Silent night, holy night. All is calm, all is bright.


João de Teste,

A papelaria onde descobrimos termos ambos comprado os nossos primeiros livros está hoje fechada, o vidro da montra embaciado pela poeira e tapado por jornais já queimados pelo sol. O caminho por onde regressávamos, não por ser o mais curto mas precisamente pelo contrário, há muito que não o percorria. Amores tornaram-se um nome na agenda com quem são trocadas mensagens de circunstância no aniversário e no Natal.

E agora, o nosso momento wtf


João de Teste,

O debate desta segunda-feira foi realizado no âmbito das Conversas do Caldas, uma iniciativa do CDS-PP para identificar e debater os problemas da actualidade. Sob o tema “Revisão Constitucional”, reuniram-se para a discussão os constitucionalistas Paulo Otero e Tiago Duarte, tendo a moderação ficado a cargo de José Cruz Vilaça, antigo juiz do Tribunal de Justiça da União Europeia. (…)

À margem do debate sobre a revisão constitucional, discutiu-se também que linhas norteadoras devia o partido abraçar. O constitucionalista Tiago Duarte, que é também sócio da PLMJ, considerou que o público-alvo do discurso do CDS deverá ser “casais de 30 anos” com “filhos no colégio” e “empregada para pagar”.

“O CDS tem de ter um discurso para um casal de 30 anos com dois filhos que quer colocar no colégio privado. Isto é o nosso país real: dois jovens que chegam a casa depois de um dia de trabalho e não têm dinheiro para pagar à empregada”, considerou o constitucionalista.

(Público)

Angela Lansbury (1925-2022)


João de Teste,

Angela Lansbury as Granny
Angela Landbury em The Company of Wolves

Um colega de escola costumava dizer-me que se alguma vez se cruzasse com Jessica Fletcher, a protagonista de “Crime, Disse Ela”, fugiria como do Diabo porque as pessoas tendiam a morrer como moscas à sua volta.

O Sapo faz um resumo da longa carreira de Angela Lansbury, exercício sempre algo ingrato pela necessidade de condensar 80 anos em dois ou três ecrãs de texto (o limite de atenção do internauta-padrão), mas parece-me injusto não haver nem uma menção a um adorável filmezinho de culto de 1984 chamado The Company of Wolves. Na cultura popular, Angela Lansbury será sempre Jessica Fletcher. Eu, quando penso nela, é primeiro como aquela avozinha cheia de superstições licantrópicas.

Está bem, mas então e antes?


João de Teste,

Numa das primeiras empresas onde trabalhei, contava-se esta “anedota interna”: certo dia, ao fim do expediente, alguns elementos da empresa decidiram fazer uma noitada pelos bares de Lisboa. Voltaram todos para casa em vários estágios de torpor alcoólico. Depois de dormir a bebedeira, o técnico de informática acordou e viu que já passava do meio-dia. Telefonou atrapalhado para o escritório e disse a quem o atendeu que pedia imensa desculpa mas tinha bebido para lá de demasiado e deixara-se dormir. A outra pessoa respondeu-lhe que sim senhor, não havia problema, mas “isso é hoje; então e ontem, porque é que faltaste?” (Nota: ele próprio não me negou a veracidade da narrativa).

Lembrei-me desta história ao ler que Marta Temido se demitiu por sentir que “deixou de ter condições para exercer o cargo”. Está bem, mas isso é hoje; então e na semana passada, ou há um mês, ou há três meses, porque é que ela sentia ainda ter condições para o exercer?

Estará Temido a pôr-se já ao fresco para que seja outro qualquer a apanhar a (ainda maior) confusão que há-de vir com a época alta de doenças respiratórias (gripes, covids, etc)?

O Estado a que chegámos


João de Teste,

Ontem, um familiar próximo, que para mais já está muito debilitado por doença grave (como chegou aqui foi o resultado de um vasto rol dos falhanços conhecidos – e alguns dos abafados – do nosso SNS, mas isto será assunto para eventual texto futuro), teve um acesso febril, com temperaturas acima dos 40º, acompanhado por fortíssimos tremores para os quais a palavra “espasmos” não é exagerada. Fizemos a chamada para o 112 às 12:32 e, após uma conversa de cinco minutos, prometeram o envio de uma ambulância para o transportar ao hospital. Eram 13:25 quando recebemos um telefonema a lamentar que… não tinham ainda encontrado uma ambulância disponível, mas que nos enviariam uma logo que fosse possível. Chegou finalmente uma da Cruz Vermelha por volta das 13:55. Uma hora e um quarto de espera: demoras que parecem estar-se a tornar cada vez menos uma excepção esporádica.

