A Animação é para crianças (ou não) – 1


eventhorizon,

22284202_dP49G.jpeg

A Fuga
Título original: Flugt
Realização: Jonas Poher Rasmussen
Argumento: Jonas Poher Rasmussen e Amin Nawabi
Produção: Vários
Ano: 2021
Duração: 90 minutos
Países: Dinamarca, França, Noruega, Suécia

Uma vez que ainda é possível vê-lo em algumas salas de cinema portuguesas, começo esta série com Flee.

Filme aclamado do dinamarquês Jonas Poher Rasmussen, Flee conta a história real de Amin Nawabi e da sua fuga de um Afeganistão mergulhado na guerra civil de 1989-92. A animação magnífica e vibrante surge intercalada por breves passagens com imagens reais, de arquivo, do que era a vida em Kabul nos anos 80, da transformação trazida pela guerra civil, da vida dos refugiados numa Moscovo pós-soviética e das tentativas desesperadas, quando não mortais, da fuga da opressão russa para o sonho de uma vida melhor na Europa democrática.

Num registo que combina com mestria a narrativa e o documentário, vamos acompanhando Amin, já adulto e a viver na Dinamarca com o companheiro, Kasper, a narrar a um amigo realizador a história da sua vida. Vemo-lo em criança a correr pelas ruas da capital afegã, no seio da sua família; acompanhamos a fuga com a mãe, as duas irmãs e o irmão, de uma Kabul sitiada, onde os jovens no fim da adolescência eram capturados e forçados a combater e onde qualquer diferença era motivo de vergonha e de castigo; observamos a vida da família numa decrépita e violenta Moscovo nos anos que se seguiram à queda da União Soviética; e seguimos as tentativas do seu irmão mais velho, a viver na Suécia, para conseguir fazer a sua família chegar bem a um país seguro. Amin nunca contara aquela história antes, e à medida que a vai narrando vai percebendo, e nós com ele, como aquela longa fuga em criança e adolescente marcou e condicionou o homem em que se viria a tornar, as opções que tomou na sua vida adulta, e o preço que pagou, ele e a família, pela sua segurança.

Todos os nomes são fictícios, claro, mas em momento algum esse pormenor retira impacto ao relato. Pois aquela história é a história de muitos afegãos que fugiram do seu país, daqueles anos até ao presente. E poderia também ser a história de inúmeras pessoas de todo o mundo, que fugiram dos seus países natais em busca de algo tão elementar como um tecto e uma vida sem terror. Dificilmente um filme poderia ter um tema mais actual do que este.

Flee esteve nomeado, entre muitos outros prémios, para três Óscares: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Documentário, e Melhor Filme de Animação. Perdeu este último para mais um filme da Disney, claro – a categoria parece atribuída à partida para qualquer filme da Disney ou da Pixar. É pena: Flee é um filme extraordinário, e mostra na perfeição como a animação pode ser utilizada para narrar histórias adultas com uma carga emocional tremenda. Ainda será possível vê-lo nas salas de cinema portuguesa, e não o poderia recomendar mais.

flee_02.jpg

Flee_03.jpg

flee_1.jpg

A Animação é para crianças (ou não) – 0


eventhorizon,

Mais do que pelos filmes, realizadores, actores e técnicos premiados, a cerimónia dos Óscares de 2022 ficará na memória colectiva por uma bofetada em directo. Foi isto que se discutiu longamente nos dias que se seguiram, na televisão e nas redes sociais, até à exaustão.

Mas mais do que discutir a principal cena infeliz da noite, a mim interessa-me chamar a atenção para outra cena infeliz, até por ser intencional e ensaiada, e que só vi ser discutida em alguns recantos mais interessados (e interessantes) das redes sociais: a breve rábula que antecedeu a entrega do Óscar de Melhor Filme de Animação, com três actrizes que já representaram (ou, no caso de Halle Bailey, que irá ainda representar) princesas da Disney a remeter a animação para as memórias e para o entretenimento infantis. Como se, para nem ir mais longe, aquela não fosse uma das categorias para as quais o espantoso Flee, de Jonas Poher Rasmussen, estava nomeado.

É um preconceito infelizmente comum, persistente e redutor. A maioria de nós recordar-se-á dos desenhos animados da infância, naturalmente, mas reduzir a arte da animação a temas para crianças é ridículo e absurdo. Saem todos os anos imensos filmes de animação dirigidos aos mais novos, claro, mas o que não falta é filmes de animação mais complexos e ousados, que jamais seriam adequados ao público infantil. Nem por isso, porém, deixam de faltar por aí auto-proclamados cinéfilos que se afirmam incapazes de seguir um filme de animação, ignorando assim o trabalho admirável de realizadores como Brad Bird, Ari Folman ou Hayao Miyazaki – e só por ignorância ou embirração se poderá argumentar que argumentar que Miyazaki não é um dos maiores cineastas vivos.

(Enfim, os leitores – adultos – de banda desenhada sabem bem do que falo, pois a Nona Arte é vista com frequência da mesma forma. Como se houvesse algo de errado com desenhos, estáticos ou animados.)

Para demonstrar quão errados são estes preconceitos, ao longo das próximas semanas deixarei aqui no Delito várias sugestões de filmes de animação para os leitores descobrirem ou redescobrirem. Alguns dos filmes que mencionarei podem ser vistos por toda a família, possuindo elementos que podem fazer as delícias dos mais novos enquanto dão aos adultos algo em que pensar. Outros, porém, não serão de todo aconselhados a crianças – são filmes adultos, feitos por adultos e para adultos. Começarei amanhã, e continuarei nas sextas-feiras seguintes.

Pensamento da semana


eventhorizon,

“(…) The rumours that you have heard are true: he has indeed arisen again and left his hold in Mirkwood and returned to his ancient fastness in the Dark Tower of Mordor. That name even you hobbits have heard of, like a shadow on the borders of old stories. Always after a defeat and a respite, the Shadow takes another shape and grows again.”

“I wish it need not have happened in my time”, said Frodo.

“So do I”, said Gandalf, “and so do all who live to see such times. All we have to decide is what to do with the time that is given us.”

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Rings, de J.R.R. Tolkien – que combateu na Primeira Guerra Mundial, viveu durante a Segunda, viu vários Senhores das Trevas ascenderem e caírem no seu tempo, e nem por isso perdeu a esperança. Afinal, Morgoth e Sauron caíram.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Uma voz contra o relativismo bélico em Portugal


eventhorizon,

Sou insuspeito de nutrir alguma simpatia pelo actual Governo e pelos seus vários elementos – Augusto Santos Silva incluído – mas não posso deixar de aplaudir a sua resposta ontem, no Parlamento, à vergonhosa intervenção do deputado comunista João Oliveira que o Pedro já destacou mais abaixo. Ponderada, eloquente, sem meias-palavras e sem as insuportáveis adversativas que tanta gente usa para tentar “justificar” ou “compreender” a agressão de Putin à Ucrânia. A última frase, lapidar, será sem dúvida um justo e adequadíssimo epitáfio à passagem do ainda líder parlamentar do PCP, não reeleito nas últimas Legislativas, pela Assembleia da República.

