A Animação é para crianças (ou não) – 0


eventhorizon,

Mais do que pelos filmes, realizadores, actores e técnicos premiados, a cerimónia dos Óscares de 2022 ficará na memória colectiva por uma bofetada em directo. Foi isto que se discutiu longamente nos dias que se seguiram, na televisão e nas redes sociais, até à exaustão.

Mas mais do que discutir a principal cena infeliz da noite, a mim interessa-me chamar a atenção para outra cena infeliz, até por ser intencional e ensaiada, e que só vi ser discutida em alguns recantos mais interessados (e interessantes) das redes sociais: a breve rábula que antecedeu a entrega do Óscar de Melhor Filme de Animação, com três actrizes que já representaram (ou, no caso de Halle Bailey, que irá ainda representar) princesas da Disney a remeter a animação para as memórias e para o entretenimento infantis. Como se, para nem ir mais longe, aquela não fosse uma das categorias para as quais o espantoso Flee, de Jonas Poher Rasmussen, estava nomeado.

É um preconceito infelizmente comum, persistente e redutor. A maioria de nós recordar-se-á dos desenhos animados da infância, naturalmente, mas reduzir a arte da animação a temas para crianças é ridículo e absurdo. Saem todos os anos imensos filmes de animação dirigidos aos mais novos, claro, mas o que não falta é filmes de animação mais complexos e ousados, que jamais seriam adequados ao público infantil. Nem por isso, porém, deixam de faltar por aí auto-proclamados cinéfilos que se afirmam incapazes de seguir um filme de animação, ignorando assim o trabalho admirável de realizadores como Brad Bird, Ari Folman ou Hayao Miyazaki – e só por ignorância ou embirração se poderá argumentar que argumentar que Miyazaki não é um dos maiores cineastas vivos.

(Enfim, os leitores – adultos – de banda desenhada sabem bem do que falo, pois a Nona Arte é vista com frequência da mesma forma. Como se houvesse algo de errado com desenhos, estáticos ou animados.)

Para demonstrar quão errados são estes preconceitos, ao longo das próximas semanas deixarei aqui no Delito várias sugestões de filmes de animação para os leitores descobrirem ou redescobrirem. Alguns dos filmes que mencionarei podem ser vistos por toda a família, possuindo elementos que podem fazer as delícias dos mais novos enquanto dão aos adultos algo em que pensar. Outros, porém, não serão de todo aconselhados a crianças – são filmes adultos, feitos por adultos e para adultos. Começarei amanhã, e continuarei nas sextas-feiras seguintes.

11 comentários em “A Animação é para crianças (ou não) – 0”

    1. Julgo que uma das lacunas desta minha série será a obra de animação stop-motion do Wes Anderson, que ainda não vi apesar de ter imensa curiosidade.

      Em termos de técnicas/estilos, tenho um carinho especial pela animação japonesa, como aliás se verá nesta série. Mas no que toca à animação não sou esquisito: mais simples ou mais complexa, digital ou desenhada à mão, em stop-motion ou rotoscopia, o que interessa é que os filmes (ou as séries) tenham qualidade. E os filmes que trarei têm mesmo muita qualidade.

      E sim, também sou leitor muito regular de banda desenhada. Aliás, nos últimos dois anos a maioria das minhas leituras foi justamente banda desenhada.

  1. Gosto particularmente da abordagem de Tim Burton à denominada Stop motion (A Noiva Cadáver, Frankenweenie e O Estranho Mundo de Jack, o qual não realizou (tal ficou a cargo de Henry Selick) mas produziu) os quais me enchem as medidas.
    Pedro Cunha

  2. De facto, só por ignorância se não incluirão alguns dos filmes de Miyazaki ( ou dos seus estúdios Ghibli ) como obras primas da 7ª arte. Não são “filmes de animação”. São filmes, do melhor que se faz a nível de argumento, narrativa, desenvolvimento de personagens, criatividade, interpretação ( as originais em japonês e algumas das inglesas, com destaque para o Totoro ) e tudo o mais, onde “por acaso” a cinematografia é criada com sequências de pinturas e desenhos que são também, por si só, obras de arte dignas de museu. Cinéfilo que se preze não deve entregar a alma ao criador sem ter visto um “A Viagem de Chihiro”, “O Túmulo dos Pirilampos”, “Memórias de Ontem”, “O Castelo no Céu” ou “Totoro”, entre outros. Pura magia cinematográfica. Claro que o mundo da animação não se resume ao Ghibli, e deu-nos obras de arte como “Persépolis”, “A Canção do Mar”, “O Gigante De Ferro”, “Coraline”, “A Minha Vida de Courgette” ou “Ilha dos Cães”, entre muitos outros. Mas a produção Ghibli está, na minha opinião, num patamar à parte. Fico ansiosamente a aguardar pelas sugestões do autor.

    1. Subscrevo tudo o que disse. Gostei muito d’”A Canção do Mar”, mas do Cartoon Saloon o que me cativou mesmo foi o “Wolfwalkers”. Que animação magnífica. De bom grado emolduraria qualquer fotograma do filme para colocar na parede.

      Falarei várias vezes dos Estúdios Ghibli, claro, e só não o farei mais para não ser demasiado exaustivo.Mas trarei muitos outros filmes de animação japonesa.

      (já agora: do Miyazaki, a banda desenhada de “Nausicaä do Vale do Vento” é absolutamente extraordinária. Ando para escrever sobre ela aqui no blogue há meses)

  3. Eu não sou fã de banda desenhada (acho que é uma questão de estética) mas gosto muito de animação. E concordo que a animação não é só para crianças. Um dos filmes mais comoventes que vi no cinema (confesso, fartei-me de chorar) foi a Princesa Kaguya do Isao Takahata. A delicadeza dos desenhos, as cores, a profundidade da história tornaram a experiência inesquecível. A Stop Motion também é um dos meus géneros preferido, com o topo das minhas preferências a ir para Coraline de Henry Selick. Um filme de “terror” para crianças e adultos, com personagens fantásticos, qualidade técnica irrepreensível e uma estética muito particular.
    Fiquei muito curiosa relativamente a esta série. Aguardo.
    PS- Não há qualquer dúvida que o Miyazaki é um dos maiores cineastas da actualidade. O Castelo Andante é o meu filme preferido dele. 🙂

    1. Eu que adoro Neil Gaiman (escreveu aquela que para mim é a melhor banda desenhada que já li, “The Sandman” para a DC Comics) ainda não vi o Coraline! Mas é muito provável que o veja no decurso desta série.

      Hayao Miyazaki é um gigante.

  4. Essas actrizes (e a Academia no geral, pois duvido que elas dissessem isso se não estivesse no teleponto) que vejam o Grave of the Fireflies e depois venham cá dizer que animação é para crianças.

    1. Nem culpo as actrizes, que apenas fizeram o seu trabalho. Culpo sim quem escreveu o guião e encenou a cena.

      Spoiler: O Túmulo dos Pirilampos será um dos filmes que mencionarei nesta série.

  5. A partir do momento em que começaram a racializar e a politizar os óscares.. deixou de ser sobre os filmes.

    Se calhar na verdade nunca foi — foi sempre um embuste.

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