The Vast of Night


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Vi ontem à noite The Vast of Night, um belíssimo filme independente de ficção científica retro, hoje disponível numa plataforma de streaming. Realizado em 2019 por Andrew Patterson, com um orçamento de $700 000,00, serve não só para nos cativar durante 90 minutos assombrosos, como também para ilustrar dois pontos esquecidos com frequência nestes tempos. O primeiro: a ficção científica é, antes de mais, a ficção das ideias. E o segundo, em jeito de corolário do primeiro: para se fazer um bom filme de ficção científica não é necessário um orçamento multi-milionário dedicado e imensa pirotecnia visual; na verdade, basta uma boa ideia (que nem tem de ser original, podendo apenas ser explorada de um ponto de vista novo) bem trabalhada, com um guião bem escrito, um par de actores talentosos e bem dirigidos, e uma realização tão segura como ousada.

A ideia é simples, e já a vimos em inúmeros contos, filmes (Close Encounters virá logo à memória), e mitos populares (Roswell, claro): nos anos 50, numa localidade remota dos Estados Unidos, Fay, uma jovem operadora de switchboard, detecta acidentalmente uma transmissão ininteligível de origem desconhecida, que se sobrepõe às comunicações e transmissões locais. Intrigada, contacta Everett (Jake Horowitz), o radialista local, para tentar perceber o que está a captar. É certo que não é preciso um conhecimento vasto de ficção científica para se perceber, logo nos primeiros momentos, onde a trama irá dar, mas os desempenhos espantosos de Sierra McCornick e de Jake Horowitz (com a química evidente entre ambos; há tanto subtexto que se pode ler em cenas sem qualquer diálogo), sobretudo nos planos longos e contínuos que Patterson filma com surpreendente mestria, são suficientes para agarrar. Sim, suspeitamos desde cedo como a história vai acabar, mas queremos ver como Fay e Everett lá chegam.

O que não tem faltado nos últimos anos é filmes de ficção científica insípidos, apesar dos seus orçamentos de sete, oito e nove dígitos. Mesmo em Portugal, onde a ficção científica raramente aparece no grande ecrã (assim de repente vêm-me dois péssimos exemplos à memória da última década). Para quem quiser aprender como se faz, The Vast of Night tem sem dúvida muito para ensinar.

2 comentários em “The Vast of Night”

    1. R.P.G. (com um orçamento muito superior a 700 mil dólares, segundo um dos realizadores) e Solum. Recomendo só pela desgraça, ou em modo “drinking game” com whisky, vodka, ou aguardente.

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