Não seremos amanhã quem somos hoje, nem manteremos no futuro todos os pontos de vista que defendemos no passado. É normal que assim seja. Mais do que isso: é necessário. Ao contrário do que se pensa, a coerência não é exactamente uma virtude, algo desejável de preservar incondicionalmente – à partida, durante as nossas vidas continuamos a aprender, a crescer, a evoluir. Só os fanáticos se mantêm coerentes ao longo do tempo, e fazem-no através da mais absoluta imobilidade.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Não sou o que fui, nem serei o que sou. Quem sou, já passou.
Há princípios que nunca devem mudar e há valores que se devem manter mas não necessariamente numa ordem imutável. O tempo não pára e os cenários mudam. Portanto a imobilidade é incoerência, porque o que estava certo num determinado cenário não pode continuar certo num cenário profundamente diferente.
O político de sucesso – em ambiente democrático – muda frequentemente, normalmente de acordo com os ciclos eleitorais. Se mantiver os valores, ou deixa de ter sucesso, ou mais frequentemente, sacrifica outros valores aos seus, elevando-se a si e aos seus próximos a um patamar superior. Ou seja, dispondo no momento de superioridade táctica, arroga-se uma superioridade moral e esta, supostamente intemporal, permite-lhe pôr os valores na gaveta ou manter o apoio político a prevaricadores.
O post transmite uma ideia perigosa. Pode ser inclusivo para cataventos e pode excluir os que mantêm princípios. Ora a ausência de princípios nem sempre é um precipício mas é sempre uma encosta deslizante. Como a que estamos a viver.
Excelente pensamento. Concordo.
E também não faz mal uma dose de budismo, que nos ensina precisamente isto – que nunca somos aquilo que fomos, que estamos sempre a mudar.
A constatação dialéctica do «que nunca somos aquilo que fomos, que estamos sempre a mudar» é tão básica da humanidade que associá-la a «uma dose do budismo» é apenas uma manifestação típica do exotismo orientalista: Om!
Na realidade, o budismo nada tem a ver com aquilo que Hoje somos ou com o que Ontem fomos mas sim com a necessidade de nós, ignorantes de Ontem, Hoje procurarmos “melhorar” constantemente, independentemente do que até fomos Ontem: eventualmente, numa outra qualquer reencarnação antes da actual, dizem os budistas, até poderemos ter estado mais perto da “perfeição” mas até termos recuado… e passarmos a ratos!
Quando falo de budistas não me refiro ao budismo popular ou ao associado ao poder político, que se tornou, respectivamente, numa espécie de religião politeísta animista ou que aceita a existência de impuro como “iluminado”.
E também não faz mal lembrar aquilo que os judeus dizem de si mesmos: “onde há dois judeus, há três opiniões”. Uma pessoa pode ter mais que uma opinião, ou ponto de vista, sobre um assunto.
Concordo parcialmente, a evolução é necessária e somos e não somos os mesmos ao longo das várias fases por que passamos e nos alteram. Mas, se mudamos, também conservamos valores que julgamos pessoais e nos norteiam ao longo da vida. Uns alteram, mas outros não. Não é tudo relativo.
Heráclito é que tinha razão.
Esse conceito de coerência pode abrir uma caixa de Pandor(c)a.
Claro: https://lishbuna.blogspot.com/2010/06/ac erca-da-coerencia-recentemente-entre.htm l
Concordo. Ainda assim há um nervo central do que somos e pensamos que se forma por volta da adolescência, a que voltámos sempre. De maneira diferente, em regra mais robustos, mas voltámos.
A coerência nunca muda ao longo da vida, porque a coerência é uma relação entre ideias e factos. O que pode mudar são as ideias ou os factos, mas sempre numa base lógica e coerente.
A incoerência, tal como o nome indica, não faz qualquer sentido.
Ao longo do tempo, directa ou indirectamente, todos evoluímos, mas sempre de forma coerente.
Que grande confusão.
Uma relação entre ideias e factos, se ideias como é a única interpretação que consigo fazer, quer significar conceitos, é uma definição de verdade.