(Aliás, nos últimos dias o Governo tem estado especialmente bem, tanto na condenação inequívoca da agressão russa como na solidariedade estendida ao povo ucraniano)

Regressar a “The Matrix”


eventhorizon,

matrix-trinity-kicks-cop-cke.jpg

The Matrix , o filme original de 1999, é o meu Star Wars ou Star Trek.

Só já em adulto tive a oportunidade de ver a trilogia original de George Lucas, pelo que o encanto que alguns dos meus amigos também aficionados da ficção científica mantêm pelas aventuras do clã Skywalker acabou por me passar um pouco ao lado; como costumo dizer, as únicas memórias de infância que tenho de Star Wars são não dos filmes mas dos anúncios televisivos de brinquedos que passavam na época do Natal. Já de Star Trek nada vi (excepto os filmes mais recentes, que são esquecíveis e irrelevantes); conheço as referências mais evidentes, as personagens mais famosas, o formato da Enterprise, e pouco mais. Crescer nas décadas de 80 e 90 no interior do país sem vídeo, sem televisão por satélite, e sem acesso a cinemas fez com que praticamente todos os filmes que vi até aos 15 anos tenham passado num dos quatro canais generalistas (salvo uma mão-cheia de sessões de cinema ambulante dos anos 90), sem a conveniência das gravações automáticas e das boxes. Os primeiros filmes de ficção científica de que me lembro – os Back to the Future, o Alien e o Aliens, o Terminator 2 – foram por isso apanhados na programação, e não me lembro da primeira que os vi.

Mas lembro-me da primeira vez que vi The Matrix. Mais ou menos.

Na verdade, não tenho a certeza de a minha lembrança da primeira vez que vi The Matrix seja inteiramente verdadeira, o que não deixa de ser irónico dado o tema do filme. A memória é esta: estava no nono ano, algures entre o final de 1999 e o primeiro semestre de 2000, e o professor de Matemática levou a turma para a sala de vídeo, puxou o carrinho com a televisão e o vídeo, e introduziu no vídeo uma cassete pirata. Disse-nos algo como: vocês aqui nunca podem ver cinema, e este filme é demasiado importante para vocês não verem. Pôs o filme a passar e apagou as luzes. Naquele pequeno ecrã – era o que se arranjava na altura – vi uma cena inicial com uns efeitos verdes curiosos, seguida de uma cena típica de polícias de rua a discutir jurisdição com os agentes engravatados de um FBI ou outra agência do género. “No, lieutenant, your men are already dead”, diz o agente. A cena passa para o interior do prédio aparentemente devoluto onde um grupo de polícias cerca uma hacker vestida de cabedal preto e se prepara para a prender – quando ela ataca o polícia mais próximo, salta, a imagem pára com ela em pleno ar, a câmara gira em redor da sala, e com um pontapé certeiro a hacker projecta o polícia mais próximo contra a parede do outro lado da sala, antes de caminhar pela parede, neutralizar todos os outros, e se colocar em fuga.

Não tenho ninguém que me possa confirmar esta memória. Afinal, qual dos meus antigos colegas do 9.ºE do ano lectivo 1999-2000 se lembrará daquela sessão de cinema? Para a maioria, terá sido apenas mais um filme, um bom pretexto para não passarmos duas horas às voltas com a fórmula resolvente ou cálculos de trigonometria. Mas quaisquer que sejam os detalhes, lembro-me perfeitamente de ter ficado com aquela primeira imagem de bullet time gravada na retina. Ali estava algo que nunca tinha visto, e que alguma vez teria imaginado. E a melhor parte é que dali para a frente o filme só melhorou, tanto nos efeitos especiais como na trama.  

Quando já tinha uma Playstation 2, a minha irmã ofereceu-me o DVD de The Matrix, que vi vezes incontáveis. Longas foram as conversas sobre o filme que mantive durante os anos do Secundário com o Nuno, grande amigo ainda hoje, e com o nosso professor de Filosofia e de Psicologia, o Jorge. Quando The Matrix Reloaded estreou em 2003, consegui convencer os meus pais a irem ao centro comercial da Guia – eles foram fazer as compras do mês, e eu e o Nuno fomos ver o filme. Não falámos de outra coisa no regresso, claro, e mais conversa houve após as aulas de Psicologia nas semanas que se seguiram (lembro-me de o professor não ter apreciado alguns elementos do filme, a contrastar com o entusiasmo dos dois alunos). O lançamento de Reloaded foi acompanhado por um videojogo para a PS2, Enter the Matrix, que comprei e joguei de fio a pavio (a trama acompanha Niobe, a personagem de Jada Pinkett-Smith), e por um DVD com nove curtas de animação japonesa, Animatrix, que comprei assim que pude, e que vi e revi vezes sem conta –  a última vez foi há um par de meses, e continuam impressionantes ao fim de dezoito anos. Não joguei The Matrix Online e The Path of Neo pois o tempo não dava para tudo. Quando The Matrix Revolutions estreou já estava em Lisboa, e lembro-me de sair da universidade com uma colega, também fã, e de irmos a correr para o Colombo para tentar apanhar lugar na primeira sessão da estreia mundial; chegámos esbaforidos, conseguimos dois bilhetes em lugares distantes, mas isso pouco importava. Vibrámos com a Batalha de Zion, acompanhámos a última aventura do Neo, ficámos imenso tempo cá fora, maravilhados, a falar sobre o filme que tínhamos acabado de ver.

Sim, Reloaded e Revolutions são inferiores ao original. Ao contrário de The Matrix, que envelhece como um bom vinho, a componente visual das sequelas não sobreviveu bem à passagem do tempo. Em Reloaded, o combate no castelo de Merovingian continua belíssimamente coreografada, e famosa perseguição na autoestrada de Reloaded continua electrizante até ao momento final, onde se notam todas as costuras da explosão e do resgate de Morpheus e do Keymaker; em Revolutions, se a batalha de Zion continua imponente, já o combate entre Neo e Smith no final parece saída de um videojogo bem datado. Dito isto, sempre tive um fraquinho por ambos, talvez por todo aquele universo ficcional sempre me ter maravilhado pelas possibilidades infinitas que encerra; e a trama de Reloaded e Revolutions, sempre tão vilipendiada, continua a fascinar-me por aquilo que mostra, por aquilo a que alude, e por todas as ideias que deixa nas entrelinhas. Talvez as Wachowskis tenham pecado por terem deixado demasiadas pontas soltas (a Persephone de Monica Bellucci, por exemplo), muitas pistas em infodumps palavrosos, e poucas resoluções concretas; por outro lado, à época isso permitiu que teorias e interpretações florescessem em message boards com discussões animadas: lembro-me de acompanhar alguns, que me fizeram pensar em aspectos distintos dos filmes, contribuindo para que formulasse a minha própria impressão de toda a história (de forma muito resumida: Zion será também um simulacro).

