Ex aequo”


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Miguel Vale de Almeida (Jugular) tem um raciocínio tão profundo que qualquer dia fica perdido nas trevas. A ginástica que ele faz para dizer o que diz aqui não lembrava ao diabo.

Resumidamente, é mais ou menos isto: ele até concorda com pessoas de quem não gosta, mas que acham que a crise e o desemprego constituem a grande preocupação dos portugueses e, portanto, a prioridade a atender. Ele concorda com isso, vá lá, só que vai logo adiantando que isso não pode servir para que outras coisas deixem de ser prioritárias, como sejam os temas «fracturantes» (por exemplo, aquilo a que chama eufemisticamente «a questão do casamento», está bom de ver).

Não perceberam? É simples: para Miguel Vale de Almeida não existe bem o prioritário; existem, sim, prioridades ex aequo. Realmente, hierarquizar os problemas para quê? Pois se as preocupações globais e as fracturantes são prioritárias por igual, não é? E andava a gente, cá em baixo com os pés na terra, a pensar que os problemas que afectam todos eram mais importantes do que aqueles que só afectam um dos lados da fractura…

Fino…


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Tenho pena de nada dever à banca neste momento. Dava-me um jeitaço dever algum à Caixa. Deixaria já de pagar e iria informar ao balcão:

— Não pago mais, mas não me levem a mal: é apenas um acto de gestão. Desculpem lá não entrar em pormenores, mas é um acto de gestão protegido pelo segredo da minha vida privada.

Claro que teria de mostrar alguma boa vontade:

— Fiquem tranquilos que não vos darei acções em troca, para que não façam qualquer mau negócio comigo. Conto apenas ser recompensado pela franqueza com que me apresento. E espero que isto fique só aqui entre nós, ao abrigo do segredo bancário.

Naturalmente, teria de explicar a coisa melhor, para ser entendido com a benevolência que me daria jeito.

— Espero que me compreendam e que me retribuam com um acto de gestão à altura do meu caso. Não se esqueçam de que sou vivaço, espertalhaço e chico-esperto, isto é, tenho todas as qualidades dos vossos melhores e mais acarinhados clientes. Fino, é o que eu sou!…

As atitudes arbitrárias do Fisco


jmmcc,

Os destaques que andam a ser dados aos processos fiscais que aguardam julgamento e decisão nos tribunais da especialidade estão duplamente incorrectos. Por um lado, referem a imensa importância global de que o Estado é credor. Por outro, não referem os valores que é suposto estarem incluídos naquela importância e que já estão a ser cobrados à força. E é aqui que reside o duplo erro:

— não é certo que a administração fiscal ganhe a totalidade dos processos em causa (é mais certo que perca muitos, como se sabe por experiência) e que, por isso, tenha de repor o que anda a cobrar indevidamente;

— as cobranças indevidas em curso já foram contabilizadas nas contas do Estado como integralmente cobradas e, portanto, teriam de ser subtraídas àqueles números em dívida.

Vou exemplificar.

Há muita gente que tem processos por dívidas à Segurança Social e ao Fisco, os quais estão integralmente apurados e apenas aguardam julgamento e decisão nos tribunais. Em muitos casos, o processado (já constituído arguido) apresentou contradição e tem todos os motivos para acreditar que a decisão final lhe será favorável.

Porém, com os processos adormecidos em tribunal, o Estado não quer esperar e procede à penhora de bens (se existirem) ou dos salários (que é o mais comum) e, pelo caminho, ainda vai retendo, por exemplo, reembolsos do IRS a que o contribuinte tem direito e que deixa de receber.

Ora, esta cobrança é indevida (é uma das muitas irregularidades da administração fiscal), porque os processos não foram concluídos: aguardam julgamento e decisão do tribunal. Esta cobrança é indevida, sim, mas o certo é que vai decorrendo e há um sem-número de casos destes. Por vezes, com grandes sacrifícios por parte de quem tem salários penhorados à força.

Posto isto, no dia em que os processos forem finalmente concluídos e se a decisão for favorável ao contribuinte, está bom de ver que os números que andam a ser divulgados são irreais.

Além do procedimento arbitrário indevido, acresce outro problema de evidente injustiça: é que a administração fiscal cobra os juros que são publicamente conhecidos aos devedores, mas, quando toca a devolver o que cobrou indevidamente, o juro que soma ao reembolso é ridículo. Enquanto isso, os processos em cobrança irregular que apenas aguardam julgamento e decisão estão parados até ninguém-sabe-quando. E é tudo isto que está por divulgar.