 

PS: o hospital Garcia de Orta exibia, colada com fita adesiva ao vidro da recepção do serviço de urgência, uma folhinha A4 a avisar quem lá chegasse para urgências de ortopedia (e outra especialidade de que não me recordo) que não havia nada p’ra ninguém e fossem chatear outro hospital. Não é a primeira vez que isto ocorre: pergunto-me se estes “constrangimentos” foram, sequer, rodapé de noticiário ou se a atenção do jornalismo se limita à obstetrícia.

PPS: é de justiça eu dizer que, quando critico o SNS, não critico os funcionários do SNS e sim as suas diversas camadas de gestão hierárquica e política. Acredito que os funcionários, na sua maioria, fazem o melhor que lhes é possível com as condições que têm.

PPPS: o termómetro da ambulância não funcionava. É só mais um detalhe em toda esta história sórdida.

Vangelis (1943-2022)


João de Teste,

Por vicissitudes várias, há pelo menos uma dúzia de textos que, nos meus anos de blogosfera, já fiz e refiz inúmeras vezes na minha cabeça sem que uma única letra tenha sido (ainda) colocada no papel ou no computador. Um deles seria sobre Vangelis, que morreu na terça-feira. Não foi raro ouvir manifestações de estranheza pela minha admiração por ele. Que não reduzam a sua obra à “banda sonora do Guterres”, foi o que sempre respondi aos sarcásticos, ou às bandas-sonoras de Blade Runner e Chariots of Fire, foi o que sempre respondi aos benévolos: a discografia de Vangelis pré-Colombo foi de contínua experimentação onde se ouve o rock progressivo dos Aphrodite’s Child, o jazz, a música clássica, o minimalismo, o avant-garde, o pop e até algum rock mais eléctrico.

O último dos românticos


João de Teste,

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«Gilles contributed even more to the sport and to his own growing legend during the 1979 United States Grand Prix weekend at Watkins Glen. The patented Villeneuve display began on Friday when the track was soaked and few cars even ventured out of the pits. In fact, most drivers thought the flooded tarmac was simply undriveable.

Gilles did not share their opinion and Denis Jenkinson was there. “When we saw him going out in the rain, we said, ‘This we’ve got to see!’ Some members of the press, who think they know it all, don’t bother to go out when it rains. But I was out on a corner in the rain watching him and all the hardball members of the press were with me. We had to see this. It was something special. Oh, he was fantastic! He was unbelievable!”

Another hardballer on hand was Nigel Roebuck. “Gilles was the one bloke who made you go and look for a good corner in a practice session because you knew that where everybody else would go through as if on rails Gilles would be worth watching. That day in the rain at Watkins Glen was almost beyond belief! It truly was. You would think he had 300 horsepower more than anybody else. It just didn’t seem possible. The speed he was travelling didn’t bear any relation to anybody else. He was 11 seconds faster! Jody was next fastest and couldn’t believe it, saying that he scared himself rigid! I remember Laffite in the pits just giggling when Gilles went past and saying, ‘Why do we bother? He’s different from the rest of us. On a separate level.'”

Jeff Hutchinson, another British journalist, was also a greatly impressed witness. “The spectacle of him pushing that Ferrari to the limit, with great roostertails of water cascading off its rear wheels, just for the sheer fun and thrill of it, made the wet feet and miserable wait worthwhile. He lapped at an average speed of just over 100 mph!”»

Gerald Donaldson, Gilles Villeneuve – The Life Of The Legendary Driver

 

Faz hoje quarenta anos que morreu Gilles Villeneuve, um dos mais talentosos pilotos de sempre da Fórmula 1 (há mesmo quem o considere o mais). A memória é um processo curioso: eu era um gaiato na altura e apenas recordo vagamente uma imagem dele, pequeno e franzino, a celebrar uma vitória – mas lembro-me perfeitamente da sensação de entusiasmo com que me sentei, em domingos alternados, à frente da televisão para o ver correr.

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