Dentro de um par de dias terei talvez a oportunidade de confirmar isto, ou de me embrenhar um pouco mais pela toca do coelho, com o regresso de The Matrix ao grande ecrã. The Matrix Resurrections é o título do novo filme, desta vez realizado apenas por Lana Wachowski, e com Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss num regresso improvável, considerando o desfecho de Revolutions. Mantenho há muito tempo que poucos universos ficcionais poderiam ter a capacidade de The Matrix para se reinventar nesta época de eternos remakes e sequelas ilimitadas; afinal, a premissa inclui várias versões da matriz e múltiplas reencarnações (versões?) dos seus conceitos fundamentais. Esperava que mais cedo ou mais tarde houvesse mais um filme, mais por insistência da Warner Brothers do que pela vontade das Wachowskis – a trilogia original gerou demasiado dinheiro e foi demasiado icónica para ficar perdida entre 1999 e 2003. Não esperava o regresso de Neo e Trinity, e estou muito curioso para ver como Lana Wachowski vai pegar na trama que concluiu há dezoito anos. As expectativas, essas, são moderadas – creio que a componente visual será forte, a avaliar pelos trabalhos mais recentes da realizadora (o excelente Cloud Atlas, o derivativo Jupiter Ascending, e a brilhante Sense8 para a Netflix) – mas tenho dúvidas de que este regresso se consiga aproximar da fasquia elevadíssima do filme original e das curtas de Animatrix. 

O que pouco importa, na verdade. Tal como em 2003, mal posso esperar para regressar à sala de cinema e ver uma nova entrada deste universo ficcional que tanto me diz (sobretudo num ano com este, em que tão poucas vezes pude ver filmes no grande ecrã). Como disse no início do texto, The Matrix é o meu Star Wars: foi o filme que me ficou sempre na memória, que aos catorze ou quinze anos me impressionou como nenhum outro desde a famosa sessão de cinema ambulante na Casa do Povo da aldeia, quando o Sr. António Feliciano (o mais conhecido projeccionista ambulante do país) levou lá o Jurassic Park pouco depois da estreia. Com uma diferença crucial: se o clássico do Spielberg me mostrou algo de que eu já gostava (dinossauros), já o filme de culto das Wachowskis abriu-me os horizontes de forma inesperada. Graças a The Matrix passei a ver com outros olhos o cinema em geral e a ficção científica em particular. As inúmeras conversas durante o Secundário, a par do meu interesse nascente pela escrita, levaram o meu professor a emprestar-me um livro de ficção científica, e desde aí nunca mais parei de ler o género. Olho agora para trás, metaforica e literalmente, e vejo uma estante com centenas de livros, muitos lidos, e muitos ainda a aguardar leitura; recordo os inúmeros filmes que vi, e que continuo a ver sempre que posso; penso em todos os amigos que fiz ao longo dos anos devido ao gosto partilhado pela ficção científica, em convenções, tertúlias, jantares e blogues. E tudo isso tem na sua origem aquele momento difuso em que o tempo parou, dentro e fora do ecrã da televisão, para a câmara rodar em torno de Trinity.

The Vast of Night


eventhorizon,

the vast of night.jpg

Vi ontem à noite The Vast of Night, um belíssimo filme independente de ficção científica retro, hoje disponível numa plataforma de streaming. Realizado em 2019 por Andrew Patterson, com um orçamento de $700 000,00, serve não só para nos cativar durante 90 minutos assombrosos, como também para ilustrar dois pontos esquecidos com frequência nestes tempos. O primeiro: a ficção científica é, antes de mais, a ficção das ideias. E o segundo, em jeito de corolário do primeiro: para se fazer um bom filme de ficção científica não é necessário um orçamento multi-milionário dedicado e imensa pirotecnia visual; na verdade, basta uma boa ideia (que nem tem de ser original, podendo apenas ser explorada de um ponto de vista novo) bem trabalhada, com um guião bem escrito, um par de actores talentosos e bem dirigidos, e uma realização tão segura como ousada.

A ideia é simples, e já a vimos em inúmeros contos, filmes (Close Encounters virá logo à memória), e mitos populares (Roswell, claro): nos anos 50, numa localidade remota dos Estados Unidos, Fay, uma jovem operadora de switchboard, detecta acidentalmente uma transmissão ininteligível de origem desconhecida, que se sobrepõe às comunicações e transmissões locais. Intrigada, contacta Everett (Jake Horowitz), o radialista local, para tentar perceber o que está a captar. É certo que não é preciso um conhecimento vasto de ficção científica para se perceber, logo nos primeiros momentos, onde a trama irá dar, mas os desempenhos espantosos de Sierra McCornick e de Jake Horowitz (com a química evidente entre ambos; há tanto subtexto que se pode ler em cenas sem qualquer diálogo), sobretudo nos planos longos e contínuos que Patterson filma com surpreendente mestria, são suficientes para agarrar. Sim, suspeitamos desde cedo como a história vai acabar, mas queremos ver como Fay e Everett lá chegam.

O que não tem faltado nos últimos anos é filmes de ficção científica insípidos, apesar dos seus orçamentos de sete, oito e nove dígitos. Mesmo em Portugal, onde a ficção científica raramente aparece no grande ecrã (assim de repente vêm-me dois péssimos exemplos à memória da última década). Para quem quiser aprender como se faz, The Vast of Night tem sem dúvida muito para ensinar.

Pensamento da semana


eventhorizon,

“The saddest aspect of life right now is that science gathers knowledge faster than society gathers wisdom.” (Isaac Asimov)

Apesar de tudo, Asimov, falecido no já distante ano de 1992, era um optimista. Nos dias que correm pode-se duvidar com legitimidade de que a sociedade no seu todo esteja a ganhar algum tipo de sabedoria, sensatez, discernimento, juízo – há várias possibilidades de tradução de wisdom, mas no final vai dar ao mesmo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

20 anos


eventhorizon,

22156508_zmUqe (1).jpeg

 

A memória é uma coisa tramada.

Diz-se que todos nos lembramos de onde estávamos a 11 de Setembro de 2001. Não serei excepção, claro, apesar de não ter a certeza de toda a memória que tenho daquela tarde ter acontecido exactamente como me lembro, e de haver alguns detalhes que não parecem bater certo (um dia talvez traga aqui a memória incompleta e incerta que tenho da primeira vez que vi The Matrix, sem dúvida o filme da minha vida). Tinha 16 anos. Lembro-me de ter chegado à aldeia, decerto vindo de Odemira apesar de as aulas ainda não terem começado (julgo que começavam sempre um pouco mais tarde em Setembro; não tenho memória do que terei ido fazer à vila, talvez qualquer coisa relacionada com as matrículas, talvez confirmar os horários). Não sei se regressei de autocarro; é provável que não, pois o autocarro não me permitiria chegar pouco antes das 14:00. Decerto terei tido boleia, mas de quem, não faço a mais pequena ideia.

Enfim, como dizia, lembro-me de chegar à aldeia, de a caminhar pela rua principal, e de ter visto várias pessoas de pé no interior do café a olhar fixamente para a televisão. Entrei e no pequeno ecrã vi duas torres, uma delas a arder. Alguém, não me lembro quem, explicou pouco depois que um avião tinha colidido contra a torre, mas não se sabia bem o que tinha acontecido, se teria sido acidente ou não. Mas em poucos minutos todas as dúvidas se dissiparam quando assistimos em directo à colisão de outro avião contra a segunda torre.