Senhoras nada e senhores tudo


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O governo está hoje de regresso à Assembleia da República. É quando ganha novamente visibilidade uma fórmula que tem vindo a vulgarizar-se entre quase todos os parlamentares (e membros do executivo, nestas tardes de visita). Trata-se do vocativo lançado quase invariavelmente por quem começa a usar da palavra: «Senhoras e senhores deputados»!

Eu entendo: dá muito trabalho dizer senhoras deputadas e senhores deputados. Por isso é que, em bom português, se dissessem apenas senhores deputados estariam a ser correctos e a dirigir-se a todos sem excepção (a todas e a todos). Mas não: quiseram antes inventarar um modo de ficar por esse meio-caminho entre a ‘modernidade’ e a preguiça. E o resultado é o que está à vista: senhoras coisa-nenhuma e senhores deputados…

Sobre a qualidade dos julgamentos


jmmcc,

Parece que houve quem a considerasse leve, a pena de três anos aplicada em Inglaterra ao condutor português de um camião que abalroou numa autoestrada um carro parado na cauda de uma fila de trânsito. Matou seis pessoas (a condutora, o marido e os quatro filhos do casal) e esteve em prisão preventiva até ser julgado e condenado recentemente. Em caso de bom comportamento, poderá ser libertado ao fim de ano e meio, conforme se diz aqui, pela mão de Pedro Arroja (Portugal Contemporâneo). Mas a sua conclusão é que merece ser lida. E arquivada no lixo.

«Eu lamento a sorte deste nosso compatriota. Tanto mais quanto é certo que, se fosse em Portugal, nada lhe teria acontecido. Em primeiro lugar, o camionista permaneceria em liberdade. Depois, o processo demoraria pelo menos cinco anos, talvez dez. No final, é bem provável que o tribunal viesse a apurar que a culpa do acidente pertenceu por inteiro à condutora do veículo abalroado, a qual, juntamente com a sua família, morreu na sequência do acidente.» Espero que isto não tenha sido para fazer graça, porque daria uma péssima ideia do autor.

Portanto, ele lamenta a sorte do camionista e acha que nada lhe teria acontecido se fosse cá? Qualquer um de nós lamenta a tragédia, isso sim, e não sei se podemos achar o mesmo. O homem começaria por aguardar julgamento em liberdade? Talvez: se não houvesse perigo de fuga ou de continuidade do crime, é natural. O processo levaria cinco ou dez anos até ao julgamento? Não é preciso exagerar: todos os dias são concluídos processos sem grande complexidade que levaram um ou dois anos, até menos. Por fim, o tribunal decidiria que a culpa fôra das vítimas? Aqui é que Pedro Arroja torce a história e a porca torce o rabo.

Ele não sabe o que diz. Ou sabe e faz de conta que não, o que é pior. A Justiça pode ter muitos defeitos: será lenta (a primeira instância está hoje na média dos países europeus e os tribunais superiores são os mais céleres da Europa) e até será benevolente nas penas (a moldura penal não é obra do poder judicial, mas do poder legislativo). Agora, o que ninguém pode dizer de boa-fé é que os tribunais em geral não julgam bem e, menos ainda, que preferem absolver culpados se puderem condenar mortos. Além de má-fé e de pôr em causa a qualidade dos julgamentos em Portugal, a afirmação revela muito mau gosto.

Vai ser preciso Pedro Arroja vasculhar muitas toneladas de papel para encontrar algum mau julgamento que um recurso não tenha corrigido. E jamais encontrará um que lhe permita concluir que os juízes seguiram a lei do menor esforço, absolvendo um culpado evidente para atribuir culpas a quem já não pudesse defender-se. Com uma vantagem para o nosso sistema: temos dois patamares de recurso, dupla garantia de um bom julgamento, coisa que os ingleses não têm.

Insisto: estamos a falar da qualidade dos julgamentos e não de outra coisa qualquer. Às vezes, a mão foge-nos e acaba por tramar quem quer escrever e não sabe o que dizer. Mais vale segurar a mão: é deixá-la ir devagarinho e aproveitar para pensar um bocado. Se calhar, no fim já nem se publica, por elementar decência.

O país dos segredos


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A actual administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) pode estar por um fio. Não chegava o ‘caso Cimpor-Manuel Fino’, que está a aquecer, e agora ainda há quem queira conhecer os contornos de dois outros negócios anteriores nunca bem esclarecidos, um com Joe Berardo e o outro com João Rendeiro. A CGD não quer explicar, dizendo que estão ao abrigo do «segredo bancário». Deve ser moda. Se for como o segredo de Justiça, em breve surgirão parangonas.