Coerência aplica-se à comparação de atitudes (incluindo acções, interpretações, discursos, etc.) do mesmo agente em tempos diferentes. E para apreciações de coerência só os factos podem mudar; se mudarem os conceitos, podem existir justificações ou explicações mas há incoerência.
Para você não fazer confusão não será melhor definir previamente a palavra coerência?
Lição nº 1
Coerência é um substantivo feminino.
É vulgarmente definida como uma relação (nexo, conexão) de harmonia (concordância) entre dois factos ou entre duas ideias. Mas NÃO entre um facto e uma ideia.
É igualmente a qualidade de ser coerente.
Se reler o post, verá sem esforço excessivo que é este último sentido que se aplica. De facto nele se lê:
“Só os fanáticos se mantêm coerentes ao longo do tempo, …”
Assim o que importa definir é o significado de coerente que será:
Que mantém as suas opiniões e os seus princípios; que permanece com os mesmos comportamentos; que possui comportamentos concordantes com as suas ideias.
Lição nº 2
Escreveu:
“Para você não fazer confusão não será melhor definir previamente a palavra coerência?”
Podia e devia ter escrito:
“Para não fazer confusão, não será melhor definir previamente a palavra coerência?”
O “você” é dispensável para o entendimento da frase. Claro que também poderia ter acrescentado “eu não bebi chá suficiente em pequeno” mas seria igualmente dispensável.
Errar é humano, persistir no erro é estupidez.
Guarde as lições para si, pois parece precisar mais delas do que eu, e quando consultar definições tente entender o verdadeiro significado das palavras. Não deve ser preciso explicar-lhe o que é o significado e o significante pois já vi que tem um professor dentro de si, e deve ser por isso que não cabe lá mais nada.
Pois muito me agrada vê-lo admitir que errou e ainda mais que não persistiu no erro: nos dois últimos comentários já não tratou ninguém por você. Persista.
Não será melhor tratar essa dislexia?
Olhe que está a piorar.
Hum, não concordo. A incoerência faz de nós gente, e não máquinas perfeitas sempre conforme um padrão. Apesar de tendermos para o tal nervo central do que somos, há sempre momentos em que pensamos e agimos em desarmonia com esse padrão. Podemos voltar a ele, mas todos damos uma facadinha, digamos assim. E isso faz de nós humanos.
Um nada a propósito, ainda outro dia alguém me lembrava Beckett: «Falhar. Falhar novamente. Falhar melhor.»
Concorde ou não concorde a definição não se altera, mantém-se constante.
Mesmo que você seja incoerente da cabeça aos pés não deixa de ser coerente com a sua maneira de ser.
Isso não é lógica, é crença.
Até mesmo na crença para ser coerente tem de evocar o divino.
E…?
E…mesmo que você só para embirrar queira ser incoerente, se se tornar um hábito, a sua incoerência passa a ser uma coerência em si.
Por outras palavras você não consegue viver em sociedade sem ser coerente nas suas ações.
Por respeito à paciência do autor do postal e de quem lê as caixas de comentários não vou continuar um diálogo sem nexo.
Já agora aproveito também para dizer que preferia não ter sido mimoseada com os seus vocês. São gostos.
Bom resto de semana.
Isso da coerência é novidade das redes sociais.
Olha aqui um post teu de 1987 a defender que a coerência é exactamente uma virtude. Pimba já foste, és incoerente e portanto sem credibilidade.
Entendo a coerência de forma diferente. Coerente, para mim, é alguém que defende as suas ideias, em qualquer sítio e em qualquer ocasião. Incoerente é quem, em determinadas circunstâncias, defende o contrário daquilo em que acredita, por cobardia, ou para tirar alguma espécie de vantagem. Assim sendo, a coerência é uma grande virtude, pois significa coragem e fidelidade às próprias convicções.
Ora, tudo isto não impede que mudemos de opinião, com o passar do tempo. Chegar à conclusão de que se estava errado e optar por um novo caminho não é de todo ser incoerente. O importante, e é aí que está a virtude, é sermos fiéis àquilo em que acreditamos num determinado momento.