Fui para casa almoçar, liguei a televisão do meu quarto e continuei a acompanhar o directo a partir de Nova Iorque com a minha mãe. Lembro-me de vermos aquelas imagens juntos, das torres em chamas, dos relatos de outra colisão contra o Pentágono e de um quarto avião despenhado algures no campo. A minha mãe a dada altura comentou que com um estrago daqueles as torres deviam desabar; disse-lhe que talvez não, que o embate tinha sido bastante alto. Um palpite pouco informado que se desfez em poucos minutos, quando assistimos com horror ao desabamento da primeira torre. A segunda cairia pouco depois.

Até àquele dia nunca tinha prestado grande atenção às Torres Gémeas. Eram dois arranha-céus numa cidade distante e cheia de arranha-céus, e nada mais. Mas a partir dali nunca mais as esqueci. Hoje, ao ver filmes e séries anteriores a 2001, é impossível não reparar naquele par de edifícios, no vazio que a sua destruição deixou. E no simbolismo dessa destruição, que fez despertar imensa gente para a política, como eu despertei naquele dia. As minhas memórias do 11 de Setembro de 2001 podem ser imperfeitas e difusas, mas lembro-me perfeitamente da noção de que alguma coisa tinha acabado de mudar no mundo – e tenho a certeza de que tudo foi diferente a partir daquele momento.

Pensamento da semana


eventhorizon,

Hoje em dia não falta quem se esqueça de que a liberdade de expressão não inclui dever de assistência ou mesmo de palco. Dito de outra forma: temos o direito de nos exprimirmos, mas ninguém tem o dever de nos ouvir, ou de nos dar espaço (físico ou virtual) para dizermos o que nos passa pela cabeça. Não deixa de ser curioso que tantos auto-intitulados defensores da liberdade de expressão pareçam ignorar este detalhe. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Malandrice, empatia e fair-play


eventhorizon,

IMG_20190806_201311.jpg

Em Agosto de 2019 tive a oportunidade de passar duas semanas a trabalhar na Malásia na companhia de colegas com os quais até aí só falara por telefone ou chat. Quis a sorte que os astros se alinhassem e que cá em casa pudéssemos tirar partido disto: a minha companheira conseguiu tirar férias, conseguimos comprar-lhe um bilhete, e lá fomos até ao Sudeste Asiático (em vôos separados, o que foi uma chatice, mas valeu a pena). Enquanto eu passei os dias a trabalhar, ela entreteve-se a passear por Kuala Lumpur – algo bastante conveniente também para mim, pois provavelmente não teria ido a metade dos sítios que visitei naqueles finais de tarde se não estivesse acompanhado (não sou grande turista, admito, enquanto a Ana planeou tudo, tratou de comprar bilhetes para os monumentos a visitar, etc).

No início da primeira semana calhou a visita à Torre de Kuala Lumpur. Saí do trabalho, meti-me num Grab (a versão local da Uber), e fui ter com a Ana à entrada da torre. Vista magnífica do topo, a dar a dimensão real da capital malaia. Naquele tempo ainda se viajava, pelo que não faltavam por ali turistas de inúmeras nacionalidades – percebíamos pelas palavras que íamos ouvindo, de idiomas europeus como o francês ou o italiano a idiomas asiáticos para nós incompreensíveis. E, como não podia deixar de ser, não éramos os únicos portugueses nas imediações – identificámos o casal como sendo português assim que saíram do elevandor, mesmo antes mesmo de os ouvirmos falar, pois o rapaz vestia uma camisola do Sporting.

Aqui talvez valha a pena explicar que dois dias antes (um dia e meio se considerarmos o fuso horário?) o Benfica tinha derrotado o Sporting por 5-0 na Supertaça.

Inevitavelmente, o primeiro pensamento que me ocorreu foi aproximar-se do meu compatriota, levantar a mão e dizer-lhe na língua de Camões “dá cá mais cinco”. Ainda nos rimos a imaginar a cena, eu e a Ana, que como eu é também benfiquista. Já o segundo pensamento – não sou muito impulsivo – foi um pouco mais empático: a dezasseis mil quilómetros de casa, com ar de quem tinha discutido com a namorada no elevador, e ainda a ressacar pela derrota distante contra o eterno rival, decerto que a última coisa que aquele rapaz quereria encontrar no topo daquela torre naquele magnífico fim de tarde seria um sacana de um benfiquista a gozar o prato. Seria cruel, convenhamos. Com isso em mente (e com algum instinto de auto-preservação, confesso – não sou especialmente bem constituído, estava para aí a trezentos metros de altitude, e a ciência ainda não me deu um jetpack), optei por não dizer nada. E continuámos, eu e a Ana, a deliciar-nos com aquela vista espantosa de Kuala Lumpur, que com o cair da noite se assemelhava mais e mais às vastas metrópoles da ficção científica cyberpunk de que ambos somos fãs (a fotografia lá no topo não é grande coisa pois nem a câmara nem o fotógrafo eram grande coisa, mas fica o registo).

Recupero esta memória, que hoje parece tão distante, no dia em que o Sporting se sagra campeão nacional de futebol. A esta altura do campeonato já não tinha nenhum cavalo nesta corrida – do pouco que vi do Benfica em campo não me pareceu que merecessem ganhar o que quer que seja, e fora do campo a coisa dá asco – pelo que o resultado do jogo de hoje me era mais ou menos indiferente. Por norma, se tiver de escolher entre o Porto e o Sporting até prefiro ver os leões a vencer, se bem que nunca saia a perder dos confrontos – afinal, as derrotas leoninas são sempre um bom pretexto para provocações malandras aos meus amigos sportingistas.

Mas a verdade é que são justamente esses amigos quem importa hoje. Os anos têm-me tornado mais introvertido, mas tenho a sorte de manter muito bons amigos – e, entre eles, vários sportinguistas. Alguns já ouviram (leram) as inevitáveis provocações em privado, claro, e ainda terei mais algumas para os próximos dias. As piadas, admita-se, até se escrevem sozinhas (da última vez que isto tinha acontecido ainda andava eu na escola secundária, agora só em 2040, etc). Mas hoje esses amigos estão felizes, tão felizes como eu estava naquele entardecer há dois Verões, numa cidade espantosa que até então nunca tinha pensado visitar; e eu, pela parte que me toca, fico feliz pelos meus amigos. Por isso, e porque o desporto vale nada sem fair play, dedico esta memória, estas provocações bem intencionadas e este texto mal amanhado (começa a faltar-me prática, a Teresa Ribeiro bem me avisou há uns anos num jantar do Delito) aos meus amigos lagartos de tantos e tantos anos – ao João e ao Jorge, ao Miguel e ao Fernando, à Susana e ao Ricardo. E ao nosso Pedro Correia, claro, e aos leões e às leoas do Delito. Hoje a festa é vossa – aproveitem!