Uma boa notícia


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O Pau Para Toda a Obra dá conta dela aqui e o seu desenvolvimento pode ler-se aqui. É sobre o jovem violinista de Ovar que ficou entre os 200 semi-finalistas que concorreram à formação da Orquestra Sinfónica do YouTube, cuja estreia está marcada para 15 de Abril, no Carnegie Hall, em Nova Iorque.

Chama-se Tiago Santos, tem 20 anos, está no terceiro ano da licenciatura em Música da Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco e foi seleccionado entre os três mil músicos que também concorreram, oriundos de 70 países. Para já, obteve a qualificação máxima de cinco estrelas, por votação, mas agora vai ter peso acrescido, para o júri da semi-final, a qualidade técnica dos candidatos.

Orquestra Sinfónica do YouTube, vejam só! É a web de vento em popa.

Os pequenos cantores


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Lê-se aqui que «Portugal juntou a sua voz ao coro de críticas de vários governos da União Europeia (UE)», por causa da cimeira em Berlim que apenas reuniu os líderes dos países mais ricos da UE. Não se confirma que o grupo coral tenha sido muito escutado: além da voz portuguesa, o coro apenas contou com as vozes de mais cinco dos 27 países.

Segundo a mesma notícia, foi o ministro dos Negócios Estrangeiros belga que deu o lamiré e abriu «a frente de críticas». Como eram poucos, parece que não havia segunda fila e ficaram todos realmente na frente, onde o ‘nosso homólogo’, Luis Amado, não se conteve e juntou a sua voz para fazer rimar «geometria variável» e «um certo mal-estar» com «a UE tem de ser capaz de reforçar».

Como não foi a primeira vez que houve desunião discriminatória, resta saber se é a música coral que não fica no ouvido ou se é a letra que não atrai. Esta, na versão portuguesa para solista, convenhamos que é um bocado gongórica…

Feiticeiro enfeitiçado?


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Tal como no ‘Apito Dourado’ e sei-lá-em-quantos-casos-mais, o administrador da Bragaparques vai recorrer. Por ser inocente? Que nada! Por causa dos meios de prova que o levaram a ser condenado ao pagamento de cinco mil euros (!) pelo crime de corrupção activa em acto lícito, tentada com José Sá Fernandes, vereador, através do irmão, advogado. Como tantas outras vezes, estão em causa escutas telefónicas e gravações de conversas sem o conhecimento dos visados e sem autorização judicial.

Se o tribunal superior vier a considerar as provas ilícitas e, portanto, inadmissíveis no processo, a condenação poderá ser revogada. Mais ainda: a prática de recolha daquelas provas é, também ela, crime. Ricardo Sá Fernandes que se cuide, porque o homem da Bragaparques prepara-se para "virar o feitiço contra o feiticeiro".

Em suma: num país em que todos reconhecem que grassa a corrupção e toda a prática de crimes do mesmo género, ainda não é líquido que prevaleça uma condenação (já de si aliviada por considerações do tribunal) quase sem precedentes.

‘Citius’: «está tudo bem»…


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Agora é preto no branco. Quando a Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) começou a colocar reservas ao sistema informático ‘Citius’ instalado pelo Ministério da Justiça nos tribunais, a oficialidade veio logo a terreiro descrever as suas vantagens (que, à partida, não precisam de ser descritas, porque são óbvias), falar em resistência à mudança e garantir que nada havia de anormal. Porém, a ASJP voltou à carga e, desta vez, para referir exemplos: o sistema encerrou dois processos que não estavam concluídos e «a promoção de um magistrado do Ministério Público foi apagada por um técnico de informática, a pedido de uma funcionária», conforme noticia o Público.

Os dirigentes da ASJP já manifestaram as suas reservas ao ministério, o qual considerou que «está tudo bem». Enquanto isso, diz o mesmo jornal que foi aberto um inquérito sobre aquelas duas situações estranhas. Quer dizer: vão ser averiguadas duas anormalidades, que (imagina-se) irão talvez parar ao depósito habitual das toneladas de inquéritos que o País realiza, mas não se cuida de reconhecer a necessidade de alterar um sistema que permite interferências anómalas. Desta feita, não vimos a oficialidade cheia de pressa a explicar vantagens e a vislumbrar resistências.  Porquê? Certamente, porque «está tudo bem». Portanto, os inquéritos devem ser só para confirmar o quanto está bem…