Seria uma boa rábula humorística se não fosse verdade


eventhorizon,

No Público: Governo exige teste para sair de Longueira-Almograve, mas a farmácia está noutra freguesia. Se fosse um sketch do Herman ou do Gato Fedorento, o diálogo entre o morador do Almograve e o GNR no cruzamento da Longueira seria algo assim:

– Posso sair da freguesia?
– Pode, com um teste negativo.
– E onde posso fazer um teste?
– Numa farmácia.
– Mas o Almograve não tem farmácia. Posso sair para ir à farmácia de Milfontes fazer o teste?
– Não, não pode sair do Almograve sem um teste negativo.
– Mas então não posso sair da freguesia.
– Com um teste negativo pode.
– Mas se só posso fazer o teste na freguesia vizinha…
– Isso já não é problema meu. Olhe, pergunte ao Cabrita.

 

(Teste negativo, e não positivo, claro – obrigado à leitora Bea pelo reparo!)

Pensamento da semana


eventhorizon,

Não seremos amanhã quem somos hoje, nem manteremos no futuro todos os pontos de vista que defendemos no passado. É normal que assim seja. Mais do que isso: é necessário. Ao contrário do que se pensa, a coerência não é exactamente uma virtude, algo desejável de preservar incondicionalmente – à partida, durante as nossas vidas continuamos a aprender, a crescer, a evoluir. Só os fanáticos se mantêm coerentes ao longo do tempo, e fazem-no através da mais absoluta imobilidade.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

As (poucas) leituras de 2020


eventhorizon,

Ao contrário do Pedro, que pelos vistos se fartou de ler em 2020, eu tive um ano péssimo de leituras. Tão mau, aliás, que talvez tenha de recuar a 2007 para chegar a um ano em que tenha lido tão pouco. É possível que para algumas pessoas o confinamento e o teletrabalho tenham proporcionado mais tempo para ler, mas não foi esse o meu caso. Longe disso, aliás. Não por faltarem os livros para ler – as estantes estão bem abastecidas -, nem sequer por faltar o tempo. O que faltou foi mesmo a disponibilidade mental para me dedicar à leitura. Nunca tive o hábito de deixar leituras interrompidas, mas neste ano isso aconteceu em três ou quatro ocasiões – não por os livros não serem interessantes, mas porque pausas de um dia rapidamente davam lugar a várias semanas dominadas pelo cansaço. Como muita gente terá percebido durante 2020, as vantagens oferecidas pelo teletrabalho escondem alguns inconvenientes, como o esboroar progressivo dos horários e das rotinas; no final dos inúmeros dias intermináveis de trabalho apetecia-me com mais frequência transitar da secretária para o sofá e ficar a ver televisão, ou ligar a Playstation e perder-me por umas horas num videojogo mais ruidoso e colorido (salvaram-me o Horizon: Zero Dawn na primavera e o No Man’s Sky no Outono).

Claro que sempre li alguma coisa – quanto mais não seja porque a banda desenhada é sempre mais apetecível quando falta a vontade de me embrenhar num livro mais denso. Aqui ficam então algumas sugestões das minhas leituras de 2020.

The Vanished Birds, de Simon Jimenez (Del Rey Books, 2020)

the vanished birds.jpg

Um dos aspectos mais fascinantes da ficção científica literária reside no diálogo constante entre o passado e o futuro do género. Aos leitores menos habituados o género oferece uma multitude temática capaz de agradar a todos os gostos (assim se supere o preconceito habitual), mas aos conhecedores um livro de ficção científica oferece pelo menos um nível de leitura adicional: o da descoberta (ou redescoberta) das múltiplas influências e referências que surgem a cada linha, que dão forma àquele mundo secundário, e que conferem ao texto coordenadas muito precisas na vasta cartografia do género.

The Vanished Birds, romance de estreia do escritor de ascendência filipina Simon Jimenez, é um exemplo perfeito desse diálogo. O seu primeiro capítulo, uma história autónoma que decorre num planeta remoto, recupera de The Forever War (e, vá, da Teoria da Relatividade) a noção de que viajar pelo espaço é também viajar pelo tempo, e com ela constrói um romance improvável. A trama principal, desenvolvida numa estrutura narrativa nem sempre sequencial, é reminiscente tanto das modernas space operas políticas da tradição de M. John Harrison ou de Iain M. Banks como das histórias de gente comum a fazer pela vida no vazio do espaço – recordemos Firefly na televisão, ou a série Wayfarers de Becky Chambers na literatura (ou a Expanse de James S.A. Corey em ambas). E uma das ideias fundamentais do texto é levantado de Alfred Bester e do eterno The Stars My Destination. Mas desengane-se quem julgar que The Vanished Birds é apenas uma amálgama de ideias já usadas, recentes ou antigas: Jimenez utiliza todas essas influências para criar um futuro espacial muito próprio, tão verosímil como fascinante, e para contar uma história envolvente e cativante, com personagens verdadeiramente humanas. E isto com uma prosa magnífica, que embala todo o texto.

Há largos meses que tencionava trazer The Vanished Birds para o Delito, mas o texto permanece inacabado nos rascunhos – a impressão que o livro me deixou foi tremenda (o primeiro capítulo é magnífico, e jamais esquecerei as imagens da longínqua memória romântica de uma das personagens principais no terceiro), e talvez por isso me seja tão difícil escrever sobre ele, por paradoxal que isso possa ser. Foi não só o melhor livro que li em 2020, como um dos melhores livros que li em muitos anos. Nada mau para um livro de estreia.

Transmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson (Vertigo/DC Comics, 1997-2002)

transmetropolitan.jpg

Já tinha começado a ler Transmetropolitan há alguns anos (tenho até ideia de ter mencionado o primeiro volume numa conversa no último jantar do Delito a que fui – noutros tempos, quando ainda havia convívios e socialização fora dos espaços virtuais), mas por algum motivo deixei a colecção e a leitura a meio. A colecção foi concluída ao longo do ano e à leitura dediquei-me durante o mês de Dezembro.

O que mais impressiona em Transmetropolitan quando o lemos em 2020 talvez seja a presciência incrível da trama urdida por Warren Ellis, centrada numa eleição presidencial norte-americana disputada entre um incumbente péssimo e um candidato terrível – várias são as passagens que, se retiradas das pranchas, podiam perfeitamente descrever os círculos de Donald Trump, com um cinismo que há vinte e poucos anos talvez fosse excessivo. E no olho do furacão eleitoral está Spider Jerusalem, o infame jornalista que abandona o exílio auto-imposto nas montanhas para regressar à Cidade e ao jornalismo. Ao longo dos dez volumes trade paperback vamos acompanhando as reportagens de Jerusalem e conhecendo aquela metrópole futurista, na melhor tradição da ficção científica cyberpunk de William Gibson, com extrapolações tecnológicas e sociais mirabolantes (há gatos mutantes, humanos geneticamente modificados, publicidade invasiva, bowel disruptors, etc). A ilustração de Darick Robertson e o seu olho atento para o detalhe dão à Cidade uma textura palpável, e algumas pranchas pedem mais atenção pelas inúmeras referências e jogos de palavras que incluem (recordo-me sempre dos cigarros de marca “Carcinoma Angels”, ao mesmo tempo um jogo de palavras macabro e uma alusão a um conto notável de Norman Spinrad, por exemplo). É uma banda desenhada intensa, violenta, a todos os níveis excessiva – toda a criação de Spider Jerusalem é inspirada em Hunter S. Thompson, pelo que os leitores podem ter uma ideia do que os espera. Mas por hiperbólica que possa ser, Transmetropolitan é também uma ode ao Jornalismo, à profissão que já foi considerada o quarto poder, e um alerta para a corrupção política. Nestes tempos de declínio da imprensa e de recrudescência do populismo político talvez esta mensgem seja mais relevante do que nunca.

Nausicaä of the Valley of the Wind, de Hayao Miyazaki (Viz Media, 1982-1994)

nausicaa.jpg

Os leitores decerto conhecerão Hayao Miyazaki pelos extraordinários filmes de animação japonesa que realizou desde o início dos anos 80 (e se não conhecem, não sei que vos diga). O que talvez menos gente saiba é que o mestre da animação também fez algumas incursões pela banda desenhada, e que o seu prodigioso filme de 1984, Nausicaä of the Valley of the Wind, é na verdade uma adaptação de uma longa banda desenhada da sua autoria.

Com um traço espantoso, Miyazaki constrói um futuro pós-apocalíptico no qual uma guerra e o cataclismo ecológico que se lhe seguiu destruiram a civilização tal como a conhecemos – restam pequenos reinos e cidades dispersas por zonas costeiras que uma Natureza agressiva ainda não consumiu. E a trama segue Nausicaä, a jovem princesa do Vale do Vento, forçada pelas circunstâncias a envolver-se numa guerra que não é a sua enquanto tenta compreender e aplacar a violência do mundo natural. É uma história fascinante e surpreendentemente violenta quando desviamos o olhar daquelas pranchas lindíssimas e nos lembramos de que foram ilustradas pelo autor de My Neighbour Totoro ou Kiki’s Delivery Service. Nela, porém, também reconhecemos alguns motivos e temas recorrentes na obra cinematográfica de Miyazaki, como a dualidade Natureza/Indústria, o protagonismo dado a personagens femininas inspiradoras, que em momento algum assumem o papel de damsel in distress (Miyazaki, como Atwood, também já era ecologista e feminista antes das modas), e o absoluto fascínio por máquinas voadoras e pelo desafio constante à gravidade. Existe uma edição antiga em português, salvo erro em seis volumes, que pode ser encontrada em algumas bibliotecas e, com sorte, em alfarrabistas. Mas a edição em inglês da Viz Media, com dois lindíssimos volumes em capa dura, ficará muito bem em qualquer estante de banda desenhada.

Sex Criminals, de Matt Fraction e Chip Zdarsky (Image Comics, 2013-2020)

sex criminals.jpg

No final de 2019, quando todas as publicações se dedicaram a fazer as listas das melhores obras “da década”, descobri esta banda desenhada invulgar, que já tinha visto em algumas lojas especializadas mas que por algum motivo não me tinha despertado a atenção. Não sei que expectativas tinha em relação a Sex Criminals, mas não esperava de todo o que encontrei: uma banda desenhada cómica e atrevida, com um twist inesperado às tramas de super-heróis: a protagonista, Suzie, descobre na adolescência o seu super-poder: quando atinge um orgasmo o tempo pára para toda a gente… menos para ela. Literalmente. E quando conhece Jon e descobre que ele tem o mesmo poder (digamos assim), o próximo passo torna-se lógico: parar o tempo com um orgasmo e assaltar um banco. Por uma boa causa, claro: salvar a biblioteca onde Suzie trabalha.

É uma leitura tão pouco convencional como divertida – logo na primeira parte, as passagens nas quais Suzie recorda a sua juventude e a descoberta da sua capacidade invulgar são hilariantes, sem no entanto deixarem de ter uma certa familiaridade para qualquer leitor que ainda tenha presente toda a estranheza da adolescência. E o humor mantém-se em algums momentos mais pueris, e na ilustração talentosa de Chip Zdarsky, repleta de alusões e de piadas que noutro contexto seriam demasiado juvenis, mas que ali funcionam na perfeição. Dito isto, Sex Criminals é mais do quem uma mera banda desenhada cómica com sexo como pano de fundo: é também uma história profundamente humana sobre relações, desenvolvida com duas personagens empáticas que Fraction desenvolve na perfeição.

Apesar de Sex Criminals ter chegado ao fim este ano, ainda não terminei a leitura da série – comecei por comprar as duas magníficas edições deluxe da Image, pelo que aguardarei até ao Verão para adquirir o terceiro volume e ler então esta excelente banda desenhada até ao fim.

Até lá, espero ler mais do que em 2020.

Um homem normal na Casa Branca


eventhorizon,

21954931_SjFrK.jpeg

 

O título, claro, alude ao excelente texto que o Pedro Correia publicou ontem sobre Harry Truman. Mas neste caso serve para aludir não ao 33.º mas ao 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que deu há dias uma entrevista muito interessante a Jeffrey Goldberg para a The Atlantic a propósito do seu novo livro. Ao fim de quatro anos de decreto-via-twitter, de birras ridículas, de gritaria incoerente e com fraco domínio do idioma materno, é refrescante regressar ao discurso articulado, ponderado e frequentemente autocrítico de Obama. Quatro anos de chinfrineira infantil – quase foram suficientes para esquecer que este era o tom normal e expectável num Presidente norte-americano.

Deixo a sugestão para a leitura da entrevista, que vale bem a pena. E destaco duas passagens: a primeira, a propósito da ascensão do populismo de direita nos EUA e de um certo paradoxo (digamos assim) de masculinidade:

Obama: (…) If you think about populists from the past, someone like Huey Long—he wasn’t from the right; he was a classic populist, rooted in the earth; he knows the lives of the people he is rallying; he genuinely understands them. I guess I would not have expected someone who has complete disdain for ordinary people to be able to get attention and then the following from those very same people.

I guess I’m also surprised by, and this is not an original thought on my part—but I think about the classic male hero in American culture when you and I were growing up: the John Waynes, the Gary Coopers, the Jimmy Stewarts, the Clint Eastwoods, for that matter. There was a code. This is something I always emphasize. I may be African American but I’m African and American. This is part of me. The code of masculinity that I grew up with that harkens back to the ’30s and ’40s and before that—there’s a notion that a man is true to his word, that he takes responsibility, that he doesn’t complain, that he isn’t a bully; in fact he defends the vulnerable against bullies. And so even if you are someone who is annoyed by wokeness and political correctness and wants men to be men again and is tired about everyone complaining about the patriarchy, I thought that the model wouldn’t be Richie Rich—the complaining, lying, doesn’t-take-responsibility-for-anything type of figure.

I think that indicates the power of television in the culture that sometimes I miss because I don’t watch a lot of TV. I certainly don’t watch reality shows. And sometimes I’d miss things that were phenomena. But I thought there was a shift there. I write about it to some degree. I actually have great admiration for a lot of those traditions, what were ascribed to be masculine qualities. When you think about the Greatest Generation, you think about sacrifice. (…)

E a segunda, sobre o impacto das redes sociais na democracia:

(…)

Goldberg: Do you hold the companies responsible?

Obama: I don’t hold the tech companies entirely responsible, because this predates social media. It was already there. But social media has turbocharged it. I know most of these folks. I’ve talked to them about it. The degree to which these companies are insisting that they are more like a phone company than they are like The Atlantic, I do not think is tenable. They are making editorial choices, whether they’ve buried them in algorithms or not. The First Amendment doesn’t require private companies to provide a platform for any view that is out there. At the end of the day, we’re going to have to find a combination of government regulations and corporate practices that address this, because it’s going to get worse. If you can perpetrate crazy lies and conspiracy theories just with texts, imagine what you can do when you can make it look like you or me saying anything on video. We’re pretty close to that now.

Goldberg: It’s that famous Steve Bannon strategy: flood the zone with shit.

Obama: If we do not have the capacity to distinguish what’s true from what’s false, then by definition the marketplace of ideas doesn’t work. And by definition our democracy doesn’t work. We are entering into an epistemological crisis. (…)

Para mais contexto, é ler na íntegra.

Cinema em tempos de pandemia


eventhorizon,

No Sound + Vision, João Lopes deixa-nos uma reflexão muito pertinente sobre o impacto da pandemia no cinema – em concreto, sobre o impacto no modelo de negócio assente em multiplexes e nas grandes estreias de origem norte-americana, que têm sido sucessivamente adiadas. Sobretudo após Tenet, de Christopher Nolan, ter dficado aquém das expectativas na bilheteira (sim: chegámos a um ponto em que 307 milhões de dólares de bilheteira global representam, se não um fracasso, pelo menos uma desilusão). Do artigo, destaco dois pontos:

Curiosamente, em alguns contextos, incluindo o português, as reposições de filmes clássicos, dos mais diversos períodos e origens, têm atraído um número considerável de compradores de bilhetes, proporcionalmente superior. Não generalizemos, claro. Trata-se de um circuito de dimensão reduzida, com um peso nas contas globais do mercado inevitavelmente menor do que a área dos multiplex.

Revejo-me muito nestas palavras: posso dizer sem exagero que nos últimos dois anos desloquei-me mais vezes a salas de cinema para ver reposições de filmes antigos (clássicos, se quisermos) do que para ver estreias. Acompanhei algumas, é certo, mas tenho frequentado menos as grandes salas dos centros comerciais (as grandes salas independentes desapareceram) e mais os circuitos alternativos da Cinemateca, do Nimas e de algumas iniciativas independentes como o Cinepop. Em 2020, julgo só ter assistido à estreia de Tenet, nas salas do El Corte Inglés; mas revi no Inverno Eyes Wide Shut, 2001: A Space Odyssey e A Clockwork Orange no Nimas, onde por estes dias tenho aproveitado para descobrir a obra extraordinária de Akira Kurosawa, num ciclo de grande qualidade que só é pena estar limitado a Lisboa e ao Porto (e sim, as três horas e meia – sem intervalo – de Seven Samurai valem bem a pena numa sala de cinema, mesmo com máscara). Em Janeiro e Fevereiro a pequena sala da Avenida 5 de Outubro, um dos últimos refúgios do cinema independente em Lisboa, enchia a cada uma destas sessões (aliás, lembro-me da enorme fila para Eyes Wide Shut a serpentear pelo passeio da avenida numa noite chuvosa); e nestes dias julgo só não encher porque, enfim, as normas da DGS não o permitem (e bem).

seven samurai.jpg

O fenómeno nem é de agora – no ano passado vi com alguma surpresa e muita satisfação a esplanada da Cinemateca cheia de gente de todas as idades para assistir à reposição de The Night of the Hunter, o clássico de Charles Laughton com um dos papéis mais memoráveis de Robert Mitchum. Esgotadas as cadeiras, não faltou quem se dispusesse a sentar-se no chão para ver o filme. E duvido de que no final alguém tenha dado aquelas duas horas por perdidas.

Não estamos a falar de estreias, de filmes novos, promovidos pela enorme máquina comercial de Hollywood. No meu caso, até há dias nunca tinha visto qualquer filme de Kurosawa, mas tenho quase todos os filmes de Kubrick em DVD, e talvez os possa encontrar em algum dos serviços de streaming que subscrevo. The Night of the Hunter é um dos meus filmes preferidos, pelo que já o vi várias vezes no computador – mas não pude deixar passar a oportunidade de o ver no grande ecrã. O mesmo provavelmente poderá dizer-se da maior parte das pessoas que encheu a sessão de 2001 em Fevereiro ou de Yojimbo, o Invencível agora em Outubro – haverá quem nunca tenha visto os filmes mas saiba que Kubrick e Kurosawa valem o preço do bilhete, claro; no entanto, acredito que maioria daquelas pessoas tinha já visto os filmes, e estava disposta a pagar para os rever nas condições ideais para se ver um bom filme:  no grande ecrã de uma sala de cinema.

É certo que não será o público que vai ao Nimas e à Cinemateca – conhecedor, e por isso exigente – que irá salvar os multiplexes no pós-covid 19, seja lá quando isso for. Mas talvez se encontrem aqui algumas pistas para a recuperação do cinema nos tempos difíceis que se avizinham.

Os puzzles de Christopher Nolan


eventhorizon,

tenet poster.jpg

Uma das coisas de que mais senti falta durante os longos meses de confinamento foi de ir ao cinema. Bem sei que já abriram há alguns meses, mas até aqui ainda não tinha estreado um filme que me despertasse interesse suficiente para lá voltar. Essa estreia chegou finalmente no final de Agosto, com Tenet, de Christopher Nolan.

A minha relação com a filmografia de Nolan é um tanto ou quanto ambivalente. Não vi (ainda) alguns dos seus êxitos originais, como Memento (2000) ou The Prestige (2006), tendo começado a acompanhá-lo a partir de The Dark Knight (2008), o segundo filme da trilogia de Batman que realizou com a DC Comics (e que inclui o excelente Batman Begins, de 2005, e o terrível The Dark Knight Rises, de 2012). A partir daí fui acompanhando as suas incursões pela ficção científica, com o desapontante Inception (2010) e o excelente, ainda que imperfeito, Interstellar (2014). Reconheço a Nolan mérito suficiente para ficar curioso sempre que regressa ao meu género preferido, e Tenet não me desiludiu. Aliás, vê-lo acabou por se revelar numa experiência surpeendente, não tanto pelo filme em si, mas por uma breve epifania que me proporcionou mais ou menos a meio dos seus cento e cinquenta minutos.

 

Um dos aspectos que me deixou sempre um pouco de pé atrás em Inception – escrevi na altura sobre isso, numa crítica bem mais positiva do que me lembrava – foi a sua absoluta falta de imaginação. Ter visto o prodigioso Paprika (2006) Satoshi Kon uns dias antes da estreia do filme de Nolan não ajudou, claro –  se queremos contar uma história que se passa dentro de sonhos, a animação é a todos os níveis superior à filmagem convencional, e Kon era um verdadeiro mestre. Também não ajudou ter ficado com a sensação de que toda a trama de Inception era secundária – realizador e argumentistas estavam mais focados na matrioska de sonhos que constroem com virtuosismo técnico mas sem grande rasgo imaginativo, e a história que constroem e as personagens que colocam na trama servem apenas de enquadramento, de cenário, a essa espécie de prova de conceito. Já o revi várias vezes na televisão, e a desilusão aumenta um pouco a cada vez.

Nesse sentido, Tenet não é muito diferente. Acima de tudo, Nolan está interessado em explorar as implicações da sua premissa: são encontrados objectos com “entropia invertida”, e que por isso recuam no tempo em relação à realidade como a conhecemos; existe uma vasta e ininteligível conspiração temporal que os heróis do filme terão de tentar travar, numa trama reminiscente das histórias de espiões da Guerra Fria, mas desta vez com o Presente e o Futuro em oposição. E isto alimenta o espectáculo: sequências de combate bem coreografadas, uma montagem a todos os níveis espantosa com balas a recuar dos seus alvos para as armas (quase a fazer lembrar um The Matrix que trocou a câmara lenta pela câmara invertida), um enredo propositadamente difícil de seguir que vai deixando inúmeras pontas soltas, unindo-as numa longa e frenética sequência final que dará aos espectadores mais intrigados vontade de rever o filme para ir ligando os pontos. E, claro um macguffin que não é bem o que parece (isto não é um spoiler – neste tipo de filmes nada é o que parece, e o ponto é mesmo esse).

Mas, como disse no segundo parágrafo, Tenet não me aborreceu – antes me proporcionou uma revelação algo óbvia, tanto sobre o filme que via como sobre o filme que vi há dez anos. De certa forma, a ficção científica de Christopher Nolan é uma espécie de adaptação muito livre e muito informal dos contos de Philip K. Dick. A meio do filme veio-me à memória o conto Paycheck, de 1953 (já adaptado ao cinema num filme miserável com Ben Affleck e Uma Thurman – se os leitores ainda não viram, recomendo que assim continuem), no qual Dick utiliza um conjunto de objectos sem relação aparente entre si para montar um puzzle narrativo, com as peças a encaixarem-se em múltiplas reviravoltas. Regra geral, na ficção curta de Philip K. Dick (e mesmo na longa) não encontramos um grande interesse nas personagens – o foco reside quase exclusivamente na ideia, no conceito intricado que desafia alguma parte da realidade tal como a conhecemos. Isso vale por si só; tudo o resto é cenário, é contexto. Serve para orientar, para ancorar a ideia num momento muito específico, para lhe dar volume e textura, mas não mais do que isso.

Tanto Inception como Tenet são apenas e só isso: ideias, conceitos que Nolan quer exprimir utilizando a linguagem do cinema para dar ao público não um filme mas um puzzle audiovisual. As personagens, por exemplo, são meros adereços, não tendo qualquer outro propósito em si. Em Inception ainda lhes tentou dar (e falhou) algum passado, alguma existência, mas em Tenet nem se esforçou: por exemplo, nunca conhecemos o nome do protagonista interpretado por John Daniel Washington, que a dada altura passa a identificar-se precisamente como… Protagonista (consigo imaginar o momento da escrita do guião em que Nolan terá pensado “que se foda”). Sabemos os nomes das outras personagens, interpretadas por Robert Pattinson, Elizabeth Debicki, Dimple Kapadia, Michael Caine e Kenneth Brannagh, mas, na prática, saber ou não saber os seus nomes vai dar ao mesmo, considerando o que o filme revela sobre cada uma delas. Não são ditos os contornos exactos da conspiração temporal – vão sendo dadas algumas pistas, mas tudo isso é tão inconsequente que pouca utilidade tem. Tudo o que interessa é o puzzle – é a missão impossível para recuperar o macguffin, e é ver as várias peças a rodarem no grande ecrã, encaixando-se entre si, numa espécie de Tetris com espingardas automáticas. Ou, se recuarmos a Inception, ao sonho dentro do sonho dentro do sonho (uma vez mais, com espingardas automáticas).

tenet stills 01.jpg

Em última análise, será talvez essa a diferença fundamental entre Inception e Tenet, e Interstellar – existe neste uma humanidade que simplesmente não existe naqueles. Inception diz-nos que Cobb aceita aquela missão para tentar recuperar os seus dois filhos, mas o espectador nunca vê as crianças, não sabe que pai era Cobb, ou que tipo de relação tinham. Tenet também não nos dá muitas pistas sobre quem é o Protagonista – de onde vem, o que quer, que tipo de pessoa é para além dos traços muito gerais com que é caracterizado (há o possível romance, mas também não sabemos muito sobre Kat; e, sim, existe uma revelação final, mas isso não mais do que outra peça do puzzle – no que ao Protagonista diz respeito, continuamos no escuro). Pelo contrário, Interstellar mostra muito bem qual a relação entre Cooper e Murphy, ou entre Amelia e o Professor Brand – e por isso sabemos muito bem o que está em causa quando percebemos, com as personagens, as consequências do desfasamento temporal (haverá outras críticas que possam ser feitas ao filme – é possível que Nolan, ao tornar as suas personagens mais humanas, tenha escorregado um pouco para o melodrama, e a lógica do final será sem dúvida discutível, mas ao menos as personagens de Matthew McConaughey e Anne Hathaway são tridimensionais, e os actores conseguem fazer alguma coisa com elas). Ali existem de facto consequências – elas são palpáveis, moldam as personagens, forçam-nas a ter de lidar com elas.

Ao contrário do que poderá talvez parecer, isto não é uma crítica algo áspera a Tenet. Pelo contrário: a partir do momento em que o filme me mostrou que devia ser considerado nos seus próprios termos, consegui apreciá-lo muito bem por aquilo que é. E Tenet é um filme de acção espectacular e electrizante, com um enredo ridículo e, convenhamos, irrelevante. Temos balas a recuar no tempo, temos perseguições e tiroteios a decorrer a partir de pontos de vista temporalmente desfasados (a montagem é soberba, e será premiada), e temos um puzzle para ir montando ao longo de duas horas e meia, unindo os pontos para ver enfim aquilo que Nolan nos quer mostrar – e para perceber que aquilo que ele nos queria mostrar era apenas aquilo que mostrou até chegarmos ali. Era o caminho, e não o destino. Não existe em Tenet grande filosofia sobre viagens no tempo (há muito cinema e muita literatura sobre o tema; posso dar sugestões, até mesmo sobre algo tão específico como objectos a recuar no tempo), como não existe grande reflexão sobre a natureza da consequência a partir do momento em que o nexo de causalidade é invertido. Nada. Christopher Nolan, uma vez mais, não está a especular sobre o que quer que seja, nem está a tentar passar qualquer mensagem, não pretende filosofar.  Está só a mostrar-nos um puzzle, e a resolvê-lo diante os nossos olhos. E isso é divertidíssimo.

(Saí da sala com curiosidade de rever Inception com novos olhos. Julgo que continuará a desiludir-me, até porque tenho um termo de comparação. Mas talvez o consiga apreciar um pouco mais – não pelo filme assombroso, complexo e repleto de grandes desempenhos que poderia ter sido, mas pelo filme engenhoso, ainda que vazio, que foi.)